Curso de liturgia



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CURSO DE LITURGIA

INTRODUÇÃO
A liturgia é a realidade mais viva e a expressão mais eloqüente da vida da Igreja. Por intermédio da liturgia, a Igreja enuncia sua identidade reconhecida, sua mesmidade renovada. Na liturgia, a Igreja faz a experiência do seu ser e do seu existir. A liturgia é a própria Igreja em sua mais densa relação simbólica com Deus e com a sua identidade. A liturgia é, e continuará a ser, o símbolo mais rico da vida cristã, a mais original forma de que os crentes dispomos para falar de salvação que nos foi dada, a esperança que nos inunda.

O Vaticano II e a reforma litúrgica por ele desencadeada têm sido os principais motivos de uma nova consciência litúrgica, cuja consolidação está prestes a se produzir.

Os diferentes “movimentos” e “correntes de opinião” litúrgica pós-vaticano

(dessacralização-secularização, socialização-politização, evangelização-catequização,

adaptação-criatividade, simbolismo-festa, intimismo-experiência, ecumenismo-unidade...)

sem dúvida contribuíram para um melhor discernimento, uma maior riqueza de sentido,

das dimensões e exigências da celebração.

Sendo a liturgia ao mesmo tempo “humana e divina” ( SC 2), é importante, em

relação à sua compreensão, estudá-la antes de tudo na palavra de Deus, norma de fé e de

vida, e na tradição que esta palavra transmite integralmente. É importante também um

estudo histórico-genético das formas de celebração litúrgica, para compreender a sua

estrutura e seu significado, e as eventuais degenerações ou enriquecimentos que passou no

decorrer do tempo. Os textos bíblicos e eucológicos usados pela liturgia são a

manifestação mais característica da concepção que a Igreja tem a respeito da liturgia e do

seu mistério. Estes textos exprimem uma determinada visão teológica dos dons da

salvação dos quais a Igreja é portadora, uma teologia litúrgica que é preciso fazer emergir.

Tudo isto deve conduzir à experiência de fé e à vida vivida em coerência com os mistérios

dos quais participamos. A liturgia é uma realidade para ser redescoberta, celebrada e

vivida.
I – O TERMO LITURGIA
O termo liturgia, hoje clássico e consagrado pelo magistério solene, é, no entanto,

de uso bastante recente no Ocidente: quase não o encontramos nas atas oficiais da Igreja

antes do século XX.

Na Igreja grega, o termo liturgia tem uma acepção restrita e precisa: designa

exclusivamente a missa e seus diversos formulários. É verdade que para os autores

eclesiásticos dos primeiros séculos, sobretudo no Novo Testamento e nos Setenta, liturgia

significava já de preferência o serviço de Deus, o culto, sem excluir, contudo, sentidos

menos precisos como o de sacrifício espiritual ou serviços de caridade.

A palavra LIT-URGIA tem sua origem do grego clássico e é composta de duas

raízes:


Liet – leos – laos: povo, público – ação do povo, obra pública, ação feita para o

povo, em favor do povo.

Ergomai (ergom): operar, produzir (obra), ação, trabalho, ofício, serviço...

Traduzindo literalmente leitourghía significa: “serviço prestado ao povo” ou

“serviço diretamente prestado para o bem comum”, serviço público.

Antes mesmo de esta palavra ser usada pela Igreja, os gregos a usavam para indicar

qualquer trabalho realizado a favor do povo e sempre realizado pelo povo, em forma de

mutirão, como temos hoje. Então quando abriam uma estrada, ou construíam uma ponte ou

realizavam qualquer trabalho que trouxesse benefício à população, entre os gregos se dizia:

realizamos uma liturgia.

Este sentido primeiro da palavra nos ajuda a buscar o que deve ser hoje a

LITURGIA CRISTÃ em nossas comunidades, sobretudo depois de séculos de história em

que a Liturgia ficou reduzida a uma ação realizada por ministros ordenados (bispo,

padre...) para o povo. Era uma ação em que o povo não tomava parte, apenas “assistia”

como expectador e, muitas vezes, sem compreender o que estava sendo feito.

