Curso Practico de Pedagogia de Mr. Daligualt : No contexto da Pedagogia no Século XIX



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O Curso Practico de Pedagogia de Mr. Daligualt: No contexto da Pedagogia no Século XIX.
Marlete dos Anjos S. Schaffrath

Faculdade de Artes do Paraná



marleteas@hotmail.com

RESUMO


Este texto trata de questões sócio-culturais que envolveram a produção, a circulação e o uso do Curso Practico de Pedagogia de Mr. Daligualt na Província de Santa Catarina a partir de 1866. O manual de Pedagogia em questão, foi adotado pela Instrução Pública Catarinense, se inscreve no conjunto de materiais impressos que tiveram circulação no Século XIX no Brasil e na Europa e que eram destinados ao uso de professores das escolas elementares. O Curso Prático de Pedagogia de Mr. Daligualt aparece na lista de livros comprados para a biblioteca da Escola Normal de São Paulo em 1883. Esta mesma obra, foi adotada na Província de Santa Catarina no ano de 1866, e sua circulação entre o professorado catarinense ocorreu a partir de 1869, por determinação das autoridades provinciais. Este tipo de material impresso constituiria o que estudos historiográficos recentes chamariam de Guia de Aconselhamento. Um manual prático para professores, baseado em fundamentos pedagógicos difundidos na época e regados por preceitos morais e cristãos que deveriam conduzir a prática docente nas escolas de ensino elementar. O estudo do Curso Prático de Pedagogia de Mr. Daligualt que apresentamos aqui busca situá-lo no conjunto dos manuais e de outros impressos que circularam no Brasil no Século XIX. Estruturado a partir de reflexões de ordem moral e pedagógica, o Manual estabelece um perfil para a intelectualidade do professor, que na perspectiva de Jean Baptiste Daligualt, diretor de uma Escola Normal Francesa, passava pela “formação intelectual” que se construía a partir do desenvolvimento da inteligência através da memória, do raciocínio e das atividades físicas. Entretanto, a preocupação com a formação e o preparo para a prática docente caminha sempre consoante com preceitos cristãos, expressos veementemente no manual. Não pretendemos aqui fazer análise pedagógica ou técnica do conteúdo do manual. A ênfase das discussões que ora apresentamos está na análise dos aspectos contextuais da referida obra, aproximando conclusões que dão conta de sustentar que seu conteúdo e seu uso modelizaram práticas e saberes docentes em um determinado período histórico nas escolas brasileiras. Que sua elaboração e circulação se configuram como prescrição que pode ser tomada em uma tentativa de formatação para a escolaridade, dentro da Pedagogia Moderna.

O Curso Practico de Pedagogia de Mr. Daligualt: Descrições e prescrições de práticas pedagógicas no Século XIX.


Marlete dos Anjos S. Schaffrath

Faculdade de Artes do Paraná



marleteas@hotmail.com

O texto que segue apresenta algumas discussões derivadas da pesquisa que se articula à linha de Pesquisa Educação e Historiografia da Faculdade de Artes do Paraná, cujo objeto central é o estudo dos princípios pedagógicos e sócio-culturais determinantes da elaboração e circulação de material escrito destinado aos professores das escolas de ensino elementar brasileiras no Século XIX. Neste trabalho, interessa destacar dentre os compêndios distribuídos aos professores, o Curso Practico de Pedagogia de Mr. Daligualt, que foi adotado pela Instrução Pública Catarinense em 1866. A ênfase das discussões que seguem está na análise dos aspectos contextuais da referida obra, partindo-se sempre da idéia de que seu conteúdo modelizou práticas e saberes docentes em um determinado período histórico nas escolas brasileiras, assim como antes disso, foi moldado por uma conjuntura político-educacional da sociedade européia, sobretudo, francesa.

