Cultura e identidade nacional em Triste fim de Policarpo Quaresma



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Cultura e identidade nacional em Triste fim de Policarpo Quaresma
Elaine dos Santos

Universidade Luterana do Brasil (ULBRA)

Campus Cachoeira do Sul
RESUMO: Responder às questões “quem somos?”, “qual a nossa identidade?” tem sido um dos objetivos perseguidos pelos escritores nacionais em todos os tempos de nossa literatura. Em Triste fim de Policarpo Quaresma, Lima Barreto empreende tal tarefa, situando seu herói a meio caminho entre o Romantismo – movimento que mitifica a nossa identidade – e o Modernismo – em que se opera a dessacralização desta identidade. Reconhecer na obra em questão estes processos, identificando os temas e as formas como eles se realizam é um dos objetivos do presente trabalho, de modo a evidenciar, ainda, o itinerário em que se concretizam tais processos, isto é, a própria cultura nacional.
Palavras-chave: Romance - Sacralização – Identidade nacional – Dessacralização


  1. Introdução:

O presente trabalho, ainda sob o influxo das pesquisas realizadas desde a iniciação científica, propõe-se à leitura do romance Triste fim de Policarpo Quaresma evidenciando o processo de construção e desconstrução da identidade nacional forjada nos moldes românticos. Desta forma, através de pesquisa bibliográfica, recompõem-se os preceitos que instituíram uma identidade idealizada e que, gradualmente, propiciam a sua revisão, mais próxima do “real”.

O romance publicado em 1911 facilita tal abordagem, uma vez que se situa a meio caminho entre o Romantismo e o Modernismo, movimentos que no dizer de Zilah Bernd operam, respectivamente, o processo de sacralização e dessacralização de uma identidade nacional fixada pela Literatura. O protagonista de Lima Barreto, Major Quaresma, transita entre a idealização da pátria: seus costumes, sua gente, sua terra e a completa decepção com os mesmos elementos. Neste sentido, o triste fim é esclarecedor, visto que, além da morte, Quaresma, sozinho, percebe que não existe mais espaço para uma nação ideal em que tradições, conhecimento histórico não encontram mais respaldo diante de um novo modelo que se avizinha, mais crítico do caráter nacional e capaz de apontar a exploração econômica, a incapacidade administrativa dos governantes e a corrupção política que se instituem neste mesmo caráter, ora dessacralizado.

O trabalho organiza-se em três capítulos. No capítulo inicial (O romance – uma trajetória entre o ideal e o real), situa-se o leitor no contexto da obra, retomando-se aspectos singulares que, ao lado do referencial teórico exposto no capítulo III, propiciam a interpretação dos aspectos propostos no capítulo IV - O processo identitário e as manifestações culturais em Triste fim de Policarpo Quaresma.




  1. O romance – uma trajetória entre o ideal e o real

Romance publicado no início do século XX, Triste fim de Policarpo Quaresma narra a história de um patriota – o major Quaresma – em sua trajetória descendente diante de uma pátria que ele idealizara. O capítulo inicial situa-o na cidade do Rio de Janeiro, mais especificamente no subúrbio carioca e no Arsenal de Guerra, onde era subsecretário. Conhecemos, então, um homem metódico, apaixonado pela História, pela Literatura e pela cultura nacionais.


De um lado, só autores nacionais: de Bento Teixeira, com sua Prosopopéia, a Joaquim Manoel de Macedo e Gonçalves Dias. Nas estantes maiores, os estudiosos de História do Brasil, desde Gabriel Soares, passando por Rocha Pita, Frei Vicente do Salvador, Capistrano de Abreu, Varnhagem e tantos outros (...). Paralelamente à cultura geral que adquirira, Policarpo passou a estudar o tupi-guarani como afinco (BARRETO: 1998, p. 10/11).
Justamente esta paixão acaba provocando a sua derrocada. Após, um requerimento dirigido à Câmara dos Deputados, em que solicita a implantação do tupi-guarani como língua oficial do Brasil, Quaresma passa pelo descrédito geral e enfrenta a pilhéria dos conhecidos e dos jornais.
No dia em que o secretário faltou, Quaresma o substituiu. O expediente se manteve agitado e o major devia passar a limpo um ofício, sobre problemas em Aquidauana e Ponta Porã. Fosse em conseqüência do tumulto, fosse por que o estudo do tupi tivesse virado fixação, Policarpo terminou traduzindo, sem se dar conta disso, o documento para o idioma indígena. Ao concluí-lo, teve que atender a pessoas de outros setores do Arsenal, e o ofício, por excesso de zelo do funcionário da expedição, acabou na mesa do ministro (BARRETO: 1998, p. 29).
Desacreditado, humilhado, o funcionário público passa a delirar, e sua irmã, Adelaide, e seu compadre, Coleoni, decidem por sua internação.