Graças ao Concílio Vaticano II, realizado há mais de quatro décadas, voltamos ao

sentido genuíno da Liturgia, como AÇÃO do povo batizado e, por isso todo ele

SACERDOTAL, chamado ao louvor de Deus e à transformação e santificação da vida e da

história. Uma ação conjunta em parceria com o próprio Deus, numa dinâmica de aliança e

participação cada vez mais “ativa, consciente, plena e frutuosa”.



1 – Liturgia na cultura grega

No grego clássico, é atestado o uso cultual do nome, pelo menos tardiamente, mas

seu significado normal e técnico é o de serviço público: uma função exercida para

interesse de todo o povo, seja de ordem política, técnica ou religiosa.

Na época helenística, liturgia significava:

Serviço obrigatório a uma pessoa ou classe de quem se recebia algum benefício

(ato social).

Culto religioso. O serviço era prestado aos deuses através de uma pessoa –

sacerdote – em nome da comunidade. Com o passar dos anos, porém, a palavra “liturgia”

vai perdendo o sentido de ação para o público e vai tomando o sentido de culto devido a

Deus. É nesse sentido que a palavra “liturgia" aparece na tradição grega do Antigo

Testamento, até o cristianismo.



2 – Liturgia na Bíblia Sagrada

Antigo Testamento. A palavra “liturgia” no AT aparece mais ou menos 170 vezes

na versão LXX e é tradução dos verbos hebraicos SHERET e ABHAD, que significam:

serviço prestado a alguém, porém com esta diferença:

SHERET: Serviço de dedicação incondicionada por parte de um servo; e de

confiança por parte do patrão.

ABHAD: Serviço honroso, trabalho de escravo. Este verbo deriva da palavra

EHED = escravo, servo. (Liturgia no AT é marcada pelo espírito de escravidão e pela

exterioridade cultual. (cf. Lv 24,1-9).

Porém, as duas palavras na Escritura Hebraica são usadas indiferentemente, seja

para o “serviço” em sentido profano, como para o “serviço” em sentido religioso.

Na tradução dos LXX foram escolhidos termos técnicos para o uso profano e para o

uso religioso. Por exemplo: quando os dois termos se referem ao culto prestado a Javé

pelos sacerdotes e levitas é usada a palavra LEITURGHIA, LEITURGHEIN; quando ao

invés se refere ao culto prestado a Javé pelo povo a palavra era LATREIN, DULIA.

Na intenção dos LXX, a palavra “liturgia” é o termo técnico para indicar o “culto

levítico”, ou seja, uma forma cultual fixada por um “liturgo”- (livro da lei). Esta palavra

liturgia exprime e engloba: a ação do culto, através do qual serve-se a Deus e somente a

Ele, na sua “tenda”, no seu “templo” e sobre o seu “altar”; a unidade de um culto, o qual

sendo destinado a Javé, único Deus verdadeiro, e também único na sua realização.

(Segue-se à risca a prescrição da lei...). A “liturgia” é marcada, portanto, pelo espírito de

escravidão (Lv 23).

Em sentido profano

“Os magistrados são ministros (leiturghoi) de Deus” ( Rm 13,6).

“Os pagãos têm participação dos bens espirituais dos judeus. Por isso devem

assistir-lhes com as coisas materiais” ( Rm 15,27).

“Assistiu-me em minhas necessidades (Leiturghoi) e arriscou a própria vida para

prestar-me serviços” (Fl 2,25-30).

“Arrecadar esmolas para os cristãos de Jerusalém é prestar “liturgia” aos

“irmãos”(2Cor 9,12).

Em Hebreus 1,7-14 fala-se de “liturgia”. Deve ser entendido não em sentido

cultual, mas de serviço que os Anjos prestam a Deus em favor dos homens.

Em sentido ritual sacerdotal do AT.

“Serviço de Zacarias no templo de Jerusalém” (Lc 1,23)

Cristo o “liturghista” do verdadeiro santuário, realiza uma liturgia superior.

Liturgia e Liturghista, embora se referindo a Cristo, são comparações do Pontífice judeu

(Hb 8,2.6).

