Cultura, subjetividade e semi-árido brasileiro



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Encontro27.07.2016
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CULTURA, SUBJETIVIDADE E SEMI-ÁRIDO BRASILEIRO.1

Odomaria Rosa Bandeira Macedo2


Atendendo a convite do IRPAA, eu falarei de CULTURA, SUBJETIVIDADE E SEMI-ÁRIDO - tema que me foi dado pela organização desse evento.

Minha participação aqui tem um lugar definido pelo que me foi dito: Em virtude do fato de eu ter me dedicado a estudar a “Convivência com o Semi-árido” na atuação do IRPAA, na pesquisa que realizei como professora de Antropologia em atividade na universidade. Assim, a fala que apresentarei aqui parte desse lugar, e busca espelhar minha experiência de professora e pesquisadora.

Para preparar o que vou lhes falar, eu fiz três perguntas a mim mesma e, então fui procurando dar respostas para essas perguntas que colocarei, a seguir, para todos que estão presentes nesse evento. Espero, dessa forma, desenvolver o tema proposto para nossa reflexão abordando, assim, os assuntos em questão no mesmo.

As perguntas são:



  1. Como o conceito antropológico de cultura pode ser interessante para as discussões em curso nesse seminário?

  2. Como vejo o semi-árido em relação à cultura e a cultura do semi-árido?

  3. Como a subjetividade faz-se presente em tudo isso: na cultura, na construção do semi-árido e para uma proposição local de reforma agrária nesse lugar?

1 - O QUE É CULTURA? Há uma variedade muito grande de conceitos, definições e significados a se considerar. Conhecimento, educação e arte são os significados que sempre são destacados nas definições mais correntes de cultura. Do ponto de vista da Antropologia essas manifestações culturais são, apenas, alguns dos elementos de uma cultura em meio a outros, partes de um todo que engloba tantas outras coisas e aspectos da existência humana que se expressa de variadas formas, que não são percebidas, assim, sempre. Cultura significa muito mais do que se pensa e considera, comumente. Cultura é tudo que é resultado da criação do homem, que se faz das e nas suas relações (praticamente, inevitáveis) com o meio que o cerca, ou seja, com os demais homens no e com o ambiente (natural e sociocultural).

Quando se entende a cultura dessa forma, entende-se a humanidade como algo que se constitui e se define com as relações dos indivíduos entre si e se cria nesse processo, com as múltiplas significações que se fazem nas várias relações que se estabelecem.

Entende-se, antropologicamente, que o homem se faz na medida em que se torna sujeito da sua história, seja essa história de dominação, na condição de dominado ou não porque, em qualquer das histórias que se tenha, há um mundo seu que passa a ser sentido como seu; porque é com este mundo que cada homem vai viabilizando a sua existência social como sujeito, ou seja, que ele se faz um sujeito histórico integrando-se socialmente. E, isso se define por significados que o perpassam.

Dessa forma, a cultura apresenta-se como substância do homem, isto é, da humanidade.



1.1. - A existência do homem tem seu sentido na existência da cultura de que ele faz parte.

O fato de se preferir leite de vaca ou leite de cabra; comer cuscuz de milho ou de sorgo; ouvir forró ou música do “axé baiano”; vestir branco ou preto ou vermelho em situações de morte de alguém; lavar ou não as mãos antes das refeições; usar mais ou menos água, para lavar pratos ou o chão, tomar banho, molhar plantas, etc.; usar mais fogo, terra, ar, perfume, madeira, argila, esterco, cimento, ferro, leite, feijão, arroz, milho, raízes ou qualquer outro elemento da natureza são expressões culturais que representam o homem, o seu fazer com um determinado modo de pensar a natureza e a sociedade, uma concepção particularizada de como se produzir a existência humana. São, assim, manifestações do homem como racionalidades a que ele chega, em relação aos recursos da natureza e ao meio social, em que se particulariza uma cultura.

Mas, uma cultura não se resume ao que se vê apenas com esses tipos de expressão cultural. Na análise antropológica, a manifestação do homem consiste na totalidade das suas expressões, pois se entende que a existência humana compõe-se de outras tantas situações, questões e maneiras de enfrentá-las e resolvê-las. Entende-se que a coexistência das expressões culturais é o que define o significado de cada expressão cultural.

