D eus está no cotidiano



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D


eus está no cotidiano



Darío Mollá, S.J.

Em nosso mundo secularizado, o cristão – especialmente o leigo – que quer sê-lo profundamente, deve ser um cristão não a partir da teoria e de normas, mas a partir da experiência que exige capacidade e sensibilidade para encontrar a Deus, para entender a sua linguagem, para sentir sua presença e ação amorosa, onde se manifesta mais habitualmente, ou seja, na vida cotidiana.


É possível a experiência de Deus hoje?

I – Um desafio para o cristianismo do futuro


Um dos maiores teólogos de nosso século, o jesuíta alemão Karl Rahner, é autor de uma conhecida frase retumbante e, até certo ponto, inquietante: "O cristão do século XXI ou será um místico ou não será nada”. Referindo-se a esta frase me dizia um amigo, em sentido humorístico: "então, me restam ainda três anos para ser cristão...”

A afirmação de Rahner é uma afirmação forte numa época em que a expressão "mística" remete ao exótico ou, estranho, procedente de um país distante; misterioso, extravagante. Se ficarmos com esse conceito, já são grandes as dificuldades do crente no âmbito da vida social, profissional, familiar, econômica... agora se nos apresenta uma dificuldade ainda maior que, de imediato, pode nos levar a abandonar o intento...

A frase pode ser também inquietante ou suspeitosa num contexto de uma religiosidade um tanto espiritualista, centrada na auto-satisfação, de “new age" muito elevada; especialmente inquietante quando tantos milhões em nosso mundo continuam sofrendo e clamando a Deus que "ouça as queixas contra os opressores" e suscite agentes de libertação (Êxodo, 3). Pareceria que a tal de "mística” poderia vir muito bem como cartada religiosa nestes tempos de neoliberalismo.

O que a afirmação de Rahner pretende mostrar é que para ser um verdadeiro cristão nos próximos anos ou, no futuro, será necessário que tenha uma experiência pessoal de Deus. Experiência que ultrapasse o mero conceito ou o teórico sobre Deus e que revista a fé de uma força vital capaz de sobrepor a incredulidade do meio ambiente, ao amplo conjunto de reservas que o crente vai percebendo e sentindo a respeito de suas convicções, à sensação de inutilidade e de “loucura” na aposta pelos pobres e fracos do mundo.

A experiência de Deus que Rahner projeta não iludível para o cristão do futuro, e ao que chama “mística”, não consiste nem em longas horas de oração ou contemplação, nem em episódios distanciados da sensibilidade cotidiana, nem em visões ou revelações especiais... Trata-se de algo muito mais simples: da capacidade, da sensibilidade, para encontrar a Deus, para perceber a sua linguagem, para sentir a sua presença e sua ação amorosas na vida cotidiana. Ou, dito de outro modo, trata-se da necessidade de que os cristãos do futuro vinculem sua experiência de Deus, sua linguagem sobre Deus, sua fé, às experiências mais cotidianas da vida.

Esta classe de mística, que alguém denominou de “mística horizontal”1, é justamente o contrário do exótico: é tocar, viver, descobrir o Deus que está latente, com sua presença incontestável e amor encarnado, nas mil e uma coisas e pessoas que contornam minha vida cotidiana. O que Rahner nos adverte é: se desvincularmos Deus de nossa vida cotidiana, ficaremos sem Deus, e que, se o descobrimos, o comunicamos, o amamos nos fatos cotidianos, com uma linguagem comum, nas preocupações que diariamente nos transtornam... Assim sendo, poderemos ser realmente cristãos neste tempo. Não está nos convidando a retirar-nos num deserto para ali, tranqüilamente, sem vínculos, sem problemas, sem desgostos... descobrir a Deus; mas nos chama, pelo contrário, a penetrar o cotidiano, a buscar a Deus no bulício de uma vida que talvez não é a que nós escolheríamos, porém a que realmente é. Trata-se, pois, de uma mística que parte do coração de Deus que nos remete ao mundo, para viver e agir nele, conforme o pulsar do coração misericordioso de Deus.

