Curso de filosofia



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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO PARANÁ

CENTRO DE TEOLOGIA E CIÊNCIAS HUMANAS

CURSO DE FILOSOFIA

Os fundamentos do CONHECIMENTO EM DAVID HUME(cap. I)

Curitiba

2004.

BENEDITO MAURILIO FAGUNDES

Os fundamentos do CONHECIMENTO EM DAVID HUME (cap.I)

Trabalho apresentado para a conclusão do curso de filosofia, obtenção de bacharelado e licenciatura, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Sob a orientação do professor Jair Barboza e professor de OTCC Kleber Kandioto



Curitiba

2004.

1 As origens das idéias de acordo com David Hume


Para David Hume, que é considerado o maior filosofo empirista de seu tempo, as nossas idéias não passam de simples copias de impressões, ou seja, é impossível pensar alguma coisa sem primeiro sentir. Ele divide as percepções em idéias e impressões de acordo com o seu grau de vivacidade. As impressões são as percepções mais fortes e vívidas, enquanto que as mais fracas são as idéias ou pensamentos. Todas as nossas idéias simples são, em sua primeira aparição, derivadas de impressões simples que lhes correspondem, e que representam de forma exata. Desse modo, a idéia de maçã é ordinariamente criada na mente por cópia da impressão de maçã, mais pode também ocorrer que seja composta a partir de algumas idéias mais simples (forma, cor, cheiro, etc), cada uma das quais copiadas de impressões semelhantes.

To­das as nossas idéias são cópias de impressões ou, em outras palavras, é-nos impossível pensar em algo que antes não tivéramos sentido, quer pelos nossos sentidos externos quer pelos internos. Tenho inten­tado explicar e provar esta proposição, e tenho também manifestado minhas expectativas de que, mediante sua adequada aplicação, se possa alcançar mais clareza e exatidão nos raciocínios filosóficos do que até agora se tem podido obter.(HUME, 1999,P. 75)

No caso da idéia de uma sereia, no qual pensamos que não existe uma impressão complexa que possa dar origem diretamente a esta idéia, ela pode ser formada por composição de idéias mais simples, como a de mulher e de peixe, que derivam de impressões semelhantes. “[...] o que é uma prova segura de que as idéias simples, compreendidas nas idéias complexas, foram ligadas por algum princípio universal que tinha igual influência sobre todos os homens” (ibidem, p. 40).

Segundo Hume, em sua obra investigações sobre o entendimento humano, todos nós admitimos sem problema nenhum que há uma diferença conside­rável entre as percepções do espírito e quando depois recorda em sua memória esta sensação ou a antecipa por meio de sua imaginação. Uma pessoa sente a dor do calor excessivo ou o prazer do calor moderado.

Estas faculdades podem imitar ou copiar as percepções dos sentidos, porém nunca podem alcançar integralmente a força e a vivacidade da sensação original. O máximo que podemos dizer delas, mesmo quando atuam com seu maior vigor, é que representam seu objeto de um modo tão vivo que quase podemos dizer que o vemos ou que o sentimos. Mas, a menos que o espírito esteja perturbado por doença ou loucura, nunca chegam a tal grau de vivacidade que não seja possível discernir as percepções dos objetos. Todas as cores da poesia, apesar de esplêndidas, nunca podem pintar os objetos naturais de tal modo que se tome a descrição pela paisagem real. O pensamento mais vivo é sempre inferior à sensação mais embaçada. (HUME, 1999, p.35)

E Hume prossegue afirmando em sua obra que podemos observar distinções semelhantes nas percepções do espírito. E o exemplo que ele cita é o de um homem a mercê de um ataque de cólera que é diferente de um outro que apenas pensa nessa emoção. "Se vós me dizeis que certa pessoa está amando, compreendo facilmente o que quereis dizer-me e formo uma concepção precisa de sua situação, porém nunca posso confundir esta idéia com as desordens e as agitações reais da paixão". (HUME, 1999, p. 35). O nosso pensamento é um reflexo fiel e copia dos objetos afirma o filosofo. Quando refletimos sobre as sensações e impressões que as cores são fracas e embaraçadas se comparadas como que reveste as nossas percepções originais. "Não é necessário possuir discernimento sutil nem predisposição metafísica para assinalar a diferença que há entre elas". (HUME, 1999, p. 35).

