Curso de Pós-Graduação em Engenharia de Segurança do Trabalho epidemiologia



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Curso de Pós-Graduação em Engenharia de Segurança do Trabalho

EPIDEMIOLOGIA




Professora: Mcs.Patrícia Quirino da Costa, farmacêutica industrial.

PLANO DE ENSINO DA DISCIPLINA EPIDEMIOLOGIA



1. CONTEÚDO
Constará de temas referentes aos principais aspectos na área de Epidemiologia, com ênfase na análise epidemiológica. Estudar-se-á os conceitos epidemiológicos, principalmente em relação aos indicadores de saúde da população brasileira. Serão apresentados, também, aspectos relacionados à vigilância epidemiológica.
2. OBJETIVOS


  • Entender o processo saúde-doença como um fenômeno de determinação biológica, histórica e social.

  • Conhecer a história natural e os níveis de prevenção das doenças.

  • Entender as principais medidas para avaliação do processo saúde-doença.

  • Aplicar os conhecimentos epidemiológicos no monitoramento das doenças.

  • Conhecer como as doenças se distribuem na população.

  • Entender os principais delineamentos utilizados para investigação epidemiológica.

  • Conhecer os determinantes do processo saúde-doença.

  • Entender o processo de vigilância epidemiológica.

  • Aplicar os conhecimentos epidemiológicos para a vigilância das doenças.


3. DIDÁTICA
Pretende-se utilizar uma didática que estimule a curiosidade do aluno a partir da compreensão do objeto de estudo. Para isso, será utilizada as seguintes técnicas: aulas expositivas através de perguntas, exercícios e discussões de grupos.
4. AVALIAÇÃO
Haverá uma avaliação de forma dissertativa. Será, também, feita uma avaliação pelos alunos sobre o conteúdo da disciplina e desempenho do professor.
5. BIBLIOGRAFIA


  • Campos J. Q et al. Saneamento Ambiental e Epidemiologia. São Paulo. Jotacê: 1999.

  • Rouquayrol M. Z. Epidemiologia & Saúde. 5ª ed. São Paulo. MEDSI: 1999.

INTRODUÇÃO

É a ciência básica da Saúde Coletiva estuda a distribuição das doenças e suas causas na população,sendo a principal ciência da informação em saúde.

Ciência que estuda o processo saúde-doença na sociedade, suas interrelações propondo medidas específicas de prevenção, controle ou erradicação de doenças, e fornecendo indicadores que sirvam de suporte ao planejamento, administração e avaliação das ações de saúde.

A palavra epidemiologia deriva da epidemia, que, na tradução literal do grego, significa sobre a população.

É de fundamental importância pois é eficaz na determinação de agentes etiológicos, fatores de susceptibilidade, forma de transmissão e determinantes da doença.

A epidemiologia ocupa-se das circunstâncias em que as doenças ocorrem, nas quais elas tendem ou não a florescer. Estas circunstâncias podem ser microbiológicos ou toxicológicos; e podem estar baseadas em fatores genéticos, sociais ou ambientais. Mesmo os fatores religiosos ou políticos devem ser considerados, desde que se note que eles têm alguma influência sobre a prevalência da doença.


HISTÓRICO

A história e a evolução da Epidemiologia em três fases: mágica ou sobrenatural, empírica e científica.

Desde os primórdios do pensamento ocidental na Grécia Antiga, primeiro nasceu Caos, a existência indistinta; depois nasceram a Terra (Gaia) e Eros. [...]. As duas filhas do deus Asclépios eram a Panacéia e Higéia. Panacéia considerada a padroeira da medicina curativa, realizada por meio de manobras, encantamentos, preces e uso de pharmakon. Higéia apregoava a saúde como resultante da harmonia dos homens e dos ambientes, por ações preventivas e coletivas.

Hipócrates (400 a. C) foi a primeira pessoa que tentou explicar a causa das enfermidades com fundamentos, eliminando a hipótese do sobrenatural, pois já reconhecia as enfermidades como fenômeno de massa, e como fenômeno que afeta o indivíduo.

Hipócrates foi reconhecido como o primeiro e verdadeiro epidemiológico, por tudo que fez e deixou registrado na história da medicina. Hipócrates usou a palavra "epidemeion", para distinguir doenças que "visitam", episódicas, daquelas "endemeion", sendo de especial significado a distinção entre a enfermidade Endêmica e Epidêmica. Segundo ele •"... aquele que deseje compreender a ciência médica, deve considerar os efeitos das estações do ano, as águas e suas origens, o modo de vida das populações..."