O Curso Prático de Pedagogia de Mr. Daligualt, até onde pudemos investigar, foi adotado na Província de Santa Catarina no ano de 1866, quando o então Presidente da Província Adolpho de Barros Cavalcanti de Albuquerque Lacerda, propõe como medida paliativa para superar a falta de uma Escola Normal onde os professores pudessem se preparar para o ensino das primeiras letras, o estudo da obra de Mr. Jean Baptiste Daligualt, diretor de uma das mais destacadas Escolas Normais Francesas (SCHAFFRATH, 1999, p.60). Sua circulação entre o professorado catarinense ocorreu a partir de 1869, por determinação das autoridades provinciais. Seu gênero constitui o que Marta Carvalho (2007) chama de Guia de Aconselhamento. Um manual prático para professores, baseado em fundamentos pedagógicos difundidos na época e regados por preceitos morais e cristãos que deveriam conduzir a prática docente.

O estudo do Curso Prático de Pedagogia de Mr. Daligualt que apresentamos aqui busca situá-lo no conjunto dos manuais que circularam no Brasil no Século XIX a partir da compreensão de que sua elaboração e circulação se configuram como prescrição de uma formatação para a escolaridade, dentro da Pedagogia Moderna, incluindo-se ai a concepção de profissional e os saberes metodológicos que a sustentariam1.

A Pedagogia ao longo da história tem contado com os manuais pedagógicos como vetores de produção e divulgação do discurso pedagógico para as sociedades que se erguiam sob o signo da modernidade. As práticas pedagógicas prescritas nestes manuais revelam muito mais do que “fazeres” de professores, elas se configuram em moldes de um perfil sócio-profissional desejado pelas sociedades. Assim, os impressos se configuram como estratégias simbólicas constituintes da identidade de determinados grupos sociais em determinados períodos históricos. É o que o que Chartier (1991) denomina de “lutas de representações”, como resultado da relação de forças que se estabelece nos grupos sociais em relação à imposição dos grupos dominantes e a aceitação ou resistência dos demais. Neste sentido, o estudo dos manuais pedagógicos impressos de circulação escolar acabam por revelar muito sobre os grupos dominantes e suas ideologias e sobre a representação que cada grupo individualmente, no caso, os professores, faz de si.

Os manuais, embora destinados ao uso escolar, são diferentes entre si; eles diferem em sua natureza e forma, assim como também são distintos dos manuais escolares ou didáticos dirigidos aos alunos do ensino primário. Os textos contidos nestes documentos não são apenas lições seqüenciadas de tarefas docentes, eles correspondem aos discursos adequados ao papel que os professores, em diferentes tempos e espaços, deveriam desempenhar (CHARTIER, 1991).

Análise dos materiais pedagógicos impressos que circularam nas escolas brasileiras têm sido um recurso importante para os estudos da Historiografia da Educação brasileira, Marta Carvalho (2001; 2006; 2007), Vera Valdemarim (1998; 2000), Carlota Boto (1998; 2004; 2008) e muitos outros autores.

No Brasil, diversos Cursos, Manuais ou Compêndios passaram a circular em meados do Século XIX. Dentre os quais podemos destacar: Lições de cousas, do Dr. Saffray, publicado em 1908; Plan d'études et leçons de choses, de Jules Paroz, publicado em 1875; Exercises et travaux pour les enfants selon la méthode et les procedés de Pestalozzi et de Froebel, de autoria de Fanny Ch. Delon e M. Delon, em edições de 1892 e 1913 e Primeiras lições de coisas, de Norman Allison Calkins, publicado em 1886 (VALDEMARIN, 2000) sempre com o propósito de oferecer aos professores um suporte profissional.

O Curso Prático de Pedagogia de Mr. Daligualt em Santa Catarina é referenciado em documentos oficiais (relatórios de Presidentes da Província, Legislação da Instrução Pública), além disso, é mencionado na obra de Primitivo Moacyr (1940), sobre o ensino nas províncias brasileiras. Uma referência a adoção deste manual em Santa Catarina aparece no texto da Dissertação de Mestrado, sobre Escola Normal Catarinense de 1892 (SCHAFFRATH, 1999) aonde seu conteúdo está exposto, sem contudo receber um tratamento de pesquisa mais apurado. Uma tradução do Curso Prático de Pedagogia de Mr. Daligualt, encomendada pelas autoridades provinciais de Santa Catarina está no Setor de obras raras da Universidade Federal de Santa Catarina (CEOR-UFSC).