Tal apelo à experiência de Deus no cotidiano da vida não é uma novidade na história do cristianismo. Para exemplificar, citarei o de Inácio de Loyola. Definia a maturidade de sua própria experiência espiritual como “facilidade de encontrar a Deus... sempre e em qualquer hora”2. Marcava para os seus companheiros como horizonte ao qual deviam aspirar: “buscar e encontrar a Deus em todas as coisas criadas”3. Afirmava na página, que possivelmente é a mais bonita de todas as escritas por ele, que “Deus habita nas criaturas, nos elementos, nas plantas, nos animais, nos homens, em mim...”4.

Mas também é verdade que nunca tem sido fácil essa possibilidade de descobrir a Deus no cotidiano, de fazer a experiência do encontro com Ele no meio das vicissitudes da vida. Por isso, têm sido tão freqüentes, na história do cristianismo, fenômenos como a fuga do cotidiano para buscar a Deus; reservar a Deus espaços ou tempos específicos; falar das coisas de Deus com uma linguagem diferente daquela empregada para falar das coisas comuns; atribuir o que é de Deus a certos grupos minoritários de pessoas que inclusive deviam vestir-se de outro modo, etc.

Assim, pouco a pouco, se estabeleceram categorias diferentes de cristãos: uns, poucos, os bons, os seletos, que faziam oração e viviam uns estilos de vida peculiares que lhes permitia fazer a experiência de Deus; outros, a grande maioria, a massa, a quem bastaria cumprir leis e mandamentos, às vezes pouco compatíveis com as exigências concretas da vida, e para quem Deus era algo conceitual. Este é o modelo de cristianismo que Rahner declara impossível para o futuro. Faz o apelo, em troca, para descobrir a Deus em nossa experiência cotidiana e a fazer da experiência de minha vida familiar, profissional, social, o lugar de encontro e de relação com Ele. Apelo que se dirige a todo seguidor de Jesus e não somente a um pequeno grupo de privilegiados.

Uma vida mais transparente


Duas tarefas, ao menos, se nos propõem como conseqüência do exposto até agora: a primeira, sugerir pistas sobre como fazer para que nossa vida cotidiana seja uma experiência de Deus; a segunda, repensar nossas fórmulas e uma nova linguagem sobre Deus a partir da experiência cotidiana. Nesta reflexão vamos centrar-nos e iniciar sobre a primeira das tarefas.

Tentaremos sugerir maneiras mediante as quais um cristão, pouco a pouco pode avançar a fim de que sua vida cotidiana seja cada vez mais transparente à presença de Deus, e sugerir formas pelas quais pode ir conseguindo que seu trabalho, sua vida familiar, sua participação política ou social sejam autênticas experiências espirituais, autênticas experiências de Deus. E queremos propor as coisas de modo tal que sejam como possibilidades e propostas abertas a todos os cristãos, evitando assim novos elitismos.

Se conseguirmos algo disso tudo, estaremos não somente oferecendo possibilidades futuras ao seguimento de Jesus, mas também novos horizontes para a nossa vida cristã de hoje. Nossa experiência de fé estará enriquecida de sentido e nossa realidade cotidiana recobrará, ante nosso olhar, dimensões verdadeiramente novas. Será possível evitar e viver em nós aquilo que já disse um sábio taoísta5 e que é tão atual: “O erro dos homens é tentar alegrar seu coração através das coisas, quando o que realmente devemos fazer é alegrar as coisas com nosso coração”6. Viveremos nossa fé com mais humanidade e nossa existência humana com maior sentido: isto é, em síntese, viver mais cristãmente, mais do jeito de Deus, feito humanidade.

II. Por que é difícil fazer a experiência de Deus?

Não o reconhecemos


Antes de responder de modo direto a esta pergunta, proponho fazer uma simples reflexão sobre aquelas páginas do Evangelho que nos relatam as chamadas “aparições” de Jesus ressuscitado.

Jesus, após ser ressuscitado por Deus, vive e, fiel às suas promessas, continua fazendo-se presente na vida e na ação apostólica de seus discípulos, somente que de umas maneiras diferentes, diversas daquelas que eles experienciaram durante a existência histórica do Mestre.

Sua presença não é normalmente evidente, mas pelo contrário: custa-lhes muito reconhecê-lo, até ao ponto que no Evangelho de Marcos afirma que Jesus “lançou-lhes no rosto a incredulidade e dureza de coração deles, por não haverem dado crédito aos que o tinham visto já ressuscitado” (Mc 16, 14). Lucas conta que os discípulos de Emaús “estavam cegos e não podiam reconhecê-lo” (Lc 24, 17) e que os onze “se assustaram e, apavorados, pensavam que era um fantasma” (Lc 24, 37). De Madalena, João disse que “voltou-se para trás e viu Jesus de pé, mas não se deu conta de que era Ele” (Jo 20, 14) e dos discípulos que estavam pescando quando Jesus apareceu na margem “não se deram conta de que era Ele” (Jo 21, 4).