“Três meses após receber alta do hospício, e por sugestão de sua afilhada Olga, Quaresma decidiu morar no ‘Sítio do Sossego’, a duas horas do Rio, por estrada de ferro. O lugar não era feio, mas era desolado” (BARRETO: 1998, p.39). Reanimado, o Major propõe-se a demonstrar a máxima de que “em nesta terra, se plantando tudo dá”, conforme anunciara Pero Vaz de Caminha.

Os altos impostos, as perseguições políticas e um ataque decisivo das formigas saúvas determinaram o desencantamento do Major pelas terras do Sítio do Sossego e, acompanhando pela imprensa a Revolta da Armada no Rio de Janeiro, Quaresma decide apresentar-se para a defesa do governo do Marechal de Ferro – Floriano Peixoto.

As decepções, porém, continuarão a acompanhar o patriota apaixonado de Lima Barreto. Seu encontro com o presidente, o engajamento na tropa governamental, a localização do quartel, o jogo de interesses entre os companheiros minam as forças do Major. Encerrada a contenda que foi a Revolta da Armada, Quaresma é designado para servir como carcereiro na Ilha das Enxadas. Lá, acompanha o extermínio dos opositores do governo, denuncia os fatos e encontra seu triste fim.


A Pátria que desejara era um mito; um fantasma, criado por sua mente, no silêncio do seu gabinete. A que existia de fato era a do Tenente Antonino, dos doutores Campos e Armando Borges, do ‘homem’ do Itamarati.

Por ter sido honesto e generoso poderia ir para a cova sem o acompanhamento de um parente, de um amigo, de um camarada. Estava só, contra o desvario de um governo inteiro (BARRETO: 1998, p. 96/98).


Quaresma sucumbe à tirania dos governos militares, ao sonho de uma pátria gigante, rica e justa, enfim, o ideal proposto por Garret e Denis, e seguido à risca pelos românticos nacionais, não se concretiza.

De acordo como Abdala Jr. & Campedelli (1999, p. 185):


Com Triste fim de Policarpo Quaresma, para muitos sua obra mais significativa, Lima Barreto traz o tema da luta entre o idealismo e a realidade, encarnado pelo major Quaresma, um sonhador, incompreendido por todos: o ‘Quixote brasileiro’, conforme o batizou Oliveira Lima, no seu prefácio à obra, edição de 1956.
Quaresma constitui a representação fictícia de uma Pátria que oscila entre o real – História e povo – e o ideal – criação ou recriação desta realidade através da palavra. Neste sentido, faz-se pertinente recompor a situação social vivida pelo Brasil no período, em que rivalizam a tradição e o moderno. Coutinho (2001, p. 230) afirma: “A independência de 1822 não cortara completamente as amarras com a Metrópole, continuando esta a exercer a sua ação colonialista através da aristocracia social e econômica, mais ou menos lusófila, que dominava a Monarquia (...)”.

O pensamento coletivo era, pois, ainda pautado pelas normas ditadas pela Metrópole que, durante 300 anos ditara a evolução da consciência nacional. O advento da República, porém, impunha um novo pensamento voltado para a consciência nacional – fortemente idealizada, contudo, pela escola romântica, cujos influxos ainda se fazia sentir.

Coutinho (2001, p.231) assevera:
A República (...) clareou a nossa consciência de ser brasileiros, propiciou-nos a capacidade de fixar a resposta de autodefinição, depois de um século de perguntas e pesquisas sobre o que era ser brasileiro e quais as características da nacionalidade e da literatura nacional.

Era o problema de ser brasileiro, problema novo em literatura (...).


Inserido neste contexto, Triste fim de Policarpo Quaresma, no dizer de Abdala Jr, & Campedelli (1999, p. 185), “representa o desencontro entre o ideal e o real, vivendo entre a grandeza do visionário e a impossibilidade (ou incompetência) dos que o rodeiam”, constitui ainda trânsito entre ideais nacionalistas propostos pelo Império e a revisão destes ideais que se processava na virada do século sob a égide das novas tendências em voga na Europa e que, no Brasil, seriam conhecidas pelo nome de Modernismo.