Nossa proposta não é a de destacar aqui as questões didáticas colocadas pelo Curso de Mr. Daligualt e tampouco, fazer apologia a transposição de conteúdos dispostos neste documento. Compreendemos que para além destas questões, que são elementos presentes no Curso, é preciso situá-lo no conjunto de prescrições e práticas pedagógicas que contribuíram para a reprodução do pensamento dominante e das relações sociais que se estabeleceram naquele determinado período histórico para a sociedade burguesa nos moldes do modo de produção capitalista.

Antonio Gramsci (1981) discute o conceito de hegemonia nas sociedades capitalistas como o conjunto de funções para domínio e direção que uma classe social exerce sobre outra classe no decorrer de um determinado período histórico. Para o autor, a dominação ideológica de uma classe social sobre outra, se dá pela dominação intelectual (segundo ele, algumas vezes pela força). Assim, as classes dominantes se perpetuam no poder pela subordinação intelectual a qual submetem as classes subalternas. Sob a proposta de Gramsci, podemos inferir que as ideologias constitutivas do Curso de Mr. Daligualt e aquelas que certamente derivaram ou se produziram a partir dele, forjam a perspectiva intelectual compartilhada pelas classes hegemônicas no Século XIX, e cujos domínios se estabeleciam para as demais.

Para Valdemarin (2000), os manuais que circulavam aqui, embora diferentes entre si, estavam todos vinculados ao projeto modernizador da sociedade do Século XIX. Segundo a autora, muito embora cada uma deles apresentasse uma visão distinta do que fosse o progresso, ambos estavam vinculados ao mesmo projeto de sociedade burguesa e do modo de produção capitalista.

A partir daí a análise da formulação pedagógica que o Curso de Mr. Daligualt encerra, só poderia ser sustentada por intermédio da compreensão dos projetos de instrução pública como mecanismos de transformação de mentalidades. As concepções de conhecimento e de saberes necessários para a tarefa de ensinar em escolas, descritos pelos manuais de Pedagogia, são parte da dinâmica que busca através da ação pedagógica dirigir o processo de formação de indivíduos. O que inclui novos valores morais e novos objetivos econômicos e políticos para as sociedades.

Para Valdemarin (1998), nas sociedades modernas a educação passa a ser compreendida como um mecanismo de emancipação humana, “uma vez que a razão, adequadamente orientada por procedimentos ensináveis, criaria a possibilidade de construção de uma sociedade harmônica, espelhamento do progresso obtido com relação ao saber” (VALDEMARIM, p. 88, 1998). Os manuais destinados aos professores se firmam como instrumentos de acesso a uma cultura letrada, chave de entrada para o modelo de cidadão desejado pela sociedade moderna.

Marta Carvalho (2001) aborda a questão da produção, circulação e utilização de modelos pedagógicos no Brasil e na França a partir de meados do século XIX. Neste trabalho, a autora destaca que nos manuais impressos que circulavam era patente o deslocamento dos conteúdos relacionados aos saberes necessários à prática de professores, para conteúdos de caráter disciplinador, moralizante. A autora aponta o perfil generalista de uma formação que pretendia dar ao professor, meios e métodos para forjar nos alunos o espírito cientificista que movia as sociedades daquele período histórico.

A autora estudando manuais de pedagogia defende que eles organizavam um discurso pedagógico que encerrava em si as ferramentas para a organização da escola nos moldes da Pedagogia Moderna que pretendia, dentre outras, afirmar a educação como ciência. Os processos educativos prescritos, as concepções acerca da Psicologia infantil (mais voltada para as faculdades mentais), os instrumentos didáticos selecionados e toda a rotina de organização da escola e da sala de aula, sob a forma de material impresso constroem o arcabouço de uma engenharia escolar traçada nos Manuais de Pedagogia adotados pelas escolas para uso de professores.