Jesus está vivo, Jesus se torna presente na história cotidiana de seus seguidores... Porém, são justamente estes que não o reconhecem. Seu medo, sua desesperança, seu pessimismo, seus remorsos... ou melhor, o fato de serem incapazes de aceitar um novo modo de ser e de estar de Jesus os impede de reconhecê-lo. É verdade que a presença de Jesus vivo não se impõe pela força, não é de uma evidência materializada, não é acompanhada de espetaculares demonstrações... mas, requer fé, vontade, busca, deixar falar e deixar-se acompanhar para ser percebida.

Todo isso nos remete muito simples e diretamente à nossa própria situação. Jesus vive hoje: esse é o núcleo de nossa fé que proclamamos tantas vezes verbal e conceitualmente. Jesus se torna presente em nossa vida e história cotidianas, porque assim o prometeu: suas últimas palavras, segundo o evangelho de Mateus, são estas: “Olhem que eu estou com vocês todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28, 20). Às mulheres, primeiras testemunhas da ressurreição, disse-lhes: “Ide avisar a meus irmãos que vão à Galiléia, ali me verão”. Galiléia é para os discípulos, entre outras coisas, o lugar cotidiano da família e do trabalho. Porém, não o reconhecemos, continuamos chorando sua ausência, quando, verdadeiramente o temos ao nosso lado...

Temos fé em sua vida e em sua presença, temos também desejo de encontrá-lo, de sentir seu alento, sua força, sua maneira de ver as coisas... o que está acontecendo, então, que o sentimos ausente ou distante de nossa vida e preocupações cotidianas? Quais são as causas ou situações que nos impedem para ter uma experiência viva e transformadora de Deus em nossa vida diária? Sem nenhuma pretensão exaustiva, quero enunciar e comentar brevemente algumas destas causas ou circunstâncias. Convido a que cada um se examine até que ponto se sente envolvido por alguma ou por várias delas. Não se deve dar demasiada importância à ordem em que estão propostas.


Buscamos um deus que não existe


Penso que muitas vezes não encontramos a Deus em nossa vida cotidiana, simplesmente porque esperamos o Deus que não existe, e aquele com quem nos encontramos nos parece de pouca categoria para chamá-lo assim. Esperamos encontrar um Deus que não é o Deus de Jesus, o verdadeiro Deus. É algo parecido ao que sucedeu a muitos ilustres e piedosos da época de quando Jesus apareceu: não o reconheceram porque não tinha a talha de Messias, o Messias não podia ser o filho do carpinteiro de Nazaré (Lc 4, 22).

Continuamos esperando um Deus aparatoso, triunfal, espetacular, inconfundível e inegável... Continuamos esperando um Deus que resolva nossos problemas, que nos livre dos desgostos, que se antecipe a nossos sofrimentos para evitá-los... Continuamos esperando a um Deus que conceda privilégios a quem crê nEle... E esse não é o Deus que se manifestou em Jesus, que nos disse em Jesus quem e como era; essa não é a lógica do Deus que entra na história por essa porteira, que é Belém, e mora fora da cidade; esse não é o Deus que “se despojou de sua categoria social e assumiu a condição de servo, fazendo-se um como nós” (Fl 2, 7).

O Deus verdadeiro é humilde. Quando se encarna se torna, por si próprio, limitado; quando ressuscita é, por ele mesmo, irreconhecível pelos olhos biológicos. E sua presença, quando verdadeira, é também humilde7. Não esperemos nem revelações, nem manifestações portentosas; não esperemos libertar-nos magicamente das angústias e dos sofrimentos da vida; não creiamos que encontrar a Deus no cotidiano seja como viver flutuando numa espécie de nuvem. Nada disso. O que nos cabe, então, a esperar? Coisas muito simples, porém, muito divinas: sementes de vida nos campos de morte, viver humanamente a dor, palavras onde alguém não esperaria escutá-las nunca, dignidade incrível nos desprezados do mundo, capacidade de gratuidade maior do que se pensava, força para dizer não e lutar contra aquilo que nos apresentam como evidente; paciência ante a limitação humana, lucidez banhada na misericórdia, amor pelos pequenos, atrevimento para olhar nos olhos... É pouco? Não espereis encontrar mais. Em todo caso, prêmio impagável para toda nossa vida, muito mais do que têm milhões de seres humanos: o suficiente para salvar-nos.

