Curso de Jornalismo – 2014 Disciplina História da Comunicação



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Faculdade Cásper Líbero

Curso de Jornalismo – 2014

Disciplina História da Comunicação

Prof. Carlos Costa

A FÁBULA DOS TRÊS REPÓRTERES



Texto de Luiz Costa Pereira Junior

Em todas as fases da produção de uma notícia é possível ser objetivo, imparcial, se – e apenas se – respeitarmos o sentido dos fatos e formos honestos com o público.

A questão não chega a ser hamletiana, mas já foi central para o jornalismo nos tempos em que a preocupação em fazer um bom trabalho era parte do trabalho.

Existe ou não a tal objetividade? – eis a questão. As respostas parecem quase sempre insatisfatórias e pouca ajuda nos dá o conhecimento acumulado pela sociologia ou pela antropologia, acostumadas que são aos tropeços do trabalho de campo.

A visão tradicional confere certas características à objetividade jornalística.

Primeiro, há um modo objetivo de trabalhar as fontes de informação. Um trabalho jornalístico é objetivo quando garante equilíbrio entre o pró, o contra, os ângulos da notícia. É preciso, ainda, atribuir tudo a alguém – nunca cacifar uma informação como sua, sob pena de contaminar os fatos com a parcialidade. Estamos, portanto, no reino das aspas.

A contaminação da parcialidade leva a um segundo traço, incidental: o anonimato, a absoluta ausência de marca pessoal ao trabalho, que deve ser destituído de adjetivação, metáforas fortes ou uso da primeira pessoa.

O esforço deve, conseqüentemente, ficar restrito à veiculação de fatos, outra característica histórica da objetividade.

O anonimato, a veiculação de fatos, o tratamento dado às fontes se filtram no maior dos cânones – e quarta operação a garantir objetividade.

É a pirâmide invertida (PI), um relato que resume o principal no início e desenvolve o secundário da história em ordem decrescente de importância. A PI é signo de um relato puramente informativo, sem afetação de sentimentos, opinião, credo ou qualquer outra tendenciosidade. Grosso modo, essas quatro esferas têm determinado as definições correntes sobre a objetividade.



A falência do modelo


Repare, no entanto, que nenhuma dessas esferas é garantia de um trabalho objetivo. É possível dar prós e contras de um acontecimento e, mesmo assim, omitir fontes que seriam de fato esclarecedoras.

Manter-se anônimo e usar a pirâmide invertida tampouco são álibis. Posso direcionar o modo como quero que um leitor entenda o fato a ele narrado já ao dar um título à reportagem ou ao escrever o lide – afinal, é o primeiro parágrafo que determina o principal a ser destacado.

Lembremos também o óbvio: veicular fatos não se confunde com os próprios.

Não vemos “a” realidade quando lemos um texto, vemos a TV ou ouvimos o rádio.

Com a notícia, ficamos diante de uma certa forma de contar os fatos – o que significa que eles passaram a dançar conforme o ato de contá-los.

Ninguém gasta duas horas para narrar a um amigo a história de um filme (seria preferível ver o próprio).

Assim é com qualquer fato que contamos a alguém. Resumimos os acontecimentos, enfatizamos trechos vitais, mudamos a cronologia – o mais forte dito em primeiro lugar.

A notícia tem de encurtar trechos da realidade, esticar outros, relembrar episódios correlatos ou suprimir momentos inteiros, para que a história caiba no espaço destinado a ela e o público assimile de forma mais contundente tudo o que lhe é contado.

Nas palavras de Umberto Eco: “Quando se deve noticiar tantas informações quantas permite o espaço disponível, para que sejam legíveis para um público de gosto, classe social e instrução diversos, a liberdade de quem escreve já terminou”.

A arte de manipular


Repare ainda que as quatro operações (anonimato, veicular fatos, trabalhar as fontes, pirâmide invertida) são circunscritas ao ato de escrever.

Mas não se perde objetividade – e, por conseqüência, se manipula informação – só na hora de escrever a notícia.

O drama histórico da objetividade clássica – a tolice que faz com que ela seja eternamente contestada – é que sua defesa se funda na crença de que obedecer ao que José Francisco Sanchez chama de “regras de texto” seja garantia de um trabalho objetivo.

Noticiar, no entanto, é selecionar fatos para recriar realidade, porque a realidade não pode ser contada aos outros por inteiro.

A seleção de fatos ocorre na hora da redação da notícia, daí serem úteis regras, como a do equilíbrio entre as fontes, para que não se manipule uma informação ao escrevê-la.

