Da associaçÃo livre aos objetos mediadores em grupo: o processo associativo (e o tempo psíquico) no contato com objetos resumo



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Pablo de Carvalho Godoy Castanho


DA ASSOCIAÇÃO LIVRE AOS OBJETOS MEDIADORES EM GRUPO: O PROCESSO ASSOCIATIVO (E O TEMPO PSÍQUICO) NO CONTATO COM OBJETOS

Resumo:

O uso de objetos em grupos surgiu como uma realidade de fato no campo do trabalho grupal antes de poder ser pensada pela psicanálise. Nas últimas décadas, alguns pesquisadores vêm pensando e propondo formas de trabalhar com objetos em grupos a partir de um referencial psicanalítico. Indagaremos o caráter psicanalítico desses novos dispositivos pelo fio condutor da associação livre e dos processos associativos estudando como o tema vem sido tratado em diferentes perspectivas psicanalíticas de grupo. Em nosso percurso recorreremos a autores Ingleses, Argentinos e Franceses com ênfase nestes últimos. Estudar os processos associativos implica a questão da temporalidade de um ponto de vista psíquico que pode contrastar com a temporalidade prevalente em nossa sociedade. Procuramos assim promover uma discussão metodológica destes dispositivos atentando para sua relação com o mundo contemporâneo.


grupo- psicanálise –objetos - imagem – processo associativo
Abstract:

The use of objects in groups emerged as a reality in practice before it was thought in psychoanalytical terms. In the last decades, some researchers have been studying and proposing ways to work with objects in groups from a psychoanalytical perspective. In this text we will address the psychoanalytical status of such settings from the perspective of the free association and the associative processes in groups. We will recur to English, Argentinean and French authors focusing on the latter. Studying the associative process implies studying the problem of time in psychic terms which can contrast with the use and perception of time in our society. We thus aim at promoting a methodological discussion about these settings considering their relation with the contemporary world.


group- psychoanalysis- objects – image – associative process
Introdução:

Entendemos que em psicanálise, método, teoria e potencial clínico são indissociáveis. Nesse sentido, o advento de um novo dispositivo, seja ele a ludoterapia, o trabalho com casais ou as diferentes modalidades de prática grupal, não pode ser concebido simplesmente como “Psicanálise aplicada”. Nesse registro, a discussão metodológica sobre os chamados grupos com objetos mediadores, crescentemente utilizados, nos leva, necessariamente, a um aprofundamento teórico.

Os objetos mediadores utilizados em grupos são variados: massa de modelar, fotografia, colagem, fantoches etc.. O modelo explicativo e metodológico que vem sendo construído, sobretudo no pensamento francês, converge em um número importante de questões. Dentre elas a compreensão de que esse tipo de grupo permite enfrentar patologias que se tornaram muito expressivas na atualidade e que se caracterizam por falhas no funcionamento do sistema pré-consciente. Devemos então pensar que estes dispositivos têm uma relação especial com nossa época. Como veremos nesse texto, essa perspectiva de pensamento entende que as exigências de figurabilidade do sistema psíquico não estão sendo satisfeitas e que isso diz respeito a questões intersubjetivas.

Entendemos que a clínica psicanalítica encontra na associação livre uma condição de possibilidade fundamental. Somente no curso de uma cadeia associativa, a realidade psíquica pode se dar a conhecer e ser transformada. Mais do que a simples enunciação da regra fundamental, trata-se do arranjo global do dispositivo que torna a associação livre possível.

Nesse artigo, trabalharemos com a questão da cadeia associativa em três aspectos: A associação livre verbal em situação grupal, os processos associativos em grupos com uma “ocupação”, e finalmente, assentando-se sobre as discussões anteriores: a questão do uso de objetos nos grupos.

Indagar o grupo pela via da associação livre e dos processos associativos é inserir no debate um tipo de temporalidade que podemos chamar de psíquica, pois se refere ao tempo para que certos processos e formações psíquicas ocorram e sejam sustentados. É desta perspectiva que esperamos poder levar o leitor a apreciar a diferença da temporalidade no contato com objetos no dispositivo proposto e da temporalidade que rege nosso contato com objetos em nossa vida cotidiana na atualidade.


1- A questão da associação livre nos grupos verbais em Psicanálise

Lembremos os marcos fundamentais da história do grupo na psicanálise. Em setembro de 1909, o americano Trigant Burrow encontrou-se com Freud durante suas palestras na Clark University, em Massachusetts falando-lhe de sua proposta de realizar grupos psicoterapêuticos inspirados na Psicanálise. Freud procurou dissuadi-lo deste intento, porém, Burrow prosseguiu suas pesquisas sendo seu o registro histórico dos primeiros grupos realizados com esse referencial. Certamente esse pioneirismo não foi ao acaso. Notemos que foi justamente em Massachussets, mais precisamente no Boston Dispensary, que em 1905 temos o que é considerado o momento pioneiro do uso do grupo com fins psicoterapêuticos: as aulas para tuberculosos do Dr. Pratt. (KLAPMAN, 1946) A experiência de Pratt, se expandiu no tratamento de diferentes doenças e em diferentes estados americanos sendo que o trabalho de Burrow é normalmente compreendido como parte deste movimento.

Também nos Estados Unidos, teremos os trabalhos de Slavson e Redl, marcados pela psicologia do ego e pensando as características do grupo que possibilitariam o desenvolvimento de um ego “forte”. Porém, apesar da importância destes e outros pioneiros, concordamos com Kaës (2006) que identifica uma diferença significativa entre esses autores e aquilo que se desenvolveria posteriormente na Argentina, Inglaterra e França em diferentes momentos. Autores como Pichon-Rivière, Bion, Foulkes, e Kaës são profundamente diferentes entre si, mas possuem um ponto comum em seus trabalhos em grupo ao considerarem que o grupo é o lugar de uma realidade psíquica específica. Concordamos com Kaës em tomar esse critério como “divisor de águas” entendo que é só nessa perspectiva que podemos falar em um trabalho de grupo propriamente. Assim, é sobre os autores que partilham essa concepção que nos deteremos.

Até hoje, no cenário mundial, é a grupanálise de Foulkes que é identificada como a perspectiva dominante no trabalho com grupos relacionado à psicanálise. Fortemente ancorada em instituições de formação específicas em diferentes lugares do mundo, a grupanálise foulkesiana fornece um treinamento relativamente padronizado com claros critérios de pertencimento e uma hierarquia própria.