Andamos absortos sobre nós mesmos


Outras vezes, não encontramos a Deus porque andamos tão embebidos e tão absortos em nós mesmos que não o podemos encontrar nem a Ele nem a ninguém. E, quisera que este andar absortos sobre nós mesmos não fosse interpretado somente, nem principalmente, na dimensão moral, como egoísmo. Sem excluí-la, é, sobretudo, em outros dois sentidos, como desejo delinear.

Em primeiro lugar, quero referir-me à maneira como vivemos ou, como nos afetam os problemas de toda e qualquer índole que a vida nos apresenta e que necessariamente temos de assumir. Há ocasiões em que vivemos os problemas de modo que ocupam totalmente nosso campo de visão, nosso horizonte vital e já não temos olhos nem capacidade de ver outra coisa.

É importante saber colocar distância entre nós e nossos problemas. Alguma distância, mesmo pequena, é o que me permite ver se estou com o olhar sobre algo, caso contrário, dificilmente o perceberei. A distância entre mim e meus problemas é o que me dá a chave da liberdade de ação ante os problemas e, sobretudo, o espaço que deixo para que Alguém possa intervir. O combate corpo a corpo entre nós e nossos problemas tem um mau prognóstico; quase sempre, na medida em que deixo intervir um terceiro é que posso vencer.

Buscar a Deus é apresentar-lhe esse espaço, essa terra de ninguém, que sou capaz de deixar entre o meu eu e meus problemas e pedir-lhe que a ocupe. Deus não vai me substituir: vou ser eu quem tem que enfrentar o assunto. Tampouco Deus vai converter o problema em vento: vai continuar existindo com toda sua crueza e com todas as suas demandas. Porém, deixar tempo para a escuta de sua palavra me abre ângulos novos, questiona certezas conquistadas, põe em crise condutas habituais, gera em mim atitudes diferentes, faz aflorar possibilidades submersas. E isso é encontrar a Deus nos problemas: nem deixar de tê-los, nem me converter em “Superman”, mas perceber neles e, às vezes, de modo muito insuspeito, respostas que certamente não são somente minhas.

E esse andar absortos em nós mesmos, que dificulta o encontro com Deus na vida, tem muito a ver também com a falta de interlocutores, de pessoas com quem, partilhando nossa experiência vital, damos cancha para que nos falem profundamente. Tende muito a uma certa autonomia do “eu quis, portanto eu me viro”, em parte pelo individualismo do ambiente social, em parte pela falta de pessoas e espaços de autêntica comunicação gratuita, em parte pela notória banalização e superficialidade das relações efetivas, mais íntimas. Ao faltar-nos uma palavra diferente vinda de outros, nos afogamos no meio ambiente, cada vez mais fechado, em nossas próprias palavras e, perdendo a capacidade de escutar, nos incapacitamos para escutar “a Palavra”, e se não deixamos a porta de nossa vida aberta aos outros, estamos negando também a entrada ao Outro, que é Deus.

Há algumas perguntas que todos deveríamos nos fazer: com quem partilho o mais profundo de minha vida, minhas preocupações? Com quem ou diante de quem expresso minhas convicções e minhas vivências íntimas? Quem me acompanha em minhas buscas humanas e de fé? Não é possível caminhar sozinhos como cristãos, o caminhar cristão requer sempre companhia: de outra pessoa, de um grupo, de uma comunidade... Muitas vezes não encontramos a Deus porque o buscamos sozinhos. E quando alguém se obstina em buscá-lo sozinho acontece que muitas vezes se obstina também a ir por onde não deve. Pedro necessitou que João lhe dissesse: “É o Senhor” (Jo 21, 7) para descobri-lo ali onde só via...


Nosso estilo não é adequado.