Hume divide as percepções do espírito em duas classes distintas levando em conta o grau de forca e vivacidade.

As menos fortes e menos vivas são geralmente denominadas pensamentos ou idéias. A outra espécie não possui um nome em nosso idioma e na maioria dos outros, porque, suponho, somente com fins filosóficos era necessário compreendê-las sob um termo ou nomenclatura geral. Deixe-nos, por­tanto, usar um pouco de liberdade e denominá-las impressões, empre­gando esta palavra num sentido de algum modo diferente do usual. Pelo termo impressão entendo, pois, todas as nossas percepções mais vivas, quando ouvimos, vemos, sentimos, amamos, odiamos, desejamos ou que­remos. (HUME, 1999, p. 35;36).

Podemos então usar um pouco de liberdade para denominar estas impressões empregando num sentido diferente e usual. "As impressões diferenciam-se das idéias, que são as percepções menos vivas, das quais temos consciência, quando refletimos sobre quais­quer das sensações ou dos movimentos acima mencionados". (HUME, 1999, p. 36). Nada pode parecer mais ilimitado do que o pensamento humano, e que nem sempre é reprimido dentro dos limites da natureza.

Formar monstros e juntar for­mas e aparências incongruentes não causam à imaginação mais em­baraço do que conceber os objetos mais naturais e mais familiares. Apesar de o corpo confinar-se num só planeta, sobre o qual se arrasta com sofrimento e dificuldade, o pensamento pode transportar-nos num instante às regiões mais distantes do Universo, ou mesmo, além do Universo, para o caos indeterminado, onde se supõe que a Natureza se encontra em total confusão. Pode-se conceber o que ainda não foi visto ou ouvido, porque não há nada que esteja fora do poder do pensamento, exceto o que implica absoluta contradição. (HUME, 1999, p. 36).

Dar ênfase a alguns temas fundamentais, isto é necessário para melhor compreender o pensamento de Hume. Ele divide as percepções da mente em impressões e idéias. As impressões são fortes, vivas; tenho agora a impressão de um livro aberto na minha frente, mas quando troco de lugar ou simplesmente tiro-o da minha frente, tenho apenas a lembrança, ou seja, a idéia dele. "O pensamento mais vivo é sempre inferior à sensação mais embaçada".(HUME, 1999, p. 36). Mas Hume não concorda com o fato de as idéias serem transformadas em percepção atual.

Na seção dedicada à origem das idéias, o filosofo confirma o seu empirismo. O movimento do nosso pensamento é derivado da sensibilidade. Sendo assim recebemos impressões através das idéias. No nosso pensamento não há nada de tão absurdo. Tudo o que pensamos está dentro dos limites da sensibilidade. Aqui Hume nos dá o exemplo de uma montanha de ouro, na qual não existe nada de extraordinário basta termos a impressão da montanha e do ouro, são duas idéias unidas (montanha e ouro).

Quando pensamos numa montanha de ouro, apenas unimos duas idéias compatíveis, ouro e montanha, que outrora conhecêramos. Podemos conceber um cavalo virtuoso, pois o sentimento que temos de nós mesmos nos permite conceber a virtude e podemos uni-la à figura e forma de um cavalo, que é um animal bem conhecido. Em resumo, todos os materiais do pensamento derivam de nossas sensações externas ou internas; mas a mistura e composição deles dependem do espírito e da vontade. Ou melhor, para expressar-me em linguagem filosófica: todas as nossas idéias ou percepções mais fracas são cópias de nossas impressões ou percepções mais vivas. (HUME, 1999, p. 36,37).

Hume não é um Newton (1643-1727), mas também não é um Berkeley (1684-1753) idealista de seu tempo. Analisando primeiramente a in­fluência da vontade sobre os órgãos do corpo, ele conclui que o eu berkeliano não existe. De acordo com o conhecimento não somos apenas um, ou seja, somos corpo e alma, observar o filosofo. De acordo com o movimento do nosso corpo temos então a consciência, que não pode ser prevista somente a partir da aparente energia ou poder.