A medicina hipocrática foi a primeira tentativa conhecida de tratar a doença como fenômeno próprio da natureza. A compreensão da origem das epidemias, no contexto da medicina hipocrática, é expressa pela idéia de Katastasis ou 'constituição epidêmica'. Em termos gerais, a idéia de constituição epidêmica relaciona a ocorrência das epidemias a circunstâncias geográfico-atmosféricas. Os textos hipocráticos estabelecem elos entre a natureza dos climas e ventos e a incidência de doenças. A característica mais marcante da medicina hipocrática, porém, é conceber o fenômeno epidêmico como o desequilíbrio de uma harmonia da natureza, apreendida como totalidade. Essa estrutura teórica proposta por Hipócrates foi preservada por outros que o sucederam, como Galeno (ano 201 a.C.), que acre­ditava cada doença estar ligada a determinado órgão. Na Idade Média na Medicina Árabe os médicos mulçumanos preservavam os textos hipocráticos, adotavam os princípios de Higiene e Saúde Pública. Essa idéia foi substituída pela Teoria dos Miasmas, que defendia a idéia de que vapores ou miasmas que saíam de certos tipos de solo (particularmente os pantanosos), ou mesmo os ares noturnos poderiam causar doenças às pessoas que tinham contato com eles. Entretanto ainda não havia a noção de coletividade referente ao processo saúde-doença. Na Idade Média o Catolicismo romano e invasões dos bárbaros levou a práticas de saúde de caráter mágico-religioso. A prática médica para os pobres era exercida por religiosos (por caridade) e por leigos, boticários, barbeiros-cirurgiões (por profissão). Durante este período a medicina árabe, sob os princípios hipocráticos, apresenta avanço tecnológico e caráter coletivo, com Avicena e Averroés.

Não é por acaso que os conceitos de população, Estado e coletivo sur­gem no século 17, período inicial da Idade Moderna no qual predominava o modo de produção capitalista, que transformaria toda a sociedade. Com o surgimento dos Estados houve a necessidade de contar o povo (produção) e o exército (poder) com surgimento da Estatística (Estado=status + isticum=contar).

Em 1662 John Graunt é responsável pelo Tratado de tabelas mortuárias de Londres, proporção de crianças que morriam antes dos 6 anos de idade (pioneiro na utilização de coeficientes), sendo os primeiros registros anuais de mortalidade e morbidade realizados pelo estado.

No século XVII, tem-se notícia da primeira medicina do coletivo na França. A Academia de Paris organiza-se a partir da Ordem Real para os médicos estudarem a epidemia dizimando periodicamente o rebanho ovino. Assim, pela primeira vez, conta-se doença no esforço de sua eliminação. Durante o século XVIII, diferentes tipos de intervenção estatal sobre a questão da saúde ocorrem na Inglaterra , Alemanha e Estados Unidos. Na França, com a revolução de 1789, implanta-se uma “medicina urbana”, a fim de sanear os espaços das cidades, disciplinar a localização de cemitérios e hospitais, arear as ruas e construções públicas e isolar áreas “miasmátias”.

Noah Webster, advogado americano, dedicou-se à pesquisa das enfermidades colhendo informações através de intensa correspondência com médicos. E em 1799, publicou um trabalho em dois volumes, nos quais chegou à conclusão que as epidemias acontecem quando múltiplos fatores ambientais se combinam para afetar um grande número de pessoas simultaneamente. Muitos médicos americanos, apoiaram esta teoria durante uns cinqüenta anos consecutivos.

A Revolução Industrial e sua economia política trazem o fato e a idéia da força de trabalho. A formação de um proletariado urbano, submetido a intensos níveis de exploração, expressa-se como luta política sob a forma de diferentes socialismos, ditos utópicos porque iniciais. O desgaste da classe trabalhadora deteriora profundamente as suas condições de saúde, conforme mostra Friedrich Engels em seu "As Condições da Classe Trabalhadora na Inglaterra em 1844", talvez o primeiro texto analítico da epidemiologia crítica. Um dos socialismos passa a interpretar a política como medicina da sociedade e a medicina como prática política. Desde então, o termo Medicina Social, proposto por Guèrin em 1838, serve para designar genericamente modos de tomar coletivamente a questão da saúde. Mas o projeto original da Medicina Social morre nas barricadas da Comuna de Paris de 1848. Também Engels não pretendia ser médico, e muito menos inaugurar a Epidemiologia.

