Cultura política e imprensa Comunista no México e Brasil: Diálogos revolucionários



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cultura política e imprensa Comunista no México e Brasil:

Diálogos revolucionários
Fábio da Silva Sousa

Doutorando em História e Sociedade pela UNESP/FCL/câmpus Assis


Resumo: O presente texto tem como objetivo explorar alguns pontos do Comunismo no México e Brasil, a partir do decênio de 1920, tendo como base os principais periódicos publicados pelo Partido Comunista Mexicano (PCM) e pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB): El Machete e A Classe Operária. Pretendesse discorrer como os militantes políticos e intelectuais dessas duas agremiações (como Diego Rivera, Benita Galeana, Julio Antonio Mella, Astrojildo Pereira, Otávio Brandão, Luiz Carlos Prestes, entre outros) leram, interpretaram, resignificaram e construíram uma interpretação do Comunismo em suas respectivas realidades sociais, como um discurso político de luta, de difusão cultura e de conduta de vida cotidiana. Longe de ser considerada uma utopia, um sonho ou uma ilusão, será apresentado aqui o discurso comunista na América Latina, em especial no México e no Brasil, como um projeto político e social, que moveu e definiu a vida de quem se opôs ao sistema capitalista em busca de uma “igualdade” social. O quadro teórico que abrange essa pesquisa utiliza as reflexões de Jean-François Sirinelli, que define as revistas ou jornais como um local de “fermentação intelectual” e as concepções de Cultura Política, de Serge Bernstein e Giacomo Sani. Metodologicamente, iremos comparar alguns pontos da materialidade – o visual gráfico – e do discurso impresso desses periódicos além de sua trajetória. Como resultado, trataremos de estabelecer um diálogo entre as duas folhas comunistas, e desse contato estabelecer pontos mais de diferenças do que em comuns da recepção e da construção do Comunismo na América Latina, com destaque ao México e Brasil. Como conclusão, esse texto não tem como objetivo comparar o Comunismo latino-americano com o seu homônimo soviético, pois, apenas apontaria os “defeitos” ou os erros do PCM e do PCB em implantar tal ideologia em suas respectivas sociedades. Por meio de seus principais periódicos, o esforço intelectual aqui proposto é de analisar as especificidades de cada realidade social. Tanto comunistas mexicanos quanto brasileiros constituíram uma Cultura Política entre si. Mas vale ressaltar que além dos pontos em comuns, como a devoção a Revolução Russa, o léxico igual de palavras e termos, entre outras práticas políticas e sociais, tanto o PCM de El Machete, quanto o PCB de A Classe Operária, apresentaram mais pontos distintos. Pois, o PCM foi fundado no final da etapa armada da Revolução Mexicana e teve como desafio, implantar o comunismo em uma sociedade pós-revolucionária. Já a fundação do PCB representou uma cisão entre os militantes do movimento operário e teve um caráter mais pragmático, em seu objetivo de implantar o comunismo numa sociedade dominada por uma grande oligarquia política. Todavia, mesmo com tais dificuldades, ambas as agremiações políticas compartilharam de uma visão social em comum e foram muito mais do que meros subordinados das diretrizes revolucionárias da Internacional Comunista, IC, de Moscou.
Palavras-chaves: México, Brasil, Periódicos Comunistas, Partido Comunista Mexicano, Partido Comunista Brasil.

Introdução: Cultura Política
As ideologias políticas, com mais ênfase a partir da experiência revolucionária francesa de 1789, se tornaram um essência substrato filosófico de interpretação da sociedade para diversos indivíduos que procuravam e ainda procuram, o seu lugar no mundo. Anarquismo, comunismo, democracia, socialismo, entre outras doutrinas constrói identidades sociais e formulam uma cultura política que é compartilhada por seus adeptos.

A Cultura Política é definida por Serge Bernstein como um fenômeno de múltiplos parâmetros que ajuda na compreensão da complexidade do comportamento social humano, o conceito de Cultura Política é importante para entendermos como as pessoas, no seu individual ou no coletivo, compartilham e tomam decisões políticas. Apesar de conceituar sempre no singular, Bernstein afirma que há diversas formas de Cultura Política. Para Bernstein, alguns elementos comuns, que formariam um conjunto homogêneo, são essenciais na definição de uma Cultura Política: “[...] um discurso codificado em que o vocabulário utilizado, as palavras-chaves, as fórmulas repetitivas são portadoras de significação, enquanto ritos e símbolos desempenham ao nível do gesto e da representação visual, o mesmo papel significante (BERNSTEIN, 1998: 351)”.

