Curitiba – Paraná sumário 1- sobre a Interpretação



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CARREIRA POLICIAL




INTEPRETAÇÃO

PROF. JOÃO BOLOGNESI


Curitiba – Paraná


sumário

1- Sobre a Interpretação.......................................... 3
2- Posto e Pressuposto........................................... 4
3- Criando a Questão............................................... 5
4- Tipologia Textual.................................................. 6
5- Funções da Linguagem....................................... 7
6- Organizando a interpretação............................................................. 7
7- Questões de prova............................................... 9
8- Gabarito................................................................ 16
9- Glossário............................................................... 19

Chega mais perto e contempla as palavras. 


Cada uma 
tem mil faces secretas sob a face neutra 
e te pergunta, sem interesse pela resposta, 
pobre ou terrível que lhe deres: 
Trouxeste a chave?

Carlos Drummond de Andrade



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1- sobre a interpretação

A expressão “interpretar textos” traz certa estranheza, pois sugere que um texto é sempre algo a mais do que está sobre a superfície do papel, algo que vai além de uma simples leitura. Dá-se a impressão de que a natureza de um texto é sempre a de invocar o leitor a um mergulho em um mundo bastante próprio e a uma atividade permanente de revelação. E isso não é só uma impressão, é um fato!

Ler um texto, por si só, já é uma atividade bastante complexa, pois o conhecimento de um idioma e de suas regras se impõe antes de tudo. Interpretar um texto vai além e exige a congregação de vários conhecimentos, desde o texto até o contexto. Vêm à tona aspectos lingüísticos, culturais, históricos, geográficos, ideológicos, artísticos, entre tantos outros.

A interpretação exigida em concursos públicos, porém, está longe disso. Aproxima-se de uma análise dos constituintes textuais em si, ficando fora as informações contextuais, históricas e ideológicas... Um concurso público, ao trabalhar com alternativas (e não com respostas escritas pelo candidato), busca, na formulação das questões, trazer do texto aquilo que permite um grau de objetividade ou, pelo menos, uma dedução a todos comum. O que se interpreta está no texto exposto ou pressuposto, exigindo do candidato a verificação ou a inferência.

Tudo isso é teoricamente simples de explicar, mas na prática torna-se complexo, pois a questão não pode pecar pela simplicidade nem pela obviedade (apesar de muitas vezes isso acontecer). A formulação das questões tem princípios, e um deles é a exclusão de candidatos. É aí que entra a mão (leviana e/ou malvada) de quem formula a prova e as suas estratégias de complicação.

Quem faz as questões sabe que tem limites (ele quer e procura a objetividade), pois, já que a interpretação se restringe ao texto, aos explícitos e implícitos, o seu trabalho de montagem da questão exige um trabalho restrito à latência do próprio texto. Em geral, constrói paráfrases de trechos, dando-lhes novos sentidos, conexões e valores.

As inferências exigidas na interpretação não são profundas, e sim estão à flor do texto, não são visíveis a olho nu, mas estão na penumbra das palavras, são informações deduzíveis pelos sinais (às vezes discretos) que ficaram externos. Nessa perspectiva, o candidato deve aprender a lidar com o texto e essa dupla face, pois é ela a grande geradora das questões de interpretação.

Diante dessa situação especial –interpretar textos em concurso públicos–, devemos treinar duas habilidades que podem facilitar o trabalho em prova:

- aprofundar o conhecimento textual, algo que extrapola a gramática e exige um conhecimento dos aspectos da coesão e da coerência, inferências, conexões, correlações, substituições, adequação, etc.;

- resolver muitas questões de prova, pois é imprescindível conhecer o estilo da prova e da instituição.

Mãos à obra e bons estudos!