Os objetos litúrgicos do culto hebraico (Hb 9,21).

Comparação entre a repetição diária da liturgia judaica e a única liturgia de Cristo

(Hb 10,11).

Em sentido de “Culto Espiritual”

Paulo declara-se “Ministro-liturgista de Cristo” (Rm 15,26).

Paulo declara-se pronto... “sobre o sacrifício e a liturgia de vossa fé”. É novamente

o sentido cultual-sacerdotal, na linguagem técnica do AT.

Em sentido de Culto-Ritual-Cristão

“Enquanto celebravam o culto do Senhor (a liturgia)... É o único texto do NT no

qual podemos entrever o que virá a ser liturgia cristã (At 13,2). Alguns dizem ser a “Nova

Liturgia Cristã” e principalmente a Eucaristia.

A palavra liturgia na Igreja pós-apostólica, logo designará os “ritos do culto

cristão”.

DIDAQUÉ (15,1). É um antiquíssimo manual de religião. Julga-se ter sido redigido

entre os anos 90-100 na Síria, na Palestina ou em Antioquia (traz no próprio título a marca

dos apóstolos).

A Didaqué ou doutrina dos Apóstolos, divide-se em três partes:

Cap. 1-6: Tratado de moral (os dois caminhos, o da vida e o da morte).

Cap. 7-10: É um antigo ritual litúrgico... batismo... água corrente, fria ou quente,

etc...

Cap. 11-15: Instruções sobre a vida comunitária.



“Assim, portanto, ordenais para vós, bispos e sacerdotes, dignos do Senhor;

homens dóceis, desinteressados, verazes e experimentados, pois eles fazem a mesma

liturgia. Não os desprezeis, eles têm, com efeito, entre nós, a mesma dignidade dos

profetas e doutores”.

SERVIÇO DA PALAVRA: A assembléia é dirigida por aqueles que lhe trazem a

palavra ou que a servem: apóstolos, profetas, doutores.

Embora o dom das línguas exercia papel considerável em Corinto, é colocado

sempre em último lugar na hierarquia dos carismas (1Cor 12,27-30; Rm 12,6-8; Ef

4,11-12).

Mesmo havendo algumas divergências nas listas, ocupam sempre o primeiro lugar

os Carismas da Palavra – apóstolos, profetas, doutores; depois os carismas dos milagres e

das curas; depois os da administração da comunidade (presidir, assistir) que podem aludir

às funções dos anciãos nas comunidades judias e judeu-cristãs; e finalmente o dom das

línguas e sua interpretação. Tudo isto por que? Paulo dá uma explicação em 1Cor 14,2-5.

CLEMENTE ROMANO – Gozava, na Antigüidade, da grande autoridade, apesar

de ter-se conservado apenas um escrito saído de sua pena: Carta aos Coríntios, que a Igreja

Síria contou entre as Sagradas Escrituras.

A Carta aos Coríntios foi escrita nos últimos anos do império de Domiciano (cerca

do ano 96). Ocasião e motivo desta carta foram contendas naquela Igreja. Alguns membros

mais jovens da comunidade haviam-se rebelado contra a autoridade dos presbíteros,

expulsando-os de seus ofícios. Quando a Igreja de Roma tomou conhecimento do fato,

dirigiu a presente Carta a Corinto.

Na questão da liturgia indica a ação cultual do bispo, do presbítero e do diácono e

indica também o rito em si mesmo.

“Os ministros sagrados são os principais responsáveis pela liturgia”. É, aliás, a

primeira vez que este termo “liturgia” aparece na literatura cristã, sendo definido de

maneira muito simplesmente: “função de apresentar oferendas”.

No Oriente Grego, desde a Antigüidade até hoje, Liturgia, sempre significou

Celebração Eucarística, segundo um rito particular. Assim liturgia de São Crisóstomo, de

São Basílio, de São Tiago, de São Marcos, dos Doze Apóstolos. As Igrejas mais antigas

conservam uma liturgia eucarística, expressão da fé apostólica. Remontam ao apóstolo,

fundador dessa Igreja.