Em primeiro lugar, indagamos se há em toda a natureza algum princípio mais misterioso que o da união da alma com o corpo, pelo qual uma suposta substância espiritual adquire influência sobre uma substância material, de tal modo que o pensamento mais refinado é capaz de mover a matéria mais grosseira? Se tivéssemos o poder, por um desejo secreto, de mover montanhas ou controlar os planetas em sua órbita, esta ampla autoridade não seria mais extraordinária e não ultrapassaria demais nossa compreensão. Mas, se a consciência nos fizesse perceber um poder ou uma energia na vontade, deveríamos apreender este poder; deveríamos entender sua conexão com o efeito; deveríamos conhecer a união oculta da alma e do corpo e a natureza destas duas substâncias, por meio da qual uma é capaz de agir, de tantos modos, sobre a outra. (HUME, 1999, p. 77).

O termo idéia nada mais é do que um recurso retórico de Hume, ou seja parece não haver fundamentação ontológica. “Pode-se conceber o que ainda não foi visto ou ouvido, porque não há nada que esteja fora do poder do pensamento, exceto o que implica absoluta contradição” (HUME, 1999, p. 35).

Quando Hume afirma uma espécie de idealismo, ou seja, penso numa montanha de ouro, é uma impressão que seja real. E como ele mesmo afirma, as idéias são copias. “Segundo, se ocorre [...] um cego não pode ter noção das cores nem um surdo dos sons” (HUME, 1999, p. 37). Afirma Hume, “Um lapão ou um negro, por exemplo, não têm nenhuma noção do sabor do vinho” (Idem). Seguindo a lógica de Hume fazemos a seguinte pergunta para afirmar o empirismo: De que impressão deriva esta idéia? Estamos aqui preparando o caminho para o empirismo.

    1. A idéia DE conexão NECESSÁRIA DE Hume


Todas as idéias derivam de impressões externas ou internas correspondentes, ou seja, todos os nossos pensamentos derivam das sensações. “[...] as im­pressões ou sensações originais das quais as idéias são cópias”. (HUME, 1999, p. 75). Hume demonstra que existem idéias que são abstratas por não possuírem suas respectivas impressões. Tais idéias são as de poder, força, energia ou conexão necessária entre dois eventos sucessivos. Segundo o nosso autor é impossível pensar em alguma coisa antes de ter sentido. É pelos nossos sentidos externos quer pelos internos, que buscamos mais clareza nas nossas idéias. As idéias complexas são entendidas por definição, composta por idéias simples. As impressões são todas idéias fortes e sensíveis, portanto não admitem ambigüidade e ainda pode iluminar suas idéias correspondentes que estão na obscuridade. “Para atingir um conhecimento total da idéia de poder ou de conexão necessária, devemos examinar sua impressão e, a fim de desvendar a impressão com maior segurança, busquemo-la em todas as fontes das quais ela possivelmente deve derivar”. (Idem)

Não há idéias mais obscuras e incertas em metafísica do que as de poder, força, energia ou conexão necessária, às quais necessitamos reportar-nos constantemente em todas as nossas inquirições. Tentare­mos, portanto, nesta seção, estabelecer e, por este meio, remover parte da obscuridade tão lamentada neste gênero de filosofia. (HUME, 1999, p. 75).

Hume afirma não haver conhecimento quando não há uma impressão correspondente a uma idéia. Torna-se impossível descobrir a conexão necessária existente entre uma relação de causa e efeito através da razão. Segundo o filosofo as idéias de metafísica são as mais obscuras e incertas. As de poder, força, energia ou conexão necessária, precisamos reportar-nos a elas constantemente em todas as nossas ações. Pode-se, portanto, afirmar com toda a segurança que todas as nossas idéias são cópias.