No Brasil, o Curso Prático de Pedagogia de Mr. Daligualt está na lista de livros que Paul Bourroul, então Diretor da Escola Normal de São Paulo mandou importar da França em 1883, conforme destaca Marta Carvalho (2007). Para a autora as compras de livros para a biblioteca da Escola Normal de São Paulo demarca a intenção de uma formação ou da assimilação de uma cultura determinada pedagógica. Para a autora, o material comprado pode ser classificado em três tipos distintos: caixa de utensílios, livros de aconselhamento e tratados de educação. De acordo com a classificação da autora, o tratado, seria tipo de impresso que compendia teorias sobre determinado campo de saber. Nesta perspectiva, os tratados de Pedagogia seriam os materiais que compendiavam teorias que incidiam sobre os campos pedagógico, intelectual e científico com vistas à formação de professores. Este gênero de leitura oferecia ao leitor, neste caso, os professores, condutas para o campo da Pedagogia a partir de teorias científicas estabelecidas naquele período.

Já o material especificado como caixa de utensílios se caracteriza como formulações que estabelecem uma rotina para a organização das tarefas docentes. Modelos a imitar e saberes pedagógicos diversos que estruturariam a tarefa docente como a arte de ensinar,são apresentados neste tipo de material impresso. Sua difusão conheceu o apogeu na França do Século XIX com a utilização massiva do Método de Ensino Mútuo.

Como Guia de Aconselhamento a autora enquadra o material destinado à leitura de professores cujo conteúdo consistia em conselhos profissionais baseados frequentemente em preceitos moralizantes e experiências práticas na escola. De acordo com Carvalho (2007) Os Guias de Aconselhamento têm longa tradição na Europa. São impressos desde a Idade Média e, por apresentar repertório variado de conselhos políticos e cristãos, eram indicados aos jovens príncipes como guia para um bom governo.

Na França, muitos livros de pedagogia que circulavam no Século XIX, tinham a configuração de Guia de Aconselhamento. Patrick Dubois (2002), apud Carvalho (2007), explica que estes livros eram elaborados pro altos funcionários da Instrução Pública e destinados aos professores da escola primária ou aos alunos-mestres destas escolas. Seu conteúdo era recheado de ”conselhos úteis” fundamentados nas lições de Pedagogia , na doutrina cristã e especialmente, em preceitos morais e regulamentações da ordem pública.

O Curso Practico de Pedagogia de Mr. Daligualt aparece indicado pelo poder público da Província de Santa Catarina para o uso de professores do ensino elementar. Em 1869 o Vice Presidente da Província, Manoel Nascimento Fonseca Galvão, resolve mandar publicar a tradução da obra e distribuir aos professores em exercício nas escolas primárias da Província, por conta da reformulação da rede de ensino pública da Província2. O texto abaixo, retirado da apresentação do próprio Manual impresso mostra a iniciativa do Governo Provincial na adoção do Manual a fim de que os professores em exercício no magistério provincial possam com ele se preparar, na falta de uma Escola Normal.

O Vice presidente da provincia, para o fim de tomar proficua a reforma ultimamente feita na Instrucção Publica, reconhecendo sêr da maior urgencia a necessidade de se imprimir e distribuir sem demora pelas escolas publicas da provincia o Curso pratico de pedagogia escripto em francez por Daligualt, e traduzido pelo cidadão Franc de Paulicéia Marques de Carvalhos em lingua vernácula (...)


Palacio do Governo, 18 de dezembro de 1869. (transcrito com fidelidade gráfica)

O Cours pratique de pedagogie de Mr Daligualt, ou como traduzido pelas autoridades provinciais de Santa Catarina, Compêndio de Pedagogia do Mr. Daligualt se enquadraria neste último tipo de impresso, o Guia de aconselhamento. Apresenta-se como uma série de exercícios práticos para os conteúdos ensinados e uma interessante apresentação da rotina escolar e especialmente sobre regras de organização da sala de aula, com minúcias sobre uso de equipamentos e mobília da escola. O Sumário deste livro dá a dimensão do alcance dos temas que o Manual pretende abordar (anexo 02). Nele estão descritas rotinas, horários, mobiliários, objetos de uso escolar, enfim, materiais de rotina na prática dos professores das escolas públicas, mas cuja manipulação eficiente faz parte das atribuições do professor. O referido manual apresenta-se dividido em vários capítulos que trazem em seus conteúdos uma mescla de temas que vão das concepções de educação e moralidade para professores aos exercícios práticos das lições para os diversos ramos do conhecimento escolar.

