Dancem!09 Teatro Nacional São João Paraíso



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Dancem!09
Teatro Nacional São João

Paraíso | Olga Roriz | [27 Junho] sábado 21:30

Inferno | Olga Roriz | [30 Junho] terça-feira 21:30

Sombreros | Philippe Decouflé | [3 + 4 Julho] sexta-feira + sábado 21:30

pitié! | Alain Platel | [7 + 8 Julho] terça + quarta-feira 21:30

Maiorca | Paulo Ribeiro | [10 + 11 Julho] sexta-feira + sábado 21:30
Teatro Carlos Alberto

Le Jardin + Le Salon + Le Sous Sol | Peeping Tom | [25 + 26 + 28 Junho] quinta + sexta-feira + domingo 21:30

Story Case | Né Barros | [3 + 4 Julho] sexta-feira + sábado 21:30

Solo | Philippe Decouflé | [6 + 7 Julho] segunda + terça-feira 21:30

Orphée et Eurydice | Marie Chouinard | [10 + 11 + 12 Julho] sexta-feira + sábado + domingo 21:30
comissário Paulo Ribeiro

produção TNSJ


Assinaturas Dancem!09

Onze espectáculos ● Desconto 50%

Cinco espectáculos à escolha ● Desconto 40%
Teatro Nacional São João
Plateia e tribuna 15€

1º Balcão e Frisas 12€

2º Balcão e camarotes de 1ª ordem 10€

3º Balcão e camarotes de 2ª Ordem 7€



Condições especiais

Grupos (+20 pessoas) € 10,00 Escolas e Grupos de Teatro Amador € 5,00 Cartão Jovem e Estudante desconto 50% Mais de 65 anos desconto 50% Quinta-feira desconto 50% Profissionais de Teatro desconto 50% Preço Família (agregados familiares compostos por três ou mais pessoas) desconto 50%
Teatro Carlos Alberto

Plateia 15€

Balcão 10€

www.tnsj.pt

Informações Linha Verde TNSJ │ 800 10 8675 (Número grátis a partir de qualquer rede)


Gabinete de Imprensa

T +351 22 339 30 34

F +351 22 339 30 39

imprensa@tnsj.pt

Le Jardin
Dança

criação e interpretação Gabriela Carrizo, Franck Chartier, Simon Versnel

cenografia Pol Heyvaert

desenho de luz Gerd Van Looy


Filme

criação e interpretação Gabriela Carrizo, Rika Esser, Franck Chartier

com a participação de Simon Versnel, Isnel da Silveira, Nordine Benchorf, Heloise da Costa, Louis Clément da Costa, Eurudike De Beul, Ina Geerts, Sam Louwyck, Jan Paul, Bah Mamadou Halfi, Tina Pattama Soonthara, Darryl E. Woods
produção Peeping Tom (Bruxelas)

co-produtores Festival Perspectives Saarbrücken, Anno ’02 & De Kortrijkse Schouwburg, Ballet Preljocaj – Centre Chorégraphique National d’Aix-en-Provence


estreia [13Jun2002] Victoria (Gent, Bélgica)

duração aproximada [Filme 35’ + Dança 35’]

classificação etária Maiores de 12 anos
Le Salon
criação e interpretação Gabriela Carrizo, Franck Chartier, Samuel Lefeuvre, Simon Versnel e Eurudike De Beul (meio-soprano)
cenografia Pol Heyvaert

desenho de luz Gerd Van Looy

desenho de som Glenn Vervliet

dramaturgia Nico Leunen, Viviane De Muynk


produção Peeping Tom (Bruxelas)

co-produtores Tramway Glasgow, La Rose des Vents – Scène Nationale de Villeneuve-d’Ascq, Le Réseau France des CDC (Avignon, Dijon, Roubaix, Val-de-Marne, Toulouse, Uzès)


estreia [4Nov2004] La Rose des Vents (Villeneuve-d’Ascq, França)

duração aproximada [1:30]