Teorizando uma leitura comum do passado, Bernstein afirma que a Cultura Política realiza uma projeção do futuro vivida em conjunto, e que ela nasce como uma resposta às crises nacionais de cada sociedade.

Outras características do conceito de Cultura Política foram esboçadas por Giacomo Sani (1991: 306). Responsável pela definição desse verbete no Dicionário de Política, Sani divide o termo em três características: cognitiva, afetiva e valorativa.

A definição inicial, cognitiva, ocorre em sociedades simples, onde as instituições políticas e a participação social do indivíduo ainda não estão definidas.

A categoría seguinte, afetiva ou de “sujeição”, estaria presente nos questionamentos aos regimes totalitários.

E o terceiro modo, valorativa ou de “participação”, estaria em regimes democráticos, nos quais a grande questão seria a posição ativa de cada indivíduo ou de seu grupo social, em seus papéis de adesão ou questionamento das mudanças políticas, sociais e econômicas à sua volta.

Nesse texto, serão discutidos alguns pontos acerca do Comunismo, como Cultura Política entre os membros do Partido Comunista Mexicano, PCM e do Partido Comunista Brasileiro, PCB, em seus anos inicias de fundação, por meio dos seus respectivos e principais órgãos informativos: o periódico El Machete e o A Classe Operária.



Imprensa vermelha: propaganda e identidade e práxis
A imprensa é uma eximia ferramenta no uso da propaganda política. O suporte material, a circulação e a propagação de idéias tanto de jornais quanto de revistas, foram e em alguns casos ainda é, bastante utilizados por atores sociais que se colocam a margem e questionam o status quo. Anarquistas, socialistas, reformistas e comunistas, sempre utilizaram os impressos como meio de informação e de combate social.

Tais características são bastante realçadas por Sirinelli (1996: 249):


As revisas conferem uma estrutura de campo intelectual por meio de forças antagônicas de adesão – pelas amizades que subtendem, as fidelidades que arrebanham e a influência que exercem – e de exclusão – pelas posições tomadas, os debates suscitados, e as cisões advindas. Ao mesmo tempo que um observatório de primeiro plano da sociabilidade de microcosmos intelectuais, elas são um lugar precioso para a análise do movimento de idéias. Em suma, uma revista é antes de tudo um lugar de fermentação intelectual e de relação afetiva, ao mesmo tempo viveiro e espaço de sociabilidade, e pode ser, entre outras abordagens, estudada nesta dupla dimensão.

Mesmo se referindo às revistas, as colocações de Sirinelli podem ser utilizadas também aos jornais e são importantes, em conferir às produções impressas uma função de propaganda de propostas política, com o potencial de reunir diversos atores sociais, de fomentar discussões, entre outras possibilidades. Com todas essas qualidades apontadas e funções, os periódicos foram instrumentos políticos e culturais essenciais utilizados pelos Partidos Comunistas. Como apontado por Maria Luiza Tucci Carneiro no caso brasileiro (2006: 159):


O jornal – assim como a literatura, a fotografia e o rádio – sempre se apresentou como alternativa eficaz de propaganda política. Adotados por todos os segmentos sociais desde a primeira década do século XIX, o jornal deve ser avaliado como um dos mais importantes registros da memória política de um país. Alguns deles inscreveram-se numa tradição de imprensa liberal e revolucionária; outros emergiram como tipicamente antilusitanos, nacionalistas ao extremo e, até mesmo, anticlericais.
O PCM foi fundado em 25 de setembro de 1919 e reconhecido pela IC em 24 de novembro do mesmo ano (Cf. MÁRQUEZ FUENTES & RODRÍGUEZ ARAUJO, 1973). O primeiro número de El Machete foi publicado em março de 1924, como folha informativa do Sindicato de Obreros Tecnicos, Pintores y Escultores de México, que em seu quadro contava com os pintores muralistas Diego Rivera, David Alfaro Siqueiros e José Clemente Orozco (LEAR, 2006: 109). No começo de 1925, esses artistas, juntamente com outros membros do sindicato, se filiaram ao PCM e o El Machete tornou-se sua publicação oficial. Em 23 de maio de 1938, este periódico tornou-se diário e, em 15 de setembro do mesmo ano, mudou de nome para La Voz de México (PELÁEZ, 1980: 60).