Seu repertório de temas é variado, contudo, pode-se dizer que seu conteúdo professa questões teóricas como noções sobre Pedagogia, educação e moralidade, e que estas são apresentadas inicialmente e ocupam boa parte do Manual. Este conteúdo reforça teorias gerais sobre a ciência da Educação e o papel do professor a partir das perspectivas filosóficas e sociológicas gerais, com base no pensamento europeu, exatamente conforme descreve Marta Carvalho (2001) se referindo aos escritos veiculados nas escolas no Século XIX com finalidade de formar professores. Abaixo transcrevemos o primeiro parágrafo do “Prólogo” do Manual onde aparece claramente a perspectiva sugerida para a ação docente.
O principal objeto da missão do Professor é conduzir á virtude os meninos, que lhe são confiados. Achando-se elle obrigado a despertar e fecundar sua intelligencia, e devendo, para quanto estíver em seu alcance, favorecer o desenvolvimento de suas entidades ;Fysicas, não póde comtudo limitar á isto sómente os seus esforços, sem confundir, por um acto funesto e culpavel negligencia, os meios com o fim. Conhecer a Deos e observar os seus preceítos, tal é a destinação para que o homem foi creado, talo objecto que a consciencia e a religião proclamão como a unica cousa necessaria.(...)
Estruturado a partir de reflexões de ordem moral e pedagógica, ia estabelecendo um perfil para a intelectualidade do professor, que na perspectiva de Mr. Daligualt passava pela “formação intelectual” que se construía a partir do desenvolvimento da inteligência através da memória, do raciocínio e das atividades físicas.

No que se refere a compreensão do que seja a Pedagogia e toda a concepção do ofício de ensinar que daí deriva, Mr. Daligualt esclarece:

Definição, Objeto e Divisão da Pedagogia

Pedagogia é a arte de ensinar os meninos, ou de lhes dar uma boa educação: arte importante que exige muito discernimento, luzes, experiencia e dedicação.

Educar os meninos não é simplesmente instruil-os como entendem algumas pessoas, que confundem a instrucção com a educação; mas desenvolver e dirigir as faculdades com que nascem. Sendo pois o homem composto de corpo e de uma alma, dotada de intelligencia e de vontade, segue-se que o menino possue tres especies de faculdades, que são as faculdades physicas, que se referem ao corpo, as faculdades intellectuais que respeitão a intelligencia, e as faculdades moraes, que tem relação com a vontade. D'aqui se derivão tres ramos da educação, a saber: a educação physica, a educação intellectual; e a educação moral, com a qual se confunde a educação religiosa.
Note-se que aqui há um forte vínculo da atividade docente com o caráter moralizador da educação. Contudo, fica claro também o estabelecimento da instrução pública como uma atividade intelectual que deriva de atividades científicas intencionais, já difundidas na Europa e nas sociedades Americanas que se consolidavam sob os auspícios da Ciência Moderna. A Pedagogia é entendida da perspectiva da “arte de ensinar”, para o que, se exige boas condições intelectuais, adequados valores morais e o respeito à doutrina cristã.

Os materiais impressos que circularam no Brasil no Século XIX, via de regra, ofereciam este tipo de aporte de conhecimentos para professar o magistério. Uns enfatizavam grandes fundamentos pedagógicos, outros questões práticas da “arte de ensinar”, mas todos eles certamente interferiam na construção de uma cultura escolar.