classificação etária Maiores de 12 anos
Le Sous Sol
criação e interpretação Gabriela Carrizo, Franck Chartier, Samuel Lefeuvre, Maria Otal e Eurudike De Beul (meio-soprano)
consultoria artística Simon Versnel

sonoplastia Glenn Vervliet


produção Peeping Tom (Bruxelas)

co-produtores KVS (Bruxelas), Charleroi/Danses, Théâtre de la Ville (Paris), Trafó (Budapeste)


estreia [28Mar2007] KVS (Bruxelas, Bélgica)

duração aproximada [1:10]

classificação etária Maiores de 12 anos
Uma saga familiar divertida e pungente
Gwénola David*
Às escondidas, quase de soslaio. É assim que os Peeping Tom observam o mundo. Deslizando através das frinchas do consciente, nas dobras frouxas do quotidiano, onde secretamente se ouve o ruído do cafarnaum dos fantasmas e das nevroses comuns. […] Em Le Jardin, entalham as fronteiras turvas da normalidade, confrontando o exotismo adulterado de um night club suspeito com a confusão de um casal e de um homem velho, qualquer dos três colocado no recinto cheio de normas de uma modesta barraca de subúrbio. Vestígio serôdio do fausto burguês de outrora, Le Salon examina as derrotas da velhice e a ruína de uma família que luta contra os lençóis sujos de um presente falido. Terceiro painel da trilogia, Le Sous Sol escava o além-túmulo, no antro terroso em que os mortos andam às voltas com as recordações e não param de voltar a representar os fracassos do passado, bebida toda a vergonha. No encadeamento desta saga divertida e pungente, em que dança e teatro se revezam numa partitura implacável, revelam-se as fendas escancaradas de uma humanidade amarfanhada, simultaneamente coriácea e prazenteira, que caminha solitária por entre as esperanças naufragadas e as pequenas felicidades da vida. A gestualidade, brutal, elástica, surge através de rajadas extravagantes, deixando escapar os segredos germinados e as raivas recalcadas: o irreprimível indizível dos medos e dos arrebatamentos da existência.
* Excerto de “Une saga familiale drolatique et poignante”. www.theatredelaville.fr (2009).

Trad. Manuel de Freitas.


A emoção ao poder: um retrato dos Peeping Tom
Hildegard De Vuyst*
2002, início do ano. Uma caravana um pouco perdida nos vastos parques de estacionamento do Bottelarij. Frio e sujidade. Apesar de tudo, duas bailarinas, em fatos de banho, saem da caravana, e tomam um duche de água gelada debaixo de uma mangueira. Esta cena faz parte de Caravana, um projecto que se desenrola dentro e à volta de uma autocaravana, e resulta da iniciativa de performers que se conheceram nas produções de Alain Platel (nos les ballets C de la B). As produções que os reuniram acabaram as suas digressões, mas eles continuaram simplesmente a partilhar a necessidade de trabalhar uns com os outros, sem se preocuparem com subsídios ou outras ajudas. Caravana foi o trampolim para esta companhia.

O núcleo duro dos Peeping Tom é formado por Gabriela Carrizo e Franck Chartier. Ela é oriunda da Argentina e colabora na criação de La Tristeza Complice [1995]; ele vem de França e junta-se a La Tristeza Complice durante a digressão. Depois, ambos participam na criação de Iets op Bach [1998]. Em Wolf [2004], ela faz o papel de assistente de Alain Platel e ele é um dos vagabundos que trata dos cães. Ele colabora em produções da Needcompany, antes de trabalhar com Platel, ela faz o trajecto contrário. Os seus caminhos cruzam-se definitivamente graças à filha de ambos, Uma, que, pequenina, actuou em Le Salon, até se fartar dessa função e ser substituída por uma boneca.

Vários performers gravitam à volta deste núcleo formado por constelações mutantes. Eurudike De Beul, a meio-soprano flamenga, que faz parte do projecto desde o início, empresta depois a sua voz ao espectáculo Le Salon (nomeadamente na cena inesquecível em que destrói o piano tecla após tecla) e voltamos a encontrá-la em Le Sous Sol. O actor Simon Versnel, um antigo membro da Needcompany, junta-se à criação de Le Jardin e Le Salon, trazendo consigo uma experiência de vários anos, acumulada graças ao trabalho com Jan Lauwers e Grace Ellen Barkey. Samuel Lefeuvre também participa na criação de Le Salon e Le Sous Sol. É um bailarino espantoso, uma combinação rara de elasticidade e de atletismo e, enquanto benjamim da companhia, constitui uma aposta no futuro dançante dos Peeping Tom.