No Ocidente latino a palavra liturgia é ignorada; ao contrário de outras palavras

técnicas do vocabulário cristão transliteradas do grego para o latim. Ex.: Episcopus,

presbitex, ecclesia, apostulus, profheta, baptismus, eucharistia, evangelium...

Na linguagem latina ocidental, ao invés de liturgia usa-se outros termos, como: Officia

Divina, Sancta, Misteria Sacra, Divina, Opus Divinae, Sacre Ritus, Ritus Ecclesiastici.

II – DEFINIÇÃO DE LITURGIA

Desde o início do movimento litúrgico (1909) até os nossos dias, a maioria dos

autores de manuais tem-se esforçado por dar uma definição de liturgia que resuma em

breves palavras a sua natureza e caracteres essenciais. Tarefa tanto mais difícil quanto a

liturgia é uma realidade viva, rica e uma ao mesmo tempo; não se compreende a liturgia

senão tomando parte nela; dificilmente se deixa encerrar em conceitos: é por isso que

ainda nenhuma das definições dadas pareceu satisfatória.

Toda a AÇÃO a favor da vida é LITURGIA, no sentido amplo da Palavra. É

participação no serviço libertador de Jesus. Sendo isto Liturgia, será preciso ainda

CELEBRAR? Não basta apenas AGIR, lutar a favor da vida para sermos seguidores de

Jesus e coerentes com seu evangelho, cuja lei é o AMOR?

O que é mesmo a Liturgia – celebração? Qual sua importância para a

Liturgia-vida?

Celebrar é uma ação comunitária, festiva que tem a ver com tornar célebre,

importante, inesquecível, é destacar do cotidiano, é ressaltar o significado, o sentido

profundo que um acontecimento ou pessoa tem para um determinado grupo.

Todos temos necessidade vital de celebrar, assim como temos necessidade de

pensar, de agir, de nos relacionar, de comer e beber... Como seres humanos, somos

essencialmente celebrantes. Em todos os tempos e variadas culturas, os povos encontram

momentos e formas diversas de celebrar para expressar e aprofundar o sentido da vida.

Para celebrar usamos gestos, ações simbólicas, ritos e Palavras que expressam o

que pensamos, o que acreditamos, o que desejamos, o que esperamos, o que amamos ou

rejeitamos... enfim, a visão que temos da pessoa, do mundo, da sociedade, de Deus...

nossas crenças, nossas convicções, nossa identidade como grupo, como povo... É só pensar

nos símbolos, gestos, ritos e Palavras que usamos num carnaval, numa festa de aniversário,

de casamento, numa Folia de Reis, num batizado.

Na caminhada de fé do povo da Bíblia, encontramos muitos momentos

celebrativos. Ao celebrar, o povo de Israel fazia memória das ações que Deus realizara em

seu favor no passado, as reconhecia no presente e alimentava a certeza de sua fidelidade no

futuro.


O próprio Jesus quis tornar célebre, inesquecível todo o seu trabalho a favor da

humanidade. Ele expressou com a ação simbólica de uma refeição, a CEIA PASCAL, o

significado profundo de toda sua vida e missão: “sua Liturgia-vida”.

Ele antecipou com um rito, a doação de sua vida na cruz, preparou-se e preparou

seus discípulos para viverem a HORA de entrega e de amor sem limites.

A Liturgia-celebração e a Liturgia-vida foram inseparáveis na vida do povo de

Deus, na vida de Jesus, na vida dos primeiros cristãos, assim como devem ser inseparáveis

na vida de nossas comunidades.

Celebrar a Liturgia é, portanto, expressar com gestos, símbolos e palavras a

Liturgia-vida; é tornar célebre, inesquecível a ação que o Pai realizou em Jesus e através

dele a toda a humanidade e continua hoje, em nós e através de nós e de todos que aderem

ao projeto do Reino pela força e animação de seu Espírito.



A) Definições de liturgia anteriores ao Vaticano II

L. Beauduin: “A liturgia é o culto da Igreja”.

O. Casel: “A liturgia é a ação ritual da obra salvífica de Cristo, ou melhor, é a

presença, sob o véu de símbolos, da obra divina da redenção”.