Ao contrário de Bion, Foulkes tinha um compromisso firme com o estabelecimento de uma metodologia para a realização de uma psicoterapia em grupo em uma abordagem psicanalítica. Os foulkesianos possuem instruções claras sobre as indicações para um trabalho grupanalítico, sobre o setting, sobre as características do grupanalista e sobre suas intervenções técnicas. Assim, tornam-se naturalmente uma referência importante ao discutirmos a metodologia do trabalho em grupos.

Em 1957, Foulkes publica com seu discípulo Anthony um livro intitulado “Group Psychotherapy: the psychoanalitical approach” (FOULKES; ANTHONY, 1957/1965). Livro que resume vários aportes do pensamento foulkesiano e que utilizaremos como referência para abordar essa escola.

Para esses autores, o caráter psicoterapêutico de um grupo exige que o mesmo seja um grupo sem uma “ocupação”. Após comentarem alguns grupos encontrados naturalmente na sociedade, os autores dirão: “Todos os grupos sobre os quais falamos até agora possuem tarefas, ou seja, eles possuem objetivos e propósitos. [...] propomos chamar de “ocupação” as atividades declaradas manifestas destes grupos.” 1(FOULKES, ANTHONY, 1957/1965, p.33) 2

Essa ocupação explícita constituiria uma defesa contra a intimidade, pois elas possibilitariam que os membros de um grupo “[...] estejam aptos a se encontrarem, partilhar experiências e interagir emocionalmente sem terem que tornar-se mais envolvidos um com o outro em um nível pessoal do que eles desejarem.” 3 (FOULKES, ANTHONY, 1957/1965, p.33)

Ao seguirem essa linha de raciocínio, os autores propõem que os grupos analíticos psicoterapêuticos se caracterizam pela ausência de ocupações. Em suas palavras, a “[...] análise de grupos mostra que as ocupações dos grupos […] servem como uma tela protetora, uma defesa contra a interação pessoal íntima. Exatamente por essa razão os grupos analíticos psicoterapêuticos não recebem nenhuma ocupação, nenhuma tarefa particular para ser realizada como grupo.” 4 (FOULKES, ANTHONY, 1957/1965, p.34)

Deste modo, a grupanálise propõe a um grupo de pessoas em círculo, um sentado de frente ao outro, que possam falar livremente o que lhes vier a mente sem nenhuma preocupação com a realização de uma tarefa comum ao grupo. Essa instrução aponta também o caráter verbal da interação bastante enfatizado por Foulkes e Anthony que ao listarem as pré-condições essenciais para uma psicoterapia de grupo colocam no topo de sua lista “Que o grupo apóie-se na comunicação verbal.”5 P.36

A ausência de uma ocupação é uma das regras que, no pensamento destes autores, possibilita que as falas proferidas no grupo aproximem-se das falas na situação padrão da psicanálise. Para esses autores, na grupanálise deve ocorrer:

Que a comunicação verbal seja transformada em “associação-grupal”. Isso implica que a discussão no grupo não deve ser discussão no sentido ordinário da palavra, mas algo descrito como “discussão livre e flutuante”. Este é o equivalente grupo-analítico do que é conhecido como a “livre Associação” em psicanálise.6 (FOULKES, ANTHONY, 1957/1965, p.37)


O convite à “discussão livre e flutuante” na ausência de uma “ocupação” aparece como algo angular na proposta grupanalítica. Certamente ela possui um papel importante na funcionalidade deste dispositivo. De fato, a vasta literatura nessa área, parece tornar inegável que a prática da grupanálise obtenha efeitos de análise. Porém, mesmo que concedamos a “discussão livre e flutuante” e a ausência de uma “ocupação” um papel fundamental nessa funcionalidade, eles não são seus únicos elementos constitutivos. A posição e atuação do analista, os processos de seleção dos membros do grupo, o interdito aos encontros entre membros do grupo fora do espaço das sessões e outras proposições e concepções, devem ser consideradas no emaranhado de crenças e regras que visam à constituição deste espaço como espaço de tratamento.

A aproximação entre a “discussão livre e flutuante” do grupo, com a associação livre, pode deixar os psicanalistas com muitos questionamentos em suspenso sobre as semelhanças e diferenças entre essas duas situações. Devemos observar que a perspectiva foulkesiana, ao compreender-se em uma relação de inspiração com a psicanálise, optou por distanciar-se do debate teórico detalhado do estatuto psicanalítico de alguns de seus expedientes, dentre eles, do estatuto dos processos associativos na discussão livre e flutuante. De fato, será em conceitos híbridos como o de Matrix grupal e de ressonância fantasmática, que o estatuto da discussão livre e flutuante será estabelecido nessa escola. Questionamentos sobre os efeitos da fala de um sobre a cadeia associativa de outro e a especificidade da produção verbal no grupo carecem de uma discussão psicanalítica aprofundada. Discussão essa que encontraremos nos trabalhos de René Kaës.

Em La parole et le Lien : le processus associative en groupe de 1994, René Kaës aproxima a associação de palavras e falas à associação entre pessoas. Nessa perspectiva é também pela palavra - e os interditos a falar- que as pessoas se vinculam. Essa proposição é coerente com a proposta das Alianças Inconsciente que estabelece que todo e qualquer vínculo só possa existir sobre uma figura do negativo, seja ela uma interdição, uma recusa, um resto, uma denegação etc.. A proposição das Alianças Inconsciente tem assim um efeito absolutamente fundamental para o processo associativo do grupo. Em grupo, o sujeito não fala só em nome próprio, mas dentro daquilo que é permitido e valorizado pelas alianças inconscientes ali presentes. Certas revelações, certas lembranças, expressão de desejos interditados etc. são capazes de questionar o vínculo entre sujeitos presentes no grupo ou pelo contrário, os reafirmarem, de modo que- normalmente longe do campo da consciência- as modalidades de vínculo organizam as produções associativas verbais no grupo.

Deste modo, à cadeia associativa do sujeito tomado em sua singularidade, encontra uma cadeia associativa que poderia ser chamada de grupal e que pode ser conceituada como produto das alianças inconscientes estruturantes do grupo e dos vínculos intragrupais. No grupo podemos nos atentar para a produção associativa de um sujeito singular, observando seus movimentos de transformação e manutenção ao longo das interações grupais, ou ainda tomar a sucessão de falas no grupo, feitas por diferentes membros, observando ai a permanência e os movimentos de mudança das alianças inconscientes contraídas.