Independentemente da questão de saber quem mexe os cordelinhos no seio da companhia, o essencial é o rigor com o qual os Peeping Tom optam pela criação colectiva. Cada produção inspira-se na anterior, mas, ao mesmo tempo, cada uma parte sempre do zero. Dentro de um enquadramento caracterizado por limites muito largos, cada proposta é experimentada e submetida à avaliação de todos. Desembocar numa narrativa comum exige componentes sólidas; porém, uma vez atingido, o resultado é suportado por todos.

É verdade que muitos bailarinos se sentem estimulados e desafiados por coreógrafos que apelam à criatividade dos seus intérpretes. Porque não lançar-se num projecto pessoal, pensam logo a seguir inúmeros bailarinos? Contudo, muitas dessas iniciativas não sobrevivem, porque permanecem tributárias do seu mentor, e estão condenadas à síndrome do epígono. Aparentemente, os Peeping Tom possuem uma estrutura bem mais sólida.

A primeira produção oficial, Le Jardin, é um espantoso díptico: um filme caseiro, rodado numa discoteca escura – onde estranhas personagens de todas as espécies se investem na vida nocturna –, seguido de uma performance ao vivo, em que três personagens do filme regressam, evoluindo desta feita no cenário de um jardim cuidadosamente tratado. Será que Le Jardin mostra o dia e a noite da existência dessas personagens? Será que o filme é a experiência sonhada da sua burguesia reprimida? Ou será que é o passado ao qual se extirparam? Os fios condutores entre o filme e a performance ao vivo desencadeiam o trabalho de imaginação do espectador sem lhe dar respostas categóricas.

A seguir, Le Salon é uma representação sólida na qual os Peeping Tom se consagram a uma dramaturgia condensada: texto, música e dança entrecruzam-se, sem transição, segundo um conceito hiper-realista. As personagens são claramente elaboradas sem que o aspecto narrativo se torne preponderante. A família serve de pivot: relações entre casais, mas também entre gerações, entre pais e filhos. O beijo do casal Carrizo-Chartier na peça Le Jardin acontece de novo em Le Salon, mas, desta vez, a criança está entre os dois. A vida e o trabalho confluem. O “mais real do que o real” é quase a assinatura dos Peeping Tom.

O ponto de partida da nova produção, Le Sous Sol, situa-se num lugar além morte. Que género de imagens podemos, ou queremos, receber desse lugar? Os códigos que gerem os comportamentos sociais desaparecem. O indizível torna-se dizível. Tudo é possível ou não? Em Le Sous Sol, Maria Otal entra em cena. Francesa com família na Bélgica, 80 anos, 48 quilos, bailarina. Reproduz a cena do beijo, com o jovem Samuel Lefeuvre. Será que se trata do seu companheiro morto? As fronteiras apagam-se. Um corpo, no fim de contas, não passa de um saco de ossos. Que encontros nos reserva o além? Um homem fica só no mundo “real”. Mas qual é o mundo mais real?

Os Peeping Tom são, na verdade, o Pedro Almodóvar do teatro dançado. Estranhas personagens ocupam o palco, figuras que evocam o mundo do circo, do music-hall e da feira. Os seus contornos são traçados com muito amor e humor perturbante. Os Peeping Tom apresentam ao público um travesti, uma anã, uma soprano lírica que não recua perante uma partida de catch, uma miúda ou uma bailarina muito velha e vulnerável. Histórias de declínio, de perda, de confusão humana a propósito da sexualidade associam-se, sem dificuldade, às proezas físicas e à poesia repleta de imagens de um grande requinte. Mas o elo mais óbvio com a obra do realizador Almodóvar é a tónica posta na emoção e no melodrama. Mágoa, ternura e beleza dominam, mesmo nas histórias mais cruéis.
* “L’émotion au pouvoir: un portrait de Peeping Tom”. www.fransbrood.com (2007).