Sob tal transição – entre o pensamento monárquico e idealizado e o pensamento moderno, mais próximo do real – situa-se o romance de Lima Barreto que, segundo Moisés (1997, p. 360): “Herdeiro de Machado de Assis, mas contagiado por novas tendências estéticas e conturbado por uma vida desgraçada (...), constitui um elo de união entre o Realismo e o Modernismo”.




  1. Identidade e cultura nacional

Em latim clássico, idem significa o mesmo e daí se derivam as idéias de homogeneidade, uniformidade, igualdade. Assim posto, identificar-se significa encontrar caracteres que aproximem o indivíduo dos seus semelhantes. De acordo com Ricouer (1991), esse conceito, porém, supõe a existência do outro – o semelhante –, que conduz à idéia do alter, ou seja, a identidade somente se define em relação ao outro. No caso brasileiro, alternam-se as noções de idem e alter se considerarmos a Metrópole portuguesa e a colônia ultramarina - o Brasil – e que se apresentam, notadamente, nas idéias que configuram a nacionalidade conforme os pressupostos românticos.


Referindo-se à questão identitária, Ricouer (1991, p. 424/425) afirma que

a identidade de um indivíduo ou de uma comunidade é responder à questão: Quem fez tal ação? Quem é o seu agente, seu autor (...)?A resposta só pode ser narrativa. Responder à questão ‘quem?’, como o dissera Hannah Arednt, é contar a história de uma vida. A história narrada diz o quem da ação. A identidade do quem é apenas, portanto, uma identidade narrativa (...).


Neste sentido, Literatura e História constituem narrativas que agrupam, num mesmo ideal, indivíduos que vivem num mesmo espaço geográfico e que compartilham costumes e tradições. Neste contexto, a Literatura assume papel relevante, uma vez que legitima caracteres, ainda que fictícios de uma identidade. Assim, para da Matta, o Brasil, por exemplo, é
cultura, local geográfico, fronteira e território reconhecidos internacionalmente, e também casa, pedaço de chão calçado com o calor de nossos corpos, lar, memória e consciência de um lugar com o qual se tem uma ligação especial, única, totalmente sagrada (...). Sociedade onde pessoas seguem certos valores e julgam as ações humanas dentro de um padrão somente seu.
A diversidade regional que caracteriza o Brasil foi, desde cedo, apreendida pela Literatura. Entretanto, a construção, a partir do movimento romântico, de uma suposta identidade nacional caracterizou-se pela ereção de figuras míticas, que ocupavam espaços distintos, mas que repetiam qualidades físicas e comportamentais. Segundo Bernd (1992, p. 18), a literatura
que se atribui a missão de articular o projeto nacional, de fazer emergir os mitos fundadores de uma comunidade e de recuperar sua memória coletiva, passa a exercer somente a função sacralizante (...). No Brasil, o Romantismo realizou uma revolução estética que, querendo dar à literatura brasileira o caráter de literatura nacional, agiu como força sacralizante (...).

Na segunda metade do século XVIII, desenvolvia-se, na Europa, um conjunto de manifestações artísticas pautadas pela valorização da subjetividade, da evasão, da história nacional – o Romantismo. Os intelectuais brasileiros, que, no início do século XIX, estudavam, especialmente, na França, tomaram conhecimento das novas tendências. Do ponto de vista teórico, as produções românticas brasileiras fundamentaram-se primordialmente nos escritos de Ferdinand Denis e Almeida Garrett, que, conforme Zilberman (1994, p. 70), “marcaram profundamente a geração romântica, razão pela qual vieram a desempenhar papel capital na determinação da natureza e destino de nossas Letras”.

Os dois autores recomendavam o aproveitamento das sugestões fornecidas pela exuberante natureza pátria para diferenciar a literatura brasileira, que ora nascia, da literatura portuguesa. Assim, o Romantismo brasileiro incorporava a paisagem tipicamente nacional, como elemento diferenciador em relação ao estrangeiro. A natureza que deveria atuar como fonte de inspiração e de consolidação da nacionalidade que ora se configurava. O índio, por sua vez, apresentava-se como o modelo do homem natural, a salvo da decadência da civilização européia, representava ainda um retorno ao passado nacional, possibilitando o resgate das lendas, tradições e costumes que haviam sido extintas ou esquecidas em favor dos costumes do homem branco.