Por exemplo: Como se produz e percebe-se o sentido de quebrar os testículos de um bode, ato tão freqüente na prática da pecuária caprina dessa região, fazendo-se isso com tanta naturalidade como vemos por aqui? O animal parece ser inofensivo com seus testículos!

Provavelmente, se considerando apenas essa expressão cultural isolada das demais que a circulam e circunstanciam, podemos pensar que um ato desses é uma expressão de violência marcante de uma cultura e de um tipo de homem que se manifesta dessa maneira. Entretanto, ao considerarmos as demais práticas desse homem em relação ao bode e em relações de tantas outras ordens (em relação às cabras, aos demais homens, aos criadores de bode, aos compradores e vendedores de bode, ao mercado, à doença e saúde de si, dos seus animais e dos animais de outros proprietários, ao mundo e à vida), o sentido encontrado do referido ato pode ser, certamente, o da castração do animal compreendida como um controle indispensável para o criatório de bodes, com vistas a certa expectativa. Assim, deixa-se nesse entendimento submetida e até esquecida a agressividade e a crueza do ato da quebra dos testículos do bode, considerado, a princípio, como um ato de violência.

O porquê de qualquer expressão cultural, o para que se faz isso ou aquilo de um determinado modo, seus fundamentos e alcance só são entendidos quando se considera que cada expressão faz parte de um todo que é a manifestação de certo homem, da sua experiência de vida, por inteiro. E que essa é representada por meio de muitas expressões culturais.

Com isso se destaca uma característica essencial da cultura: A sua dimensão simbólica.

É aí, na dimensão simbólica aonde se pode perceber o sentido da existência homem e do seu mundo, quer dizer, o sentido que ele dá à sua existência – que é, em grande parte, dado em sua cultura, que significa e define tal mundo.


2. DO “SEMI-ÁRIDO BRASILEIRO” – Que lugar é esse? Digo a vocês que vejo nessa denominação alguns problemas. A começar pelo fato de que o lugar natural a que esse nome se refere existe, historicamente, sendo designado geograficamente e reconhecido, desse modo, por outros nomes como Sertão e/ou Nordeste. Na formação desse lugar, semi-árido aparece como nome do tipo de clima que predomina na maior parte de sua área territorial.

Entendo que com o nome Semi-árido brasileiro está se fazendo referência a outras coisas que se colocam em relação a esse lugar. Ou seja, que o uso dessa denominação significa muito mais do que dar um novo nome a um lugar já tão conhecido.

No uso desse nome vejo que se busca dar, assim, existência a um lugar que se inventa, portanto, um lugar cultural, cuja invenção é bem recente (de 1980 para cá). Considero que esse lugar não se encontra ainda formado, mas se pode vê-lo em formação; e vejo, também, que isso está ocorrendo por uma ação cultural que tem implicado muitos aspectos e interesses característicos da contemporaneidade, na disputa de espaço e poder que se observa entre os diferentes pontos do planeta.

Com esse nome - semi-árido brasileiro - identifico mais um Local3 do que o lugar físico ou natural em questão; vejo algo que insurge de um processo de significações dadas entre subjetividades reunidas de maneira sistemática através do IRPAA, e de outras ONGS, em relações freqüentes dessas organizações com os pequenos lavradores e os movimentos sociais, com fins determinados.

Esse Local tem sua construção como criação cultural denominada Semi-árido brasileiro com o trabalho de reflexão sobre as experiências tradicionais de produção da agricultura e da pecuária dos pequenos lavradores na região de clima semi-árido. Esse trabalho é realizado a partir das reuniões do coletivo referido (pequenos lavradores e técnicos das organizações acima mencionadas) e com certas atividades concebidas nas reuniões e em outros eventos.

Muitos dados a respeito disso podem ser encontrados em “A convivência com o semi-árido: Desenvolvimento regional e configuração do local no projeto do IRPAA” (MACEDO, 2004)4. Na citada obra compreende-se a convivência com o semi-árido como um projeto histórico-social, no qual se propõe e se busca muito mais do que uma convivência diferenciada com o ambiente de um lugar que é caracterizado por certos aspectos físicos e climáticos (tipo de solo, irregularidade de chuvas, calor, evaporação, etc.) e com vistas nas práticas agropecuárias dos pequenos lavradores. Considera-se o tipo de convivência idealizado e postulado nesse projeto como um padrão cultural que, na ação do IRPAA vai sendo difundido. Como se a convivência de tal forma concebida pudesse ser válida além do âmbito de atuação e das relações dessa ONG (o IRPAA) com o coletivo formado junto aos pequenos lavradores e técnicos da referida instituição e com outras ONGs.