Trad. Regina Guimarães.


Na morte, tudo se pode dizer amavelmente”
Steven De Belder*
Steven De Belder Quando começaram a ensaiar Le Jardin, já encaravam o trabalho como uma trilogia?

Peeping Tom Em Le Jardin, já queríamos pôr o salão no cenário, para que pudéssemos ver as pessoas a sair do salão para o jardim. Mas não tínhamos dinheiro para fazer isso. Assim, retomámos essa ideia do salão na peça seguinte e pensámos: “OK, agora vamos descer à cave”. De facto, no fim de contas, acabamos por já não estar propriamente numa cave, mas num quarto inundado de terra. Partimos de uma novelazinha de Dostoievski que se chama Bobok. Trata-se de pessoas mortas, nas suas sepulturas, em pleno cemitério, que falam entre si. E ainda há um ser vivo que se encontra no cemitério e que começa a ouvir os mortos a falarem uns com os outros. Há mais uma pessoa que morre e é enterrada; eles reúnem-se e fazem os ajustes de contas relativos às suas vidas. Vamos tentar recriar uma espécie de mundo em que, na morte, tudo é possível, tudo se pode dizer amavelmente: já não se tem nada a perder, logo já não se tem medo.
Trata-se, então, de uma situação que é, na verdade, anti-dramática, porque não há suspense ou evolução, nem resolução num determinado sentido...

Pois, mas de facto é muito difícil de concretizar! Entre nós, quando uma pessoa censura outra é porque lhe quer fazer mal, ou então por ironia. Portanto, é muito difícil ser amável quando se censura.


Será que em Le Sous Sol também há um elo com o filme que é mostrado em Le Jardin, cujas imagens mostram uma discoteca que também é uma espécie de mundo subterrâneo?

Em Le Jardin, é um pouco uma visão de pesadelo, como um sonho mau, com personagens estranhas. Em Le Sous Sol, vai ser mais alegre, mais leve. Estamos mortos, mas somos seres humanos normais. Depois da atmosfera bastante pesada em Le Salon, apetece ser light, mesmo que ainda não tenhamos a certeza de conseguir cumprir esse objectivo. Não se sofre: está-se morto, portanto não se tem fome ou dor, é mais fácil dar a volta às coisas, introduzir ironia, e mesmo leveza. Em Le Jardin e Le Salon, as pessoas estão muito sós com os seus problemas, ainda que sejam uma família. Aqui, ao ver o conjunto de materiais de dança que já criámos, toda a gente precisa de contacto, todos precisam de estar juntos.


O trabalho dos Peeping Tom situa-se num campo pouco nítido, entre a dança e o teatro. Mas o actor Simon Versnel, presença forte em Le Jardin e em Le Salon, não participa desta vez. Será que isso vai tornar as coisas mais dançantes do que teatrais?

O Simon não vai estar em palco porque fazemos muitas digressões e ele quer viver. Mas está presente durante o processo de criação, porque traz todo o lado teatral e é um pilar dos Peeping Tom. E, mesmo assim, ele vai estar presente na peça, através da banda sonora, que terá grande importância, como no cinema. Estaria vivo, na verdade seria o único a ter ficado vivo lá em cima; os outros morreram todos – mas, como não é visível, também se torna um pouco como um espectro. Além disso, continua a haver a meio-soprano Eurudike De Beul. Ela sempre cantou connosco, mas agora também acompanha o processo de criação, e também produz coisas que são mais teatrais. O equilíbrio entre teatro e dança vai ser semelhante. Mas trabalhamos a dança de maneira completamente diferente: muitos duos, imensas coisas muito coladas, muitos elementos sexuais ou sensuais.


Durante o processo de criação, quando desenvolvem pequenas cenas, fragmentos, decidem de antemão que vão escolher determinado “meio”: para isto, será mais a dança ou mais um bocado de texto?