Fig. 1 logotipo do periódico El Machete
No logotipo de apresentação do jornal, o El Machete já demonstrava aos seus leitores a sua orientação política voltada ao comunismo, que pode ser conferido pela frase, em espanhol, da última sentença do lendário Manifesto do Partido Comunista: “PROLETARIOS DE TODOS LOS PAISES UNIOS”. Abaixo, temos uma mão segurando um machete – facão muito utilizado pelos camponeses mexicanos – do lado à famosa imagem da foice e do martelo que era o símbolo da bandeira da extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, URSS, dentro de uma estrela, e o jornal se afirma como “PERIODICO OBRERO Y CAMPESINO”.

Além de algumas mensagens obvias de orientação comunista, como destaque a termos e símbolos, existe uma particularidade interessante nesse logo que deve ser explorada. Apesar de se colocar como primeiramente um periódico obrero, ou seja, operário, o próprio nome e o logo da publicação do PCM – retomando novamente, o facão – dão mais ênfase aos camponeses. Devemos ter em mente, que a massa camponesa foi o motor da Revolução Mexicana de 1910 e os comunistas mexicanos procuravam dialogar não apenas com os operários, mas também com esses importantes atores sociais oriundos dos campos. Essa postura tornasse relevante na seguinte passagem publicada em 1928:


Nuestra revolución será la verdaderamente social, la que habrá de dar toda la tierra a los campesinos y todas las industrias a los obreros, aboliendo la explotación capitalista… La lucha para hacer triunfar esta revolución es larga, es dura, metódica y diaria; tiene distintas fases […] Dependemos de los trabajadores y somos un partido para los trabajadores.

(El Machete, No. 121, 30/06/1928).

O PCB, por sua vez, foi fundado em março de 1922 e reconhecido pela IC dois anos depois, em janeiro de 1924 (Cf. CARONE, 1982). A Classe Operária começou a ser publicada na data simbólica do dia Primeiro de Maio de 1925, a partir da orientação da Internacional Comunista, IC, para que o PCB lançasse um jornal operário de massas. Com uma trajetória repleta de fases de intermitências, A Classe Operária foi publicada até meados de 2000 e pode ser considerado o jornal de esquerda mais antigo da História da Imprensa Brasileira (CARNEIRO & KOSSOY, 2003: 68-70).


Fig. 2 logotipo do jornal A Classe Operária
O logotipo da publicação do PCB possuí algumas referências semelhantes com o jornal do PCM, como a mesma frase que encerra o Manifesto do Partido Comunista, “PROLETARIOS DE TODOS OS PAIZES, UNI-VOS! e a foice e martelo da URSS fundida com o “O” de Operária. Mesmo não apresentando referências explicita aos camponeses em seu logo, como no caso da publicação dos comunistas mexicanos, os editores de A Classe Operária também se preocupavam em passar a sua mensagem revolucionária aos trabalhadores do campo, como podemos conferir nesse editorial de apresentação de 1928:
Jornal de trabalhadores, feito por trabalhadores, para trabalhadores, fiel e firme no seu posto, A CLASSE OPERARIA era ao mesmo tempo o grito que tocava a despertar, abalando as mais profundas camadas do proletariado, levando o clamor da revolta e da esperança ao seio das massas opprimidas, e o éco dos soffrimentos e dos ais, dos rígidos e das imprecações que partiam das fabricas, das officinas, das usinas, dos locaes de trabalho, das moradias infectas do immenso proletariado da cidade e do campo...

(A Classe Operaria, “Aqui estamos de novo...”. n° 01. 01/05/1928, pág. 01)


O PCB tinha a consciência de que precisava conquistar não apenas as fábricas, mas também o campo e em 1928, foi fundada o Bloco Operário Camponês, BOC, que antes se chamava apenas Bloco Operário. O BOC foi uma iniciativa política-eleitoral do PCB, e em sua primeira campanha, conseguiu eleger dois vereadores no Rio de Janeiro, a capital nacional do período. Um desses vereadores eleitos, Minervino de Oliveira, foi lançado como candidato à presidência em 1930, contudo, não conseguiu desempenhar o mesmo sucesso de votos da campanha anterior.

