Curso de Formação de Formadores para Gestão de Políticas Públicas no Sistema Público de Emprego e Renda



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Curso de Formação de Formadores para Gestão de Políticas Públicas no Sistema Público de Emprego e Renda







Módulo A – Aula 3- Transformações no trabalho e na sociedade

Taylorismo e Fordismo

Inovações tecnológicas e novas formas de gestão do trabalho1




Ruy Moreira2

Nosso cotidiano atual está invadido de expressões indicativas de que o mundo entra neste final de século XX num novo período de estruturação da técnica e de alinhamento das relações entre capital e trabalho. Fala-se em uma nova revolução industrial.

O objetivo deste texto é analisá-lo no contexto das transformações análogas já havidas n tempo e, assim, avaliar suas implicações, em particular no mundo da técnica e do trabalho.
1. Os parâmetros de uma Geografia da Técnica e do Trabalho
Este é um tema de alto interesse do geógrafo. Cada tempo de historia é marcado por um período técnico ao qual corresponde um período de formas de organização e gestão do trabalho. A interligação entre o período técnico e o período de trabalho que lhe corresponde da origem ao paradigma da relação homem-meio do tempo. É este paradigma o que vemos na forma da paisagem tanto micro da empresa, quanto macro da organização espacial das sociedades. Consagrou-se na fase histórica moderna, correspondente à historia do capitalismo, designar esses períodos de revolução industrial. A cada qual corresponde uma forma paradigmática de organização espacial da sociedade.

Dessa maneira, desde que entrou na sua fase industrial, a historia do capitalismo conheceu duas distintas formas paradigmáticas de espaço. Estamos, neste momento de final de século XX, a caminho de conhecer a terceira.


2. As três revoluções industriais
A primeira revolução industrial ocorre na Inglaterra no século XVIII (1780-1830). A Inglaterra é o primeiro país a passar por essa revolução paradigmática e, assim, a organizar-se maduramente no seu padrão.

Por volta de 1830, a Primeira Revolução Industrial se completa na Inglaterra, e migra para o continente europeu. Chega à Bélgica e França, paises próximos do arquipélago britânico. Por volta dos meados deste mesmo século XIX, atravessa o Atlântico e ruma para os Estados Unidos. E, no final do século, retorna ao continente europeu para retomar o fio tardio na Alemanha e na Itália e, ao mesmo tempo, saltar terras e mares para chegar ao Japão.

Quando chega aos Estados Unidos e países do capitalismo tardio (Alemanha, Itália, Japão), a Primeira Revolução Industrial já está cedendo lugar à Segunda Revolução industrial, de modo que o sistema industrial desses países vai combinar às características da primeira, elementos característicos da Segunda.

A Segunda Revolução industrial começa no final do século XIX, por volta de 1870. Mas a transparência de um novo ciclo só se dá nas primeiras décadas do século XX. O século XIX transita para o século XX governado por essa transição de um período técnico e de trabalho para outro, o da primeira para a Segunda revolução Industrial. É por isso que a Segunda Revolução Industrial é tomada como um fenômeno muito mais dos Estados Unidos que dos países europeus.

É esta segunda revolução industrial que está por trás de todo desenvolvimento técnico, cientifico e de trabalho que ocorre nos anos da primeira e principalmente da segunda guerra mundial.

A segunda grande guerra é o grande impulsionador da sua expansão e mundialização. As necessidades bélicas empurraram a tecnologia da Segunda revolução Industrial a se desenvolver tão rapidamente, que nem bem a guerra termina e as velhas indústrias da Primeira Revolução Industrial já começam sua migração dos Estados Unidos, da França, da Alemanha, da Inglaterra e do próprio Japão para os países então ainda agrários. É a vez de se industrializarem a América latina, a Ásia e mesmo países da África. Assim, estes países se industrializam misturando paradigmas da primeira e da segunda revolução industrial.

A década de 50 marca a chegada da revolução industrial ao Brasil. A indústria fabril já aparece no Brasil no final do século XIX. São indústrias que vão aparecendo em São Paulo, Porto Alegre, Rio de Janeiro, típicas ainda da Primeira Revolução industrial, com incorporações de poucas das características do metabolismo, fisiologia, organização e administração da Segunda Revolução industrial. É só na década de 50 que a revolução industrial vai realmente se instalar no Brasil (idem para América Latina, Ásia e partes da África) e incorporar toda a sociedade ao sistema de economia.