Na convivência com o semi-árido como projeto que se faz com a atuação do IRPAA percebe-se que há um sentido de territorialidade, pois a realização desse projeto consiste como um espaço que se abre para a movimentação e a articulação de interesses e questões que se encontram em um lugar onde o clima e o ambiente (natural e cultural) têm tido um grande destaque e, com isso, configura-se o Local em formação na realização do mencionado projeto.

Considero que esse Local – o Semi-árido - define-se como local ao se colocar com uma proposta de produção agropecuária baseada na convivência com o clima do lugar, com o que a proposta e o local (ou sua localidade) apresentam-se nos moldes de uma formação alternativa de política para o desenvolvimento regional.

Encontra-se nesse projeto, ao que parece, o local com muitos significados – de contexto, de espaço ou de território. Percebo que em todos esses significados identificados o caráter de local define-se a partir da relação de um ponto ou lugar com outros pontos, implicando distância e posicionamento; e que o local consiste como um poder além de determinado lugar e uma referência ou existência em um âmbito, esfera ou instância mais ampla e maior em poder.

Assim, vejo o Semi-árido brasileiro configurado como local porque se faz como um lugar social em relação a outros lugares diversos (o país, a nação, o mundo, o Estado, o governo, a política, a economia, etc.). Junto a isso, penso que o território Semi-árido brasileiro está se viabilizando como local na medida em que ocorre a concretização do projeto histórico-social da convivência com o semi-árido do IRPAA sendo esse projeto entendido como uma formação alternativa em termos de política para o desenvolvimento regional. Observa-se que, através disso, um determinado segmento social tem conseguido, do lugar onde está, manter relações interessantes com o global (regionalmente, nacionalmente e internacionalmente).

Na contemporaneidade em que se vive, ser local é mais importante e pode bem mais do que um lugar, um tópico.

Parece-me que o fato de estarmos hoje aqui em articulação com o INCRA realizando essa discussão da reforma agrária denota, ainda mais, esse caráter de território do Semi-árido (em termos políticos, administrativos e burocráticos), percebido por mim como um dos sentidos da convivência com o semi-árido no projeto do IRPAA.

Agora, me parece também que a construção do Local da forma que percebi no bojo desse projeto avança e se institucionaliza em certas oportunidades, como a que se vê nesse evento, em que se destaca o local com caráter de território - um lugar de domínio: O “Semi-árido” fazendo-se e aparecendo como uma unidade administrativa, como uma instância local que, através da convivência com o semi-árido no projeto do IRPAA, passa a ser uma referência e um elemento a mais para a gestão do Estado da Bahia.
3. DE SUBJETIVIDADE: Na concepção antropológica a subjetividade configura-se no processo de relação social do indivíduo e isso se constrói na medida em que, nesse processo, o indivíduo vai se fazendo como sujeito ao mesmo tempo em que ele se afirma como diferente de outros sujeitos, diante destes. Entende-se que o sujeito constitui-se ou se faz com os outros, socialmente, na medida em que se culturaliza.

Cada cultura expressa, na verdade, a formação que se vai fazendo com o coletivo desses sujeitos, em processo na referida formação. Ou seja, cada mundo ou modo de ser no mundo ou numa cultura é feito de intersubjetividades.

Diz-se comumente que cada cabeça é um mundo! Não é isso?

Pois bem: Numa visão antropológica isso é e não é, pois se reconhece a singularidade de cada homem como sujeito, ou seja, se reconhece que cada sujeito sente, pensa e dá o seu próprio significado para cada coisa que faz ou conhece. Mas, se considera também que os sentimentos, os pensamentos e as significações de cada sujeito têm parte da sua cultura, isto é procedem, em grande parte, da cultura na qual ele se faz homem/sujeito, a qual ele tem consigo como elemento de base, sua substância primordial.

O fato é que “cada cabeça é um mundo” soa como uma verdade e equivale a noção de subjetividade que se coloca nessa discussão e apresenta-se como uma questão e um grande desafio para todos nós, sempre, porque não é fácil lidar com o diferente e este é humanamente fundamental e necessário em toda a trajetória do homem.