Hume divide as nossas idéias em duas categorias, ou seja simples e complexas. As idéias complexas são compostas de idéias simples. Para iluminar as idéias e fazê-las existir, é preciso produzir impressões ou sensações de onde deriva as idéias originais. “É preciso produzir as impressões ou sensações originais das quais as idéias são cópias”. (ibidem, p. 76). As idéias estão necessariamente unidas às impressões. Hume nos diz que são cópias ou imagens das impressões:

Parece que esta proposição não admitirá muita controvérsia: todas as nossas idéias são cópias de impressões ou, em outras palavras, é-nos impossível pensar em algo que antes não tivéramos sentido, quer pelos nossos sentidos externos quer pelos internos. (Ibidem, p. 75 ).

Hume divide as nossas idéias em duas categorias, ou seja simples e complexas. As idéias complexas são compostas de idéias simples. Para iluminar as idéias e fazê-las existir, é preciso produzir impressões ou sensações de onde deriva as idéias originais. “É preciso produzir as impressões ou sensações originais das quais as idéias são cópias” (Ibidem, p. 76).

Os mesmos termos, as mesmas idéias. “Um óvulo nunca se confunde com um círculo, nem uma hipérbole com uma elipse. Os triângulos isósceles e escaleno diferenciam-se por limites mais exatos que o vício e a virtude, o bem e o mal” (Ibidem,p. 74). Para Hume a natureza antepõe uma barreira a todas as nossas investigações o que nos leva a reconhecer a nossa ignorância.

O filósofo demonstra que de um único evento jamais poderemos descobrir o poder ou a conexão necessária que ligue a causa ao efeito, pois a partir da experiência sabemos que um objeto acompanha o outro em sucessão ininterrupta, porém não podemos conhecer a conexão responsável por este evento.

O impulso de uma bola de bilhar é acompanhado pelo movimento de segunda. Eis tudo que se manifesta aos sentidos ex­ternos. O espírito não sente nenhuma sensação ou impressão interna em virtude desta sucessão de objetos; por conseguinte, não há, num só caso isolado e particular de causa e efeito, nada que possa sugerir a idéia de poder ou de conexão necessária. (Ibidem, p. 76).

Para o autor podemos obter um novo microscópio ou sistema óptico para ampliar as ciências morais, ou seja, com este sistema podemos ampliar as idéias menores. E dessa forma podemos conhecê-las melhores tal como conhecemos outras idéias maiores. Os objetos não fornecem nenhuma idéia de poder ou conexão necessária. Sempre temos consciência do nosso poder interno, “pela mera ordem de nossa vontade, podemos mover os órgãos de nosso corpo ou governar nossas faculdades espirituais” (Ibidem, p. 77).



Hume exemplifica este fato dizendo que o calor é um acompanhante constante do fogo e que podemos perceber esta conjunção entre eles, mas jamais poderemos imaginar a conexão entre tal evento. ”Adquirimos assim a idéia de poder ou de energia e certificamo-nos que tanto nós como todos os outros seres inteligentes são dotados deste poder” (1999 p. 77). Ele admite a ignorância humana em relação à conexão entre sucessivos objetos ou eventos. Mas, segundo ele, os homens não encontram obstáculos para explicar tal conexão, afirmando perceber com exatidão a força da causa que a põe em conexão com o seu efeito.

As cenas do universo variam continuamente; e um objeto acompanha outro em sucessão ininterrupta; porém, o poder ou a força que move toda a máquina está completamente oculto de nós e nunca se revela em nenhuma das qualidades sensíveis dos corpos. Sabemos que, de fato, o calor é um acompanhante constante de chama, mas não temos ensejo para conjeturar ou imaginar qual é a sua conexão. (HUME, 1999, p. 77).

Portanto somos todos dotados de idéias de poder. Idéias reflexivas, ou seja, surgem a partir de uma reflexão das operações espirituais partindo de nossas vontades. “A vontade exerce tanto sobre os órgãos do corpo como sobre as faculdades da alma” (Idem). A influencia da vontade sobre os órgãos do corpo devem ser observada como qual outro evento natural e conhecida para experiência e nunca pelo poder. Se por um desejo tivéssemos o poder de mover montanhas e controlar planetas, não seria nada de extraordinário e não ultrapassaria a nossa compreensão. Mas devemos compreender a conexão de poder dado para consciência que é uma energia na vontade. Devemos então conhecer a conexão e o efeito, a união do corpo e da alma, da consciência e da natureza.

