Curvam-se ante o brasil



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Wallace e Herzog

CURVAM-SE ANTE O BRASIL

A INVASÃO DAS ABELHAS (The Swarm, por Arthur Herzog. Trad. Affonso Blacheyre. Editora Artenova, 1976, Rio 712 pp. Cr$ 75,00.

A FONTE (The Fountains),

por Sylvia Wallace. Trad. d. B. Pinheiro de t emos Editora Record, 1976, Rio. 276 pp. Cr$ 58,00

Denis Borges Barbosa
P equenos ;ornais norte­americanos sabidamente in­fensos a notícias internacio­nais, referem-se constante­mente ao Brasi!, repetindo uma única notínia centenas de vezes. 0 Memphis Scimitar, maio de 1976: "Abelhas brasileiras são perigo mortal." Albuquerque News Et Tribune, mesmo mês: "Centenas de mortes devidas a picadas de abelhas no Brasil." Além de café e Pelé, Brasil nos EUA sig­nifica abelhas.

A Invasão das Abelhas, as­sim, nos faz uma remota homenagem, ao narrar a con­quista e quase destruição dos Estados Unidos por um en­xame de abelhas africanas vin-das do Brasil. Como 0 Rato Que Ruge, comédia em que um obscuro grão-ducado invade Nova Iorque com seu exército, mas ninguém percebe, é uma colher-de-chá que a paranóia desenvolvida dá a nações menos suntuosas. Quanto à alusão ao potencial subversivo de povos até há pouco man­sos, até submissos, capazes agora de destruir a economia norte-americana, é coisa tão evidente que nem merece maior reparo.'

0 livro, aliás, não é do, piores. No seu estilo --- o da Guerra dos Mundos, de We!!s - é uma história atraente, à qual as novas preocupações com ecologia, o jogo dos grupos de pressão, a guerra biológica, muito tempero moderninho, dão um certo ar de verosimilhança. Há trechos insuportavelmente pseudo­eruditos, o fim é decepcionan­te, mas, em compensação, a heroína é brasileira, uma Dra Maria Amaral que deve redimir as frustrações nacionais. Sabe­se lá o que é passar do status de "that colored people under Rio Grande" para o de herói de best seller?

A Fonte, por sua vez, é exatamente como um desses livrinhos distribuídos em banca de jornaleiro, com um título supostamente capaz de sugerir fantasia e encanto à sensi­bilidade feminil. A diferença é que é muitíssimo mais caro é algo pior: Silvia Wallace é mulher de Irving Wallace, mas tarimba ou, digamos, talento, não é transmissível por os­mose. Pela fotografia da con­tracapa, pode-se perceber a norte-americana de alta classe média, que aos 50 começa a colocar a voz cada vez mais cava, mais grave, e desenvolve uma expressão facial à Copélia.

A fonte do título é o nome de uma clínica de beleza onde o elenco do livro vai aliviar suas tensões num regime monástico de ginástica e dieta, a mil dólares por semana. As per­sonagens são todas mulheres da mesma classe social que a Sra Wallace e seus problemas combinam. Há a quarentona, ainda bonita, recentemente abandonada pelo marido; há a repórter em missão profis­sional, que odeia-inveja o am­biente; há a socialite, freqüen­tadora assídua, terror dos em­pregados da clínica; a condes­sa italiana, nobre de fancaria, que se faz nos salões e nas camas da sociedade de Beverly Hills.

Como manda o guia do es­critor de best seller (Writing a Novel, do próprio Irving Wallace), as mulheres são apresentadas antes de chegar à clínica, com seus problemas, rede de personagens secun­dários, enredos paralelos etc. Depois, são transplantadas para o cenário principal, e o leitor se prepara para o ro­damoinho de paixões, a re­solução das dificuldades, a Felicidade Final.



Lógico, não há nada disto, e mesmo quem lê o livro com in­tuitos profissionais emerge do romance com a sensação deter tempo e trabalho perdidos. Nada melhor para caracterizar o livro do que o personagem dono da clínica: é um advo­gado argentino, natural, como na velha piada, do Rio de Janeiro.

Denis Borges Barbosa é- musico e crítico literário.


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