No caso do México, em 1923, o PCM se envolveu no embate entre Adolfo de La Huerta e o então presidente mexicano Álvaro Obregón. De La Huerta contava com o apoio de Obregón a sua possível candidatura a presidência, contudo foi preterido por Plutarco Elias Calles. Descontente, se colocou contra o governo federal e iniciou uma rebelião que ficou conhecida como “delahuertista”. Segundo Barbosa (2010: 99): “A rebelião “delahuertista” talvez tenha sido o levante militar que colocou mais em risco o México pós-revolucionário, pois reuniu cerca de metade do efetivo do exército”.

Essa rebelião se concentrou na região de Veracruz entre os meses de novembro e dezembro de 1923 e foi desmantelada entre fevereiro e maio de 1924, com um saldo de sete mil pessoas mortas. O PCM nesse período apoiava o governo federal mexicano e tinha muitos setores campesinos em seu controle. Essa massa camponesa se armou e junto com metade do exército federal conseguiram liquidar o movimento rebelde. Entre as vitimas desse embate, pereceram alguns dirigentes comunistas e camponeses, como José Cardel, José María Caracas, Guilhermo Lira, José Fernádez Oca y Antonio Ballesco (PELÁEZ, 1980: 23).

Na exposição desses dois casos, percebesse que apesar do discurso revolucionário dos dois partidos e presente em seus respectivos periódicos, tanto os comunistas mexicanos quanto brasileiros, mantiveram uma linha tênue com o governo federal – no caso do México – ou procuravam chegar ao poder pela via eleitoral – no caso do Brasil – e ambos tinham tanto o operário quanto o camponês como sua força revolucionária.

Outro ponto a ser destacado aqui é o espaço que os periódicos acabaram conquistando na vida dos militantes comunistas, chegando inclusive a ser mais importante que as suas próprias vidas.

Como exemplo dessa afirmativa, Cabo Jofre, militante comunista e responsável pela publicação de A Classe Operária morreu ao defender a gráfica do periódico em 1935, em plena perseguição patrocinada por Getúlio Vargas. Tal episódio foi reconstruído por Apolinário Rebelo (2003: 67):


Uma noite viu a casa cercada pela polícia gestapeana de Felinte Muller, nos dias negros da ditadura getuliana. Não se intimidou: minou a base da máquina impressora da ‘CO’ – Classe Operária – e o quarto onde estava camuflada, acendeu uma mecha, pulou a única janela existente na pequena casa, tiroteou sem cessar, com vistas a romper o cerco policial, tombando, entretanto, sem vida após uma rajada de metralhadora pelas costas, certamente sorrindo por ainda ter ouvido a forte explosão havida concomitantemente. Nada sobrou da pequena casa suburbana, nem da máquina impressora da ‘CO’, nem da tipagem, nem dos papéis ali existentes. Nada caiu nas garras dos cães policiais, ávidos por documentos secretos do Partido.
Se a Classe Operária era tão essencial aos militantes comunistas brasileiros, o mesmo pode ser dito sobre o El Machete para os militantes comunistas mexicanos.

Em suas memórias, Benita Galeana, lendária comunista mexicana, relata que teve que enfrentar o machismo dos trabalhadores fabris mexicanos, quando distribuía, às escondidas, exemplares do El Machete nas portas das fábricas entre os anos de 1930 a 1934, como demonstra Daniela Spenser (2005: 153):


A pesar de la policía confiscó la imprenta, el periódico del partido, El Machete, siguió circulando. Fue entonces cuando la organización le encargó a Benita su distribución. Se paraba las puertas de las fábricas y talleres para entregárselo a los obreros y aprovechaba cada manifestación para repartirlo. El trabajo no siempre fue grato, pues cuando se topaba con obreros que no simpatizaban con los comunistas, tuvo que escuchar hirientes comentarios machistas sobre su persona, pero no flaqueó: “Muchas veces salíamos de allí casi llorando al ver que nuestros mismos hermanos de clase, los trabajadores, nos trataban así, pero cuando nos encontrábamos con otros obreros que nos respetaban y nos sabían tratar como camaradas, se nos olvidaba todo.”

Aguantar las majaderías de los hombres era un sacrificio menor de ver que El Machete seguía circulando entre los obreros y que el PCM en la clandestinidad no perdía el contacto con los trabajadores.