Para Hume temos procurado em vão uma idéia de poder ou de conexão necessária em todas as fontes de onde pudesse originar. Em toda a natureza não aparece um único exemplo de conexão passível de nossa concepção. Todos os eventos parecem inteiramente soltos e separados. Um evento segue o outro, porém jamais podemos observar um laço entre eles. Parecem estar em conjunção, mas jamais em conexão.

Esta influência, devemos observar, é um fato que, como todos os outros eventos naturais, uni­camente pode ser conhecida pela experiência e jamais pode ser prevista a partir da aparente energia ou poder situado na causa, unindo-a ao efeito e fazendo de um a conseqüência infalível da outra. O movimento de nosso corpo obedece à ordem da vontade. Disto temos sempre consciência. Mas o modo pelo qual isto se realiza, a energia conferida à vontade no desempenho deste processo tão extraordinário, distan­ciam-se de nossa consciência imediata e devem excluir-se para sempre de nossa mais diligente investigação. (ibidem, p. 77; 78).

Segundo David Hume a indução por repetição não tem nenhum fundamento racional, uma vez que a conexão entre os sucessivos eventos nos é desconhecida. Mas, de onde surge a idéia de conexão necessária que permite inferir indutivamente? Hume responde que após a repetição de casos semelhantes, o espírito é impelido pelo hábito ou costume a aguardar um evento quando surge o outro, sendo que esta transição costumeira de um objeto ao outro é a impressão que origina a idéia de conexão necessária e que permite uma inferência indutiva. “Se tivéssemos o poder, por um desejo secreto, de mover montanhas ou controlar os planetas em sua órbita, esta ampla autoridade não seria mais extraordinária e não ultrapassaria demais nossa compreensão” (1999, p. 78).

Para Hume se não conhecemos o efeito, não conhecemos e nem sentimos o poder:

Como, em verdade, poderíamos ser conscientes de um poder de mover nossos membros quando não temos um tal poder; mas apenas aquele de mover certos espíritos animais que, embora produzam em definitivo o movimento de nossos membros, agem de uma maneira que ultrapassa totalmente nossa compreensão? (ibidem, p. 79).

As nossas idéias podem ser copias, mais a idéia de poder não é copiada dos nosso sentimentos ou consciência. Não somos capazes de mover todos os órgão de nosso corpo afirma Hume. Movemos a língua, as mãos, os dedos do pé, etc, mas não conseguimos mover órgãos como o coração, fígado, estomago, etc. Somente a consciência por meio da experiência ensina as ações da nossa vontade. Não são os membros propriamente ditos que se movem, são apenas certos músculos e nervos. O movimento é objeto da volição. Atribuímos o poder a um grade numero de objetos.

Resumindo, todas as nossas idéias são copias de uma impressão ou sensação. Se não podemos localizá-la, podemos assegurar que não há idéia:

Em todos os casos isolados da atividade dos corpos ou espíritos, não há nada que produza uma impressão, nem, por conseguinte, que possa sugerir uma idéia de poder ou de conexão necessária. Mas quando aparecem vários casos uniformes, e o mesmo objeto é sempre seguido pelo mesmo evento, então começamos a admitir a noção de causa e de conexão. (ibidem, p. 88).

Sentindo um novo sentimento ou uma nova impressão, uma conexão costumeira no nosso pensamento. Este sentimento é a origem da idéia que procuramos. Como esta idéia nasce de vários casos semelhantes, por isso é necessário que seja individual.