Em matéria de política, especialmente, que implica disputas, conflitos, tensões, e a formação de consensos, de interesses coletivos, de participação de cada um na representação política, torna-se ainda mais trabalhoso e problemático lidar com as subjetividades.


4- DE CULTURA E SUBJETIVIDADE EM RELAÇÃO AO SEMI-ÁRIDO: PARA UMA REFORMA AGRÁRIA – Finalmente, quero destacar a reforma agrária - motivo maior das discussões nesse seminário, dizendo: Embora eu não seja especialista nisso, penso que o Local em uma reforma agrária não pode perder de vista o que consideramos a respeito do homem, e da cultura como síntese e representação de suas experiências na construção de sua história.

Também quero destacar que em determinadas formas de expressão cultural que se vêem a cultura está representada apenas parcialmente, tais formas estão sempre em lugar de algo que não se encontra necessariamente ali e que é, geralmente, muito importante para se compreender a cultura como manifestação do homem em sua totalidade: As idéias, os conceitos e significados do que é representado e daquela representação, os valores relacionados à mesma, que só são percebidos se vendo a totalidade de cada cultura e atentando-se para tudo que faz parte dela.

Ainda mais quando se tem em foco a terra, como motivo e questão a se resolver...

São tantos significados que se encontram na palavra TERRA: planeta, universo, pátria, lugar, solo, chão, raiz, área, território, ambiente, etc. Só isso já indica a complexidade da problemática cultural a ser considerada na discussão sobre reforma agrária.

Não podemos perder de vista a dimensão simbólica da cultura ao discutirmos nossas atuações, ao agenciarmos projetos. Pois a cultura de um coletivo existe como um código em que, nas formas que o homem cria para viabilizar a vida, são representados pensamentos, sentimentos, interesses, razões e finalidades instituídas (socialmente) que são, ao mesmo tempo, elementos que constituem cada sujeito mediante a atuação de cada um na experiência coletiva com o meio (natural e cultural), que implicam as subjetividades.

Assim, entendendo homem e cultura como partes indissociáveis, e considerando o Semi-árido da maneira que apresentamos, ou seja, como uma formação em processo, fazendo-se em uma construção cultural - um local que se inventa nas relações entre homens, sujeitos de cultura, agentes culturais, subjetividades diversas que se encontram movidas por histórias e perspectivas diferentes, deixo, para finalizar minha conversa, o seguinte questionamento:

– O que se toma como base e o que se vislumbra quando se propõe a reforma agrária do semi-árido, que se tem colocado? Há uma forma de reforma agrária já definida como proposta a ser defendida? De que forma se chegou à definição dessa proposta? Quais são as experiências de organização fundiária ou de gestão fundiária que se conhece? O que se conhece a respeito dessas experiências na sua totalidade, ou seja, buscando-se compreender as culturas nas quais se inserem tais experiências?

Parece-me que o local terá lugar na reforma agrária que se pretende, somente na medida em que as experiências locais, mesmo aquelas com as quais não se concorde, venham a ser compreendidas como parte da cultura e do homem em questão (que vive no lugar de clima semi-árido). Para isso, é preciso atenção para não se cair na tendência comum que se observa nos agenciamentos, que é de propor a reforma que se julga ser a boa e adequada ou necessária, em um modelo encontrado a priori, sem se levar em conta, efetivamente, a experiência do homem a que a mesma se destina, sem compreender e considerar a cultura dessa experiência como uma manifestação desse homem.

Com essas perguntas quero destacar, também, que faltamos estudar muito ainda a respeito da região em foco nos assuntos de que falamos.

Afinal, mexer com a terra é mexer com a base da existência do homem!



1 _ Um dos temas da pauta do Seminário do IRPAA sobre Reforma Agrária no semi-árido brasileiro.

2 -- Mestra em Sociologia e especialista em Antropologia. Professora da UNEB - Departamento de Ciências Humanas - Campus III – Juazeiro/BA.

3 - Aqui considero local e lugar com significados diferentes. Local como referência de um sentido que se contrapõe a outros como o global, o mundial, o geral, etc.

4 - Dissertação de Mestrado de Sociologia apresentada ao Centro de Filosofia e Ciências Humanas na UFPE, em 2004.


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