Frequentemente, lança-se uma ideia e toda a gente toma 30 minutos para ir reflectir no seu cantinho; a seguir, cada um mostra o que encontrou. Por vezes é um texto, por vezes é uma frase de movimento, ou outra coisa, não é algo que se decida antecipadamente. Começamos com composições, propostas sobre uma ideia. Quando continuamos a desenvolver as coisas de que gostamos, elas podem tomar outras direcções: um elemento teatral pode ser desenvolvido pelo movimento, ou vice-versa...


E como é que a coisa funciona enquanto colectivo durante a criação? É 100% colectivo ou é mais dirigido por vocês os dois [Gabriela Carrizo e Franck Chartier]?

É um colectivo. Claro que, num grupo, há sempre motores que propõem coisas, que fazem girar a máquina, e há outros que são mais cool, que reflectem mais. Neste momento, o colectivo é sobretudo composto por nós e pelo Samuel Lefeuvre, porque passamos mais tempo no estúdio juntos. A Eurudike não está sempre cá, o Simon também não, e quanto à Maria Otal, a bailarina butô de 80 anos, é a primeira vez que trabalha connosco, portanto é preciso guiá-la um pouco. Mas quando estamos todos juntos, cada um traz ideias absolutamente originais e importantes. Durante o processo, todos procuramos os materiais, logo cada um faz o que quer, procura o que quer. Depois, mostram-se os resultados e cada um diz aquilo de que gostou – e tentamos então concentrar-nos nos aspectos positivos, porque durante o período de criação é fácil ficar-se deprimido, e a gente tenta não se deixar ir abaixo. Marcamos tudo o que os outros gostaram e depois, com aquilo de que tu mesmo gostaste, decides. Depois, começamos a trabalhar uns com os outros, para fazer duos ou trios. E, a seguir, para a montagem, cada um faz a sua linha dramatúrgica consoante todos os solos, duos e trios em que está envolvido. Juntamos então as cinco linhas e começamos a montagem da peça. Experimentamos todas as variantes, filmamos tudo, depois visionamos, e decidimos acerca da estrutura final. É um longo processo, por isso é que levamos cinco meses! […]


* Excerto de “Peeping Tom”, entrevista concedida por Gabriela Carrizo e Franck Chartier. www.daprice.be (2007).

Trad. Regina Guimarães.



Paraíso
selecção musical e direcção Olga Roriz
cenografia Olga Roriz, Pedro Santiago Cal

figurinos Olga Roriz

desenho de luz Celestino Verdades

arranjos musicais Renato Júnior


interpretação Catarina Câmara, Rafaela Salvador, Sylvia Rijmer, Sara Carinhas, Bruno Alexandre, Pedro Santiago Cal
músicas Rocío Jurado | George Gershwin | Nino Rota | Boris Vian | Patsy Cline | Chavela Vargas | Dean Martin | Ben Webster | Pascal Comelade | Edith Piaf | Leonard Bernstein | Frank Sinatra | Orquestra Universitária de Tangos | Carmen Miranda | Marlene Dietrich

cantado ao vivo “Le Déserteur”, de Boris Vian – Rafaela Salvador | “Milonga del Mono”, de Alejandro Dolina – Catarina Câmara | “My Funny Valentine”, de Rodgers & Hart – Rafaela Salvador | “Je Ne t’Aime Pas”, de Kurt Weill – Sylvia Rijmer | “Homens e Mulheres”, de Ana Carolina – Sara Carinhas | “Bang Bang”, de Nancy Sinatra – Sara Carinhas | “Cantigas do Maio”, de Zeca Afonso – Pedro Santiago Cal


co-produção Companhia Olga Roriz (Lisboa), Teatro Nacional de São Carlos (Lisboa), Festival Música em Leiria
estreia [31Mai2007] Teatro José Lúcio da Silva (Leiria)

duração aproximada [1:35]

classificação etária Maiores de 12 anos
Inferno
selecção musical e direcção Olga Roriz
cenografia Olga Roriz, Pedro Santiago Cal