Quando a segunda revolução se instala entre os países do chamado Terceiro Mundo, o mundo industrial já manifesta os sinais da Terceira revolução industrial. E chega assim com características misturadas da segunda com a terceira revolução industrial. De modo que, quando a segunda Revolução Industrial chega ao Brasil, os Estados Unidos já estão começando a produzir o computador, que é o elemento característico de sinalização de um terceiro ciclo de revolução industrial, a terceira revolução paradigmática. Hoje, quando o Brasil se torna um país industrializado, seu sistema industrial combina elementos característicos da técnica e do trabalho da Segunda Revolução Industrial. Uma visita à Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) nos põe diante de uma fábrica povoada por todo um maquinário próprio da Segunda Revolução industrial, mas gerida e coordenada por computadores, uma tecnologia identificadora da Terceira Revolução industrial. E veremos a CSN já organizar-se em termos de TQC, CCQ, JIT, formas características da gestão do trabalho correspondentes ao novo período técnico. Fala-se de uma “japonização” da CSN, indicando-se com isso o Japão como o país que encarna a Terceira Revolução Industrial, assim como o Estados Unidos encarnaram a Segunda e a Inglaterra a Primeira. Porque, embora os prenúncios apareçam nos Estados Unidos, é no Japão que a Terceira Revolução Industrial realmente se materializa, estrutura-se e toma o rumo da mundialização.


3. A Primeira Revolução Industrial e o paradigma manchesteriano
O ramo característico da Primeira Revolução Industrial é o têxtil de algodão. Ao seu lado, aparece a siderurgia, da a importância que o aço tem na instalação de um período técnico apoiado ma mecanização do trabalho.

Entretanto, só no contexto da Segunda Revolução industrial a siderurgia e o aço adquirirão significado e expressão proeminentes. Daí que seja o ramo têxtil a face característica mais própria da Primeira Revolução industrial.

A classe trabalhadora típica desse período técnico e de trabalho é pro isso o operariado das fabricas têxteis.

O sistema de técnica e de trabalho desse período é o paradigma manchesteriano, nome dado por referencia a Manchester, o centro têxtil por excelência representativo do período e que iria manter-se como pólo industrial de importância mesmo quando, ao entrar no período da Segunda Revolução industrial, o sistema industrial inglês se diversifica e muda de centro de gravidade.

A tecnologia característica é a máquina de fiar, o tear mecânico, o descaroçador de algodão, máquinas movidas a vapor originadas da combustão do carvão, a forma de energia por excelência do período técnico. O sistema de transporte característico é a ferrovia, além da navegação marítima, também movida a energia do vapor do carvão.

A primeira Revolução industrial tem grande impacto sobre a sociedade. Grande, mas não tão gigantesco. A nova técnica e forma de trabalho produzem um agito social que abala toda a velha estrutura social. Fora das cidades industriais, entretanto, ainda por muito tempo predominaria na Inglaterra, no continente europeu e nos Estados Unidos a paisagem típica da sociedade rural. Situação que só mudaria a olhos vistos no contexto do período técnico e de trabalho da Segunda Revolução Industrial.

A base do sistema manchesteriano é o trabalho assalariado, cujo cerne é o trabalhador por oficio. Um trabalhador qualificado e geralmente pago por peça. Trata-se de uma estrutura de trabalho egressa dos tempos da manufatura, em que ao lado do trabalhador de oficio se põe o trabalhador não qualificado, aquele centrando todo o sistema da produção e organização do trabalho.

Uma característica básica dessa organização do trabalho é a porosidade, isto é, a grande quantidade de tempos de interrupção que o trabalhador precisa fazer no seu trabalho. Uma vez que realiza seu trabalho utilizando diversos tipos de ferramenta e executa sua função se deslocando entre diferentes pontos da fabrica, o trabalhador de oficio é obrigado a interromper seus movimentos para pegar esta ou aquela ferramenta, este ou aquele material que manipula como matéria-prima, bem como deslocar-se entre este e aquele lugar aonde vai executar sua ação. Este espaço de tempo que medeia entre uma parada e outra é um poro, sendo comum um dia de trabalho ser intercalado de muitos poros. Ao final da jornada, essas interrupções soam um tempo parado expressivo que interfere no ritmo e na velocidade do desempenho do trabalho, influindo determinantemente no custo e na produtividade do sistema.

É um trabalho pesado, estafante e extremamente insalubre, por realizar-se em prédios em geral sem luminosidade e ventilação mínimas, numa jornada que se alonga às vezes por mais de 12 horas. Os espaços entre as maquinas são exigidos e seu movimento ininterrupto freqüentemente produz acidentes corporais fatais a uma massa trabalhadora predominantemente de mulheres e crianças, tomada como culturalmente mais dócil que os homens adultos e desassistida de qualquer meio de proteção e indenização por mutilações do trabalho.

