Da transferência de trabalho à invençÃo de um estilo1



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Trabalho para a VIII Jornada Brasileira de Convergencia, Varginha, MG, 16 a 18 de maio de 2008

Intersecção Psicanalítica do Brasil

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DA TRANSFERÊNCIA DE TRABALHO À INVENÇÃO DE UM ESTILO1

Uma primeira observação a ser feita sobre este texto é a de que ele representa um “texto institucional” apenas na medida em que eu, sua autora, sou membro de IPB, e que o mesmo foi discutido no âmbito da nossa instituição, antes de ser apresentado. Isso traduz nossa concepção sobre “representação”, que é a de “delegar” a palavra contemplando o princípio do “nome–próprio”, do “um a um” [e não do “todo”], enfim, do “responsabilizar-se” pelas próprias produções. Sendo assim, nossos únicos textos institucionais são os Estatutos e a Carta de Princípios da Instituição. Abordar essa questão, dessa forma, já é um efeito de Convergência.

Pois bem, para IPB, falar sobre os efeitos de Convergência significa falar de si mesma; significa abordar sua própria origem [e originalidade], já que o Ato de sua Nomeação foi convocado diretamente pela fundação desse Movimento. Disso resultou um estilo de institucionalização que reflete os objetivos contidos nos estatutos de Convergencia e vem imprimindo marcas que podem ser pensadas em termos de uma lógica “não toda”, isto é, a lógica de uma articulação que parte do Real – do furo real - de nossas diferenças, colocando essas diferenças para trabalhar2.

Os efeitos dessa lógica, opostos ao exercício de uma lógica exclusivamente fálica regida pelo discurso da Mestria e, ainda, opostos a um trabalho baseado apenas em “afinidades” ou no “entre-pares”, vem delineando um perfil institucional apoiado em princípios que contemplam, de forma privilegiada, o acolhimento, a articulação, a interlocução, enfim, a intersecção das diferentes singularidades dos seus participantes.

Tal perfil tem implicado um arranjo institucional atípico. Nossa sede “fixa” é virtual, correspondendo apenas a um endereço na internet. Além disso, nossa composição inclui participantes de diferentes locais3, o que não significa sermos uma instituição com suas ramificações: em IPB, não há matriz nem filiais. Cada local onde há participantes tem a mesma consistência no enodamento institucional.

Sustentar a instituição a partir dessa lógica de enodamento tem nos convocado a inventar critérios próprios de funcionamento. A cada ano, um local diferente se encarrega da “administração” institucional, organizando também os nossos Simpósios, que reúnem todos os participantes. Essa alternância administrativa faz com que o perfil institucional ganhe sempre novas versões – a versão de cada local. Entretanto, trata-se sempre do mesmo perfil, decorrente de fundamentos bem definidos na nossa Carta de Princípios, elaborada no Ato de Fundação da Instituição.

Esse Ato de Fundação de IPB nomeou uma história de “transferências de trabalho” construída ao longo de muitos anos, demarcando um contorno institucional determinado pela geografia dessas transferências, e não pela geografia dos locais onde há participantes. Tal geografia de “transferências de trabalho” define o que é IPB e corresponde àquilo que fundamentou sua institucionalização.

A história dessa geografia começou a ser escrita a partir dos antigos pertencimentos de alguns de nós aos CEFs4 locais. Após suas cisões e dissoluções, as transferências estabelecidas foram sendo sustentadas ou “postas para trabalhar” em função do engajamento de muitos de nós em eventos psicanalíticos nacionais e internacionais. Entre eles, as Jornadas Freud-lacanianas 5 e as Reuniões Lacanoamericanas6 tiveram a função de criar e manter uma rede de interlocuções, que se solidificou em 1997, com a criação de “Convergência, Movimento Lacaniano para a Psicanálise Freudiana” – movimento engendrado nos bastidores das Reuniões Lacanoamericanas, desde 1995.

Até esse momento, não havia de fato uma intenção de nomeação para essa rede de transferências. Entretanto, a fundação oficial de Convergencia e a vontade de participar dela efetivamente mobilizaram o grupo presente naquela ocasião (1997)7, que, atendendo a uma demanda feita pelo próprio Movimento para que o grupo pudesse participar de algumas deliberações, nomeou-se informalmente “grupo do Recife”8. Com isso, plantou-se a semente para a nomeação oficial de IPB — Intersecção Psicanalítica do Brasil.