Em 1802, nasce o termo epidemiologia, criado por Juan de Villalba, mais no sentido histórico das epidemias espanholas. Nos últimos dois séculos, ampliou-se o campo de epidemiologia antes restrito às ocorrências epidêmicas, para os processos determinados de agravos à saúde das populações. A tendência a matematização da epidemiologia recebe um reforço considerável no nosso século onde são propostos modelos matemáticos de distribuição de inúmeras doenças.

Em meados do século passado, por ocasião de uma epidemia de cólera em Londres, John Snow (1854), considerado o pai da epidemiologia, concluiu pela existência de uma associação causal entre a doença e o consumo de água contaminada por fezes de doentes, rejeitando a hipótese de caráter miasmático da transmissão, então em voga.

Costa & Costa (1990), comentando a idéia veiculada no parágrafo anterior, referem que “... Snow desenvolveu uma teoria sobre o modo de transmissão do cólera, estudando as epidemias em Londres em meados do século XIX, que de maneira alguma pode ser lida como uma associação causal entre doença e o consumo de água contaminada. Ainda que efetivamente Snow tenha descoberto que a água é o mecanismo de transmissão do cólera, não resta também dúvida de que sua obra não se restringe a esse fato. Pelo contrário, Snow busca precisar a rede de processos que determinam a distribuição de doença nas condições concretas de vida da cidade londrina. A leitura restrita sobre o trabalho de Snow fixa a atenção nos achados a respeito dos mecanismos de transmissão em detrimento do significado do olhar do autor sobre o cotidiano, os hábitos e modos de vida, os processos de trabalho e a natureza das políticas públicas. É pensando a doença em todas as suas dimensões que o autor consegue integrar essas expressões do social em seu raciocínio sobre o processo de transmissão".

Daquela época até o início do século atual, a epidemiologia foi ampliando seu campo, e suas preocupações concentraram-se sobre os modos de transmissão das doenças e o combate às epidemias. Atualmente conhecida como epidemiologia moderna, onde A demonstração de que vários fatores contribuem para a determinação da doença expandiu o interesse da Epidemiologia para as doenças crônicas. A Epidemiologia das doenças transmissíveis ainda é da maior importância nos países em desenvolvimento, que ainda convivem com doenças tais como Sarampo, Rubéola, Malária, Dengue e Toxinfecções alimentares, entre outras.

Atualmente as transformações sociais e econômicas das últimas décadas e suas consequentes alterações nos estilos de vida das sociedades contemporâneas colaboraram para o aumento da incidência das doenças crônicas, tanto em países ricos como nos de média e baixa renda, constituindo um sério problema de saúde pública. Esse período de mudança é denominado de transição epidemiológica, e é caracterizado pela mudança do perfil de morbidade e de mortalidade de uma população, com diminuição progressiva das mortes por doenças infecto-contagiosas e elevação das mortes por doenças crônicas. Além disso, apresenta diversidades regionais quanto às características socioeconômicas e de acesso aos serviços de saúde.

De acordo com o Ministério da Saúde (MS), o Brasil nas ultimas décadas as doenças infecciosas e parasitárias caiu de 46% (em 1930) para 5,3% (em 2005), enquanto as mortes por doenças e agravos não-transmissíveis chegaram em 2005 a representar dois terços da totalidade das causas conhecidas. Entre elas, as doenças do aparelho circulatório passaram de 10% (na década de 30) para cerca de 32% (em 2005); as neoplasias passaram de 2% para 16,7%, no mesmo período; e as causas externas representaram cerca de 14,5% em 2005. Nos países desenvolvidos, a transição epidemiológica transcorreu em um período longo, enquanto nos países em desenvolvimento ocorre de maneira rápida, acarretando profundas necessidades de adaptação dos serviços de saúde às novas realidades.

As doenças de maior impacto para a saúde pública são:

1º) as doenças cardiovasculares,

2º) o câncer, particularmente o cérvico-uterino e o de mama em mulheres e de estômago e pulmão nos homens,

3º) o Diabetes Mellitus, e

4°) as Doenças Respiratórias Crônicas.

Além disso no Brasil as doenças crônicas tem respondido por 69% dos gastos com assistência no Sistema Único de Saúde (SUS), nas últimas décadas
Classificação da epidemiologia

A epidemiologia pode ser classificada em descritiva, analítica e experimental.