Kaës compreende que em grupo, a fala de um pode suscitar reforço ou enfraquecimento do recalque em outro, passando assim a propor a função co-recalcante. Ao comentar a passagem de um grupo, Kaës dirá:
Proponho aqui novamente a idéia de que na estrutura intersubjetiva do grupo, cada um ou vários estão em condição de participar à uma função conjunta de recalque ou a função co-recalcante, sendo admitido que o recalque, ele mesmo ‘ é individual em seu mais alto grau’ (FREUD, S. 1915). Proponho então também a idéia de que um trabalho do recalque é produzido no tempo e nas condições intersubjetivas da situação de grupo.7 (KAËS, 1994, p.258 e FREUD apud KAËS)

O autor irá se esforçar em preservar a proposta freudiana segundo a qual o recalque é um processo intra-psíquico, mas postulará que este processo interno encontrará no vínculo condições que podem o favorecer ou dificultá-lo. Em presença de mais de um outro estas condições intersubjetivas podem ser transformadas, transformando também o acesso do sujeito ao conteúdo de seus recalques intrapsíquicos.

A questão do recalque na situação de grupo é ainda importante ao nosso tema, pois a existência do recalque é condição para a associação livre. É, portanto, o estabelecimento de uma função co-recalcante intersubjetiva que poderia nos autorizar a falar de algo semelhante a associação livre no processo associativo grupal.
Eu supus, dentre as condições de possibilidade do processo associativo em situação de grupo, que houve e que ainda há atualmente recalque sob o efeito da função co-recalcante do conjunto. É por que há recalque grupal, que há associação grupal8. (KAËS, 1994, p318. grifo do autor)
Entendemos aqui que Kaës usa a expressão “recalque grupal” de modo analógico, referindo-se de fato à função co-recalcante do conjunto. O que nos importa sublinhar nessa passagem é a implicação da questão do recalque na temática da livre associação e dos processos associativos do grupo. Notemos que em Kaës a função co-recalcante é tributária de alianças inconscientes e que nesse sentido não estamos particularmente introduzindo um novo elemento no que havíamos dito sobre o papel das alianças inconscientes no processo associativo do grupo, mas apenas abordando o problema dos processos associativos do grupo por uma perspectiva importante na concepção da cadeia associativa intrapsíquica: o papel do recalque.

Vemos no conceito de função co-recalcante uma forma de relacionar o processo associativo de cada sujeito ao grupal do ponto de vista intrapsíquico a associação livre ruma para uma representação alvo recalcada, do ponto de vista intersubjetivo, algo que teve que ficar fora da consciência para que existisse e se mantivesse o vínculo, marca o discurso do grupo. As duas cadeias se encontram, se reforçam mutuamente ou se enfraquecem de modo que a estrutura do vínculo no grupo depende do andamento do processo associativo em cada sujeito e vice-versa.

Aos processos grupais específicos deve corresponder uma escuta também específica. Compreendido deste modo, a escuta do analista frente ao grupo deve estar atenta à polifonia9 dos planos associativos, podendo flutuar entre as diferentes cadeias associativas e seus entrecruzamentos. Polifonia que em si não deve ser estrangeira a escuta analítica na medida em que se faz presente também na escuta de um sujeito singular. Pensando a partir de Kaës, entendemos que essa polifonia nas produções singulares são elas mesmas associadas, em sua gênese, ao caráter vincular de todo sujeito. Poderíamos pensá-las como produto de incorporações e introjeções10. Porém devemos nos lembrar que falar em incorporações e introjeções é falar de um processo que segue regras psíquicas próprias e que ao mesmo tempo que deixa testemunhas do apoio da constituição psíquica no seu limite social, não lhe é idêntica. O universo introjetado e incorporado não reproduz o universo relacional externo tal como podemos encontrá-lo em um grupo, mesmo sendo seu produto. Na presença de mais de um outro, encontramos processos que fazem parte das meta-condições para a introjeção e incorporação sem no entanto lhe serem idênticas. De fato, o grupo coloca em marcha processos próprios, que possuem uma consistência particular cujo conceito de alianças inconscientes visa dar conta. Assim, a escuta da polifonia na análise individual possui sim semelhanças com a escuta polifônica requisitada do analista em situação de grupo, mas não lhe é idêntica. Essa semelhança relaciona a própria continuidade genética entre esses diferentes níveis, mas a escuta polifônica exigida no grupo deve percorrer também os espaços da lógica vincular, do campo específico das alianças inconscientes em sua complexa relação com os processos de internalização estruturantes, defensivos, e alienantes dos sujeitos.

2- Os processos associativos em grupos com uma “ocupação”. Re-pensando a questão a partir de Pichon-Rivière
Tanto em nossa análise da escola foulkesiana como nos trabalhos discutidos de Kaës até o momento, os membros dos grupos são convidados a falar livremente sem um objetivo ou ocupação pré-definidos. Vimos como a perspectiva foulkesiana compreende que a ausência de uma “ocupação” é essencial para a realização de um trabalho grupanalítico. Podemos então nos perguntar se seria possível algum trabalho em grupo inspirado na psicanálise que não fosse fundamentado na mesma proposta. Teríamos então que pensar quais os arranjos metodológicos para que fossem garantidos o espaço destes grupos como espaços de emergência da realidade psíquica, da escuta analítica e de transformações nessa realidade.

Julgamos essa questão importante na discussão sobre os grupos com objetos mediadores, pois se seguindo o pensamento de Foulkes e Anthony, um grupo que confecciona um cartaz com desenho e colagem, ou que discute fotos, ou trabalha com argila (apenas para exemplificar algumas modalidades de grupos de mediação) não é visto como um grupo onde um trabalho psicanalítico possa ocorrer, mas como um grupo com uma ocupação que funciona de modo defensivo.

Como vimos, essa compreensão está intimamente ligada a uma visão sobre as condições de possibilidade da conversa livre e flutuante, portanto, intimamente ligada ao estatuto da associação livre no grupo. Devemos então nos perguntar se há na psicanálise, e em especial na perspectiva psicanalítica sobre grupos, algo que nos permita pensar e operar sobre os processos associativos no grupo a partir de um estímulo inicialmente dado.