O elemento articulador das relações e determinador da distribuição da riqueza social produzida é a relação do mercado. O Estado deixa a regulação da economia para as regras do mercado e só intervém no plano geral do sistema. Esse sistema de economia de mercado apoiado na produção industrial pede uma escala geográfica de horizontes mais amplos e é por isso que a primeira Revolução Industrial se confunde com a primeira grande arrumação interligada das regiões econômicas do mundo.

A interligação é promovida pela Inglaterra, que se põe no seu centro como fornecedor de bens industriais e faz do mundo a sua periferia fornecedora de bens primários. Trata-se de uma divisão internacional de trabalho que atua como base de sustentação de uma relação internacional de troca entre produtos manufaturados e produtos de matérias-primas e alimentos e que divide os países do mundo segundo o lado da troca que se ponham.

A relação de mercado regula, assim, desde o nível salarial dos patrões e empregados até a formação e redistribuição dos lucros entre as empresas em sua competição nos mercados local, nacional e internacional.

Todavia, esta é uma imagem um tanto simplificadora do sistema. Dado a escala técnica dos equipamentos mecânicos, o pressuposto do acesso à propriedade fabril é um mínimo de acumulação previa de capital em forma de dinheiro. O que põe uma fase de expansão mercantil anterior, na origem, e depois da ocorrência da revolução industrial. Muitos são os comerciantes que depois de acumular nesse setor, investem no setor industrial e se tornam industriais. Isto divide de antemão a sociedade em capitalistas e trabalhadores assalariados. Quando a revolução industrial ocorre, o sistema encontra-se já estruturado em termos de economia de mercado e então que esta economia de mercado se desenvolve ainda mais. Diz-se liberal esta forma de regulação, porque neste período técnico e de trabalho impera a regra do liberalismo político (o Estado só atua no plano do funcionamento geral do sistema do capitalismo) e econômico (as relações entre patrões e empregados são diretas e são livres as disputas de mercado).

Seus grandes teóricos são os economistas clássicos Adam Smith (teórico da regulação espontânea do mercado: a mão invisível) e David Ricardo. Mas o que realmente forma a raiz da presença reguladora do mercado é a grande diversidade de empresas de todos os portes competindo entre si, e que leva o sistema a ser também chamado de capitalismo concorrencial. A extraordinária produtividade em que ele se apóia vem do emprego da máquina e igualmente do imenso exército de reserva de trabalhadores aglomerados nos bairros operários das cidades, formado de camponeses expulsos do campo pela expropriação fundiária. Origem, a despeito do discurso liberal, de um contraste entre a enorme riqueza industrial e a igualmente enorme miséria social da massa trabalhadora. Situação que gera de um lado a violência da repressão do Estado e patronal e de outro a seqüência de respostas dos trabalhadores que vai do movimento da quebra das máquinas de 1830 na Inglaterra (luddismo), à criação dos sindicatos como instrumentos de sua defesa. E que mergulha a cidade da Primeira revolução Industrial num permanente estado de tensão urbana.


4. A Segunda Revolução Industrial e o paradigma fordista
A Segunda Revolução Industrial tem suas bases nos ramos metalúrgico e químico. Neste período, o aço torna-se um material tão básico que é nele que a siderurgia ganha sua grande expressão. Fala-se de uma era de aço, assim como a Primeira Revolução Industrial foi a era dos têxteis. A imagem da Segunda revolução Industrial está associada à industria automobilística, ramo dependente dos ramos básicos, mas que assumirá o centro de gravidade desse período técnico.

O trabalhador típico desse período é o metalúrgico, tipo de operário que se encontra espalhado pelos ramos metalúrgico, metal-mecânico e eletromecânico.

O sistema de técnica e de trabalhão desse período é o paradigma fordista, termo que remete ao empresário Ford, criador na sua indústria de automóveis em Detroit, Estados Unidos, este sistema que se tornaria o paradigma de regulação técnica e do trabalhão conhecido em todo o mundo industrial.

A tecnologia característica desse período é o aço, a metalurgia, a eletricidade, a eletromecânica, o petróleo, o motor a explosão, a petroquímica. A eletricidade e o petróleo são as formas de energia que movimentam as máquinas e um sistema de transporte de grande rapidez e capacidade de deslocamento, no qual a rodovia e navegação aérea vêm se somar à ferrovia e à navegação marítima.

A segunda muda e transforma por interior o espaço e a sociedade. O aço é a base de tudo ao lado de outros metais que abrem o leque do ramo da metalurgia. A eletricidade desenvolve a indústria eletromecânica e leva o homem a vencer as distâncias. Os cabos de eletricidade substituem as polias dentro das indústrias e abrem espaços que as tornam mais iluminadas e respiráveis. A indústria se automatiza. Por sua vez, o petróleo dá origem ao motor de explosão e adiciona às indústrias metalúrgicas o ramo da petroquímica.