Ora, esta conexão ou transição costumeira da imaginação é a única circunstância que os faz diferir. Em todos os outros aspectos eles são semelhantes. O primeiro caso que vimos do movimento comunicado pelo choque de duas bolas de bilhar – para retomar este exemplo evidente – é exata­mente semelhante a não importa que caso que pode, no presente, se apresentar a nós; excetuando apenas que, a princípio, não podíamos inferir um evento do outro, o que somos capazes de fazer agora, depois de tão extensa série de experiências uniformes. Não sei se o leitor apreenderá facilmente este raciocínio. Temeria tomá-lo mais obscuro e complicado se multiplicasse as palavras e o considerasse sob vários aspectos. Em todos os raciocínios abstratos há um ponto de vista que, se afortunada­mente o alcançamos, nos ilustra mais acerca do assunto que mediante toda a eloqüência do mundo. Devemos aspirar a este ponto de vista e reservar os floreios da retórica para oportunidade mais adequada. (idem).

“Tudo o que conhecemos é a nossa profunda ignorância e nada mais”, afirma Hume (1999, p. 84) em sua obra Investigação acerca do entendimento humano. Talvez não entendemos bem as nossas próprias atividades. Porém sabemos que a nossa ignorância é insuficiente para negar a existência de um criador, ou seja, de um ser supremo. Para o filosofo ainda não é possível formular a idéia de uma causa que não se revelou aos nossos sentidos internos ou externos. Por isso não temos uma idéia de conexão ou poder. Somente a experiência nos ensina a ação de nossas vontades.



1.2 associação de idéias

Na obra Investigação acerca do entendimento humano, Hume tenta definir os princípios do conhecimento humano. O livro apresenta de forma lógica as importantes questões sobre a natureza de todo raciocínio com respeito a matérias de fato e experiência, e resolve os problemas recorrendo à associação.

Os três princípios de associação de idéias são semelhança, contigüidade em tempo ou lugar e causa efeito. Exemplos: Semelhança: podemos pegar o exemplo de uma tinta qualquer. Para ilustrar a idéia de um ferimento pegamos a de cor vermelha. A idéia dela sobre a mão de alguém certamente passará a imagem de sangue; Contigüidade: podemos usar aqui a idéia da Torre Eiffel, em Paris, ela lembra Rio Sena, por estar próximo; Causa e efeito: a idéia de impacto sugere a idéia de barulho. No Tratado Hume fala da imaginação como a faculdade que associa idéias; o filosofo diz que elas são em grande parte desconhecidas, e têm de ser atribuídas às qualidades originais da natureza humana. “Uma bola de bilhar comunicaria movimento a outra ao impulsioná-la, e que não teríamos necessidade de observar o evento para nos pronunciarmos com certeza a seu respeito”. (HUME, 1999, p. 76).

Na seção III, desta obra, o autor se ocupa inteiramente com os princípios que rege a conexão entre as idéias múltiplas e pensamentos. Vejam só como ele ilustra estes exemplos de associação de idéias:

Um quadro conduz naturalmente nossos pensamen­tos para o original; quando se menciona um apartamento de um edifício, naturalmente se introduz uma investigação ou uma conversa acerca dos outros. E, se pensamos acerca de um ferimento, quase não podemos furtar-nos a refletir sobre a dor que o acompanha (HUME, 1999, p. 41).

A base de sua exposição é uma classificação binária dos objetos da consciência: impressões e idéias. O Conhecimento divide-se em impressões (que são dados fornecidos pelos nossos sentidos tanto internos e externos, a percepção de um estado de tristeza, quanto externos, como a visão de uma paisagem) e idéias (representações da memória das impressões). “Todas as nossas idéias ou percepções mais fracas são cópias de nossas impressões ou percepções mais vivas”. (HUME, 1999, p. 75)

Para o Hume as impressões é o que tenho de mais vívido em minha mente. Elas são as percepções dos sentidos. No momento em que ocorrem, isto é, aquilo que vejo, aquilo que ouço, e tudo aquilo que os sentidos produzem em mim e o que é mais forte em minha mente. São os prazeres e as dores.