Primeiramente, recordemos a própria definição de associação livre. Laplanche e Pontalis, em seu Vocabulário da Psicanálise iniciam sua definição do termo do seguinte modo:

Método que consiste em exprimir indiscriminadamente todos os pensamentos que acodem ao espírito, quer a partir de um elemento dado (palavra, número, imagem de um sonho, qualquer representação), quer de forma espontânea”(LAPLANCHE, PONTALIS, 1967/1986, p71 negrito nosso)
Até aqui, na perspectiva foulkesiana e nos trabalhos analisados de Kaës, a associação livre era pensada em sua forma “espontânea”. Solicitava-se ao grupo que falasse livremente o que lhe passasse pela mente. Observamos através de Kaës as particularidades do processo associativo no grupo, fruto das interferências recíprocas das cadeias associativas individuais e da ação das alianças inconscientes. Estávamos ainda assim, tecnicamente respaldados no convite ao falar livremente e na ausência de atribuição de uma “ocupação” ao grupo. Estamos agora confrontados a pensar grupos que oferecem estímulos iniciais ao trabalho.

Além da referência à Pontalis, parece-nos interessante recorrermos ao campo das teorias psicanalíticas de grupo em busca de um pensamento que não estabeleça a falta de uma ocupação comum como condição ao trabalho psicanalítico. Não se trata, é bem verdade de abandonarmos a proposta da livre associação e seus equivalentes na situação de grupo, mas buscar uma readequação. Talvez dentro da própria definição do método da associação livre definidos por Laplanche e Pontalis possamos compreender a “ocupação” dada a um grupo como estímulo a partir do qual se possa pedir uma associação livre. De fato, esse é o modo como compreendemos o conceito pichoniano de tarefa. Para investigarmos melhor essa proposta, devemos nos aproximar mais do pensamento deste autor.

Repetidas vezes, ao narrar a história do grupo na psicanálise, Kaës destaca as contribuições de Pichon-Rivière, entretanto, pode-se argumentar que a inserção dos trabalhos de Pichon-Rivière sobre grupos na linhagem psicanalítica é uma leitura dentre outras possíveis. A obra de Pichon-Rivière sobre grupos reflete a junção de diferentes influências, não só da psicanálise, mas também do pensamento de Kurt Lewin, do Materialismo Dialético, da pragmática da comunicação de Palo Alto, dentre outras. Já do ponto de vista de sua história profissional e envolvimento em instituições, a psicanálise ganha eminência incontestável. Um dos seis fundadores da Associação Psicanalítica Argentina (APA) em 1954, marido de Arminda Aberastury e seu incentivador, professor e formador de muitos dos grandes psicanalistas argentinos do período, a história de Pichon-Rivière confunde-se com a história da Psicanálise na Argentina, e em alguma medida com a história da disciplina no cone sul.11 Em suas primeiras obras, Pichon-Rivière, avança leituras psicanalíticas sobre o adoecimento físico e mental e sobre o processo de criação artística (PICHON-RIVIÈRE, 1999, 2000). Sabemos da boa acolhida que um estudo seu sobre o Conde de Lautreamonte teve por Lacan em um congresso na França possibilitando um encontro mais íntimo em um jantar na casa de Lacan. Vemos assim Pichon-Rivière um autor muito envolvido nos meios psicanalíticos, com uma produção teórica que atrai a atenção de seus pares e um trabalho muito importante na institucionalização da psicanálise em seu país. Porém, com o avanço de seus estudos e de sua compreensão sobre os vínculos, Pichon sente-se afastar deste meio.

Kaës foi um dos responsáveis pela tradução das obras de Pichon-Rivière ao francês, tal como fez com Bleger. Esse é um signo do seu envolvimento e conhecimento destes dois autores. A leitura que Kaës faz de Pichon-Rivière o exemplo de uma leitura psicanalítica deste autor. Nesse percurso Kaës deixa de lado alguns dos pontos mais espinhosos de suas relações com a psicanálise como a substituição do conceito de pulsão pelo de proto-vínculo e a importância dada à necessidade ao invés do desejo. Proponho discutir o conceito pichoniano de tarefa nessa perspectiva de simultaneamente resgatar as contribuições de Pichon-Rivière e transplantá-las rumo a um quadro de referência mais estritamente psicanalítico.

Para Pichon-Rivière, todo grupo tem uma tarefa, um objetivo que seus membros almejam alcançar em conjunto. Este objetivo pode ser o aprendizado de um conteúdo, a fabricação de um produto, a prestação de um serviço, ou mesmo um tratamento. Neste último caso encontramos os grupos terapêuticos, nos quais cada um fala livremente, sem temas pré-determinados, mas ainda assim, para Pichon-Rivière, trata-se de um grupo reunido por uma tarefa: a de melhorar sua condição psíquica. Vemos aqui a diferença da concepção do termo pichoniano daquilo que a escola foulkesiana pensa como “ocupação”. Na acepção pichoniana não é concebível um grupo sem tarefa, o grupo foulkesiano não seria um grupo que não recebe nenhuma ocupação, mas que se ocupa do tratamento de seus membros. 12

Assim, o conceito de tarefa pode ser aplicado para a compreensão de qualquer grupo, mesmo que se trate de grupos “naturais” não coordenados por profissionais especializados. Porém, ele recebe um lugar de destaque no dispositivo de grupo operativo criado pelo autor:


Os grupos operativos se definem como grupos centrados na tarefa. Agora, por que esta insistência? Pelo fato de que os grupos em geral se classificam segundo a técnica de abordagem do mesmo. Observamos que há técnicas grupais centradas no indivíduo: são alguns dos chamados ‘grupos psicanalíticos ou de terapia’, nos quais a tarefa está centrada sobre aquele que nós chamamos de porta-voz [...]. O outro tipo de técnica é a do ‘grupo centrado no grupo’, na análise da própria dinâmica [...].Nossa preocupação é abordar através do grupo, centrado na tarefa, os problemas da tarefa, do aprendizado e problemas pessoais relacionados com a tarefa, com o aprendizado.” (PICHON-RIVIÈRE, 2007, p.21, grifo do autor).
Vemos então que o grupo operativo gira ao redor do conceito de tarefa. Mas afinal o que é tarefa? Ao debruçar-se sobre os problemas da tarefa seria o grupo operativo um dispositivo comprometido com a “produtividade”? Um dispositivo para que as pessoas façam coisas?