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2. POSTO E PRESSUPOSTO

Na comunicação, há sempre uma informação posta, aquilo que vem claramente expresso, e, por motivos práticos, há também informação pressuposta, que cabe ao leitor preencher. O pressuposto, embora não esteja explícito, funciona como referência e orientação para o que é desenvolvido e formulado de forma explícita. A partir de uma informação simples, ativamos um quadro com outras informações pressupostas:


. Posto

“O cigarro adverte: o Ministério é prejudicial à saúde”



. Pressuposto

“O Ministério é o da Saúde e é um órgão federal brasileiro”

“O maço de cigarro traz aviso parecido com a finalidade de preservar a saúde do brasileiro”

“Houve inversão de papéis”

“Cigarros não advertem e o Ministério em tese deveria fazer o inverso”

“A saúde pública, diante da sua precariedade, é ironizada (e nisso consiste a graça da piada)”

Um texto é uma espécie de máquina preguiçosa, ele não executa todo o trabalho que deveria realizar e acaba deixando “buracos”, insinuações, mensagens indiretas. Isso porque o autor é ciente do conhecimento comum que há entre ele e leitor. Cabe na leitura a tarefa de completar os sentidos e esse é o trabalho de inferir, de fazer as inferências. Também a memória desempenha decisivo papel na manutenção e reativação de informações e até nas antecipações, o que faz com que o texto se adapte às necessidades cognitivas do leitor, dando-lhe o necessário ao tentar ser econômico e produtivo.

Leia a piada abaixo:


“Criança na esquina, pedindo esmola e bebendo. A senhora no carro fica com pena, dá um trocado e pergunta:

– Por que você não está na escola, meu filho?

E o garoto responde: – Não posso, tenho só quatro anos.”
Para entendê-la, muitas vezes, devido à automatização, nem notamos os esforços cognitivos exigidos para processar a informação:

- conhecer o idioma;

- saber o significado das palavras;

- identificar o tipo de texto;

- acionar o conhecimento do mundo;

- interpretar os efeitos de sentido;

- ponderar os valores retóricos;

- compreender a crítica social, política, moral de determinada situação.


Toda piada traz algo além do que normalmente aguardamos como normal, ela burla nossas expectativas e, por causa do novo sentido ou da nova situação inesperada, nasce a vontade de rir.

E toda questão de interpretação traz o quê? Traz uma nova possibilidade de refazer o texto ou um questionamento de seu sentido. O problema, portanto, não está no que a prova pergunta, mas sim o grau de veracidade “injetado” na questão, o que se traduz em quanto de verdadeiro existe na proposta feita. A banca, ao propor a troca ou ao refazer trechos do texto, não o faz de forma unívoca ou precisa, mas sim com certa ambigüidade e imprecisão.

Talvez, a melhor forma de aprender a medir esses graus de veracidade é, primeiro, trocar os papéis e, a título de exercício, tentar criar questões como faz a banca; depois, resolver as questões tendo em mente que certa maturidade só o treino pode gerar.
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3. criando a questão
Diante da “matéria-prima” a ser usada na formulação das questões, na prova haverá reflexões sobre vocabulário, sinônimos, correlações, conectivos e tudo que ajude a estabelecer sentido entre as idéias organizadas.

Além disso, é necessário perceber como o texto se organiza, qual sua estrutura, a tese postulada, os argumentos que sustentam uma idéia, bem como todas as relações semânticas e os recursos que a língua oferece para tais articulações, como antítese, oposição, condição, finalidade, conclusão, causa e conseqüência, etc. Em um estágio posterior, deve atentar-se, por exemplo, a aspectos mais gerais do texto, como a redução do texto às informações essenciais, o resumo, o reconhecimento do tema, da idéia principal, das palavras-chave, etc.

Façamos a análise de alguns enunciados:
“Ninguém compra ou vende um imóvel sem que essa transação seja imediatamente informada à Receita Federal”

1- A oração iniciada pelo termo “sem que” tem sentido condicional.


“Dentre as conseqüências ambientais do processo de industrialização e do inerente e progressivo consumo de combustíveis fósseis —leia-se energia—, destaca-se o aumento da contaminação do ar por gases e material particulado provenientes justamente da queima desses combustíveis.