A Epidemiologia descritiva já era conhecida desde Hipócrates (460-377 a.C.), em seus livros Epidemias e Ares, Aguas e Lugares, baseada em suas observações dos fenômenos naturais , enquanto a Epidemiologia analítica, mais recente, estuda as causas, suas associações e medidas. A Epidemiologia experimental, também chamada de estudos de estudos de intervenção, é provocada pelo observador para provar suas hipóteses ou para analisar um experimento natural.

A epidemiologia é uma ciência descritiva, na medida em que descreve a ocorrência e distribuição de doenças, desordens, defeitos, incapacidade, morte e outros problemas.

A Epidemiologia Descritiva preocupa-se em identificar os indivíduos que adoecem (incidência) ou morrem numa comunidade, e em indicar as enfermidades que produzem essa morbidade e essa mortalidade.

As taxas de morbidade podem ser incidência, e se referem aos casos novos em um período, surgindo por unidade de população.

As taxas de prevalência são representadas pelo número de casos existentes de uma determinada enfermidade ou de todas as enfermidades na área geográfica, em um dado momento.

A coleta de dados provém de informações úteis nos quais aparece descrito o quadro geral da Saúde-doença na comunidade de que se trata. Do ponto de vista epidemiológico, os dados mais importantes são os referentes às taxas de incidência e de mortalidade.

A tarefa de estabelecer a freqüência com que adoecem os integrantes da comunidade e quais são as enfermidades que os afetam é muito complexa.

A epidemiologia encara os problemas relacionados com a saúde e doença, tomando como sujeito de estudo não o indivíduo, e sim a comunidade. A sua atividade específica consiste em uma constante investigação que se aplica numa primeira etapa ao estudo da freqüência das enfermidades e da letalidade por eles produzidas.

Os registros e pesquisas são as fontes de informações fundamentais, utilizadas, pelo sanitarista para a realização de estudos da epidemiologia descritiva, a fim de divulgar com precisão as estatísticas, como quantas pessoas da comunidade adoeceram e morreram. De que adoeceram e morreram. Os registros de mortalidade constituem a fonte básica de informações epidemiológicas.

Através da Epidemiologia Analítica todos os fatores ligados ao agente, ao hospedeiro e ao meio ambiente, concernentes à história natural de uma doença, são agregados para planificação de estratégias de solução dos problemas de saúde da comunidade ou para a determinação das falhas no conhecimento da história natural e das medidas preventivas aplicáveis.

O termo agente significa um organismo, principalmente um microrganismo incluindo os helmintos. O agente representa substância ou força que produz alterações por meio de ação, capaz de executar processos vitais.

O agente, de acordo com suas características, divide-se em: vírus, bactérias, protozoários, fungos etc.

As diferenças que os agentes têm entre si apresentam propriedades comuns e de relevância epidemiológica, como: a capacidade de transmissibilidade e a capacidade patogênica e a virulência.

Estas propriedades não estão necessariamente associadas e, assim, podemos identificar subespécies, capas ou tipos, dentro de uma mesma espécie microbiana com um alto poder de transmissibilidades e pouco poder patogênico.

Existem dois tipos de hospedeiros: o hospedeiro intermediário, que abriga o organismo patogênico na fase larvar ou não adulta e o hospedeiro definitivo, que abriga tal organismo na fase adulta. Neste capítulo nos interessa enfocar o homem ou um grupo de seres humanos como hospedeiros biológico (idade, sexo, raça, imunidade específica e outros atributos relacionados com a susceptibilidade ou a resistência), ou de comportamento (regido pelos hábitos e costumes).

O ambiente exerce uma profunda ação sobre o homem, seja aumentado ou diminuindo sua resistência, seja criando situações que facilitem ou dificultem o contato entre germes e hospedeiro susceptível. Este último é um dos setores mais importantes por parte do ambiente, e acontece através de múltiplos mecanismos, como:




  • A reduzida eliminação dos excretos que propicia um elevado grau de contaminação fecal;

  • A qualidade inadequada das águas e dos alimentos permitirá a transmissão dos germes diretamente pela via bucal do hospedeiro;

  • A pouca aeração ambiental aumenta a densidade dos microrganismos na atmosfera;

  • A instituição de maciços mecanismos de produção e distribuição de alimentos põe em risco uma quantidade cada vez maior de indivíduos;

  • A acumulação de resíduos e de água estagnada propicia o desenvolvimento de insetos e vetores.

O ambiente modifica hábitos de higiene pessoal que contribui para aumentar ou diminuir as possibilidades de contágio. A disponibilidade de serviços médicos condicionará as probabilidades de um diagnóstico precoce a tratamento imediato.