Pichon-Rivière fala do momento da tarefa em contraste ao momento da “pré-tarefa”. Deve-se, no entanto, observar que o momento da tarefa não é sinônimo de estar fazendo uma determinada atividade proposta.

Comecemos este debate acompanhando a caracterização da dissociação presente na pré-tarefa. Pichon-Rivière escreve: “Ademais é na pré-tarefa em que se observa um jogo de dissociações do pensar, atuar e sentir, como formando parte dos mecanismos antes enunciados. [mecanismos de defesa]” (PICHON-RIVIÈRE, 2007, p34, parênteses meu)

Neste momento, Pichon-Rivière pressupõe uma ação humana onde figurem o sentir, o pensar e o agir. Seria só em determinada modalidade de integração destas dimensões que se poderia falar de tarefa. Uma das características desta modalidade de integração é a de que ela implica processos de elaboração psíquica concomitante:



O momento da tarefa consiste na abordagem e elaboração de ansiedades e a emergência de uma posição depressiva básica, em que o objeto de conhecimento se faz penetrável pela ruptura de uma pauta dissociativa e estereotipada, que funcionou como fator de estancamento no aprendizado da realidade e de deterioração da rede de comunicação (PICHON-RIVIÈRE, 2007, p.35, negritos nosso)
Esta elaboração ou transformação psíquica concomitante é o aspecto propriamente terapêutico do grupo operativo no sentindo de promoção de saúde. Ela é, no grupo operativo, disparada pela tarefa proposta ao grupo. Porém, se a dissociação entre o sentir, o pensar e o fazer estão presentes, é possível realizar a tarefa proposta explicitamente ao grupo sem a concomitante elaboração psíquica. Pichon-Rivière chama este fenômeno de “como se”.

No “como se”, o grupo pode fazer algo concretamente, manter-se no tema de discussão etc... Como havia sido enunciado pela tarefa inicial do grupo e ainda assim não lograr os efeitos de elaboração psíquica que Pichon-Rivière liga à realização da tarefa. Sobre o “como se” lemos:


Podemos estipular que o ‘como se’ aparece através de condutas parcializadas, dissociadas, semi-condutas- poderíamos dizer- pois as partes são consideradas como todos. Os aspectos manifestos e latentes são impossíveis de integrar em uma denominação total que os sintetize. (PICHON- RIVIÈRE, 2007, p.34)
O “como se” é um obstáculo à realização da tarefa. Esta pode agora ser entendida como algo que possui uma dimensão explícita (a realização “utilitária” do que é proposto) e outra implícita: a elaboração psíquica. Salientamos que Pichon-Rivière afirma que só poderemos dizer que o grupo está em tarefa quando ambas (tarefa explícita e implícita) estiverem em andamento (PICHON-RIVIÈRE, 2007). Assim, é só quando a ação implicada na tarefa pode circular por sentimentos e pensamentos, tornando possível a elaboração psíquica concomitante, que podemos falar de um grupo “em tarefa” (grupo no momento da tarefa).

A idéia de que o psiquismo atua para além do setting analítico já está presente desde o início da psicanálise sendo inclusive importante em seus desenvolvimentos teóricos. Chamada de psicanálise aplicada compreende-se essa presença dos efeitos do inconsciente no cotidiano como algo não passível de ser objeto de uma intervenção.

Até Pichon-Rivière, não era diferente na perspectiva de grupos em psicanálise. A escola foulkesiana (em Foulkes e Anthony) reconhece a vida psíquica de grupos com objetivos específicos. Aos grupos que tem uma ocupação, surgem também pré-ocupações que caracterizam essa dimensão psicológica. Anzieu dirá que “se um grupo realiza ou não seu objetivo será um diálogo com um fantasma subjacente.” (ANZIEU 1975) Assim, a idéia de que existem aspectos psíquicos em qualquer grupo e que estes aspectos são determinantes ao fazer objetivo do grupo não estão presentes só no pensamento pichoniano, mas é nele que encontramos uma proposta metodológica de trabalho.

Assim, temos em Pichon-Rivière uma compreensão do grupo a partir do fazer pelo qual os integrantes do grupo se uniram independente de qual seja. Porém se o fazer adquire lugar especial neste referencial, o dispositivo proposto que possibilita a “emergência” psíquica e seu manejo, será sempre verbal. Na escola pichoniana, um grupo operativo se forma reunindo-se até 15 pessoas para discutir, verbalmente, uma tarefa enunciada pelo coordenador. O coordenador por sua vez não participa da discussão em si (i.e. não deve dar sua opinião e posicionar-se sobre o tema da discussão), mas intervém nos momentos em que s precipitações psíquicas estão impedindo o andamento do grupo. Este é o setting de regras, que a nosso ver tem êxito em tornar o grupo operativo um espaço onde o psiquismo pode surgir em cadeias associativas e ser transformado.


3- Grupos com objetos mediadores: Recursos não verbais e suas implicações

Kaës, (2006) entende que a posição correlativa entre o divã e a poltrona na cura princeps retirou o olhar de cena fazendo com que o registro sonoro fosse transformado no fundamento do trabalho. Neste universo sonoro as palavras, fonemas, e ruídos constituem a matéria-prima e os instrumentos de intervenção do trabalho analítico. É neste contexto que surge a livre associação como lei fundamental da técnica psicanalítica.

No trabalho em grupo, o olhar é reinserido, mas conforme vimos até agora, mantêm-se a ênfase nas trocas verbais. De fato, os membros do grupo são convidados a falar livremente, o analista cuida de não participar desse processo associativo ele mesmo, mantém-se reservado a maior parte do tempo e intervém, também pela fala, sobre a cadeia associativa do grupo em momentos precisos. Seria possível um trabalho grupal que não fosse feito pela fala? Qual o lugar da fala em tal processo? Qual a forma de intervenção do analista nesses grupos?

O trabalho com objetos mediadores em grupo oferece uma resposta a essas questões. Dentre os pesquisadores que se dedicaram ao tema destacamos René Kaës e Claudine Vacheret. Notamos que Kaës sublinhará a utilidade destes recursos no tratamento de situações traumáticas. Nessa perspectiva, todos nós podemos ter, em determinado campo de nossa vida, aspectos sobre os quais a livre associação verbal é particularmente difícil e cujo tratamento poderia se beneficiar destes recursos. Não é sem razão então que Claudine Vacheret proporá que o trabalho com objetos mediadores em grupo torna-se às vezes uma preparação para um trabalho psicoterapêutico pessoal de tipo analítico (VAHCERET, 2000, p.169)

Tanto o trabalho de Kaës como o de Claudine aponta para especificidades metodológicas, nesse trabalho. Apesar do recurso a objetos e a dramatização, a fala é vista como tendo um lugar central pelo seu papel na enunciação das regras constitutivas do dispositivo e pela postulação de que deve sempre existir um espaço de fala que possa acompanhar a experiência nesses grupos.

