Dali, as estranhas memórias romanceada as confissões inconfessáveis, de Salvador Dali, apresentado por André Parinaud, José Olympic, Rio, 1976, 297 pp., Cr$ 70,00



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DALI, AS ESTRANHAS MEMÓRIAS ROMANCEADA



AS CONFISSÕES INCONFESSÁVEIS, de Salvador Dali, apresentado por André Parinaud, José Olympic, Rio, 1976, 297 pp., Cr$ 70,00.

Denis Borges Barbosa

A pintura de Dali, a par da de Max Ernst, sempre me atraiu com força extraordi­nária. dentre as obras pro­duzidas na primeira metade deste século. O pintor alemão é de uma seriedade, de uma circunspecção que assustam; o catalão, por sua vez, deixa sempre a sus­peita de que estamos sendo vítimas de uma farsa, de uma conspiração que nos porá, de alguma forma, no rol dos ridículos. Boa parte desta última experiência - que creio compartilhar com muita gente - se deve à fama de louco, de exibicio­nista, de impostor, enfim.

A primeira surpresa que se tem ao ler As Confissões In­confessáveis é que todas as "acusações" que se fazem ao pintor são confirmadas. Dali é megalomaníaco, é impostor, é ávido pela fama e pelo dinheiro, é reacioná­rio. Tudo isto, porém, den­tro de um sistema tão per­feito, tão antojustificativo, que todas as "falhas" se re­dimem n u m a genialidade talvez única na História. História, aliás, a qual ele não dá a mínima ímportan­cia.

As noções de establishment psiquiátrico, que separam o mundo dos sãos do mundo dos loucos por um muro inexpugnável, Dali opõe sua própria experiência de con­vivência saudável com a loucura, que se transforma, aliás, no fundamento de sua criatividade. A "para­nóia crítica", um sistema de delírio que ele próprio defi­ne como o choque entre a expressão paranóica, e o real, é a força que o guia: com ela, Dali faz uma arte que não substitui as fezes, o fedor, a morte, o erotismo por expressões mais ,pu­ras`, mais convenientes; ao contrário, manifesta seu egoísmo, suas fixações, seus pavores como forma artísti­ca autêntica.

Com esta inclusão do lado vergonhoso" de sua perso­nalidade, na própria arte, todos os crimes que se lhe imputam caem por terra, não como se faz com um louco ao qual não se atri­buem violações penais, mas de uma forma radicalmente oposta. Na verdade, lendo suas Confissões, fica-se com a suspeita de que a verda­deira paranóia está com os que classificam certas par­tes de nossa experiência subietiva como imorais reprováveis ou apavorantes. André Breton, o surrealista que censurava a “indecência" de um anus fluorescen­te, ou Dali, que se acostuma a antegozar a própria mor­te e putrificação, é o para­nóico"?

Dali tem grandes intimida­de: com a tradição psicana­lítica. Em 1938, ele e Freud se encontram, através de Stefan Zweig, em Londres. O fundador da Psicanálise se espanta com o pintor: "Que fanático! Que tipo perfeito de espanhol!" Dali, por sua vez, faz o retrato de Freud, segundo o princípio da voluta e do caracol. Muito mais cedo, em 1933, Dali já descobrira Jacques Lacan, de quem deriva seu princípio de paranóia críti­ca.

O livro tem a forma de uma autobiografia, inverti­da pela presença (no pri­meiro capítulo) da anteci­pação da própria morte e (no último) da imortalidade a que se propõe, através da criogenia. A vida pré-con­cepçao, intra-uterina e in­fantil é narrada segundo a o t f c a "paranóico-criativa" que só depois viria a siste­matizar. Em seguida, Salva­dor narra seu contato com o desenho, suas duas ex­plusões da Academia de Be­las Artes, sia atividade co­mo anarquista, o contato com, Buñuel e Lorca, a mu­dança para Paris.

A história de amor de Dali e Gala, a mulher de Paul Eluard, que Salvador toma e conserva por toda a vida, é um dos trechos mais líri­cos - lirismo de estivador e não de "rosas e açucenas" - que jamais li. Dali sabe de Gala (-mulher de, corpo fantástico"), e se prepara para o encontro rasgando as roupas, pintando-se de vermelho e perfumando-se a bode. Ante a presença real da mulher, porém, vis­ta ao longe na praia, ele se despe do aparato surrealis­ta, aproxima-se, apaixona­se e inicia delírio novo, de amor, que vai até os extre­mos do homicídio.



Aproximei-me do livro com o mesmo pavor de ser ludi­briado que se tem perante a pintura de Dali. Como al­guém pode lembrar-se da vida intra-uterina? No de­correr da leitura, os receios vão perdendo o sentido: tal como faz com a oposição entre sanidade e loucura, Dali concilia realidade e ficção, e o livro é lido como romance, se ao bom-senso e bom gosto repugna tê-lo como memórias autênticas.


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