Na sua encíclica Mediator Dei, Pio XII não rejeitou apenas as definições que

faziam da liturgia uma coisa absolutamente exterior e acessória. Sublinhando a realidade

sobrenatural que ela contém, convidou à busca da sua inteligência no sacerdócio de Cristo

e numa noção justa da Igreja, Corpo Místico de Cristo, como o sugeria já a maior parte dos

pioneiros do movimento litúrgico: “A Igreja é a continuadora do múnus sacerdotal de

Jesus, sobretudo no desempenho da sagrada liturgia”(MD 3, cf. 22: “A sagrada liturgia

outra coisa não é mais que o exercício deste múnus sacerdotal de Cristo”). A definição da

Mediator Dei: “O culto público total do corpo místico de Cristo, cabeça e membros”.



B) Definição do Concílio Vaticano II

O II Concílio do Vaticano inaugurou a sua exposição dos “princípios gerais para a

restauração e progresso da liturgia” com uma lição sobre a “natureza da liturgia e sua

importância na vida da Igreja”. Evitou propositadamente as formulações de tipo escolar

para se aproximar da linguagem e das categorias da Bíblia e dos Padres.

O conceito de liturgia apresentado pelo Sacrossanto Concílio é quase idêntico ao da

Mediator Dei:

“A liturgia é considerada como exercício da função sacerdotal de Cristo” (SC 7).

“Todavia, a liturgia é o cume para o qual tende a ação da Igreja e, ao mesmo tempo, é a

fonte donde emana toda a sua força”(SC 10).

Estas duas definições, mais outras contribuições presentes no mesmo documento,

podemos resumir assim: “A liturgia é ação sagrada através da qual, com um rito, na Igreja

e mediante a Igreja, é exercida e continuada a obra sacerdotal de Cristo, isto é, a

santificação dos homens e a glorificação de Deus”.

É fácil constatar as reminiscências da Mediator Dei, mas o Concílio ajunta vários

outros aspectos importantes.

A liturgia, cujos elementos essenciais são constituídos pelos sacramentos, é na sua

totalidade um sinal sagrado, como o resto a própria Igreja; o elemento visível é sinal eficaz

duma realidade sobrenatural, eficácia diversa conforme se trata de sinais sacramentais ou

de outros sinais, mas que permanece análoga. É, pois um “sacramentum”, um “mistério”

no sentido em que os Padres empregavam estas expressões.

A ação litúrgica faz não só subir até Deus a prece de adoração e súplica da Igreja,

mas também descer sobre a Igreja e os seus membros as graças da Redenção. Este duplo

movimento, afirmado implicitamente desde que se refere a liturgia ao sacerdócio de Cristo,

não era suficientemente vinculado em certas definições antigas da liturgia.

C) Outras definições pós-conciliares

O documento de Puebla traz uma definição com outros elementos:

“A liturgia como ação de Cristo e da Igreja, é o exercício do sacerdócio de Jesus

Cristo; é o ápice e a fonte da vida eclesial. É um encontro com Deus e os irmãos; banquete

e sacrifício realizado na Eucaristia; festa de comunhão eclesial, na qual o Senhor Jesus, por

seu mistério pascal, assume e liberta o Povo de Deus e, por ele, toda a humanidade, cuja

história é convertida em história salvífica, para reconciliar os homens entre si e com Deus.

A liturgia é também força em nosso peregrinar, para que se leve a bom termo, mediante o

compromisso transformador da vida, a realização plena do Reino, segundo o plano de

Deus” (Puebla 918).

Esta definição chama a atenção para aspectos, como: encontro de irmãos,

compromisso transformador da vida, a história da humanidade convertida em história da

salvação...

Outras tantas definições de liturgia surgiram nos últimos tempos, mas todas

contendo os elementos básicos já presentes na definição do Sacrossanto Concílio.