Para cada um de nós a vida nos impõe um conjunto de situações e condições que a configuram e que estão, muitas delas, fora de nosso controle, simplesmente nos chegam sem pedir licença. Esses determinantes e condicionantes de todo tipo (social, familiar, profissional...) são também decisivos na configuração de nossa vida concreta. Neles, sejam quais forem, temos que procurar Deus com a confiança “de quem procura, encontra” (Mt 7, 8). Às vezes, desejamos passar por cima deles para encontrar Deus, mas isso é impossível. Não se trata de evocar continuamente as condições mais favoráveis do passado, nem de almejar as que não virão. Trata-se de assumir a vida real e concreta que temos, de forma tal que nela podemos encontrar Deus.

Em outras palavras, trata-se da motivação com que enfrentamos as coisas. Isso sim está, de alguma maneira, em nossas mãos. Isso é muito mais decisivo do que parece. São muitas as situações ou facetas da vida cotidiana em que, as motivações com as quais as enfrentamos, determinam seus resultados: desde uma enfermidade grave até uma competição esportiva. Assim também acontece nesta aventura de buscar e de encontrar Deus nas condições que talvez o tornam difícil e que não temos em nossas mãos o poder de mudar. Não podemos mudar tais condições, porém, podemos enfrentar com esta ou com aquela motivação. E isto se torna decisivo para poder encontrar Deus.


Três traços importantes


Quero agora assinalar e comentar brevemente três traços que me parecem importantes para definir esse modo de “investigadores” de Deus nas mais diferentes situações de vida.

O primeiro deles, trata-se da atitude de atenção, paciência e capacidade de parar e olhar os detalhes das coisas. No todo da vida são apenas detalhes, porém detalhes cheios de significados. Em termos de linguagem tradicional da espiritualidade, seria a atitude e capacidade de contemplação. Contemplação que não é outra coisa, no fundo, que atenção aos detalhes e atenção aos sentimentos8.

Pessoalmente sinto uma enorme tristeza quando constato o quanto é difícil para nossos contemporâneos o “contemplar”, não no sentido oracional do termo, mas no seu sentido mais humano e mais cotidiano: uma paisagem, uma obra artística, as reações de uma pessoa...; e, sinto tristeza porque creio que com isto perdemos muitos matizes necessários para fazer da vida algo agradável e bonito.

Para encontrar Deus hoje, é preciso prestar atenção, caminhar com atenção e não distraidamente, ter sensibilidade para com os detalhes e, tudo isso me parece que é imprescindível na educação cristã para o futuro. A vida, qualquer que seja, está cheia de matizes que freqüentemente desperdiçamos; muitas coisas nos escapam. É nesses matizes e nesses detalhes que Deus está, porque neles se percebe seu Amor.

Para que se evidencie essa atitude ou capacidade de atenção, é necessário o exercício habitual ou freqüente da mesma; são necessários espaços, tempos, estruturas de atenção que nos ajudem a parar e a ver o que normalmente nos passa despercebido. Esse era o verdadeiro sentido que Inácio de Loyola tinha do seu famoso “exame”: não era tanto um exercício moral, na busca do pecado perdido, mas sim, um exercício de atenção contemplativa na vida e na passagem de Deus por ela.

Com isso, nos encontramos às portas da segunda peculiaridade da forma de buscar a Deus: a capacidade de levar um ritmo de vida humano e equilibrado, no qual haja espaços e tempo para a atenção, para o descanso, para a escuta de Deus e dos demais, para o serviço...

É preciso reconhecer que, muitas vezes, o ritmo de vida muito forte parte de fora de nós, e que nos é imposto contra a nossa vontade. Porém, feito esse reconhecimento, creio que é honesto e necessário dizer algo mais sobre isto. Como que, em certas ocasiões, somos nós mesmos quem, além das exigências objetivas, forçamos nossos ritmos de vida para tornar óbvio ou esquecer problemas pessoais e relações, ou para alcançar metas que somente nos são exigidas através do nosso orgulho ou ambição, ou a partir de nossos problemas de auto-estima. Muitas vezes, andamos acelerados porque temos medo de parar, ou porque queremos virar estrelas de uma só vez. E então convertemos em desculpas o ritmo forte de nossa vida.

Trata-se de viver num ritmo humano, embora seja intenso e forte, porém humano. Isso significa que em nossa vida deve haver possibilidade de pôr em ação todas as dimensões da pessoa humana, também as afetivas, relacionais, contemplativas...