O lugar do profissional que acompanha um grupo de mediação desloca-se da exterioridade ao fazer grupal e de suas intervenções interpretativas, para uma modalidade de implicação pela participação na proposta do grupo. Na fotolinguagem©, por exemplo, o profissional que acompanha o grupo, o deve também escolher uma foto e associar sobre ela. Vacheret e Kaës nos advertirão que devemos renunciar a interpretação nesses grupos.

Para ambos os autores, esses grupos são grupos destinados à reestabelecer a capacidade associativa do pré-consciente e como tal são vistos como mobilizadores de fala.

A França possui uma história particular no tocante ao uso de recursos não verbais em grupos de inspiração psicanalítica, pois desde o final da segunda guerra mundial há registros de importantes experimentações que faziam convergir psicanálise e psicodrama. (BAYLE, 2007) Há diferentes formas de operar essa aproximação, aqui iremos nos debruçar sobre aquela que se coloca na linhagem de Didier Anzieu, mais especificamente em sua versão elaborada por René Kaës. De fato, Kaës será um dos autores que procurará dotar de uma compreensão metapsicológica psicanalítica rigorosa os processos e formações psíquicas mobilizados e sustentados pela prática da dramatização em grupo, bem como de suas condições de possibilidade metodológicas para que gerem efeitos de análise. Na história do desenvolvimento do pensamento do autor, vemos como parte deste esforço será integrada à compreensão dos grupos de mediação (com o uso de objetos mediadores). Kaës apresenta a história destes grupos do seguinte modo:


Há muitos anos, os profissionais colocaram em funcionamento – no campo terapêutico e no da formação – dispositivos de trabalho psíquico que nomearam "grupos de mediação". Esses dispositivos reúnem número restrito de pessoas, normalmente em contexto institucional: suas relações são mediatizadas seja por um meio sensorial (o sonoro, os objetos plásticos), seja por objetos culturais já pré-constituídos (o conto, a fotografia). Além dessa diferença, o objetivo perseguido por esses grupos é de ativar ou reanimar certos processos psíquicos não mobilizáveis ou modificáveis de outro modo, o que o sejam, com esse dispositivo, de modo mais eficaz. (KAËS, 2005, p. 46, 47):
Seguindo o trabalho de Kaës sobre os grupos com objetos mediadores, Claudine Vacheret vem avançando a aprofundando uma compreensão psicanalítica destes grupos, sobretudo através do trabalho com fotos em grupos com objetivos psicoterapêuticos ou de formação. Nesses grupos, Claudine Vacheret tem trabalhado com conjuntos padronizados de fotos que conferem ao dispositivo seu nome de Fotolinguagem. A Fotolinguagem é nesse sentido um recurso para o trabalho grupal utilizado com diferentes referenciais teóricos. Seu uso por Claudine Vacheret distingue-se pela leitura e fundamentação psicanalítica que ela dá ao material. A partir deste dispositivo, Claudine Vacheret vem aprofundando uma compreensão psicanalítica dos grupos que utilizam objetos mediadores de uma forma geral.

Para pensar o grupo com objetos mediadores é necessário termos uma compreensão do estatuto destes objetos. Uma referência marcante tanto no pensamento de Vacheret quanto de Kaës, é o do conceito de objeto transicional de Winnicott. Conceito que Vacheret e seguindo Kaës, compreende, na linhagem que vem das formulações freudianas sobre o carretel, e passa estudos de Géza Rohéim antes de encontrar a proposta Winnicottina. Contudo, pensar o objeto mediador nessa linhagem não implica sua identidade teórica com o objeto transicional. Há, para Vacheret, a necessidade de se pensar o objeto mediador como conceito específico tendo em vista sua existência no contexto de mais de um outro na situação de grupo:


A noção de objeto mediador se impõe do fato que o conceito de objeto transicional não pode ser deslocado teoricamente da relação dual para a relação grupal. De outra parte, a ênfase dada pó D. W. Winnicott sobre a importância do investimento dos objetos culturais se situa mais na perspectiva de continuidade diacrônica, entre a criança e o adulto, do que na perspectiva sincrônica e grupal [...].13 (VACHERETE, 2000, p. 159)

Após citar Róheim, Vacheret dirá: “Ao falar de objeto mediador, faço a escolha de propor uma noção que se diferencia destes diversos conceitos, sabendo que me apoio sobre esses apoios teóricos fundamentais.” 14(VACHERETE, 2000, p. 159)

Lembrarmo-nos destes aportes podem ser um primeiro passo de aproximação desse conceito, mas devemos perseguir um pouco da especificidade desta noção tal como desenvolvida por Vacheret. Ressaltamos seu papel, neles a transicionalidade é um potencial para a qual contribuem, pois o “[...] objeto mediador tem uma função facilitadora do acesso à transicionalidade.”15 (VACHERET, 2000, p. 160). Operam incidindo sobre os processos psíquicos de ligação tanto internos a cada sujeito quanto entre eles: “A problemática da mediação é uma problemática de processos psíquicos de ligação, articulando a realidade intrapsíquicas do sujeito singular e a realidade grupal percebida como uma realidade de fora em um primeiro momento” 16(VACHERET, 2000, p. 160). Vacheret sublinhará tanto o caráter material quanto a função “simbolizante” do objeto mediador. Em suas palavras:
A mediação é o que precede e prepara um trabalho psíquico de ligação simbolizante [...] O objeto mediador é o lugar de colocação em forma do imaginário, nesse sentido, ele é mobilizador do espaço do pré-consciente.”17(VACHERET, 2000, p. 160).
Começa a surgir aqui a problemática, a nosso ver central, nos grupos com objetos mediadores: a atividade representacional. De um lado a relação do objeto com a sensorialidade, de outro a compreensão do papel da intersubjetividade no trabalho do pré-consciente relacionado à atividade de representação.