Tanto o germe como o hospedeiro estão constantemente submetidos ao ambiente e sofrem permanentemente sua influências.

O germe é susceptível às ações do meio, e para o controle das enfermidades contagiosas é importante ter conhecimento desta característica.

O contato entre germe e o hospedeiro acontece mediante as denominadas vias de transmissão, sendo importante conhecê-las para interceptá-las quando efetivamente se determinam medidas de controle. Sucintamente a transmissão dos germes pode efetuar-se por contato direto e indireto.

O contato direto é a transmissão que se efetiva quando ocorre um contato físico real, entre o reservatório e hospedeiro.

O contado indireto é um processo pelo qual uma doença é transmitida entre o hospedeiro e o reservatório através de objetos, alimentos, água, ar insetos, vetores, inclusive outro indivíduo que esteja com as mãos ou roupas contaminadas.


A evolução da epidemiologia deve ser tratada no contexto da formação das sociedades. Histórica e conceitualmente, a epidemiologia se estrutura a partir de três elementos essenciais: a clinica, a estatísticas e a medicina social

A partir das primeiras décadas, com a melhoria do nível de vida, especialmente nos países desenvolvidos, e com o conseqüente declínio na incidência das doenças infecciosas, outras enfermidades de caráter não-transmissível (doenças cardiovasculares, câncer e outras) passaram a ser incluídas como objeto de estudos epidemiológicos, além do que, pesquisas mais recentes, sobretudo as que utilizam o método de estratificação social, enriqueceram esse campo da ciência, ensejando novos debates.

Atualmente, além de dispor de instrumental específico para análise do perfil de saúde-doença na população, a epidemiologia possibilita aclarar questões levantadas pelas rotinas das ações de saúde, gerando novos conhecimentos. Seu fim último é contribuir para a melhoria da qualidade de vida e o soerguimento do nível de saúde das coletividades humanas.
Nos nossos dias, é evidente o predomínio de uma postura marcadamente politizada, principalmente em países do Terceiro Mundo, com a conquista de espaços, contrapondo-se ao tradicionalismo herdado sanitarismo colonialista.

CONCEITOS BÁSICOS

Não é simples um conceito de termo epidemiologia, em decorrência da complexidade do assunto. Várias foram as definições ao longo dos anos e a mais simples a conceitua como a ciência a ocupar do estudo das epidemias. Assim, de início compreendia como o estudo das doenças transmissíveis em caráter epidêmico, teve o seu conceito ampliado.

A Associação Internacional de Epidemiologia, em seu “Guia de Métodos de Ensino” (1973), define epidemiologia como “o estudo dos fatores que determinam a freqüência e a distribuição das doenças nas coletividades humanas” .Enquanto a clínica dedica-se ao estudo da doença no indivíduo, analisando caso a caso, a epidemiologia debruça-se sobre os problemas de saúde em grupos de pessoas às vezes grupos de pequenos – na maioria das vezes envolvendo populações numerosas”.
Ciência que estuda o processo saúde-doença em coletividades humanas, analisando a distribuição e os fatores determinantes das enfermidades, danos à saúde e eventos associados à saúde coletiva, propondo medidas específicas de prevenção, controle ou erradicação de doenças, e fornecendo indicadores que sirvam de suporte ao planejamento, administração e avaliação das ações de saúde.

Rouquayrol & Goldbaum, 1999.




  • O que é processo saúde-doença?

  • O que são fatores determinantes?

  • Que são medidas de prevenção?

  • Quando a doença está controlada?

  • Em que consiste a erradicação?

  • O que são indicadores de saúde?

Conjunto de conceitos, métodos e formas de ação prática que se aplicam ao conhecimento e transformação do processo saúde-doença na dimensão coletiva ou social.

Breihl, 1980

Note que este conceito envolve o estudo da estrutura sócio-econômica que explique o processo saúde-doença de uma maneira histórica e abrangente, sendo um instrumento de transformação social.


OBJETIVOS


  1. Descrever a distribuição e a magnitude dos problemas de saúde nas populações humanas;

  2. Proporcionar dados essenciais para o planejamento, execução e avaliação das ações de prevenção, controle e tratamento das doenças, bem como para estabelecer prioridades;

  3. Identificar fatores etiológicos na gênese das enfermidades.




Muitas doenças, cujas origens até bem recentemente, não encontravam explicação, foram sendo identificados através de associações causais pela metodologia epidemiológica, que aplica o método científico da maneira mais abrangente possível a problemas de saúde da comunidade.