Uma vida sem atividade, sem tensão, sem compromisso, sem realidades que nos questionam, interpelam e inquietam, uma vida que tenha, definitivamente, muito pouco de vida não ajudam a encontrar Deus; nem uma vida vivida em ritmo de videoclipe ou de telefilme norte-americano no qual a ação não pode deixar de existir dois minutos seguidos. Na minha experiência pessoal e a de muitos outros, a quem tenho acompanhado, me dá a impressão que, quando se quer, até na vida mais solicitada pode-se colocar espaços ou áreas verdes de arejamento humana e espiritual. Delas depende a qualidade de vida pessoal, como também delas depende a qualidade de vida numa cidade. Mesmo que para isso seja necessário sacrificar alguns interesses...

Viver assim, com um ritmo de vida equilibrado que permita a atenção e que dê qualidade a nossa experiência humana, não se faz, - com isso entramos na terceira característica do modo cristão de buscar - sem uma boa dose de liberdade interior. Liberdade interior frente às nossas próprias impulsividades que nos levam até ao engano, e liberdade interior frente a certas exigências exteriores que é preciso avaliar, selecionar na medida do possível e priorizar.

Porém, numa sociedade como a que nós vivemos, onde aquilo que se trata de Deus é tão pouco evidente para a maioria, tão opaco e misterioso para o próprio crente, tão irrelevante socialmente, tão contraditório, com tantas estruturas “normais” e imóveis... é ilusório pensar que alguém possa encontrar Deus se não tem uma mínima capacidade de autonomia de pensamento e de obra, de senso crítico, de manter seu próprio critério quando não é gratificado.

A essa liberdade ajudará, sem dúvida, o apoio de outras pessoas, grupos e comunidades, que fazíamos referência anteriormente, e que é necessário, embora não suficiente, para os cristãos de hoje e do futuro.

Não tratamos os outros como irmãos


Existem mediações privilegiadas, lugares preferenciais para o encontro com Deus, hoje e sempre. Um desses lugares, creio ser o lugar por excelência, é a pessoa humana, o outro. Dissemos precisamente que é o outro, e particularmente o outro que é excluído, o discriminado, o estranho, o estrangeiro, é a “metáfora de Deus”: “... o outro que nos torna Deus visível; eu não vejo, nem continuarei vendo outra coisa além dele. Neste rosto que eu reconheço, Deus me fala, se torna audível. No espaço de intercomunicação onde o outro se torna rosto para mim, Deus se converte em locutor...”9. Dito em linguagem do evangelho: na medida em que eu “me torno próximo” (Lc 10, 36) do outro, especialmente do caído na margem do caminho, descobrirei a Deus.

Porém, para encontrar a Deus no outro é preciso tornar-se próximo, fazer do outro nosso interlocutor... É por isso que nos custa tanto encontrar a Deus em quem nos rodeia: porque, muitas vezes, o que nos pesa mais na relação com os outros é o que nos diferencia, o que nos separa e nos torna estranhos; porque somos indiferentes, distantes e não nos escutamos; porque, quase sempre, não tratamos o outro como irmão, mas como competidor ou inimigo.



Quando esquecemos o pobre, não em nossos discursos, mas no nosso estilo de vida e nas nossas decisões, não somente fazemos um ato desumano ou de injustiça, mas negamos a nós mesmos a possibilidade de sermos cristãos autênticos, de sermos próximos, e desperdiçamos a mediação mais evangélica para experienciarmos na vida a acolhida e o amor do Senhor (Mt 25, 34).

III. Sinais da experiência de Deus na vida.


Não quero acabar estas reflexões sem dizer algumas palavras sobre os sinais que nos permitem verificar uma experiência de Deus como autêntica. Palavras necessárias, creio, para evitar falsas ilusões de todo tipo à respeito. Foi dito que poucos âmbitos da vida humana são tão propícios para enganar-se a si mesmo e para a mistificação, como o da vivência religiosa. Daí, meu desejo de fazer estes pequenos esclarecimentos. A experiência de Deus na vida não se trata de levitações, nem efeitos especiais de um filme, nem nada que nos desvie, libere ou nos ponha acima de nossa condição humana. Vai na linha de uma certeza interior inquebrantável, de uma força para o bem que sentimos que não parte de nós mesmos, de uma esperança íntima desprovida, muitas vezes, da razão, de um olhar diferente para perceber as realidades de sempre, de uma alegria tão serena, como também inexplicável... Porém, existe algo exterior, bem objetivo, que nos permita reconhecer nos outros ou em nós mesmos que essa experiência não é algo enganoso ou ficção? Atrevo-me a dizer que sim e a apresentar alguns desses sinais.

