Cultura do meio ou cultura do fim? Ou as duas?



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Encontro30.07.2016
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Gilson Carvalho

CULTURA DO MEIO OU CULTURA DO FIM? OU AS DUAS?

Gilson Carvalho1

O repertório de causos brasileiros dizem ser dos mais ricos do mundo. Vou buscar num destes “causus-cases” um preâmbulo para algumas reflexões sobre a cultura dos meios ou fins. Olhem que história deliciosa.

 “Um paciente vai ao terapeuta e diz:



- Toda vez que estou na cama, acho que tem alguém embaixo. Aí eu vou embaixo da cama e acho que tem alguém em cima. Pra baixo, pra cima, pra baixo, pra cima. Estou ficando maluco!

- Deixe-me tratar de você durante dois anos. Venha três vezes por semana, e eu curo este problema. R$120 por consulta.

Passados seis meses, encontram-se paciente e terapeuta.

- Por que você não me procurou mais? pergunta o terapeuta.

- A 120 paus a consulta, três vezes por semana, durante dois anos = R$ 37.440,00. Seria caro demais. Um cara do boteco que freqüento me curou por 10 reais... ele foi lá em casa e cortou os pés de minha cama!!!”
Esta questão é antiga na humanidade. O que deve ser preservado no dia a dia: os meios ou os fins? Nicoló Maquiavel, ficou na história como o pai da cultura e tirania do fim. Resolveu sumariamente, a seu modo e interesse: “os fins, justificam os meios”. Ponto final. Não se discute mais.

No outro extremo temos os defensores teóricos e os praticantes contumazes da cultura do meio. São aqueles que sacrificam os fins tiranizando nos meios, nos processos, na burocracia levada a extremos.

Na saúde temos visto o exagero da cultura do meio a cada momento. No macro e no micro. Podemos citar o exemplo mais gritante deles: a perda do foco geral do objeto e objetivo das ações e serviços de saúde. Nosso objetivo na saúde não é fazer ações de saúde: cada vez mais, maiores e espetaculosas. Nosso objetivo é ajudar as pessoas “a viverem mais e melhor”. Daí em diante vamos atrás dos melhores meios para atingi-lo. Vamos identificar as ações mais adequadas, o melhor tempo e maneira de executá-las com o profissional mais adequado. O objetivo da ação é, em primeiro lugar, fazer tudo para que as pessoas não adoeçam e, se adoecerem, que sarem logo e, de preferência, sem seqüelas.

A cultura do meio na saúde tem levado a que nós comecemos a definir nosso objeto a partir da oferta de ações e serviços como se este fosse o fim. Pior, pressionados pela demanda muitas vezes explícita e subliminarmente induzida pelos que dela tiram proveitos econômicos e financeiros. O financiamento da saúde tem se baseado na oferta cada vez maior de mais e diferentes procedimentos independente da identificação de sua necessidade. Estamos nos perdendo nos meios, já por aí, no foco principal da saúde.

Depois nos batemos pelo equilíbrio econômico das instituições de saúde com foco em procedimentos mais complexos que envolvem mais providências curativas que preventivas. Nenhum maniqueísmo espúrio da defesa do preventivês, mas sem a sua exclusão e negativa! Precisamos e muito de ações curativas, mas por elas relegar as promocionais e preventivas é um falso dilema.

As instituições de saúde que remuneram seus proprietários e profissionais pelo número e porte das ações vivem atrás dos meios que ofereçam maior margem de superávit ou lucro. Cada vez seu desejo de traduz, na prática, pela busca de procedimentos hospitalares ou ambulatoriais de maior valor agregado em custo associado, em geral à complexidade. Neste mundo de cultura do meio, com a busca do maior ganho ou mesmo do equilíbrio econômico fica prejudicado qualquer esforço para que se mantenha o estado de saúde e se usem procedimentos que melhorem a defesa e resistência prévias.

Existe outra cultura do meio que se refere às questões burocráticas levadas ao extremo do “legalismo” bem diferente da legalidade e legitimidade. Pode ser praticada por dirigentes, profissionais e pelo pessoal de apoio. É a turma da interpretação burra da lei que se fixam em normas particulares, infralegais, que muitas vezes ferem o bloco de constitucionalidade. Pior que isto, ferem o princípio pétreo da constituição e lei de preservar o bem maior que é a vida. Este é um dos males da burocracia estatal brasileira. Infelizmente, como a burocracia só existe exercida por alguém, temos o ser humano na sua gênese vivificando-a em cada transe.!

De outro lado temos o exagero de que o fim possa justificar e legitimar tudo, como pontificou Maquiavel. Não se pode, em nome da cultura do fim, jogar por terra todo e qualquer respeito aos meios. O limite mais essencial do meio é a legislação. É o mando da lei que deve imperar no estado democrático de direito. Principalmente os cidadãos, dedicados aos ofícios públicos, têm que se ater ao princípio de só fazer aquilo que a lei determina. Mas, no limite da lei. Jamais na sua interpretação burocratizada que é a manifestação expressa do culto exagerado ao meio.

Popularmente dizemos que temos dois caminhos na interpretação das leis: um deles onde aplicamos benevolentemente a legislação e outro sob a interpretação rigorosa e restrita da mesma lei. É dito popular que: aplicamos aos inimigos os rigores da lei e aos amigos os beneplácitos da lei!

Acho que hoje, observamos na saúde estes dois caminhos. Temos visto gente, de valor e prestígio, pura e simplesmente defendendo que na saúde temos que priorizar o fim, não importa o meio. Queremos e buscamos resultados e os temos. Não importa como e sob que regras que preceito legal.

De outro lado, e acho que isto tem sido pior, existem os defensores e praticantes da cultura do meio. Optam pelo império do meio, não ao rigor da lei, mas na burrice da interpretação restritiva de manuais, instruções normativas, portarias ilegais e imorais, pois contrariam a Constituição, as Leis. Ferem o princípio humano de que todo o aparato econômico, social e de saúde devem ter como fim ajudar a que as pessoas se ajudem a viver mais e melhor.

Diante da possibilidade de aplicar soluções simples para pequenos, médios e grandes problemas, se burocratizam as soluções numa cultura do meio a que querem submeter o fim. Isto pode ser feito culposamente, mas também dolosamente sob o domínio e império do complexo industrial e comercial do setor saúde.



Serrar o pé da cama ou fazer terapia? Ou, tirar o pé da cama para conseguir dormir melhor hoje e amanhã, fazer a terapia para “espancar” os medos em definitivo?

1 Gilson Carvalho - Médico Pediatra e de Saúde Pública - O autor adota a política do copyleft podendo este texto ser divulgado independente de outra autorização. Textos do autor disponíveis no site www.idisa.org.br - Contato: carvalhogilson@uol.com.br.



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