figurinos Olga Roriz

desenho de luz Clemente Cuba

desenho de som Sérgio Milhano

arranjos musicais José Avelino
interpretação Catarina Câmara, Rafaela Salvador, Sylvia Rijmer, Bruno Alexandre, Pedro Santiago Cal
músicas Cabruêra | Klezmatics | Pink Martini | Madonna | Amália Rodrigues | Billie Holiday | Marlene Dietrich | Jacques Brel | Kroke | Hougu and Freylekhs

cantado ao vivo “Homem com H”, de Ney Matogrosso – Catarina Câmara | “What Ever Lola Wants (Lola Gets)”, de Sarah Vaughan – Sylvia Rijmer | “Can’t Help Falling in Love”, de Elvis Presley – Pedro Santiago Cal | “Quien Será?”, de Arielle Dombasle – Rafaela Salvador | “Senhas”, de Adriana Calcanhotto – Coro


co-produção Companhia Olga Roriz (Lisboa), Centro Cultural Vila Flor (Guimarães)
estreia [21Jun2008] Centro Cultural Vila Flor (Guimarães)

duração aproximada [1:50]

classificação etária Maiores de 12 anos
É tão difícil escolher uma música...
Mónica Guerreiro
E se uma criadora decidir trabalhar sobre o poder dramatúrgico do cliché? E se o fizer confiando no seu instinto para seleccionar as melodias que irão compor uma história, prescindindo de qualquer outra “muleta” narrativa? E se encontrar neste dispositivo razão para conceber não um mas dois espectáculos – que formam um díptico?

O musical, esse género teatral refém de todas as causalidades e teleologias, atraiu Olga Roriz para um remoinho de referências e de canções, cenas e monólogos à boca de cena, que se sucedem gerando momentos de dramatismo e de humor. Não parece existir outro sentido condutor da acção além da disposição para encenar situações e gagues relacionados com o mundo do espectáculo. No processo, a coreógrafa proporciona aos intérpretes magníficas actuações individuais e jogos de grupo igualmente grandiosos, com uma evidente riqueza de expressões e registos, induzindo no espectador o mesmo leque de emoções que experimenta um frequentador de musicais. E a sua dose de sentimentalismo, também.



De várias maneiras pode ser formulada a pergunta, mas a resposta será sempre oblíqua. E parcial. Desde logo porque a ideia de teatro musical, com as suas forças e fraquezas (entre as quais a literalidade e a ligeireza), parece conviver mal com a metateatralidade, o que leva a pensar que a pretensão de desenhar um espectáculo em homenagem a uma forma de cultura popular – que por si só já é uma representação, frequentemente uma caricatura – é arriscar demasiado. Por outro lado, é conhecido o pendor dramático da criadora: parte da sua formação decorreu num teatro de ópera, onde mais tarde experimentou encenar (Perséfona, de Stravinski, em 1997), e coreografou já episódios inesquecíveis (como Casta Diva ou Isolda) cujas bandas sonoras estão carregadas de história e teoria do espectáculo. Também o burlesco não lhe é estranho, nem o drama contemporâneo. Assim, a sua abordagem ao musical poderia tanto privilegiar uma linguagem operática ou manifestar-se mais pela via do cabaré. Mas Roriz não ensaia opereta nem vaudeville nestas duas criações: antes junta vários elementos do seu repertório pessoal (intérpretes generosos, fisicalidade enérgica e voluptuosa, selecção musical de gosto irrepreensível, conhecimentos profundos de etologia) para montar um “entretenimento” onde se identificam trejeitos daquelas formas. Consegue assim desenvolver um modelo de espectáculo autoral, com o cunho do seu estilo, que alterna canções e recitativos com cenas de violência ou de ternura, de festa ou de solidão, e momentos em que os bailarinos “acompanham” as melodias com o assobio, com risos nervosos ou com séries de battements dignas do melhor cancan, esfuziante e erótico, mesmo estando sentados. Não há interditos nesta celebração: brinca-se com as audições e com as acrobacias, com a artificialidade e inconsequência das relações, com os duetos de dança padronizados, com a euforia estonteante do karaoke (e percebe-se que os bailarinos retiram prazer do acto de cantar), com os estereótipos vigentes no musical, “utopias de felicidade e heterossexualidade”, e, principalmente, com a possibilidade de cada uma das canções (de Sarah Vaughan a Kurt Weill e Frank Sinatra, passando por Amália e Zeca Afonso, mas também muito pelo Brasil: Ney Matogrosso, Adriana Calcanhotto e Ana Carolina estão por lá) dizer qualquer coisa de revelador sobre as nossas vidas. Neste ponto em particular reside a pertinência deste projecto no conjunto de criações recentes da coreógrafa.

