Dando nome aos bois



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DANDO NOME AOS BOIS
Sérgio Coelho de Oliveira

Meio século é passado, desde que o povo brasileiro se tornou urbano. É uma história de meio século de resistência da cultura caipira, influenciando no sentir, no pensar e no linguajar das cidades. As imagens do campo – as frutas, os legumes e os animais – tratadas simbolicamente, continuam sendo força de expressão em todas as camadas sociais urbanas, das populares às elites. O êxodo rural não se limitou à transferência do homem do campo para as periferias urbanas. O caboclo trouxe na sua pequena trouxa de roupas e de cacarecos, uma bagagem de tradições e costumes que a cidade incorporou sem maiores dificuldades. O saudoso professor José Duarte Vannuchi, em artigo publicado no jornal Cruzeiro do Sul, faz a seguinte observação: “O pessoal do campo leva consigo para a vida urbana não só a roupa do corpo, alguns pertences e muitos sonhos na cabeça, mas também a língua do seu chão, dos seus pais, dos seus antepassados...”

E não se trata de uma imposição à força, mas natural e espontânea, pois na realidade o substrato da população brasileira tem raízes rurais muito mais que centenárias. O camponês que nos últimos 50 anos deslocou-se para a cidade, apenas acrescentou novos valores aos já existentes, engrossando o repertório da linguagem popular.

Já ouvi o presidente da República queixando-se dos “abacaxis” que tem que descascar na condução do país; a polícia, a todo instante, anuncia a prisão de “laranjas” e nas novelas de televisão circulam “galinhas”, “peruas”, “pavões” “veados” e outros bichos mais. E como dizem “abobrinhas!!”, ataca o crítico mordaz.

Em um trabalho que venho realizando há algum tempo, selecionei mais de 100 verbetes e expressões, inspirados em elementos do campo. E o curioso é que 90% deles são negativos ou pejorativos, empregados nos xingamentos, agressões ou em brincadeiras. Em sentido simbólico, estão na boca do povo o “burro”, o porco”, o “cavalo”, “chupim” o “pepino”, a “banana”, o “pato” e a “pata choca”, entre os de sentido negativo. Entre os elogiosos, enquadram-se a “flor”, o “gato”, o “mel”, o “pêssego” e a “potranca” “a uva”. Entre as expressões usais, eu citaria “amolar o boi”, “plantar batatas”, “arroz de festa”, “preço de banana”, “boca de cabra” , “mão de vaca”, “pé de boi”e quantos mais se quiser.

Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, ao abordar o verbete Peru e sua excelentíssima senhora, a Perua, lembra que além da ave, é o apelido de um veículo utilitário. E mais: mulher de vida irregular e meretriz. No sentido mais atual, cafona e enfeitada. Entra também nos provérbios: Bêbado que nem peru; quem morre na véspera é peru e “o que que há com o teu peru”, aqui simbolizando outra ave o “pinto”.

Os provérbios, então, são riquíssimos pelas figuras usadas, e pelas tradições que envolvem e pelas mensagens que passam. O emprego de elementos da natureza no discurso não é uma exclusividade desta região e nem deste século. Faz parte da história da humanidade, é do tempo em que “se amarrava cachorro com lingüiça”. Os mais eminentes profetas, sábios e pregadores sempre lançaram mão das coisas simples da terra, acessíveis ao grande público, para “semear” a sua palavra. Veja o que dizia o rei Salomão, no século X antes de Cristo: “Anda preguiçoso, olha a formiga, observa o seu proceder e torna-te sábio”. Jesus Cristo em suas parábolas usou as ovelhas, as sementes, as figueiras, as vinhas e os peixes. No Sermão da Montanha, uma “pérola” rara, perpetuada no Evangelho de São Matheus: “Olhai as aves do céu: não semeiam e nem colhem, nem juntam em celeiros. E, no entanto, vosso Pai celeste as alimenta... Aprendei dos lírios dos campos, como crescem... e nem trabalham e nem fiam. E, no entanto, eu vos asseguro que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como um deles”.

Certa vez, o jornalista Humberto Pereira, editor-chefe do programa GLOBO RURAL, citou-me um ditado latino, para dizer o quanto era antiga a presença da mula na vida da humanidade. Vai lá a mula em latim: “Cum mula peperit”. Traduzindo: “quando a mula parir”. O nosso caipira retrucou, dizendo a mesma coisa, em português claro: “Quando as galinhas criarem dentes”.


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Chegando mais perto, aqui na nossa intimidade de cidade tropeira, dos cargueiros e dos carros-de-boi, vamos nos deparar com um rico folclore rural, muito mais ativo há 100 anos atrás, mas ainda em vigor na linguagem do dia-a-dia.