O principal a ficar claro é que o ataque à objetividade ocorre também em outras fases da produção jornalística, não só na redação.

Especificamente, em dois momentos. Na hora da apuração das informações e na de editar todo o material apurado e redigido.

A notícia resulta de seleções e exclusões deliberadas nesses três momentos do trabalho com a informação.




A fábula dos três


Imaginemos três repórteres de veículos diferentes.

Para além do fato de que trabalham em periódicos com linhas editoriais distintas, consideremos que os três são jornalistas íntegros, ciosos de seu ofício, criteriosos, imparciais, incorruptíveis. Objetivos, enfim.

Os três vão cobrir o mesmo fato.

Um alto executivo de uma multinacional morre num acidente de carro ao perder o controle da direção na hora em que passava por um buracão.

Depois de entrevistar testemunhas, conversar com parentes do morto, com a polícia e o IML, o primeiro repórter faz sua matéria. “Executivo morre ao passar por buraco” é o título.

O texto, em resumo, diz que o empresário de 35 anos, pai de dois filhos, bateu num caminhão ao passar por buraco de 3 metros de diâmetro. Ele ia à reunião da empresa que definiria o destino de 7 mil funcionários. Era o único no conselho diretor a não querer a demissão deles. Como era sócio majoritário, grande era a possibilidade de as dispensas serem evitadas.



Outro foco


Chega o segundo repórter, que percorre o mesmo roteiro de apuração do anterior. A dimensão do buraco, no entanto, chama sua atenção.

Ele se pergunta se a tragédia com o executivo seria um fato isolado e sonda moradores do local. Descobre que seis outros acidentes fatais ocorreram por causa daquele bendito buraco no curto período de um ano.

“Buraco causa 7 acidentes em 1 ano” dirá seu título.

Seu texto começa narrando rapidamente a tragédia com o executivo e passa a relacioná-lo com outras mortes motivadas pelo buraco.

O caso do executivo virou uma retranca secundária.

O foco passa a ser a omissão das autoridades, cujas aspas dando desculpas ou fazendo promessas são o diferencial da apuração.



A terceira via


O terceiro repórter obtém as mesmas informações de seus colegas.

No meio da apuração, ele lembra de uma antiga reportagem que fizera sobre asfaltamento metropolitano.

Sua suspeita se confirma ao voltar à redação.

No arquivo, há a informação de que toda a região em que a rua esburacada está situada deveria estar asfaltada.

Uma fonte na administração pública lhe assegura que o local consta da documentação como tendo sido asfaltado há meses.

Os moradores garantem que o buraco existe há pelo menos dois anos.

O caso toma nova dimensão. E o texto do repórter 3 ganha as páginas de seu periódico enfatizando, já no título, a corrupção assassina. “Corrupção provoca mortes no trânsito”.

O texto final terá o apurado pelos repórteres 1 e 2, além da denúncia de que, oficialmente, a rua com buraco está asfaltada e pelo menos R$ 2 milhões foram desviados.



Objetividade ao apurar


Os três jornalistas produziram três reportagens diferentes, resultado da apuração sobre o mesmo fato.

Todos agiram com isenção, sinceridade, registro objetivo da realidade a que tiveram acesso.

A diferença entre eles é que cada um selecionou pedaços distintos e dispersos do real. Cada um montou seu quebra-cabeça e deu um sentido a eles.

Não houve má fé, ninguém mentiu, todos foram objetivos, mas as histórias contadas por eles não são as mesmas.



O ponto gê da objetividade


Para além das regras de um texto objetivo (anonimato, equilibrar as fontes, só veicular fatos e usar pirâmide invertida), a objetividade reflete muitos fatores, não um só.

Ela nasce no autor do texto, como diria Sánchez.

O leitor, ao comprar o periódico de sua preferência, tacitamente confia que o repórter seja sua testemunha dos fatos.

O jornalista verá a realidade em seu lugar e deverá traduzir tudo com fidelidade, respeitando o que viu.

Há quem não veja.

Há quem não respeite o que viu.

É nessa hora – o instante em que o repórter vê as coisas como quer, não como elas são – que a objetividade vai para o espaço.

Ser objetivo é tentar entender o sentido dos fatos, tendo o público por horizonte, respeitando o que viu.

Só então o trabalho do repórter converge para a realização do texto.

Só então a realidade passa a obedecer as regras do texto.

É no gelatinoso miolo de um redemoinho formado por realidade, público, autor e texto que a objetividade se move.