Através da epidemiologia analítica, Gregg, na Austrália, em 1941, descobriu a associação existente entre malformações congênitas e rubéola adquirida pela mãe durante os primeiros meses de gestação.

Leucemia na infância provocada pela exposição aos raios-X durante a gestação; trombose venosa relacionada ao uso de anticoncepcionais; ingestão de talidomida e o aparecimento de numerosos casos de focomélia; hábito de fumar e câncer de pulmão, cegueira em crianças subnutridas de coletividades rurais nordestinas e sua relação com a avitaminose A; mortalidade infantil e classes sociais; são alguns dentre os numerosos exemplos de associações estaduais pelo método epidemiológico.

O que a Epidemiologia pretende?




  • Descrever a distribuição dos problemas de saúde nas populações humanas.

  • Proporcionar dados essenciais para o planejamento, execução e avaliação.

  • Estabelecer prioridades nas ações de prevenção, controle e tratamento das doenças.

  • Identificar fatores etiológicos na gênese das enfermidades.


APLICAÇÃO DA EPIDEMIOLOGIA


  1. Estudo histórico da origem e declínio da doenças.

  2. Diagnóstico populacional pela presença, natureza e distribuição dos eventos e alterarem a saúde.

  3. Definição de problemas de saúde e suas prioridades.

  4. Estimativa de riscos individuais em relação à doença.

  5. Complementação de quadros clínicos e descrição da história atual da doença.

  6. Auxílio na solução de problemas administrativos pela análise de pesquisas operacionais.

  7. Determinação da internação dos fatores referentes aos agentes, o homem e o meio.

  8. Detecção dos estágios pré-clínicos, sub-clínicos ou incipientes das doenças, empregando teste em massa nas populações.

  9. Estudo da atitude, do comportamento social e dos problemas relativos à educação em saúde.

  10. Auxílio à prática médica através da epidemiologia clínica.

  11. Determinação das necessidades e dos métodos para controlar e prevenir os eventos alteradores da saúde.

  12. Estudo dos serviços de saúde, tendo em vista a sua melhoria.



QUANTIFICAR PARA BEM AVALIAR
Em geral, populações são grandes grupos de pessoas em um contexto definido ou com determinada característica. Para se facilitar os estudos epidemiológicos utiliza-se amostras da população, que é o subconjunto da população, a qual deve fornecer resultados que possam ser generalizados, isto é , é o grau que os resultados de uma observação se mantém verdadeiros em outras.

O método pelo qual se retira uma amostra da população é chamado amostragem e pode ser causal e não causal.

No método causal todos os elementos da população tiveram a chance de participar da amostra, neste caso os resultados podem ser generalizados. Já no método não causal nem todos tem a mesma chance de participar da amostra.

É de fundamental importância a análise de variáveis diversas. Assim por exemplo, na curva de crescimento desenvolvimento das crianças é necessário mensurar e comparar peso e estatura. Para se saber se uma endemia de doença meningocócica irá eclodir como epidemia, é necessário quantificar-se o número de casos de uma série histórica, ano a ano e mês a mês, comparando a incidência máxima esperada com os coeficientes mensais do ano sob suspeita de se epidêmico. Para saber se a proteção contra doenças evitáveis por imunização está sendo efetiva, calculam-se os índices de cobertura vacinal.



Estes exemplos significam que em epidemiologia a quantificação dos eventos é imprescindível para avaliar e para bem administrar a saúde da comunidade.



As variáveis, quanto à sua natureza, podem ser categorizadas como qualitativas e quantitativas. As variáveis qualitativas são as que incluem diferenças radicais. A variável sexo, por exemplo, inclui as categorias masculino e feminino, as quais mantêm entre si diferenças não apenas de quantidades, mas sim de natureza. Outras variáveis qualitativas que eventualmente possam despertar interesse epidemiológico são: local de residência, local de trabalho , ocupação, etc.



As variáveis quantitativas, por sua vez, envolvem diferenças não-substanciais , diferenças apenas de grau. Referem-se a propriedades que mantêm a mesma natureza em toda a sua extensão e que se mostram ora com maior, ora com menor freqüência ou intensidade, podendo ser expressas em termos numéricos: peso, estatura e temperatura são bons exemplos.

As variáveis quantitativas serão descontínuas (ou discretas) quando, entre dois valores consecutivos expressos por números inteiros, não for possível incluir valores fracionários: números de batimentos cardíacos, por exemplo. As variáveis contínuas admitem valores fracionários entre quaisquer valores consecutivos (temperatura corporal, por exemplo).