Paraíso (2007) e Inferno (2008) surgem num momento em que Roriz está prestes a lançar-se num intenso ciclo de reinvenção das origens, ao remontar Isolda com a Companhia Nacional de Bailado 19 anos depois de o ter feito com o Ballet Gulbenkian, estrear Nortada no âmbito de uma residência artística na sua terra natal, Viana do Castelo, e preparar A Sagração da Primavera, com 26 bailarinos, previsto para daqui a um ano. Não deixa pois de ser um gesto programático, claramente enunciador de uma fase que termina, este de figurar em espectáculo as personagens, a memória e os tiques do teatro e do cinema musical através de uma sequência de cenas, à laia de “números” avulsos e não relacionados, estrutura que vimos reconhecendo nos seus trabalhos desta década. Porque, nestes últimos anos, peças como Código MD8 (2001), Não Destruam os Mal-Me-Queres (2002), Jump-up-and-kiss-me (2003), Confidencial (2004), O Amor ao Canto do Bar Vestido de Negro (2005) ou Daqui em Diante (2006) – independentemente das motivações e matérias tematizadas em cada uma delas – apresentam de forma nítida essa característica e atribuem à selecção musical (colagens assinadas pela criadora) um papel proeminente, de composição de sentido dramatúrgico. São raros os momentos de silêncio, o que Paraíso e Inferno vêm reiterar. As canções são coordenadas segundo o temperamento que quer dar às cenas, impondo tanto os ritmos festivos da música tradicional grega como as melodias comoventes do cancioneiro norte-americano, interrompidas por monólogos ou prolongadas por vários minutos. As sequências corais são excepcionalmente eloquentes, ao beneficiarem do efeito de acumulação da energia de várias vozes e vários corpos que cantam em uníssono. Mas é também assinalável a intensidade com que o elenco entrega as cenas individuais, algumas autênticos exercícios de esforço e dificuldade técnica.

As duas criações que se apresentam no Dancem!09 têm uma organização semelhante e perseguem uma alegoria e um sentimento que se poderiam dizer afins: daí atrever-me a considerar este díptico como uma criação em duas partes, em vez de duas criações autónomas. Não obstante, algumas observações podem ser aduzidas quanto à personalidade específica de cada uma. Se em Paraíso se podem dizer preponderantes os momentos cómicos, a verdade é que também em Inferno eles não deixam de estar presentes (a repetente personagem “Cláudia”); bem assim, as cenas mais intimistas (personificadas por Pedro Santiago Cal) parecem ter mais profundidade em Paraíso, ao passo que Inferno aposta mais claramente no exotismo e no júbilo. Os projectores de cinema estão sempre lá, muito visíveis, introduzindo (ou recordando) a ideia de que o ambiente é de espectáculo e que o cenário se lê potencialmente como plateau. Esta premissa é analisada e trabalhada, nas duas propostas, de forma diferente. Em Paraíso, o espaço cénico é despido e totalmente aberto, habitado apenas por poltronas e pés de microfone. A cena em Inferno, mais espalhafatosa, é envolta em gradeamento e arame farpado, sugerindo aprisionamento; mas, decorrido sensivelmente metade do espectáculo, o espaço é transformado e assume a situação de “palco”, que manterá até ao final. Essa imagem suavizada conduz-nos até à última cena, um plácido piquenique repartido entre bailarinos de vermelho e um lobo de sobretudo. Depois dos vestidos de gala, das lantejoulas e dos confetes, fica a melancolia.


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