Vamos fazer um exercício de regressão. Estamos na Sorocaba de 1901. Uma manhã do dia primeiro de setembro. O jornal “l5 de Novembro” está nas ruas com as últimas notícias. A desapropriação e a reforma do Teatro São Raphael,em discussão na Câmara e na Intendência municipal, ocupa o maior espaço. No fórum está em julgamento a greve ocorrida na Sorocabana; a banda União Operária vai tocar no coreto do jardim e no Largo do Rosário, está instalado o Pavilhão Sulamericano, com sua maior atração – cavalinhos de pau, movidos a vapor. Sobre o estado sanitário de Sorocaba, a maior preocupação da população que acabava de sair de uma epidemia de febre, o jornal registra: “Continua sendo óptimo o estado sanitário d’esta cidade; durante o mez findo hontem, foram registrados apenas 18 óbitos”

Na secção de “Editaes”, o dr. João Pereira da Silva Barros, juiz de direito da Comarca, publica pregão de venda e arrematação dos bens do casal Carlos Jacob Seweybricker e de sua esposa, Agueda de Jesus Seweybricker. Entre os bens semoventes relacionados estão uma besta branca, um boi de nome Festa, um boi denominado Prata, um boi denominado Mirante e a seguir outros bois e outros nomes: Menino, Bordado, Boa Vista, Mocinho, Pavão, Pintor, Capitão, Preparo, Alegre, Bordadinho, Leviano, Atibaia, Iporanga, Vidraça, Ramalhete e Tesoura. O edital ainda acusa entre os bens, três carros-de-boi, o que justifica o número de bovinos na propriedade.

Zé Cleto, antigo carreiro de Capela do Alto, falecido tragicamente nas águas do rio Sarapui, contava-me que “era costume dos antigos dar nomes aos bois. Um carro-de-boi, como o meu, trabalhava com três juntas, 6 bois, cada um com uma função no coice, no meio e na guia. Eles tinham que ter um nome para seguir as ordens. “Afasta Delicado...Avança Delicioso”.

Miguel Paulino da Silva em seu livro “Carros de bois e moendas”, descreve assim um carro de boi em movimento: “Vamos Brinquinho...desata as perna Brioso...Não negue estribo, Beija-Flor...Avante Canário...Segura as pontas, Pintassilgo”.

Figura popular e até romântica, com sua cantilena característica, o carro-de-boi legou a nossa cultura inúmeros provérbios, alguns deles ainda em uso, como essa já referida de “dar nomes aos bois” e “do chifre furado”, que também merece uma explicação. E é novamente o Zé Cleto, que era também violeiro e cantador, que explica o causo: “quando um boi era bravo e xucro e atrapalhava o andar do carro, era costume furar o chifre dele, colocar uma argola, para amarrar o seu chifre no chifre de um boi mais calmo. Então resolvia tudo”. Essa prática virou ditado – o moleque travesso e indisciplinado passou a ser apelidado de “menino do chifre furado”. No andar lerdo dos carros vieram outros ditados: “Não ponha o carro na frente dos bois”, “Boi de guia é que bebe água limpa”, “Quem faz força é o boi, quem geme é o carro”; “eixo untado, carro calado” e “O homem honrado é prisioneiro da palavra empenhada, como o boi é da canga”.


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O ciclo das tropas – os tropeiros, as mulas, os burros e as traias – não fica atrás dos carros de bois na contribuição que deu ao folclore. Muitos desses ditos e ditados ainda são ouvidos a todo instante, principalmente nesta região, onde a presença das tropas xucras e cargueiras construíram uma tradição. Entre nós, um dos mais populares é “picar a mula”, que alguns autores entendem como o ato de aplicar a espora no animal na hora da partida. Não é. Na gíria tropeira, “picar a mula” é dividir a tropa em que pequenos grupos e sair vendendo “picado” pelas cidades e fazendas mais distantes do caminho das tropas. Meu avô, Quinzinho de Moraes, costumava dizer: “Vou picar mula no Itararé”, quando deixava Sorocaba, indo de encontro às tropas que vinham do sul.

Outro ditado conhecido e que vem se alterando através dos tempos é “cor de burro, quando foge”. Corretamente é “cara de burro, quando foge”. Alguns autores defendem outra versão: “Corro de burro, quando foge”.