A Primeira Revolução Industrial cientificamente se baseou na física. Por força do petróleo, a Segunda Revolução indústria vai se apoiar na Química. Encarnando a novidade da automação, Ford cria a linha de montagem apoiada numa esteira rolante, a linha de montagem, típica do fabrico de automóveis, é o processo técnico que ficara registrado como a forma mais característica de automação, com a qual de introduz na indústria a produção padronizada, em serie e em massa.

O efeito sobre a organização do trabalho é ode uma radical reestruturação. Com o fordismo, um trabalhador desqualificado surge no lugar do velho trabalhador de oficio com função puramente de executar dentro da fabrica uma tarefa de trabalho específica, simples e integrada, que qualquer trabalhador pode realizar em um tempo curto e repetidas vezes com grande ritmo de velocidade. O trabalhador qualificado por oficio do paradigma manchesteriano desaparece para dar lugar ao trabalhador de tarefas especializadas e que não necessita de qualquer qualificação profissional.

A lógica dessa especialização desqualificação é a especialização produtiva da maquina que surge dentro do trabalho automatizado. É a máquina desenhada para o fabrico de um só produto realizando movimentos padrões determinados.

Máquina que produz sapato, só produz sapato; não serve para o fabrico de outro tipo de produto. O trabalhador acompanha essa especialização: em função do produto, especializa-se a máquina-ferramenta e em função da máquina-ferramenta especializa-se o trabalhador.

Cria-se assim uma tecnologia de altíssima capacidade de produzir volume de produtos, porém rígida. Uma rigidez que se transmite ao exercício do trabalho. O exemplo é a esteira da linha de montagem do automóvel. Ao longo da rolagem da esteira o automóvel vai sendo montado peça-a-peça. Começa numa ponta com a primeira peça, à medida que a esteira se desloca, as peças vão se juntando uma às outras, até que ao final se junta a última peça e o automóvel está pronto. Os trabalhadores ficam dispostos ao longo da esteira rolante, cada qual num posto de trabalhão (daí a origem desse termo e da expressão “eliminação de postos de trabalho” usada em época de desemprego), esperando com uma peça na mão que chegue até ele o conjunto de peças já acopladas para que junte a peça que lhe cabe e a esteira siga para diante onde oura peça será juntada, tudo seguindo um ritmo de velocidade acelerada e ininterrupta. Uma função mecânica, extenuante e para a qual não se precisa pensar. Pensar é a função de um especialista, o engenheiro, que planeja para o conjunto dos trabalhadores dentro do sistema da fabrica.

Temos aqui a principal característica do período técnico da segunda revolução industrial: a separação entre a concepção e execução, separando quem pensa (o engenheiro) e quem executa (o trabalhador massa). É, pois o taylorismo o que está na base do fordismo. É criação do taylorismo e não do fordismo, essa série de segmentações que quebra e dissocia o trabalhão em aspectos até então organicamente integrados a partir da separação entre o trabalhão intelectual e o trabalhão manual.

Observando o sistema do trabalho existente nas industrias dos Estados Unidos do final do século XIX, e notando sua porosidade, Taylor elabora um sistema que designa de Organização Cientifica do trabalho (OMT). Consiste esta organização em separar o trabalho de concepção e o trabalho de execução, com o intuito de, a um só tempo, retirar dos trabalhadores de oficio a autonomia do paradigma manchesteriano de que ainda desfrutam dentro do trabalho fabril e, assim, submetê-los a forte controle patronal por meio dos seus engenheiros; em passar para a classe patronal e seus engenheiros a função de pensar e deixar para a massa dos trabalhadores a função exclusiva de executar, desqualificando e massificando o trabalho e qualificando o capital.

Os alvos são os movimentos gestuais do trabalhador e as ferramentas que utiliza. Para isso, o trabalho manual é reduzido ao máximo da sua simplificação. Gestos e ferramenta são decompostos e reduzidos em seus aspectos mais simples, de modo a poderem ser reduzidos à especialização mais absoluta. O trabalhador fica limitado a uns poucos movimentos corporais e ao uso de poucas ferramentas a eles correspondentes. E o trabalho é transformado numa rotina de repetição ao infinito dos mesmos gestos e numa cadencia de velocidade crescente.

É então que se institui como regra a relação de especialização produto-ferramenta-trabalhador, que Ford apensa aperfeiçoa com alinha de montagem. Ford parte da padronização, desqualificação e massificação do trabalho, com seus corolários no salário padrão, tarefa padrão, horário padrão com os quais a regulação taylorista extingue o salário por peça, o trabalho por oficio e a porosidade do trabalho do paradigma anterior e os simplifica nos processamentos produtivos de sua fabrica automobilística. E assim, cria o sistema que se difundirá com o seu nome para ser o paradigma técnico e do trabalho de todo o período da Segunda Revolução Industrial.