Por fim, o aproveitamento da história colonial era sugerido por Denis, “mas que reitera a idéia de que os artistas precisam buscar inspiração na pujança da paisagem” (ZILBERMAN: 1994, p. 74).

Desse modo, envolvidos com os ideais de independência literária e influenciados pelas idéias românticas, nossos principais pensadores comprometeram-se com o processo de desenvolvimento e afirmação de uma nacionalidade brasileira em oposição aos modelos considerados estrangeiros à sociedade que ora se organizava. Preocupando-se com a constituição de uma tradição que corroborasse a diferença entre Brasil e Portugal, diferentes escritores dedicaram-se à construção de narrativas fundacionais de uma suposta raça brasileira, quer do ponto de vista mítico, quer histórico, processo que se dá, exemplarmente, em O guarani e Iracema, de José de Alencar.

O movimento modernista, por sua vez, atuou de forma dessacralizante e representou uma abertura em relação à diversidade que caracteriza a nação. Nesse sentido, Bernd (1992, p. 18) acrescenta que


recentemente a literatura brasileira começa a operar a síntese – ainda inacabada – deste jogo dialético, associando o resgate dos mitos à sua constante desmitificação, o redescobrimento da memória coletiva a um movimentar contínuo dos textos, o que equivale a um perseverante questionamento de si mesma.
Analisando o romance modernista no Brasil, Fischer (1990, p. 33) assinala que
o modernismo, tomado genericamente, envolve em essência uma atitude liquidificadora, diluidora, ou volatizadora, que radicaliza o confronto moderno entre promessa e realidade, assentando sua base estratégica sobre qualquer suporte material da arte e dirigindo seus tiros invariavelmente contra o coração do conformismo academicista, principal inimigo.
O estudioso anota que os romancistas brasileiros viram-se, novamente, às voltas com questões como: “de onde partir e para onde apontar o vetor crítico? E por onde, porque meios desenhar o traçado desse vetor?” (FISCHER: 1990, p. 34).

O movimento romântico no Brasil respondera a essas questões com a valorização da História e natureza pátrias, que incluiu a caracterização do herói nacional na figura indígena e a ereção de símbolos da nacionalidade como a exuberante natureza. Fischer considera que coube aos modernistas empreender uma nova resposta àquelas indagações e, em conseqüência, realizar a releitura da imagem que, até então, tipificava o caráter nacional.

O modelo exemplar que permitiria a interpretação de uma nova identidade nacional seria dado com Macunaíma, de Mário de Andrade, que “integra, pela primeira vez o mito indígena aos mitos africanos para explicar a formação do brasileiro” (BERND, 1992, p. 47). A rapsódia de Mário de Andrade articularia, por outro lado, a desmitificação da natureza e dos heróis grandiosos, destacando-se pela adoção das narrativas de cunho popular e pela “desmontagem do sistema que vinha se construindo” (BERND: 1992, p.50).

Dessa forma, a literatura, a seu modo, tem, ao longo dos anos, participado da caracterização e fixação das marcas que definem uma possível identidade nacional, processo que se inicia nos anos subseqüentes à Independência e que encontra respaldo nos ideais românticos que então vigoravam.




  1. O processo identitário e as manifestações culturais em Triste fim de Policarpo Quaresma

No romance de Lima Barreto, encontram-se as duas tendências – sacralização e dessacralização – que pautam a nossa Literatura pátria. Quaresma é, a exemplo dos heróis românticos, o homem apaixonado pela sua terra, pela sua gente: “Fazia apontamentos sobre os índios e dizia consigo mesmo que, com pequenas melhorias, a grande Pátria se tornaria mais importante que a Inglaterra, pois tinha todos os climas, todos os frutos, minerais preciosos, animais úteis, terras propícias à cultura, a gente mais valente, hospitaleira, inteligente e doce do mundo” (BARRETO: 1998, p. 65).

O protagonista propõe-se à manutenção de uma identidade forjada pela tradição romântica em que se valorizam o índio, a natureza e a História nacionais, nos dizeres de Zilberman, assim Quaresma, por exemplo:
Em um domingo, quando estava se aprofundando nas pesquisas, bateram à porta. Abriu e pôs-se a chorar, a arrancar os cabelos. A irmã procurou socorre-lo, ajudada pelas visitas – Vicente Coleoni, sua filha Olga e Cavalcanti.

- Que está acontecendo, Quaresma? – gritava o amigo (...).