A relação de provérbios tropeiros é extensa e curiosa. Vale a pena conhecer alguns: “Deu com os burros n’água”, “Quando um burro fala, outro murcha a orelha”. “Amarrar o burro na sombra”, “Quando eu quiser falar com burro, bato na cangalha”, “Teimoso como uma mula” “Burro velho também gosta de capim novo”, e “Burro amarrado também pasta”.

Hernani Donato, em trabalho publicado na Revista do Arquivo Municipal – “Cem Ditados Rurais Paulistas” – dedica 7 aos burros e mais esta observação: “A literatura serviu-se sempre de provérbios. Basta citar Machado de Assis. Convocou-os com assiduidade e deu a um dos seus “Contos Esparsos”, um título proverbial: “Não é o mel para boca do asno”, conto este elaborado, quando estava em voga uma expressão explícita: “Não é o mel que engorda o burro”.

Mas é no livro “Curiosidades Brasileiras”, escrito pelo jornalista sorocabano Francisco D’Abreu Medeiros, em 1864, é que se vai encontrar um manancial de expressões e ditados, relativos à vida e aos costumes dos tropeiros, aos burros e às mulas. O autor esbanja o linguajar tropeiro, a língua que o povo falava, a língua que o povo entendia.

Selecionei alguns trechos verdadeiramente antológicos e que expressam o linguajar da época. Normalmente, essas falas são atribuídas a um tropeiraço de “rabo grosso”, um misto de gaúcho e castelhano, o seu Garcia, que está na feira vendendo a sua mulada. Muito falador e “garganta”, seu assunto, depois das mulas, eram mulher e casamento. Ou melhor suas três mulheres dos três casamentos.

“Pelas tripas do machinho, que não caio mais de cavalo magro. Eu já lhe exponho o causo. A primeira vez amarrei-me com uma mulher fuá, que se azedava por qualquer coisinha; a segunda, esbarrei com uma que bufafa dia e noite, levando tudo a rebenque; experimentei a terceira e tropiquei num queixo duro, teimosa como o diabo. De sortes que rodei três vezes, mas saí em pé com o pelego na mão. Agora, antonse, se por ventura algum paisanito me quiser botar o laço para seu genro há de ver que sou um quebra destemido, meio esperto pra desviar uma laçada”.

Em outro papo com amigos, ele reforça a sua convicção celibatária:

“Depois que o Patrão Grande tirou-me o cabresto por três vezes, e me largou campo fora – eu seria o maior dos burros se consentisse em levar o pealo”.

Mas se o assunto é viúvas, o nosso tropeiraço não deixa por menos e mete a colher no meio:

“Alto lá com o galope! As mulheres choram, não há dúvida, quando lhes morre o marido, mas porém, como o luto e a tristeza não agüentam os corcovos do coração, passado mês e meio recebem outro marido, ficando fechada na bruaca a lembrança do que já foi”.

Mas como mulher não é o único assunto do mundo, e futebol não existia naquele tempo, vamos para uma manifestação política:

“Que vergonha! Eu sou pobre, mas não sou capais de em uma leição de me chegar como cavalo para o imborná, onde se bota um pouco de milho para se poder enfiar o cabresto”.

E assim vão se sucedendo simbolismos e comparações do gênero – “que pedaço de asno!”, “rijo como casco de cavalo”, “quem escuta a consciência fica com cara de asno”, “mais curto que cabo de rebenque”, “derrubar o queixo”. “Não fale mais dessa fazenda, que eu já tranquei a porteira”.

O assunto é extenso e intenso, mas também já vou trancando a minha porteira, porque, como dizia o meu avô: “de tanto pensar já morreu um burro”.
Sérgio Coelho de Oliveira

Academia Sorocaba de Letras

Sorocaba, fevereiro de 2010
NOTA DO SITE:

O amigo e confrade Sérgio autorizou a publicação do resumo de seu extenso trabalho.

Como estamos no Brasil, em várias regiões encontram-se vestígios de nossa cultura comum. Os “falares” caipiras de São Paulo são encontrados também aqui no Rio Grande do Sul e em nossa região. É uma prova da influência sorocabana, por exemplo, na cultura gaúcha e serrana.

Assim sendo, com a permissão do Sérgio, incluo mais alguns ditados populares que encontrei em Cima da Serra em povoados, capelas e vilas “perdidas no mapa” (Juá, Criúva, Vila Seca, Cazuza Ferreira, Ouro Verde, Tainhas, Cadeinha, Chapada, Campestre do Tigre e adjacências) que foram trazidos provavelmente pelos Tropeiros Birivas.

Deixo aqui, também, um resumo de modesto ensaio que preparei anos atrás e apresentado em Seminários realizados em Cambará do Sul (2000), Canela (1992) e São Francisco de Paula (1998).