Daí o trabalho taylorista ser especializado, fragmentado, não-qualificado, intenso, rotineiro, insalubre e hierarquizado. Sobretudo hierarquizado. Há um engenheiro em cima, projetando no escritório, para que os de baixo executem no chão da fabrica. Para que chegue aos trabalhadores de execução, o projeto deve passar por toda uma rede intermediaria de chefias. A fabrica é dividida em vários setores, cada setor tendo um chefe. Se o número de trabalhadores do setor é grande, as chefias são divididas em comando de grupos de quatro ou cinco trabalhadores de execução. O resultado é uma rede hierarquizada de chefias que às vezes chega a atingir um quinto ou um quarto do número de trabalhadores envolvidos na tarefa da produção da fabrica. O projeto é explicado em cima pelo engenheiro e a explicação percorre de chefe a chefe até que sua compreensão chegue ao executor. Tal hierarquia dita engenharia gerencial, implica uma face da vigilância que é quase condição da organização do trabalho do período técnico e do trabalho da segunda Revolução Industrial e uma de suas mais fortes características.

O investimento nas empresas da Segunda Revolução Industrial é, por isso, muito alto.

A começar pela grande soma de tempo e de recursos em pesquisas necessárias à geração da sua tecnologia. É por isso que no centro desse período técnico estão a ação do Estado e o poder dos monopólios. Grandes empresas estatais e privadas dominam o sistema econômico no seu todo, da escala nacional à internacional, e a escala local praticamente desaparece.

Todo esse sistema se baseia no consumo nos recursos do subsolo. Um consumo de recursos numa escala que não se supre apenas explorando-se o sub-solo nacional. Por isso, cada país que se industrializa depende e disputa o domínio do mercado mundial de matérias-primas. Motivo pelo qual a Segunda Revolução industrial é o período da divisão do mundo em pedaços imperiais das grandes potências industriais, o império inglês, francês, belga, alemão e, logo a seguir, o americano e o japonês. E se torna a era do imperialismo. Donas dos pedaços geopolíticos voltados para assegurar-lhes a reservas de recursos minerais, energéticos e os complementos madeireiros e agroanimais que suas indústrias precisam, as grandes potências engolem o mundo.

Morre então o liberalismo clássico de Adam Smith e Ricardo como ideologia de época. E, após o interregno do liberalismo neoclásssico Walrasiano (1870-1930), é substituído pelo Keynesianismo, o discurso macroeconômico do monopolismo empresarial e do Estado que passa a vigorar após 1930.

A presença das matérias-primas e fontes energéticas vindas do subsolo é tal nesse período, que se pode afirmar que a Segunda Revolução Industrial ergue uma civilização geológica. É assim um paradigma de relação homem-meio que se distingue radicalmente na paisagem geográfica daquele que vimos no período técnico e de trabalho da Primeira Revolução industrial. Uma vez que o ramo básico da Primeira Revolução industrial é a indústria têxtil, as matérias-primas são, sobretudo oriundas do mundo vivo.

Isto gera um paradigma de natureza e ambiental fortemente impregnado de uma noção ainda vegetal e animal de mundo. Por sua vez, tendo por ramos básicos as indústrias altamente consumidoras de recursos vindos do subsolo, a Segunda Revolução industrial dá origem a um paradigma de natureza e ambiental inorgânico. Situação que suprime de vez a idéia do mundo como natureza viva, e ergue como cosmologia um mundo essencialmente físico-químico e mecânico. Um mundo que a extrema divisão técnica do trabalho se incumbe de quebrar em tantos pedaços, que a fragmentação passa a ser a mais marcante das características desse paradigma. Povoam-nos os fragmentos da pedagogia, da geologia, da climatologia, da geomorfologia, da física, da química, com seus montes de rochas, águas, nuvens, climas, solos, rios, corpos, substancias e moléculas. Coisas não-vivas.

É sob o paradigma que se arrumam os espaços do mundo. Os campos se descampesinam e as cidades se povoam de proletários. A agricultura se mecaniza e as áreas se especializam. A distribuição cidade-campo da população se inverte e a humanidade se urbaniza. O visual das chaminés fumegantes invade a s cidades poluídas e os territórios antes agrários. As velhas civilizações se incorporam na cultura técnica do novo período.