No caminho teórico e metodológico para entender o lugar dos manuais pedagógicos produzidos e utilizados nas escolas e como eles podem se configurar em fonte de pesquisa para a Historiografia da Educação, é necessário compreender qual a dinâmica escolar que abriga os mecanismos pedagógicos/culturais adotados pelas sociedades. Neste sentido, significar cultura escolar passa a ser fundamental. Dominique Julia (2001) analisa cultura escolar como um conjunto de normas que definem o conhecimento a ser ensinado, as condutas a serem assimiladas e uma série de práticas adotadas a fim de viabilizar o processo de assimilação destes conhecimentos e destas condutas. No entanto, explica o autor, o estabelecimento de padrões culturais tem finalidades distintas, e que se definem a cada período histórico. Por sua vez, as práticas culturais que se estabelecem na escola não podem ser analisadas sem se considerar o papel dos professores, agentes deste processo, que embora não sejam intelectuais, mentores e encarregados de viabilizar, através de práticas pedagógicas, os conhecimentos e as habilidades necessários para a consecução do projeto cultural que se pretende inculcar. Neste sentido, aponta o autor, também as dinâmicas da organização dos processos de escolarização são parte importante da cultura escolar que se deve compreender. Entram neste cômputo das fontes de pesquisa para a historiografia da educação, o espaço escolar, o corpo de profissionais, as disciplinas escolares e demais normas e práticas realizadas no interior das escolas.

Hobsbawn (1997) defende que as normas e os valores necessários para a legitimação dos sistemas sociais que surgiam no Século XIX eram inculcados pela escola e que, por este motivo, a escola moderna é uma das “tradições inventadas”. Pela escola se definiria os conhecimentos, os comportamentos e valores culturais que deveriam ser adquiridos. Portanto, sua disseminação implicaria em oportunidades para a participação ou mobilidade social, uma vez que o cabedal cultural do escolarizado o distinguia daqueles que não tiveram acesso aos conhecimentos veiculados na e pela escola.

A sociedade européia ocidental no Século XIX vivia as transformações decorrentes da consolidação do sistema capitalista. Este novo modo de produção pressupunha a liberdade de movimentação de forças produtivas, que estava associada às modernas concepções de homem e de mundo e, sobretudo, à ascensão da burguesia como classe dirigente. Neste moderno projeto de sociedade, o homem racional tomava o lugar do homem de fé. As novas perspectivas para a produção das sociedades passou então a se vincular as atividades liberais. De acordo com Chervel3 citado por Dominique Julia (2001, p 33) as disciplinas escolares são inseparáveis das finalidades educativas que as motivaram e são um conjunto complexo de elementos para além da explicitação dos conteúdos.

Carlota Boto (1998) analisando a cultura escolar em Portugal (182-1850) descreve a influência do pensamento intelectual que concebia a educação escolar, e, sobretudo a escola primária, como vetor de sociabilidade seguindo padrões iluministas, que sustentavam o ideário da escola pública, laica e universal. Segundo a autora, se entre os anos de 1820 e 1850 as discussões sobre o papel social da escola, como produtora de novos padrões de sociabilidade era predominante na sociedade portuguesa; foi a partir de 1850 que as questões do método começaram a fazer parte do itinerário dos processos de formação docente. Entre 1850 e 1870 nota-se neste país a proliferação de materiais didáticos, favorecendo questões metodológicas e ao mesmo tempo indicando que a escola não estaria dando conta do ensino de habilidades elementares como a leitura, a escrita e o cálculo, conhecimentos básicos, delimitados para o âmbito da escola primária. A autora destaca ainda que a partir de 1870 intensificaram-se os debates em tordo do estabelecimento da Pedagogia como uma “ciência educação” baseados no pensamento positivista. Agora as questões trazidas pela Pedagogia, como o desenvolvimento infantil, eram analisadas sob o ponto de vista científico. Ainda mais que em meados de 1870 o aprimoramento de técnicas tipográficas e o incremento dos meios de transporte faziam circular por toda a Europa os escritos científicos de todas as áreas.

Em Portugal, por exemplo, conforme apontam os estudos de Carlota Boto (1998) a literatura portuguesa deste período relata uma escola com problemas de organização interna - demarcação de horários para as aulas, espaço físico, mobiliário e seriação. Estas questões se colocavam como problemáticas para a dinâmica das escolas apareciam com freqüência nos impressos que circulavam na sociedade portuguesa. Os livros de escola já circulavam em Portugal desde meados de 1850, trazidos como tentativa de superação das deficiências metodológicas em decorrência da falta de preparação dos professores. O material impresso que circulava como livro de escola tinha caráter enciclopédico e buscava ensinar de tudo ao professor e, sobretudo, seu papel preponderante na escola era não só ensinar a ler, mas o que ler e como ler. (BOTO, 1998, p.166).