Certamente, irritareis mais do que tranqúilizareis um homem ator­mentado pelas dores da gota, fazendo-lhe sermões sobre a retidão destas leis gerais que produziram os humores malignos no seu corpo e os levaram através de canais adequados até aos tendões e aos nervos onde agora provocam estes agudos tormentos (HUME, p. 105 )

As idéias são reproduções, são cópias das impressões. Se penso no sabor da maçã, essa idéia não é tão forte quanto saborear a maçã e ter a impressão viva do seu sabor. Não encontro impressões complexas, mas idéias sim, existem simples e complexas. “As idéias complexas podem, talvez, ser bem entendidas por definição, consistindo na enumeração das por­ções ou idéias simples que as compõem”. (HUME, 1999, p. 76) Minha idéia de uma maçã é uma idéia complexa cujas idéias simples são o vermelho, sua textura crespa, sabor doce, etc. A idéia do triângulo plano, por exemplo, inclui a igualdade dos seus ângulos internos a dois ângulos retos, e a idéia de movimento contem a idéias de espaço e tempo, não importando se realmente existe tais coisas como triângulos e movimentos. “Os triângulos isósceles e escaleno diferenciam-se por limites mais exatos que o vício e a virtude, o bem e o mal” (Ibidem, p.74).

Hume ressalta que cegos e surdos de nascença não possuem esses caracteres, ou seja, não têm idéias correspondentes às cores ou aos sons, e para ele um ser completamente desprovido dos sentidos jamais seria capaz de qualquer conhecimento.

A audição de uma voz articulada e de uma conversa racional na obscuridade nos dá segurança sobre a presença de alguma pessoa. Por quê? Porque estes sons são os efeitos da constituição e da estrutura do homem e estão estreitamente ligados a ela. (Ibidem, p. 49).

As idéias podem associar-se por semelhança (entre as impressões que representam), contigüidade espacial e temporal, e causalidade. “É-nos suficiente presentemente ter estabelecido esta conclusão: os três princípios de todas as idéias são as relações de semelhança, de contigüidade e causalidade”. (ibidem, p. 47 ) As coisas não são como queria Aristóteles, possuidoras de uma essência, mas cada coisa é composta de outras coisas. De acordo com Hume, quando examinamos nossa idéia de uma coisa individual, tudo que encontramos são as idéias simples que se juntam para formar uma idéia complexa.

As idéias mais complexas quase se correspondem entre si, o que é uma prova segura de que as idéias simples, compreendidas nas idéias complexas, foram ligadas por algum princípio universal que tinha igual influência sobre todos os homens (ibidem, p. 39)

Ele mudou a atenção da filosofia das substâncias e propriedades próprias, para as relações. Tomando, por exemplo, duas maçãs, uma é mais vermelha que a outra, uma está mais próxima de mim, provando as duas uma é doce, a outra menos, maior e menor, etc.

Tudo que a mente contem são, em primeiro lugar, ou impressões, dados finais da sensação ou da consciência interna, ou idéias, derivadas dos dados por composição, transposição, aumento ou diminuição. Isto equivale a dizer que o homem não cria qualquer idéia. Disto Hume infere uma teoria do significado, uma palavra que não corresponde diretamente a uma impressão e só tem significado se ela traz à mente um objeto que pode ser apreendido de uma impressão por um dos processos mentais mencionados (processos associativos). “Os princípios associativos baseiam-se na “relação natural”, pois decorrem da propensão da imaginação de efetuar a fácil transição de uma impressão para uma idéia, ou de uma idéia para outra idéia” (Ibidem, p. 40).

Para Hume os princípios de associação são produtos de relações naturais. E num plano filosófico é o resultado de relações de idéias. Contigüidade e semelhança identificam-se nas relações naturais. E no âmbito das relações filosóficas a relação de causa e efeito se reduzem às relações de idéias.



Note-se que Hume não distingue o sentimento como uma forma particular de conhecimento. Todos os objetos da consciência são ou relações de idéias ou matérias de fato como impressões. O filosofo confiantemente afirma que num processo o aspecto de clareza e vivacidade é próprio da impressão que infecta a idéia. “Um homem de modos grosseiros pode revelar vivacidade incomum ao seu comportamento porque recebeu de repente uma grande fortuna” (Ibidem, p. 94)




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