Da cidade ao campo, o mundo como um todo espelha o paradigma industrial, porquanto as regras tayloristas-fordista da regulação técnica e de trabalho extrapolam a fabrica e passam a ser norma de organização e administração dos espaços do mundo. Na cidade, a arquitetura, o trânsito, os hospitais, os cemitérios, as escolas, o urbanismo, tudo passa se organizar de modo padrão, em série e em massa, de acordo com os termos da organização e administração taylorista-fordista. E logo esta norma se passa aos vastos espaços rurais, regionais, nacionais e ganha o mundo.

Toda essa seqüência de metamorfose repercute no mundo do trabalho afetando no seu todo a vida e as ações da classe trabalhadora. A reação ao taylorismo-fordismo inicial é de perplexidade. A seguir, a classe trabalhadora assimila e faz da ação sindical sua forma mais poderosa de movimentação.

Paradoxalmente, o sindicato tira beneficio do próprio fordismo. Ao massificar e concentrar os trabalhadores em um só lugar, o fordismo facilita a organização sindical. Do chão fordista, um sindicalismo de massas emerge com um pé na fabrica e outro no mundo de massa urbana da cidade. Aí, se confunde à cultura de massa engendrada pelo fordismo, com sua programação via imprensa de massa formal (jornal, televisão) da produção e consumo em padrão, em série e em massa. Arrancando com sua força aglutinada salários, previdência, direitos de trabalho, formas de contrato coletivo, qualidade de habitação, o sindicato de massa muda e recria a condição de vida urbana do período da Segunda revolução Industrial.
5. A Terceira revolução Industrial e o paradigma toyotismo
O século XX termina com a crise do paradigma taylorista-fordista. No lugar do seu sistema rígido de regulação técnica e do trabalho, vai surgindo o flexível da terceira revolução industrial baseada no TQC, CCQ, JTT, Kanban, reengenharia. Expressões paradigma em formação.

Os ramos básicos da terceira revolução industrial são os ligados à microeletrônica. Mas assim como no caso da segunda revolução, é a industria automobilística o ramo que fornece o paradigma técnico e do trabalho. Denomina-se toyotismo, nome tirado da fabrica Toyota.

Na base do toyotismo, esta a crise do taylorismo. Crise que vem de dentro das suas próprias características. Na medida em que retira do trabalhador aquilo que é mais próprio do ser humano, a capacidade de criação, o taylorismo torna-se um sistema de trabalho rígido, cujos efeitos cedo vêm à tona. Qualquer pequeno problema de programação, por exemplo, se converte na execução em defeito do produto. E por mais que se tente, mostra-se um problema sem problema, uma vez que no fundo o que está vindo à tona é o efeito da iniciativa tirada do trabalhador de execução. Mesmo que este trabalhador perceba o problema com antecipação, nada pode fazer na linha de montagem diante de um sistema que já vem programado de cima para ser processado como movimento monolítico por baixo dentro da fabrica. A conseqüência é o acúmulo crescente de peças fabricadas com defeito, o que eleva os custos e rebaixa a produtividade do sistema industrial. Problema de performance econômica que se agrava com a rotatividade do trabalhador, a baixa à enfermaria, a falta ao trabalho provocado pelo cansaço, desgaste físico, exaustão nervosa, a rotina.

Todo este problema cedo fica claro em todos os países de economia industrial. Mas, é no Japão que a possibilidade de enfrentá-la por primeiro aparece. Destruídos pelos bombardeios da segunda grande guerra, o sistema industrial japonês teve de ser completamente recriado. O novo sistema industrial que se ergue aparece mesclando características do período técnico e do trabalhão da segunda revolução industrial e as que prenunciam o novo período técnico e do trabalho da terceira revolução industrial. A solução vem dessas últimas.

A tecnologia característica desse período que se inicia é a microeletrônica, a informática, a máquina CNC (controle numérico computadorizado), o robô, o sistema integrado, a telemática (telecomunicações informatizadas), a biotecnologia. Sua base mistura a física, a química, a Engenharia e a Biologia Molecular. Mas dessa tecnologia faz parte também um conjunto de novos materiais em particular os semicondutores, importante na montagem do próprio sistema tecnológico.

O computador ocupa o lugar central. O computador é uma máquina, mas de um novo tipo. A máquina paradigmática das duas revoluções industriais anteriores é uma maquina de movimentos rígidos e incapaz da mínima reciclagem que, no decurso da produção, se faça necessário. O computador, ao contrário, é uma máquina flexível. Composto de duas partes, o hardware (a máquina propriamente dita) e o software (o programa), o computador é uma máquina inteligente. O hardware e o software se integram sob o comando do chip, o que faz do computador, ao contrário da máquina comum, uma máquina reprogramável e mesmo autoprogramável, bastando para isso que se troque o programa ou se monte uma programação adequadamente intercambiável.