Considerando os apontamentos expostos acima, pensamos que o Manual de Pedagogia de Mr. Daligualt pode nos dizer, a exemplo dos demais compêndios que circulavam no Brasil, em Portugal ou na França, muito sobre as questões que se colocaram para a educação pública no Século XIX. Ele é representante de uma literatura que descrevia e prescrevia modelos de professor e de escola que se construíam e que legitimavam certamente relações de poder e projetos para as sociedades. Melhor dizendo, via escola e através do material escrito que nela circulava, se gestavam e materializavam projetos sociais.

Enfim, no contexto de sua produção e, no Brasil, no contexto de sua circulação, o Curso Práctico de Pedagogia de Mr. Daligualt se inscreve como um aporte metodológico para a consecução de práticas de ensino e ainda, servia como suporte teórico para a aquisição de valores, de comportamentos e, inclusive, de conhecimento pedagógico necessários para o ofício da docência.

Cabe dizer que sua elaboração e circulação se configuram em formatação de uma “escolaridade”, tanto no que se refere a apropriação de professores no sentido de sua formação, quanto na apropriação dos alunos, no que se refere aos conteúdos propostos pelo manual.De todo modo, esta formatação se move no âmbito da Pedagogia Moderna do Século XIX.


REFERÊNCIAS

Legislação

Lei n. 600 de 13 de Abril de 1868 – Autoriza o Presidente da Província a reorganizar o serviço de instrução pública. In: Ementário da Legislação do ensino de Santa Catarina (1835-1979). Florianópolis: Governo do Estado de Santa Catarina- Consultoria Geral do Estado, 1980.
Bibliografia

BOTO, Carlota J. – Aprender a ler entre cartilhas: civilidade, civilização e civismo pelas lentes do livro didáctico. Educação e Pesquisa. São Paulo. ISSN 1517-9702. Vol. 30, n.º 3 (Set./Dez. 2004), p.  493-511.

______________. A arte de tornar ciência o ofício de ensinar. Anped, 30ª. Reunião, Caxambu, MG: Anais, 2007, GT História da Educação/ 02.

______________. Ler, escrever e se comportar: a escola primária como rito do Século XIX português. In: SOUSA, C. P.; CATANI, D. B. (Orgs.) Práticas educativas, culturas escolares, profissão docente. São Paulo: Escrituras Editora, 1998.

CARVALHO, M. M. C. A caixa de utensílios e o Tratado: modelos pedagógicos, Manuais de Pedagogia e práticas de leitura de professores. In: IV Congresso Brasileiro de História da Educação, 2006, Goiânia. A educação e seus sujeitos na história. Goiânia: Editora da UCG/Ed. vieira, 2006. v. 1. p. 81-82.

______________. Uma biblioteca pedagógica francesa para a Escola Normal de São Paulo (1882): Livros de formação profissional e circulação de modelos culturais. In: BENCOSTTA, Marcus L. A. (Org.) Culturas escolares, saberes e práticas educativas. São Paulo: Cortez, 2007.

CHARTIER, Roger. "O mundo como representação". Estudos Avançados, vol. 5, n.º 11, jan./abr. 1991, pp. 173-191.

DALIGUALT. Curso Prático de Pedagogia. Tradução de Franc de Paulicéia M. de Carvalhos. Desterro: Typografia .Biblioteca Central UFSC 37.(816.4).D. 143C.CEOR.

GRAMSCI, Antonio. Concepção Dialética da História. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.

HOBSBAWN, Eric; RANGER, Terence (Org). A Invenção das Tradições, 3ª ed. São Paulo: Paz e Terra, 2002.


JULIA, Dominique. A cultura escolar como objeto histórico. In: Revista Brasileira de História da Educação. Campinas: SBHE/ Autores Associados, n. 01, 2001.

MOACYR, Primitivo. A instrução e as Províncias:Subsídios para a história da educação no Brasil 1834-1889. 3º. Vol. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1940

SCHAFFRATH, Marlete dos Anjos S. A Escola Normal Catharinense de 1892: Profissão e ornamento. Dissertação de mestrado. (Mestrado em Educação) Universidade Federal de Santa Catarina, 1999.