Tanto para o PCM quanto para o PCB e seus respectivos filiados militantes, os periódicos representavam mais do que simples folhas informativas. Os periódicos comunistas representavam a essência da própria agremiação política. Em razão dessa interpretação, para os militantes desses dois partidos, manter a circulação dos periódicos, levá-los aos trabalhadores considerados “leigos”, era uma missão primordial, que eles deveriam realizar acima de qualquer custo. Os jornais era a personificação impressa dos partidos comunistas.

O El Machete e a Classe Operária dialogaram em certas ocasiões.

O jornal do PCM publicou algumas matérias sobre o golpe de Estado de Getúlio Vargas, que na época recebeu o rótulo de Revolução, e questionou o significado revolucionário desse acontecimento político. Já a Classe Operária publicou algumas matérias denunciando a perseguição do governo mexicano ao PCM, cujo ápice foi à execução de vários líderes comunistas além da queima de diversos exemplares do El Machete em praça pública.

Concomitantes a essas matérias, ambos os periódicos publicavam diversos textos de Lênin, de Marx, e era comum a publicação de matérias saudosista sobre a Revolução Russa principalmente nos meses de outubro, para comemorar o aniversário da eclosão desse evento.

Apesar da distância, o Comunismo soviético uniu os membros do PCM e do PCB em uma causa comum: construir em suas respectivas realidades, a Revolução vitoriosa do leste europeu. Por esse objetivo comum, os comunistas mexicanos e brasileiros dividiram uma Cultura Política em comum.

Considerações finais
Em um primeiro olhar, há mais diferenças entre os comunistas do México em comparação com os comunistas do Brasil.

O PCM foi fundado na fase final da Revolução Mexicana, e os seus filiados tiveram que enfrentar um Estado que se colocava como herdeiro desse período revolucionário. O PCB foi fundado em uma realidade distinta. A República brasileira ainda estava sob o desígnio dos oligarcas, contudo, no campo cultura, o ano de 1922 suscitou uma intensa discussão com a Semana de Arte Moderna, que foi realizada um mês antes da fundação do PCB.

Mesmo com essa disparidade, os jornais oficiais do PCM – El Machete – e do PCB – a Classe Operária – possuem elementos em comum:

Primeiro: fisicamente os jornais apresentavam características comuns. Ambos eram editados em quatro páginas, sua impressão era feita clandestinamente e os periódicos apresentavam mensagens semelhantes, que podemos perceber em seus logotipos, como alusões ao Manifesto do Partido Comunista, a união entre operários e camponeses, além da presença da foice e do martelo, símbolo da bandeira da URSS.

Segundo: tantos os membros do PCM quanto do PCB utilizaram os seus periódicos como uma ferramenta de combate e fizeram uma intensa propaganda política, com o objetivo de alcançar os corações e mentes de operários e camponeses. Os artigos e charges presentes nos periódicos apresentam uma linguagem comum, como a convocação de operários e camponeses para realizar a Revolução e tendo o Comunismo soviético como o único caminho da liberdade social. Contudo, apesar das mensagens revolucionárias, em alguns momentos, o PCM e o PCB manteve relação estreita com o status quo.

Terceiro: para os militantes do PCM e do PCB, os periódicos eram mais que uma ferramenta de combate. Era a própria personificação de suas respectivas agremiações políticas. Em razão disso, para os comunistas mexicanos e brasileiros manter esses jornais em circulação era motivo de orgulho e uma missão que deveria ser realizada a todo custo.

Quarto: a Classe Operária denunciou em suas páginas a intensa repressão que o PCM recebeu e em contrapartida, o El Machete apoiou o PCB no período getulista, quando a repressão aos comunistas brasileiros se intensificou. Esse diálogo demonstra que tanto os comunistas do México quanto do Brasil, se preocupavam com as represálias promovidas pelo Estado, e procuravam denunciar esses atos, justificando que todos eram camaradas ou irmãos que estavam lado a lado por uma causa comum: o fim do julgo capitalista.

Nesses quatro casos apresentados, afirmamos que apesar das diferenças, os membros do PCM e do PCB compartilharam de uma Cultura Política, cujos alguns aspectos foram detectados a partir de uma análise panorâmica dos jornais El Machete e a Classe Operária. Outros aspectos da relação entre o PCM e o PCB e seus respectivos periódicos ainda continuam obscuros, cuja pesquisa em andamento tem como objetivo trazer ao lume.



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