O fato é que, com o computador a cadeia do processamento produtivo pode ser reprogramada em pleno andamento da produção, reciclada de acordo com a necessidade da reorientação. Possuidor dessas características, o computador vai se tornando no correr dos anos 60-70 a máquina por excelência da organização das empresas no Japão.

A organização do trabalho sofre profunda reestruturação. Uma conseqüência imediata do emprego do computador é a reaproximação entre o trabalho de concepção e o trabalho de execução. E que vai ser uma característica central do novo paradigma.

Disso resulta um sistema de trabalho polivalente, flexível, integrado em equipe, menos hierárquico. Computadorizada, a programação de conjunto é passada a cada setor da fabrica para discussão e adaptação em equipe (CCQ), convertendo-se num sistema de rodízio de tarefas que restabelece a possibilidade da ação criativa dos trabalhadores ao nível de setor.

Para efetivar a flexibilização do trabalho de execução, distribui-se pelo espaço da fabrica um sistema de sinalização semelhante ao do tráfego. Uma luz verde indica fluxo aberto á produção; outra, amarela indica que os trabalhadores devem atuar em permanente atenção aos movimentos de conjunto da fábrica; a luz vermelha dá o sinal de interrupção quando aparecem problemas, como o de reorientação do processamento que contorne possíveis defeitos de peça ou de montagem. Comando pelo computador, o processamento é interrompido e retorna seu fio do mesmo automático. Com isso, reaparece em alguns níveis o trabalhador qualificado. Os trabalhadores são reintroduzidos parcialmente no gerencialmente da empresa. Elimina-se pela engenharia grande parte de rede de chefias.

Todavia, os problemas de esgotamento e extenuação do trabalhador ainda mais se ampliam em relação ao sistema fordista. Com o sistema de trabalho toyotismo se dá em rodízio dentro do setor para o fim de alternagem das tarefas, cada trabalhador passa a operar com duas ou três máquinas de uma só vez, resultando um grau ainda maior de estresse.

A flexibilização técnica e do trabalho, entretanto, flexibiliza no todo o sistema econômico, sobretudo a relação entre produção e consumo por meio do JIT (Just-in-Time) e do Kanban. No sistema JIT (Produção-a-Tempo), a produção é regulada pela demanda do consumo. Produz-se na medida do que a demanda pede, evitando-se a superprodução e conseqüentemente formação de estoques. O JIT se apóia no Kanban, um sistema de controle da reposição de mercadorias adotado nos supermercados, que é levado para a fábrica toyotista.

Cada mercadoria vendida é reposta pelo setor de estoque a partir da etiqueta destacada no ato da venda e a ele remetida. A venda orienta o movimento de compras e de restabelecimento de estoque. Adaptado, este mecanismo é introduzido na fábrica em relação á compra e estoque de peças e também á venda dos produtos fabricados. O estoque é reposto na medida da quantidade que sai para o uso na linha de montagem. Do mesmo modo, o do automóvel produzido. O resultado é uma radical redução do volume dos estoques, seja de peças, seja de automóveis produzidos dentro da fábrica.

Uma vez que isto pede uma relação de controle, tanto interna quanto externa pela indústria, este sistema de administração se generaliza por todo o sistema empresarial. Nasce, assim, o sistema da terceirização e da subcontratação. Da montadora às fornecedoras de autopeças e aos vendedores autorizados, todo o conjunto das empresas envolvidas se integra num funcionamento de JIT. Isto abre para a administração da produção a partir do consumo, nascendo do TQC (Controle de Qualidade Total), um sistema em que o movimento do balcão determina o movimento do sistema até a produção.

Resolve-se, assim, o problema de custo e produtividade e, ao mesmo tempo, o velho problema do equilíbrio entre produção e consumo.

A crise de superprodução e de subconsumo é uma característica do sistema fordista. É a conseqüência da produção padronizada, em serie e massa. Daí a inevitabilidade do estoque, pratica que repercute nas taxas de custo, produtividade e lucro mais este estoque aumenta. Aplicada como uma estratégia de domínio de mercado, este sistema acaba gerado o seu contrário. A flexibilidade da produção muda esta estratégia: produz-se uma diversidade de produtos cada qual em quantidades pequenas, controlando-se o mercado pela regra do JIT.

É assim que a introdução do paradigma flexível retoma e leva para muito além de antes a taxa da expansão de capitalismo. E acelera a sua globalização. O monopolismo fica ainda maior. E muda de forma. A verticalização do tempo fordista cede lugar á horizontalização. Os veículos são a terceirização e a subcontratação. Com a horizontalização terceirizada e subcontratada o problema dos altíssimos investimentos que a nova tecnologia pede é contornado e o controle da economia transnacionalizada fica nas mãos de um punhado ainda menor de empresas. Sob a condução delas, a velha divisão imperial do planeta cede lugar a uma geopolítica globalizada.