VALDEMARIN, Vera T. Lições de coisas: Concepção científica e projeto modernizador para a sociedade. Cad. CEDES v.20 n.52 Campinas nov. 2000.



­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­______________.O conhecimento do mundo: um estudo sobre as concepções epistemológicas e sua aplicação escolar.In: Perspectiva, v.16, n. 29, p. 75-98, jan./Jun. Florianópolis, 1998.

ANEXOS

Anexo 01- Carta de apresentação do Curso Prático de Pedagogia de MR. Daligualt.

DALIGUALT. Curso Prático de Pedagogia destinado aos alunos das Escolas Normais Primárias, aspirantes ao Magistério, e aos professores em exercício.

A obra é oferecida à Manoel do Nascimento da· Fonseca Galvão (deputado á Assembléia Geral, Legislativa, Vice presidente da Província, deputado eleito da respectiva Assembléia Legislativa, juíz de direito nomeado para a Comarca de Lages) pelo tradutor: Franc de Paulicéia M. de Carvalhos, Diretor Geral interino da Fazenda Provincial
Desterro, 2 de dezembro de 1869.
O Vice presidente da provincia, para o fim de tomar proficua a reforma ultimamente feita na Instrucção Publica, reconhecendo sêr da maior urgencia a necessidade de se imprimir e distribuir sem demora pelas escolas publicas da provincia o Curso pratico de pedagogia escripto em francez por Daligualt, e traduzido pelo cidadão Franc de Paulicéia Marques de Carvalhos em lingua vernácula: resolve renovar, como credito supplementar ao $ 6.0 do artigo 3.0 da leí n.627 de 11 de junho ultimo, o credito especial de 700$ réis, que para impressão da dita traducção foi votado na 6. a verba do $ 4. o do art.2. o da lei n. 424 de 1 5 de maio de 1856; e ordena que com a dita quantia seja paga a assignatura de 400 exemplares, que, pela metade do preço estipulado de 3$Soo réis cada um offereceu o traductor, sob condição de ser este pagamento adiantado na occasião da assignatura.
Manoel do Nascimento da Fonseca Galvão.

Conforme.

João Cesario dos Santos

Secretario do governo

Anexo 02

Resumo dos conteúdos apresentados em cada capítulo do Manual de Pedagogia de Mr. Daligualt (1869) (transcritos com grafia original)

Dedicatoria desta traducçao

Acto da presidência da província de 16 de Dezembro de 1869

Prefacio da 2ª. Ediccao

Prologo

Preliminares

Cap I- Dignidade das funçcoes do professor primário

Cap II- Qualidades necessárias ao professor primário

Definiçao, objecto e divisão da Pedagogia

Primeira Parte- educaçao Physica

Cap I- Meios indirectos, ou precauções hygienicas

Cap II- Meios directos ou exercícios

Segunda Parte – Educaçao intellectual

Cap I- Escolha do local

Cap II- Mobilia

Cap III- Meios disciplinares

Cap IV- Classificaçao dos alumnos

Cap V- Methodos de ensino

Terceira Parte- educaçao moral e religiosa

Cap I- Estudos das principaes differenças que apresenta o caracter dos meninos

Cap II- Defeitos particulares que se deve combater nos meninos

Cap III- Virtudes essenciaes que se deve conservar ou estabelecer no coraçao dos meninos

Cap IV- Meios geraes de fortificar nos meninos o instincto moral e o sentimento religioso.

1 Não foi objetivo da pesquisa investigar o uso que os professores fizeram do manual de Mr. Daligualt, muito embora se considere que um dado importante para o estudo dos manuais, seja a sua apropriação no âmbito da escola e especialmente na sala de aula.

2 Lei n. 600 de 13 de Abril de 1868 – Autoriza o Presidente da Província a reorganizar o serviço de instrução pública. In: Ementário da Legislação do ensino de Santa Catarina (1835-1979). Florianópolis: Governo do Estado de Santa Catarina- Consultoria Geral do Estado, 1980.

3 CHERVEL, André. La culture scolaire. Une approche historique. Paris: Belin, 1998.


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