II. 1. A CAMINHO DE UMA TEOLOGIA DA LITURGIA

A palavra “Liturgia”, como vimos, foi um tanto contestada no NT, pela força

judaizante dada ao termo, tomando como expressão técnica do culto levítico da Tenda e do

Templo. Mas, não obstante isto, pela sua presença na Bíblia, foi mais tarde readmitida na

teologia cristã. É muito clara a divergência entre as duas liturgias: judaica e a cristã (cf. Lv

19 e Hb 9,13-14; Lv 19,4-9 e Hb 9,11-14).



a) A Antiguidade Cristã

O espiritualismo do culto não pode ser visto no cristianismo como uma simples

reação ou resposta polêmica ao exteriorismo da liturgia hebraica, pois este constitui o

elemento básico do cristianismo no plano cultual.

É suficiente lembrar como eram interpretados os componentes essenciais do culto

no mundo extra e pré-cristão: o templo, o altar e o sacrifício. Sabe-se que a Igreja primitiva

teve que se defender, entre outras coisas, da acusação de “ateísmo” e de “impiedade”( no

sentido de irreligiosidade, de falta de culto), justamente porque não possuía nem templos,

nem altares e nem sacrifícios, com os quais pudessem honrar a Deus. Para os cristãos,

porém, estes termos assumiam uma dimensão diferente. Para eles o culto mais agradável a

Deus era a santidade interior.

Em Ef 1,4-6, este culto no espírito é descrito com os termos que irão caracterizar

todo o culto cristão. Assim, o sacrifício não é mais uma vítima animal, mas é o próprio

Cristo, que se oferece pela remissão dos nossos pecados (cf. Ef 5,7; Hb 9,14; 10,11-12),

num sacrifício espiritual.

Assim como o Cristo “oferece o seu corpo” (Hb 10,11) também os cristãos

“oferecem no próprio corpo”, eles mesmos, como “sacrifício vivo, santo e agradável a

Deus” (1Pd 2,5).

Como em Cristo, este sacrifício encontrou expressão num ato de vontade interior

(Hb 10,7-10) que se manifestou como “sacrifício de oração e de súplica” (Hb 5,7), assim

também os cristãos oferecem em Cristo o sacrifício de louvor, como único agradável a

Deus (Hb 13,15-16).

Este sacrifício que de si mesmo fazem – Cristo e os cristãos – Paulo dá o nome de

liturgia (Fl 2,17; Hb 8,2-6).

Esta nova impostação do culto espiritual continua se afirmando nos primeiros

séculos da Igreja e encontramos assim que o martírio é “sacrifício”.

Sacrifício - são orações acompanhadas de caridade para com o próximo (Clemente

de Alexandria).

“O sacrifício esplêndido e magno – diz Tertuliano – que os cristãos oferecem e que

foi ordenado por Deus é a oração de um corpo puro, de uma alma sem mancha e do

Espírito Santo”.

Nesta tradição da nova teologia cultual cristã, distingue-se ainda no século IV,

Santo Agostinho, o qual explica que o “verdadeiro sacrifício consiste em cada obra que o

cristão faz para se colocar em comunhão com Deus”. Ele fala do sacrifício do corpo, posto

a serviço de Deus.

Altar – No seu culto espiritual o cristão oferece um “sacrifício incruento... sobre

um altar que é Cristo” ( Inácio ad Magnésios), mas que é também formado por todos os

que estão unidos na oração (Clemente de Alexandria).

Templo – O templo, elemento central do culto judaico, adquire, no cristianismo,

uma nova posição. A tradição cristã primitiva demonstra ter sido, ou melhor, absorvido

profunda e vitalmente o valor e o sentido das declarações de Cristo sobre o templo de

Jerusalém (Jo 2,19; Mt 26,61; Mc 14,58; At 6,14), cuja destruição está ligada por via direta

à espiritualidade do culto.

Nesta visão a morte e a ressurreição de Cristo não são apenas o sinal do poder de

Cristo – Cordeiro imolado – o novo templo da Nova Jerusalém (Ap 21,22). Portanto, é

verdadeiro (Hb 9,11-14).

Sobre esta realidade iniciada por Cristo e continuada pela Igreja, a tradição cristã

primitiva, desenvolveu as afirmações do NT contra o judaísmo e o antipaganismo, para

explicar e justificar o espiritualismo cristão em função de uma nova Teologia do Culto.




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