Objetividade ao editar

Na usina de produção de uma notícia, a apuração e a redação são duas hastes do tripé da objetividade.

Um trabalho jornalístico pode ser bem apurado e redigido de forma confiável. Ainda assim pode perder objetividade ao ser editado.

A objetividade na edição completa o tripé da notícia.

No trabalho de edição é que se revela a opinião do editor, para que lado pende o dono do veículo, qual a força de uma linha editorial.

Editar significa valorizar uma informação, dar o devido peso à notícia. É definir para ela um espaço determinado (se merecerá página inteira, meia página ou o tamanho de um breve, por exemplo). É determinar o lugar que ocupará na página (se no alto, no rodapé, se na lateral em uma coluna etc.) É considerar, por exemplo, se a reportagem merece ser ilustrada por uma foto (e de que tamanho) ou qual o número de retrancas (reportagens) secundárias a completar o assunto.

Editar, enfim, é escolher. Sem triagem, o jornal viraria uma coletânea, um relatório indigesto e inaceitável. Ao fazer escolhas, o editor determina o valor de um fato.

Nesse momento, a objetividade está em jogo.

A fábula real


Curiosa, por exemplo, foi a divulgação do relatório do IBGE sobre indicadores sociais, manchetado em 5 de abril de 2001 por Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil e O Globo. Os quatro noticiaram o fato, tiveram acesso ao mesmo documento. O leitor de cada um, porém, consumiu uma realidade até oposta à do leitor do concorrente.

Estadão: “IBGE mostra que o país melhorou em 7 anos”

Folha: “País termina anos 90 tão desigual como começou”.

JB: “IBGE: década do Real não mudou a desigualdade econômica do país”.

O Globo (abaixo do chapéu “O paradoxo brasileiro”): “Indicadores sociais melhoram. Concentração de renda cai”.


Pontos de vista


Embora a Folha lembre que os indicadores melhoraram em 1999, mostra que a distribuição de renda, não. Metade dos pobres, diz a Folha, detém 14% da renda nacional, o mesmo de 1992. Os 1% mais ricos mantiveram os 13,1% do início da década.

No Jornal do Brasil, a ênfase é parecida à do jornal paulista. O lide, no entanto, dá contrapontos – o que a Folha não faz.

Somos informados de imediato que o país entrou o novo milênio sem acabar a desigualdade, mas melhorou alguns índices, como a mortalidade infantil e o analfabetismo.

Como reflexo invertido da Folha, a seleção de fatos no Estado pinça apenas os dados favoráveis ao governo federal.

Ficamos sabendo que, entre 1992 e 1999, cresceu o número de crianças nas escolas, a taxa de mortalidade infantil caiu, há menos analfabetos, os idosos vivem mais. A renda média, garante o jornal, aumentou 30%.

Só de passagem, ao fim do texto de primeira página do Estado, menciona-se que a má distribuição do dinheiro piorou.

Diferentemente dos anteriores, O Globo põe os fatos em perspectiva. Os avanços da economia – los hay, los hay – melhoraram praticamente todos os indicadores sociais, assegura O Globo, mas não bastaram para reduzir a maior chaga brasileira: a concentração de renda.


Sem censura


Os quatro veículos, na prática, fizeram leituras amparadas em fatos.

Não mentiram nem adulteraram informações. Tudo o que disseram consta do documento do IBGE. Cada um, no entanto, selecionou dados a seu prazer.

Porque não é preciso mentir para manipular informação.

Porque não é preciso uma deformação grosseira e explícita.

Há relativamente poucos assuntos de fato visados pela lupa dos grupos controladores de um veículo, por tocarem em seus interesses políticos, econômicos ou morais.

Na pastelaria da produção noticiosa, boa parte da informação veiculada não é supervisionada de perto pelos donos.

Mesmo nessa hora, no entanto, a edição age sobre os fatos.

Umberto Eco disse que, nos jornais, o terrível não é a força política e econômica que o controla, mas as “determinações técnicas e sociológicas do veículo”.



Álibis técnicos


Há motivos mais fortes que a censura ou a distorção deliberada a prevalecer na hora agá. São os parâmetros profissionais, os pressupostos técnicos, os próprios limites do trabalho de edição.

Critérios como o gatekeeper – um jargão inventado em 1942 por um pesquisador de hábitos alimentares chamado Kurt Lewin.

Em tempos de guerra, era preciso acostumar as pessoas a substituir alimentos. Por isso, Lewin procurava entender por que as pessoas comem o que comem.