MODELOS EPIDEMIOLÓGICOS
CONCEITO
O que é modelo epidemiológico?
Modo de explicar o aparecimento, a interrelação dos fatores e a distribuição das doenças nas coletividades humanas que contribui para o entendimento o processo saúde-doença. JJFA, 1999
TIPOS
Quais os tipos básicos de modelos epidemiológicos?

  • Unicausal

  • Multicausal

  • Determinação social da doença



MODELO UNICAUSAL
Quais são os postulados de Koch?

  • o agente tem que ser achado em todas as pessoas doentes → causa necessária.

  • o agente tem que estar ausente em todas as pessoas sadias → causa suficiente.

  • o agente tem que ser capaz de induzir uma doença similar em animais.


M. tuberculosis → Tuberculose
Evidentemente, não é possível aplicar este modelo para explicar a ocorrência das doenças, pois as mesmas não se manifestam tão simples assim. Existe uma variabilidade de diferenças na susceptibilidade de indivíduos, interação com outros agentes, além da predisposição hereditária.
MODELO MULTICAUSAL
Em que consiste o modelo multicausal?

  • rede de relações causais entre os de risco e a doença.

  • engloba muitas variáveis simultaneamente.

Este modelo, apesar de ser avançado em relação ao anterior, tem a desvantagem de não determinar uma ordem de hierarquia entre as variáveis em estudo.


MODELOS DA DETERMINAÇÃO SOCIAL DA DOENÇA
Em que consiste o modelo da determinação social da doença?

  • hierarquiza as variáveis causais em estudo, relacionado os diversos fatores de risco.

  • permite controlar os fatores de confusão.

Discuta o modelo da determinação social para Infecções Respiratórias Agudas (IRA) na criança.


Note que os determinantes da IRA são afetados por um grande número de fatores, entre os quais: fatores socioeconômicos (renda familiar e escolaridade dos pais), biológicos (idade materna e ordem de nascimento), ambientais (tipo de moradia, exposição ao fumo passivo e aglomeração familiar), nutricionais (peso ao nascer e estado de nutrição atual), práticas alimentares (amamentação) e freqüência à creche.
Nesse modelo, os fatores socioeconômicos se encontram em posição hierarquicamente superior, considerando que eles não determinam diretamente a IRA aguda, mas agem através de variáveis intermediárias, tais como os fatores ambientais e nutricionais. Assim, vemos que as baixas condições econômicas e a baixa escolaridade dos pais penalizam as crianças nascidas na pobreza, exatamente onde a morbimortalidade por infecções respiratórias é maior.

O segundo nível hierárquico é constituído pelos fatores ambientais e biológicos, que são, por sua vez, determinados pelos fatores socioeconômicos. Assim, a habitação inadequada, a aglomeração familiar, a exposição ao fumo passivo, a menor idade materna e menor ordem ao nascimento determinam diretamente o aparecimento de IRA, ou agente através de um terceiro nível hierárquico constituído pelos fatores nutricionais.

O terceiro nível hierárquico é constituído pelo fator nutricional baixo peso ao nascer. Esse nível, por outro lado, determina diretamente a IRA ou pode ser um meio por onde são permeados os outros níveis hierárquicos.

O quarto nível hierárquico é constituído pelas práticas alimentares (amamentação e ingestão de suco). Assim, quanto menor a duração da amamentação e menor a ingestão de suco de frutas, maior o risco de adquirir IRA.

No último nível hierárquico encontra-se freqüência à creche que, nesse modelo, é um fator de risco proximal. Esse determina o aparecimento da IRA por uma maior exposição a patógenos. O fator demográfico gênero não é influenciado pelos demais fatores.
Uma das classificações mais simples é feita em função dos objetivos do estudo, dividindo estes em Descritivos e Analíticos, contudo seus limites nem sempre são facilmente identificáveis. Os estudos descritivos geralmente se limitam ao registro da freqüência de eventos ou agravos patológicos observando sua variação no tempo e espaço. Enquanto que, os estudos analíticos têm como objetivo explicar as características dessa freqüência ou associações entre estas e outros fatores observados, a exemplo dos estudos que buscam estabelecer um nexo ou relação de causa efeito entre um determinado agente patogênico e um aspecto específico do meio ambiente, considerando-se a tríade de fatores que intervém e condicionam o aparecimento e desenvolvimento de uma doença (agente, hospedeiro, ambiente).