2- Para demonstrar sua tese, o autor indica haver mais conseqüências ambientais do processo de industrialização do que aquelas que enumera.


“No Brasil, hoje em dia, os cartórios vão muito além de sua função de registrar. Os cartórios são a mais efetiva máquina de fiscalização tributária do país.”

3- Infere-se das informações do texto que os cartórios constituem um entre outros mecanismos de fiscalização de impostos no Brasil.

Com base no texto ao lado, façamos o exercício de criar questões:

Planeta dos orangotangos

Josias de Souza, Folha de São Paulo




1


5

10

15

20

25

30

35

40

45

Ao lançar, no século passado, a teoria de que o homem e macaco têm um ancestral comum, Charles Darwin incendiou o debate científico. Sua tese, hoje largamente aceita, era revolucionária à época.

Preocupada em preservar a integridade do livro do Gênesis, a Igreja foi a primeira a dar pulos. Não foi a única. Cientistas conservadores recusavam-se a admitir que, tão evoluída, a espécie humana pudesse ter ascendentes animais.

Pois o fenômeno da prostituição infantil, em voga no Brasil da virada do século, demonstra que, no terreno do sexo, o homem pode ser menos racional do que o macaco. Normalmente, costuma-se enxergar o balcão do sexo infantil pelo lado da oferta. Proponho, a título de reflexão, um enfoque distinto. Por que não olhá-lo pelo lado da procura?

O mercado de meninas prostitutas só existe porque há, entre nós, homens capazes de violar corpos impúberes. Pior: há casos em que o descaminho sexual das meninas começa em casa, com um estupro do próprio pai.

Ouça-se o que tem a dizer a esse respeito o brasileiro naturalizado Raul Gonzales Acosta, presidente da Sociedade de Zoológicos do Brasil: “Em termos sexuais, os animais são bem mais evoluídos do que o homem”.

Segundo Acosta, também diretor do Zoológico de Brasília, não há estupros entre animais: “Os machos só têm relações com as fêmeas quando são aceitos por elas”, afirma, em português mexicanizado. Ainda segundo Acosta, as fêmeas só se acasalam depois que adquirem a maturidade sexual, representada pelo primeiro cio. Outro detalhe: fora do cativeiro, em seu ambiente natural, um bicho não cruza com sua cria.

A antropóloga americana Helen Fisher é autora de um livro que traça paralelos entre o comportamento sexual dos homens e dos animais. Em “Anatomia do Amor” ela conclui que, no geral, os humanos têm comportamento sexual semelhante ao dos bichos. Nem sempre, nem sempre.

O comércio de vaginas infantis no Brasil espalha pelas calçadas do país milhares de provas ambulantes de que a irracionalidade do homem não encontra paralelos nem mesmo entre os animais. Os verdadeiros orangotangos somos nós.


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4. tipologia textual
Há basicamente três modalidades de textualização: a descrição, a narração e a dissertação. A partir deles, surge ampla variedade de tipos de textos, que são esquemas convencionados socialmente e memorizados pela experiência individual. De acordo com a situação em que vivemos, como leitor ou autor, somos obrigados a ativá-los, visando compreender ou ser compreensível. Ao pensar, por exemplo, em um jornal, imagine a variedade de textos possíveis: reportagem, editorial, reportagem, crônica, legenda...Na literatura: contos, romances, fábulas, poesia... É por isso que a descrição, a narração e a dissertação tornam-se os elementos constituintes básicos e, deles, nascem os tipos de textos


. Descrição


É a caracterização ou a representação de algo por meio da indicação de suas características, de elementos que o individualizam e o distinguem. A descrição procura explora a percepção dos cinco sentidos, sendo a visão o sentido mais utilizado geralmente.
A parede era alta e ao lado havia uma linda árvore que sombreava todo o canto da casa. Embora todo o quintal tivesse grama, ali ela não nascia.