Assim, pode-se dizer que esse Ato de nomeação foi inspirado no Ato de nomeação de Convergencia, ambos portando a mesma lógica – a lógica da articulação das diferenças9.

Em IPB, essa lógica engendrou uma rede em cuja tessitura está um vínculo de trabalho alicerçado, predominantemente, na interlocução da produção dos participantes. Um a um, em nome próprio, esses participantes se inscrevem nessa rede como significantes de uma cadeia, isto é, não como signos de si, mas como singularidades – de desejo, de interesse, de percurso, de local, de produção. Assim, “IPB” funcionou como o significante que nomeou essa cadeia, fazendo metáfora dentro da metonímia dessas singularidades – entrando na série com a função de marcar UM LUGAR10 e não um grupo ou um conjunto. A virtualidade desse lugar lhe dá consistência simbólica (e não imaginária) e lhe retira a possibilidade de ser ocupado, por exemplo, por “mestres encarnados”.

Esse engendramento é o mesmo encontrado em Convergencia, onde: primeiro, o lugar de sua consistência é o das atividades entre as instituições-membro; segundo, o vínculo entre as instituições-membro é o de transferências de trabalho e não simplesmente o de pertencimento ao Movimento11 ; e, terceiro, “Convergência” também funciona como um significante, agenciando trabalho (e não amizades) - agenciando um LUGAR de enodamento e não de “ajuntamento” de instituições.

Tanto no perfil de cada instituição quanto no perfil do Movimento, as conseqüências desse tipo de agenciamento refletem o enodamento de três dimensões: um Real (da falta), um Simbólico (das produções) e um Imaginário (das demandas e afinidades). Isso monta uma “estrutura de corte”, permitindo as instituições sustentarem um discurso dentro da lógica do significante, ou seja, de um discurso analítico que preserva o lugar da castração, promovendo um trabalho a partir da falta.

Por fim, pode-se dizer que sustentar essa lógica do real da falta, quer em, quer em Convergencia, tem-nos obrigado a inventar esses dois lugares o tempo todo, a cada atividade, a cada evento nacional ou internacional. Cada um desses momentos requer nossas experiências com a “falta-a-ser” e o “não saber”. Isso não deixa de promover a transmissão de um saber enquanto falta – transmissão da Psicanálise dentro de um estilo discursivo, cuja repetição e transposição para o campo simbólico imprimem marcas, não de um discurso comum a todos, mas do um a um – de uma lógica não toda (incompatível com a lógica das “unificações” ou “coletivizações”).


Arlete Mourão

(abril de 2008)


1 Texto preparado para a parte interna da VIII Jornada Brasileira de Convergência, realizada em Varginha, MG, em 16, 17 e 18 de maio de 2008.

2 Essa expressa que pode ser depreendida dos Estatutos de Convergência, em trechos dos seus “Objetivos”, tais como: Não consideramos, a priori, a multiplicidade que daí (da fragmentação das instituições psicanalíticas) resulta como uma falha. Convergência deverá se esforçar para preservar essa multiplicidade sem querer nem totalizar nem unificar estas tentativas. Ela se aterá a acolher em seu seio o princípio de uma diferença fecunda presente nesta multiplicidade.

3 Diferentes Estados brasileiros, o que fundamenta a denominação “do Brasil”.

4 Centro de Estudos Freudianos.

5 Realizadas anualmente, em Recife/Brasil.

6 Realizadas bianualmente, em diferentes países da América Latina.

7 Ano da Reunião Pré-fundacional de Convergencia, realizada em Barcelona.

8 O maior número de presentes, naquele momento, era de residentes em Recife.

9 Também expressa nos seguintes trechos dos Estatutos de Convergência: [...] são ratificadas as diversas modalidades organizacionais que cada uma das associações-membro deram a si mesmas. Assumimos em ato a diversidade, tanto histórica como geográfica das diferentes posições associativas. [...] Constatamos que cada uma destas criações institucionais se legitima, seja a partir de um traço no real da cura, seja a partir de uma tese sustentada em uma das etapas do ensino de Lacan em sua releitura de Freud [...]

Compreende-se, desde então, que as diferentes posições associativas sejam, em sua diversidade, efeitos deste ensino. Supomos do mesmo modo que aquilo que as diferencia não se reduz somente aos efeitos de transferência imaginária sobre a pessoa de um mestre ou de um fundador.



10 O lugar do Um do significante, da diferença, e não do Um da unificação.

11 Quando esse vínculo fica só nesse pertencimento, ele não se sustenta.




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