TIPOS DE ESTUDO EPIDEMIOLÓGICOS

A grande maioria dos estudos epidemiológicos é observacional (não-experimental) referem-se à pesquisa de situações que ocorrem naturalmente, a exemplo das freqüências de nascimentos e óbitos, os estudos de intervenção (experimental) geralmente são associados à epidemiologia clínica, destinados à avaliação de da eficácia de medicamentos, vacinas, exames e procedimentos médico - terapêuticos.

De acordo com Almeida & Rouquayrol, 1992, o repertório da epidemiologia engloba convencionalmente quatro estratégias básicas de pesquisa:


  • Estudos ecológicos

  • Inquéritos tipo corte-transversal (seccionais)

  • Estudos de caso-controle

  • Estudos de coorte

Os estudos ecológicos abordam áreas geográficas, analisando comparativamente indicadores globais, quase sempre por meio de correlação entre variáveis ambientais (ou sócio-econômicas) e indicadores de saúde.

Os estudos seccionais ou estudos de corte transversal ou estudo de prevalência observam simultaneamente, em um mesmo momento histórico, o fator causal e o efeito de um determinado agravo ou patologia, não se prestando por isso à pesquisa de etiologia, revelando apenas medidas de associação entre o agravo e a condição atribuída, úteis para identificar grupos (fatores) de risco, gerar hipótese e descrever a prevalência de doenças.

O estudo de caso-controle, assim como o estudo de coorte, é um estudo longitudinal ou de seguimento onde se procura verificar a freqüência de um determinado agravo na presença ou ausência de um determinado fator condicionante/determinante (exposição) distinguindo-se do estudo de coorte pelo fato de que as pessoas foram escolhidas por estar doentes.

Os estudos de coorte são os únicos capazes de abordar hipóteses etiológicas produzindo estimativas de incidência. O termo coorte tem origem no império romano e designava unidades do exército que possuíam equipamentos e uniformes homogêneos. A técnica de elaboração de uma coorte propõe como seqüência lógica da pesquisa a anteposição das possíveis causas e a posterior busca de seus efeitos ou danos.





HISTÓRIA NATURAL DAS DOENÇAS

Na medida da identificação da epidemiologia, das causas envolvidas no processo da doença, esclarecedora da forma de participação vai se tornando possível a elaboração de um modelo descritivo, compreendendo as inter-relações entre o agente, o hospedeiro e o meio-ambiente ,tais como se estabelecem no decurso da fases sucessivas do referido processo. Esta descrição foi apresentada por Leavell e Clark (1965) como “história natural da doença”.

Consideramos agentes substâncias, elementos ou forças, animadas ou inanimadas, cuja presença ou ausência pode, em hospedeiro humano suscetível, construir estímulo para iniciar ou perpetuar um processo –doença. Podem ser físicos, químicos ou biológicos. Por meio ambiente entende-se o conjunto de condições e influências externas capazes de afetar a vida e o desenvolvimento de um organismo. Nele, se incluem os fatores sociais, econômicos e biológicos de saúde física e mental do homem e são, por ele influenciados. Nesta acepção, o ambiente compreenderia qual quer meio onde vive o hospedeiro, e se ajustaria bem a um conceito ecológico da doença, onde ela representaria um desequilíbrio entre o organismo vivo e o meio ambiente . para o estudo dos agentes de doença, é conveniente distingui-los de outros fatores ambientais. Tal separação é feita para fins de sistematização, pois, os agentes vivos ou não, não podem ser separados do seu ambiente.

A história natural de uma doença será tão mais completa quanto maior o conhecimento das causas em jogo e de seu mecanismo de ação. Quanto mais profundo o conhecimento da história natural de uma doença , maiores serão as possibilidades de enfrentar ou interceptar suas causas. Não é necessário se conhecer tudo à respeito da história natural de uma doença para se atuar preventivamente, mas, muitas vezes, o sucesso não pode ser alcançado ;porque os conhecimentos são muitos escassos. É ainda importante compreender a história natural de uma doença como a descrição das interrelações entre agente, hospedeiro e meio, tem início antes do envolvimento do ser humano, isto é, antes de , como decorrência destas interrelações, ele receba o estímulo-doença.


CONCEITO

Em que se baseia a história natural da doença?

Inter-relações do agente, do susceptível e do meio ambiente que afetam o processo global e seu desenvolvimento, desde as primeiras forças que criam um estímulo patológico no meio ambiente, ou em qualquer outro lugar, passando pela resposta do homem ao estímulo. Até as alterações que levam à um defeito, invalidez, recuperação ou morte. Leavell & Clarck, 1976


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