Ao falarmos de atividade de representação, parece-nos útil recorrermos a uma autora que possui grande importância tanto no pensamento de Kaës quanto de Vacheret: Piera Aulagnier. Sobre a atividade representacional essa autora diz:


Por atividade de representação, nós compreendemos o equivalente psíquico do trabalho de metabolização próprio a atividade orgânica. Esse último pode se definir como a função pela qual um elemento heterogêneo à estrutura celular é rejeitado, ou, ao contrário, transformado em um material que se torna homogêneo a ela. Essa definição pode se aplicar ponto a ponto ao trabalho que opera a psique, com a diferença que nesse caso o “elemento” absorvido e metabolizado não é um corpo psíquico, mas um elemento de informação. (AULAGNIER, 1975/2007, p.25-26. Destaque da autora)
Esse processo de “metabolização” confere existência psíquica aos elementos de informação da realidade. Aquilo que não é passível desta homogeneização permanece fora do campo psíquico. Há nessa posição de Aulagnier uma postura epistemológica que compreende o caráter inacessível ao sujeito da realidade tal como ela seria em si mesma. Aulagnier nos lembra de que mesmo a percepção sensorial do mundo está sujeita a certos limites próprios dos aparelhos sensoriais, nesse sentido, a consistência da atividade representacional descrita por Aulagnier segue um processo análogo de nos permitir compreender os limites e as transformações que os dados de informação devem sofrer para que possam ter existência psíquica. O real, “em si” permanecerá sempre incognoscível, alerta Aulagnier que aquilo ao que nos referimos como “realidade” é “o real ‘humanizado’” (2007, p.283) que compreendemos como a construção dos conjuntos humanos.

Se heterogêneo em relação aos “puros” dados sensoriais, o trabalho de representação comporta ainda uma heterogeneidade interna. Trata-se então de podermos pensar a existência de diferentes sistemas de registros psíquicos das experiências vividas. Pensamentos por ideias, pensamentos por imagens e talvez formas de registro mais próximas ao corpo, diferentes autores conceituaram de modo diferente estes registro, mas Vacheret entende que os objetos mediadores em grupo atuam por uma mobilização especial destes registros. A sensorialidade própria destes objetos seria especialmente suscetível a mobilizar elementos mais próximos do “corporal”, independentemente da nomenclatura que utilizemos.

Pretende-se então que estes grupos possam de algum modo mobilizar estes diferentes registros psíquicos, visando um efeito de reativação da capacidade associativa. Nas palavras de Kaës:

 Trata-se então de produzir um efeito dinâmico, não especificamente de uma interpretação. P. Aulingner nos mostra aqui a ordem da necessidade na qual se situa o figurado: uma ordem da necessidade (besoin), do fundamental, do sentimento de existência e do ser que constitui o espaço corporal no qual o pensamento poderá se desenvolver [...]”18 (KAËS, 1999, p.96 )


Os grupos de mediação teriam assim uma aptidão privilegiada para contribuir ao trabalho da figuração. Nesse movimento, é fundamental ainda o espaço para aquilo que se tornou figurado, possa ser falado e então pensado. Atravessando esses diferentes registros psíquicos, o essencial destes grupos é o resgate da capacidade associativa.

A função do outro em nossa capacidade figurativa e representativa aparece mais claramente nas propostas de Kaës sobre o funcionamento do pré-consciente. Como outro autores Kaës entende que:

O pré-consciente é o sistema do aparelho psíquico no qual se efetuam os processos de transformação que sofrem certos conteúdos e processos psíquicos para retornar à consciência. “É a esse sistema que se junta à capacidade associativa, tradutora e interpretativa da psique.” (KAËS, 1999, p. 92)

Porém, acreditamos que inove ao propor que o pré-consciente depende da intersubjetividade:


Com base em minhas pesquisas sobre os processos associativos nos grupos, coloquei em evidência como o trabalho da intersubjetividade é a condição do pré-consciente. Esse sistema se constrói à medida que se cumprem certas funções de continência, de hospedagem e de transformação dos pensamentos inconscientes de um outro ou de mais de um outro ao qual o sujeito está ligado. (KAËS, 1999, p. 92)

Além deste papel do outro em presença, a cultura teria também um papel em responder a exigência de figurabilidade:


O mito, como o conto ou a lenda, forma uma reserva de já ditos que podem tornar possível o dizer ainda não formulado: o que é colocado em disponibilidade no pré-consciente – imagens, esquemas psicomotores, falas, cenas – fornece uma figuração de afetos e representações que então se tornam acessíveis ao pensamento (KAËS. 1999 p. 93).
Se o funcionamento do nosso pré-consciente depende do material que nos é oferecido pelos outros e pela cultura como matéria-prima de nossa atividade de representação, e se os grupos de mediação são grupos que incluem o manejo de objetos culturais e sensoriais em um contexto de mais-de-um-outro, visando o re-estabelecimento da capacidade associativa do pré-consciente, é possível então relacionar esses grupos as funções normalmente atribuídas ao pré-consciente.
“[...] eu [Kaës] diria que as mediações utilizadas nos processos terapêuticos de grupos de mediação são os herdeiros do sonho, elas são os meios de restaurar a capacidade de sonhar. Elas lhes propõem equivalentes. Quando a capacidade de sonhar e de brincar está falha, as mediações de próteses são necessárias, pois restauram essas capacidades. Sob este ângulo, as atividades dos grupos de mediação têm função essencial: a de tornar possível a criação de sintomas que poderão, então, ser situados, nomeados, re-apropriados e reconhecidos a partir do conflito que lhes organizam. Isso tudo sob a condição de que a fala acompanhe a experiência de mediação.” Kaës (2005, p. 50)

Mais do que um grupo não verbal, os grupos de mediação seriam grupos voltados para “puxar a fala”, através do acionamento de vias sensoriais e dos processos grupais, garantido o espaço da fala, buscam-se efeitos de análise pela restauração da capacidade dinâmica do sistema psíquico. Este tipo de grupo possui uma indicação clara e arranjos metodológicos correlativos para que essa finalidade seja atingida. Caberá a nós ao longo do trabalho pensar em que medida e como essa proposta pode ser integrada em diferentes grupos realizados em contextos institucionais na atualidade.


Considerações finais:

A investigação do estatuto da associação livre nos grupos com objetos mediadores implica um aprofundamento na questão dos diferentes registros representacionais, suas mútuas relações e sua relação com a situação plurisubjetiva do grupo. A perspectiva dos processos associativos inclui em seu cerne a dimensão temporal, trata-se justamente de conceber uma temporalidade psíquica para que certos processos e formações psíquicas se configurem e possam ser trabalhados.