Ele descobriu que mostrar às pessoas a necessidade de uma troca não bastava para elas mudarem de comportamento.

Percebeu que essa motivação consciente só se transforma em decisão assumida pelos consumidores se corresponde a desejos por eles nutridos.

As pessoas podiam substituir alimentos. Alegariam motivação racional para a troca, quando na verdade pesaram fatores subjetivos em sua escolha.

Quando os fatores subjetivos se escondem sob critérios racionais é que uma mudança se concretiza ou consolida, concluiu Lewin.

Em 1950, David White aplicou o conceito ao jornalismo.

Queria entender o fluxo de notícias.

Por que, perguntou, uns fatos viram notícia e outros vão para a latrina? David White percebeu que regras profissionais são mais fortes que preferências pessoais. São critérios não-individuais que se disseminam pelos coleguinhas de redação e viram a cultura interna das edições.

É um gatekeeper, por exemplo, a “falta de espaço para publicar”, desculpa costumeira de editores para recusar pautas. A “sobreposição com histórias já selecionadas para a publicação” é outro gatekeeper, assim como alegar a falta de interesse jornalístico de uma matéria.

Dizer que falta qualidade de escrita a um texto é outro desses álibis de edição, assim como afirmar que a pauta xis é de uma área demasiado afastada da cobertura habitual do veículo.

O resultado é que muito material vai para a lata do lixo, sem se caracterizar uma censura ou um veto pessoal de quem edita.

Gatekeepers são, enfim, as formas de controle da informação criadas pelo veículo.



Escolhas sem sujeito


O sociólogo Pierre Bourdieu tem uma expressão curiosa para o fenômeno. São as “escolhas sem sujeito”. A seleção de fatos, diz ele, é um processo hierarquicamente ordenado.

É ligado a uma rede complexa de feedbacks entre o profissional e o público.

Na base da tentativa e erro, os jornalistas foram filtrando padrões de conduta editoriais. Um deles, por exemplo, é alegar que algo é noticiado em nome da vontade e do interesse públicos. A vontade e o interesse do público são, na prática, pouco conhecidos.

O contexto profissional tem mais influência.

Muita notícia é produzida em função do grupo de colegas (fazer matéria porque o concorrente lerá) e dos sistemas de fontes (reportagens motivadas para “ganhar” ou “impressionar” o entrevistado).

Não raro, eles predominam sobre o papel social de informar o público.



Circulação circular


Outro conceito-chave de Bourdieu é primo-irmão das escolhas sem sujeito. Ele o chama de “circulação circular da notícia”. Em resumo, Bourdieu quer dizer que os profissionais têm muito em comum, da condição financeira à origem social ou a formação. Principalmente, os jornalistas lêem uns aos outros.Fazem, por referência ao concorrente, coisas que garantem fazer para o público.Pautas ganham geração espontânea, manchetes similares se multiplicam em veículos rivais, títulos têm a mesma letra. De repente, todo mundo está parecido.

A concorrência, no fundo, funciona como um nivelamento das hierarquias de importância. Para ter legitimidade e por medo das implicações de arriscar numa cobertura individualizada, os jornalistas apóiam-se uns nos outros.

Hoje em dia, parte dos assuntos noticiados só o é porque a concorrência apostou neles – uma contradição para quem, por profissão, deve procurar cobertura diferenciada.

Tanto o gatekeeper como as escolhas sem sujeito, a circulação circular da informação ou o campo jornalístico são filtros da edição que funcionam de anteparo para decisões objetivas de edição. Não há, portanto, formatos de texto, regras de apuração ou formas de edição mais objetivos que outros.

Em todas as fases da produção de uma notícia é possível ser objetivo, imparcial, se – e apenas se – respeitarmos o sentido dos fatos e formos honestos com o público.

O mais é fome de detalhes.


Luiz Costa Pereira Junior é professor de Técnicas e Gêneros Jornalísticos (Jornalismo Básico 2) e organizador do livro A Vida Com a TV – O Poder da Televisão no Cotidiano (Ed. Senac).


Referências Bibliográficas

BOURDIEU, Pierre. Sobre a televisão. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1999.

ECO, Umberto. Viagem pela Irrealidade Cotidiana. Rio de Janeiro, Record, 1985.

WHITE, David. The gatekeeper: a case study in the selection of news. Journalism Quaterly, 1950.



WOLF, Mauro. Teorias da Comunicação. Lisboa, Presença, 1995.




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