A capacidade de misericórdia


O primeiro desses sinais é a capacidade de misericórdia, de olhar o mundo, as pessoas e a si mesmo, com lucidez e, sem dúvida, com misericórdia e com ternura. Esta misericórdia não é um sentimento que espontaneamente nos surge, nem aquele que pode levar-nos a considerações meramente humanas. Mas, sentir a Deus na experiência cotidiana é experimentar tão frequentemente o efeito salvador da ternura, que esse modo divino de ver o mundo acaba por contagiar-nos.

A gratuidade


A gratuidade, como hábito e como exercício, é outro bom indicador de uma verdadeira experiência de Deus. Gratuidade que significa: capacidade de doação sem resposta ou sem recompensa; priorização da necessidade do outro sobre meus gostos ou sentimentos; capacidade de amar o não amável, mas necessitado de carinho; relativização do êxito; exercício permanente da paciência... E tudo isso, não como mero discurso mental ou ético, ou como voluntarismo macabro, mas como impulso espontâneo nascido da viva consciência de um dom permanente e sempre presente.

O serviço evangélico


Essa gratuidade deve tornar-se gesto concreto no serviço evangélico, no sentido mais evangélico da palavra, no viver a vida aos pés do outro. Serviço sem pretensões, sem ostentação, nem faturas a curto, a médio ou a longo prazo. Serviço que é, radicalmente, colocar a própria vida à disposição dos outros e em função dos outros, experimentando nele um gozo inefável que não dispensa nem o cansaço ou a vontade de deixar tudo, nem a dor pelos menosprezos e desvalorizações. Porém, chega um momento em que a gente não pode viver, se não for dessa maneira.

O amor aos pobres


Penso, finalmente que, quem experimenta a presença contagiosa e apaixonada de Deus em sua vida acaba vendo as coisas de outro modo e, como Deus, preferindo “o ignorante do mundo...., o mais fraco..., o plebeu..., o desprezado.... o que não existe...” (lCor 1, 27-29). Quer dizer, amando aos pobres, fazendo deles “os amigos prediletos” e os “assessores”, a partir desses que se lê a história e a realidade social e a partir dos quais, cada vez mais, são tomadas decisões e posturas de vida.

Empreender a aventura de buscar Deus na vida não é algo que, de saída seja fácil, nem possível de imediato; requer, como toda aventura de amor: paixão e paciência. Porém, sinceramente, vale à pena embarcar nessa. Porque em nenhuma outra aventura nem por nenhum outro caminho nossa humanidade chega melhor.







1 Expresión de E. Kinert, explicitada y tomada por mí de J.A. Garcíaen “En el mundo desde Dios” Sal terrae, Santander 1989.

2 Autobiografía, nº 99

3 Carta al P. Antonio Brandão, el 21 de junio de 1551. Publicada con el nº 67 en las “Obras de San Ignacio de Loyola, BAC, 5ª edicción , Madrid, 1991.

4 Contemplación para alcanzar a Dios en los “Ejercicios Espirituales, nº s 230-237.

5 Relativo ao taoísmo ou adepto dessa doutrina mística e filosófica formulada no século VI a.C. por Lao Tse, que enfatiza a integração do ser humano à realidade cósmica primordial.

6 Toma la cita de Fernando Sabater, El valor de educar, Ariel, Barcelona, 1997, pp. 183-184.

7 Porque como dice precisamente San Atanasio ”....El Señor no ha venido a mostrarse, sino a curar y a enseñar a los que sufren. Para mostrarse bastaba aparecer e impresionar a los que lo veían; pero para curar y enseñar no bastaba sólo con venir, era necesario hacerse útil a los que estaban en necesidad y mostrarse de una manera que pudieran soportar los indigentes...”San Atanasio: “La Encarnación del Verbo”, nº 43.

8 Es aquello tan precioso de San Juan de la Cruz, “...la advertencia amorosa, simple y sencilla, como quien abre los ojos con advertencia de amor”.

9 Yves Cattin: “A metáfora de Deus” na revista Concilium, nº 242 agosta de 1992.




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