Salientamos que o uso de objetos mediadores em grupos é compreendido vis-à-vis as patologias de nossa época. Patologias caracterizadas pelos autores estudados como patologias do sistema pré-consciente e concebidas como falhas da capacidade figurativa. Ao mesmo tempo, o recurso aos objetos mediadores é justificado justamente pela dimensão de imagem destes objetos.

O que estes estudos ainda não formularam, mas que se enuncia como objeto de estudo emergente são os elementos intersubjetivos que permitem o paradoxo de nossa cultura onde coexiste uma grande quantidade de imagens em circulação no meio externo e tamanha carência na exigência de figurabilidade psíquica. Os grupos com objetos mediadores apostam na compreensão de que as imagens que circulam entre as pessoas são elementos fundamentais para as formações psíquicas que permitem responder à exigência de figurabilidade do sistema psíquico. Talvez estes grupos possam ser compreendidos exatamente como as condições intersubjetivas necessárias para que a imagem que circula socialmente possa ser introjetada de modo a responder a exigência de figurabilidade do sistema psíquico.

A temporalidade certamente apresenta uma grande importância aqui. A própria noção de “bombardeamento de imagens” que usamos de modo corriqueiro para nos referirmos a vertigem das imagens em nossa sociedade, contrasta com o uso repetido e temporalmente mais dilatado de cada imagem nos dispositivos de grupo com objetos mediadores.

Parece-nos razoável afirmar que a imagem “externa” só pode ser introjetada no fluxo da cadeia associativa intersubjetiva e intrapsíquica. Somente nesse movimento a imagem por fora pode sustentar a imagem “por dentro”. Ao final deste texto, nos aventuramos a lançar uma hipótese, a de que o grupo com objetos mediadores possa ser visto como um dispositivo que agencia laços intersubjetivos e objetos em uma temporalidade outra da temporalidade que rege a maior parte de nossa vida na atualidade e que isso é condição para que tiremos do mundo a nossa volta a experiência que tanto precisamos para sustentar a vida dentro de nós.


Pablo de Carvalho Godoy Castanho

Professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM).

Membro do Board da IAGP. Membro da “Réseaux de groupes

et lien intersubjectif” coordenada pela Université de Lyon Lumière 2


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Acessado em 5 de maio de 2007
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1 “All the groups we have spoken so far have tasks, that is, they have definite aims and purposes. […] the manifest declared activities of such a group we propose to call the group’s ‘occupation’. “ p.33


2 Todas as traduções são de nossa autoria.

3 “[…] are able to meet, to share experiences, and to Interact emotionally without having to become more involved with one another on a personal level than they wish to be.” P.33


4 “ […] analysis of groups shows that group occupations […] serve as a protective screen, a defense against intimate personal interaction. For this very reason psychotherapy analytic groups are given no occupation, no particular task to perform as a group.” (p.34)


5 “That the group relies on verbal communication.” P36.

6 "That verbal communication is changed into ‘group-association’. This implies that discussion in the group shall not be discussion in the ordinary sense of the word but something described as ‘free-floating discussion’. It is the group-analytic equivalent of what is known as ´free association´ in psychoanalysis. “ p37

7 “J´avance ici de nouveau l´idée que, dans la structure intersubjective de group, chacun ou plusieurs sont en mesure de participer à une fonction conjoint de refoulement, ou à la fonction co-refoulant, étant admis que le refoulement lui-même « est au plus haut degré individuel » (FREUD, S. 1915). J´avance donc aussi l´idée qu´un travail de refoulement se produit dans le temps et les conditions intersubjectives de la situation de groupe. «  (KAËS, 1994, p.258)


8 “J´ai supposé, parmi les conditions de possibilités du processus associatif en situation de group, qu´il ya eu et qu´il y a encore actuellement du refoulement sous l´effect de la fonction co-refoulant de l´ensemble. C´est parce qu’ il y a du refoulement groupal qu´il y a de l´association groupale. «  KAËS, 1994, p.318

9 Kaës insiste sobre o termo polifonia em seus escritos a partir de 1994 pegando o conceito emprestado de Bakhtine

10 Termos compreendidos nesse artigo na acepção que lhes foi atribuída por Abraham e Torok (2001)

11 Baseado na obra “Seguir a aventura com Enrique Pichon-Rivière: uma biografia” (VELLOSO, MEIRELLES, 2007)

12 Apesar de algumas leituras de Pichon-Rivière na atualidade contestarem esse uso tão extenso do conceito, essa afirmação é absolutamente explícita em Pichon-Rivière que a repete insistentemente ao longo do livro “O Processo Grupal”. Veremos ao longo desse trabalho que além de não representar uma leitura pertinente ao texto pichoniano, um uso mais restritivo do termo tarefa implica em consideráveis perdas de sua utilidade prática.

13  « La notion d´objet médiateur s´impose du fait que le concept d´objet transitionnel ne peut être déplacé théoriquement de la relation duelle à la relation groupale. D´autre part , ´accent mis par D.W. Winnicott sur l´importance de l´investissement des objets culturels se situe davantage dans une perspective de continuité diachronique, entre l´enfat et l´adulte, que dans une perspective synchronique et groupale. »


14 “Em parlant d objet médiateur , je fais le choix de proposer une notion qui se démarque de ces divers concepts, tout en sachant que je m´appui sur ces apport théoriques fondamentaux. »

15 « L´objet médiateur a une fonction facilitatrice de l´accès à la transitionallité. » 

16 « La problématique de la médiation est une problématique des processus psychiques de liaison, articulant la réalité intrapsychique du sujet singulier et la réalité groupale perçue comme une réalité du dehors, dans un première temps. »

17 « La médiation est ce qui précède et prépare un travail psychique de liaison symbolisant. [..] L´objet médiateur est le lieu de mise en forme de l´imaginaire, à ce titre il est mobilisateur de l´espace du préconsciente. »

18 « Il s’agit bien alors de produire un effet dynamique, non pas spécifiquement une signification. P. Aulagnier nous montre ici l’ordre de la nécessité dans laquelle se situe le figuré : un ordre du besoin, du fondamental, du sentiment d’exister et d’être qui constitue l’espace corporel dans lequel la pensée pourra se déployer [...] » (KAËS, 1999, p.96)





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