Um primeiro efeito dessa estratégia globalizada se refere aos Estados Nacionais, que, sujeitos ao poder da empresa globalizada, perdem a expressão de antes e tornam-se o alvo da ação do neoliberalismo. Um conjunto de reformas baseadas na privatização das empresas estatais criadas sob inspiração keynesiana.

Flexibilização pelo período técnico e neoliberalizado pela reestruturação do Estado, o capitalismo se refaz e impacta profundamente o mundo da classe trabalhadora. De imediato, vem a retração das conquistas sociais, o desemprego, o trabalho parcial, precário, informal, e a desintegração sindical.

No centro desse efeito, está o abalo sindical. A pulverização trazida pela flexibilização do trabalho dentro da empresa e pela terceirização e subcontratação atinge o sindicalismo de massa em cheio. Um sindicalismo fragmentário e pulverizado por empresa toma conta, fragilizando a classe trabalhadora. Fragilizada e dessindicalizada, a massa trabalhadora passa a um quadro de perplexidade, numa curiosa semelhança com o advento do paradigma fordista.


6. Os períodos técnicos e de trabalho e a classe trabalhadora
Toda vez que o período técnico muda, também muda a forma correspondente de trabalho. E, então, tem inicio uma fase de desmonte das estruturas existentes e de montagem das estruturas novas. Foi assim na passagem do paradigma manchesteriano para o taylorista-fordista para o paradigma toyotista.

A cada um desses momentos de transito paradigmático, corresponde uma fase de perplexidade e desarrumação no seio da classe trabalhadora. Uma nova classe trabalhadora está nascendo, sem que a velha disso tenha se dado conta. É que se mudam as bases técnicas da sociedade, as formas de trabalho e o paradigma de mundo, é de esperar que mude a classe trabalhadora, sua mentalidade e formas institucionais de organização. As relações de trabalho estão se desfazendo, as regras de gestão de trabalho se refazendo, os padrões industriais estão se reestruturando.

Mas o entendimento da classe trabalhadora raramente é contemporâneo. Daí sua reação inicial de perplexidade e desarrumação institucional. A recuperação só vem a seguir. É em cada época sob forma própria. A passagem da fase da manufatura para a fabrica manchesteriana foi marcada pela formação das associações e cooperativas de ajuda mútua, de quebra das máquinas e, por fim, da criação dos sindicatos de ofícios. A passagem da fase do paradigma manchesteriano para a do paradigma taylorista-fordista, pela eclosã de greves dos trabalhadores qualificados e pela criação dos sindicatos de massa e dos partidos de trabalhadores. E a passagem do paradigma taylorista-fordista, pela busca de manutenção do emprego e integração da ação sindical com os movimentos sociais para somar um arco mais amplo em defesa da permanência dos benefícios sociais conquistados.

Também a classe patronal segue em cada época uma estratégia igualmente própria. Na fase de introdução do paradigma manchesteriano a estratégia foi o pagamento do salário por peça, de modo a instalar a concorrência entre trabalhadores de oficio e a explorar sua estimulação por mais salários. Na de introdução do paradigma de concepção, é a troca do salário por peça pelo salário padrão. E na introdução da estratégia toyotista, é a ação repressiva destinada a desmontagem do sindicalismo de massa (a Toyota responde á greve de 1950 e a Nissan a de 1952 com prisões e desemprego generalizado) e a pulverização coercitiva do sindicato por empresa.

Na passagem atual do paradigma taylorista-fordista para o paradigma flexível do toyotismo, um novo mundo do trabalho, uma nova forma de classe trabalhadora e uma nova institucionalidade de organização estão nascendo. É tarefa dos olhos atentos percebê-las. E isso de modo tão rápido quanto é preciso sair da perplexidade que hoje novamente se instala.

Questões:




  1. Indique como a Primeira Revolução Industrial se especializou a partir da Inglaterra, ocupando outros países.

  2. Qual fator geopolítico e técnico foi responsável pela expansão da Segunda Guerra Mundial para o mundo todo?

  3. Aponte as principais mudanças no mundo do trabalho ocorrida entre as três revoluções industriais.

  4. Quais mudanças no papel do Estado podem ser percebidas nos três momentos de Revoluções Industriais?

1 MOREIRA, Ruy. In: Programa Integrar – CNM/CUT – Caderno do aluno - Trabalho e tecnologia, 1998.p. 116 -130

2 Professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal Fluminense.



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