. Narração


É o relato de um fato e implica o uso de todos ou de alguns destes elementos: narrador, personagem, tempo, espaço e enredo. Pode-se classificar o narrador em: observador, personagem ou onisciente. Também pode o personagem falar por si mesmo (discurso direto) ou ser transferida ao narrador essa tarefa (discurso indireto):
- discurso direto

Ele perguntou: - Maria pode passar aqui em casa?


- discurso indireto

Ele perguntou se Maria poderia passar lá em sua casa.

Há também o discurso indireto livre, que mescla o discurso do narrador com pensamentos do personagem.


- discurso indireto livre (sem usar-se de sinais convencionais, há uma mescla entre o discurso do narrador e o discurso do personagem)

Ele estava sozinho, em silêncio. Maria pode passar aqui em casa? Viu pela janela a longa paisagem do crepúsculo. Maria deveria passar aqui em casa.


. Dissertação



a) dissertação argumentativa

Discussão organizada de um problema. Em geral procura-se defender um ponto de vista (uma tese) e, por meio da argumentação, tenta-se convencer o outro. É essencialmente opinativa.



b) dissertação expositiva

É a exposição organizada de um saber já estabelecido. Por meio dessa exposição, procura-se levar o outro a saber aquilo que ele desconhecia. É essencialmente informativa.




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5. funções da linguagem

. Função referencial


O referente é o objeto ou situação de que a mensagem trata, privilegia o referente, buscando transmitir informações objetivas, sem persuasão nem manifestações pessoais (exemplo: explicações científicas), prevalece o referente.


. Função emotiva ou expressiva


O autor deixa marcas de sua atitude pessoal, emoções, opiniões, avaliações que trazem o “eu” em destaque (cartas pessoais, poesia), prevalece o emissor.


. Função conativa


Procura impor-se sobre o receptor da mensagem, persuadindo-o, seduzindo-o, que agir sobre o outro (exemplo: propagandas), prevalece o receptor.

. Função fática


Volta-se sobre o próprio canal de comunicação, buscando verificar e fortalecer sua eficiência (soletrar quando não se entende o nome de alguém, dizer alô; dizer tudo bem?), prevalece o canal de comunicação.


. Função metalingüística


Quando a linguagem volta-se sobre si mesma, é a auto-utilização para esclarecer-se (um poema explicando como fazer um poema, um dicionário), prevalece o código.


. Função poética


Elaboração inovadora e imprevista, utiliza combinações sonoras ou rítmicas, jogo de imagens ou de idéias, prevalece a mensagem.


6. organizando a interpretação

Em geral, o autor de uma prova baseia-se nas seguintes falhas ao montar as interpretações errôneas:


. Extrapolação

Acrescentam-se idéias que não estão presentes no texto; é comum relacionar fatos que são conhecidos, mas eram parte de outro texto ou de um saber comum, porém não consta do texto analisado.


. Redução

É o oposto à extrapolação, pois se dá atenção apenas a uma parte ou a um aspecto do texto. Privilegia-se apenas um fato ou uma relação que pode ser verdadeira, porém insuficiente se levar em consideração o conjunto das idéias.


. Correlações indevidas

Apesar de as informações terem sido retiradas do texto, estão organizadas, na alternativa, de forma equivocada; faz-se uma fusão de idéias presentes no fragmento original, mas sem os vínculos necessários.


. Conexão

Reconstrói-se a idéia do texto, mas com o uso impróprio de conectivos (invertem-se causas e conseqüências; o que era provável, vira certo; o que era concessivo, toma-se como condição, etc.)


. Contradição

Uma das formas mais comum. Chega-se a uma conclusão que se opõe às afirmações do texto. Associam-se idéias que, embora presentes, não se relacionam entre si. Muitas vezes os testes de interpretação apresentam palavras e expressões do texto, relacionando-as de modo equivocado, usando, para isso, conectivos com sentido distinto.



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