O amanuense interrompeu a crise de choro e, meio zangado, resmungou:

- Vocês não têm a mínima noção das coisas da nossa terra. Queriam que lhes apertasse as mãos. Isso não é nosso. Nosso cumprimento é chorar quando encontramos as pessoas das quais gostamos. Era assim que faziam os tupinambás (BARETTO: 1998, p. 19).


O mesmo encantamento reaparece na experiência vivenciada no “Sítio do Sossego”, quando Quaresma organiza um pequeno museus de produtos naturais em que ponteiam “camarás, bacurubus, tinguacibas, tibibuias, monjolos, pupunha, tucum (...)” e, do mundo animal, cuja coleta ficara a cargo de tio Anastácio, o caseiro, surgem “mico-leão, sagüi, cutia, paca, jabuti, preguiça, tatu, preá e alguns pássaros como papa capim, bigode, sabiá, pipira-azul, curió, avinhado, coleiro e até bem-te-vi” (BARRETO: 1998, p.40).

Acontecem, porém, no mesmo sítio, alguns dos principais revezes da política nacionalista do Major: o desencanto com o comércio, com a política local e com a terra que ele tanto idealizara: “Meu Deus! Impossível acreditar no que via. O arbusto à sua frente, e todos os outros, estavam com os galhos pesados de saúvas, que se movimentavam, nervosamente, como se o trabalho fosse regulado a toques de corneta (...). Quaresma sentiu-se vencido” (BARRETO: 1998, p. 57). O Major Quaresma debate-se então entre sua crença e a realidade que se apresenta. O “Sítio do Sossego” representa também um espaço para que se oportunize a denúncia social, tão cara os pré-modernistas inovadores e demonstração do processo de dessacralização da nossa identidade cultural. Pode-se observar, por exemplo, no encontro entre Olga, afilhada de Quaresma, e Felizardo, um dos trabalhadores do “Sossego”, o qual afirma: “Chamam a gente de preguiçoso, sinhazinha, mas não é bem assim. A verdade é que não se tem ferramenta pra trabalhar e, além disso, a terra não é nossa. Tudo que se planta nela é dos ‘outro’. Mas quando vem os ‘alemão’ e os ‘italiano’, aí o governo dá tudo que eles precisam pra lavoura, ‘inté’ as ‘gleba’” (BARRETO: 1998, p. 51).

Opera-se, assim, no romance, a construção de uma identidade forjada pela idealização e que, aos poucos, passa a ser revista, num processo de reconstrução crítica daquilo que significa o ser nacional.

Lima Barreto situa seu herói em um mundo em transição, em que os valores dominantes passam a ser questionados pelas novas tendências literárias e a superação dos modelos filosóficos do século XIX, permitindo uma síntese do caráter contraditório do nacional. A identidade – do latim idem – apresenta-se como reconstrução, questionamento dos modelos vigentes e a busca de respostas que lhe dêem novo sentido.

A nossa cultura, por sua vez, resultado dessas constantes releituras do caráter nacional, encontra, na obra, espaço para a recomposição de tradições populares, a retomada desmitificadora do elemento aborígine e indica ainda um traço que, ao longo dos anos, acentua-se nos estudos da sociologia da literatura, e que não transcende o chamado jeitinho brasileiro.


  1. Referências:

ABDALA Jr. B. & CAMPEDELLI, S. Y. Tempos da literatura brasileira. São Paulo: Ática, 1999.


BARRETO, L. Triste fim de Policarpo Quaresma. São Paulo: Scipione, 1998.
BERND, Z. Literatura e identidade nacional. Porto Alegre: EdUFRGS, 1992.
COUTINHO, A. Introdução à literatura no Brasil. 17.ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001.
DAMATTA, R. O que faz o brasil, Brasil? 2.ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1986.
FISCHER, L. A. “Alguns custos da radicalidade: o romance modernista. IN: DACANAL, J.H. (org.). O romance modernista: tradição literária e contexto histórico. Porto Alegre : Ed. da UFRGS, 1990.
MOISES, M. A literatura brasileira através dos textos. 20 ed. São Paulo: Cultrix, 1997.
RICOUER, P. O si-mesmo como um outro. Tradução Lucy Moreira Cesar. Campinas: Papirus, 1991.
ZILBERMAN, R. A terra em que nasceste: imagens do Brasil na literatura. Porto Alegre : Ed. da UFRGS, 1994.


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