Somando-se ao texto estiloso do Sérgio, os pesquisadores podem apresentar a pesquisa de formas diversas. Uma delas é classificando os ditados por temas: animais, flores, adjetivos, frutas, etc.

No mundo TROPEIRO, onde existe uma combinação entre pessoas e animais, os falares, ditados, prosas, causos já foram retratados pela arte musical ou literária.

Aqui em nossa região, os vestígios culturais paulistas são muitos nesta área. De alguma forma, o ginete enfrenta a vida: “Se o mundo virar pra baixo, me seguro nas crinas!”. O peão que sempre fica com a cara amarrada, não fala com ninguém e é um pouco grosso no trato já inspira falações: “Mais xucro que burro novo”.

Para mostrar coragem e também seu porte físico avantajado, macho, nos rodeios se ouve muito: “Aquele ginete é um bagual, um monáia...”. É bem parecido com as intenções do vaqueiro nordestino: “Cabra macho!”.

Mas uma das pérolas deste, digamos, folclore popular, foi encontrado pela minha esposa Sandra no seio de sua família, criada lá na Criúva e no fundo da Mulada (hoje distritos de Caxias do Sul): “De burro só tem o trote!”. Sandra, por sinal, utiliza esta frase com freqüência ao ver alguém que gosta de levar vantagem e que aparentemente “não vale nada”. Ela pesquisou que os apelidos vem destas “atiradas” e assim conhecemos o Zé Taquara, o Mané Ruivo, a Tia Chica Lambisgóia, a Guapa, o Zé Biriva, o Tunico barranqueador, Índio grosso barbaridade, As Ignácias, As Teodoras, os da Maria Júlia, os Santeros e assim vai caminhando a humanidade...

A flechada rápida da ofensa também é retratada nos povoados e vilas (citadas anteriormente) ou também, dependendo da região, traduzida como caminhada ou cavalgada de pequeno curso: “Mais curto do que coice do porco”.

“Mais perdido do que cusco em procissão” é um dos mais conhecidos. O cachorro, perdido pelos donos, sem saber onde ir. Simbolicamente pode-se entender como um bêbado caindo pelas valetas sem encontrar o rumo de casa. Claro, que para o pessoal que não mora aqui, temos que explicar que “cusco” é o cão, o cachorro, companheiro do homem encarregado de “buscar as vacas”, tropear, caçar, apartar gado brabo e avisar quando tem gente chegando... Aí, a gente lembra dos cães que foram “batizados” com nomes diversos para se fazerem entender quando chamados pelo “dono”. Na minha família já passaram: Respeito, Valete, Tinga, Luna, Índia, Bolinha, Carranca, Musquito, Campina, Ventania, Alfredo e Brizola. Veja-se que as pessoas não se incomodam em dar nome de personalidades a seus animais de estimação. Os bois de puxar arado e carreta também mereceram distinção como: Brasino, Qualhada, Trincaferro, Sossego, Jaguané, Encrespado e Fuzarca.

Tudo isto ainda pode ser encontrado lá no cafundó, no fim da picada, no beleléu, lá onde o diabo perdeu as botas, afinal, “longe pra burro”! Ou se a carga é farta, na cangalha, no saco ou na consciência: “pesado pra burro”. Pra isto, o cara tem que ser “forte que nem um touro!”.

Passando para a diversão. No intervalo da trabalheira, às vezes sai um baileco ou uma serenata. E na sala improvisada, iluminada pelos velhos lampiões a querosene, dá pra ver que sabe e quem não sabe e quem faz força para demonstrar habilidades: “aquela mula manca” (não sabe dançar, né?).

Algum desavisado, cabeça fraca, pode chegar pra uma môça e dizer: “- tu é uma belezura, uma potranca!”. Ela pode responder: “sai daí, seu veado!”.

E o rapazote, namorador, num baile onde a maioria e mulher: “Mais faceiro do que pinto no milho!”. E quando não quer compromisso sério com as prendas ou difícil de enganar nos negócios: “Mais liso do que lambari no arroio”... Tudo isto vai abrindo o apetite: to com “uma fome de leão”. Não, não é aquela fera africana, pode ser o leãozinho baio de nossas grotas profundas.

Na onda e nas águas surge um dizer que já encontrei também no interior do Paraná, no Pantanal e no Planalto Lageano (SC): “Em rio que tem jacaré se nada de costa”.

Os “Irmãos Bertussi”, gaiteiros famosos dos campos de cima da serra gaúcha, traduziram numa letra musicada o entrevero de bichos variados na simbologia do campesino: “No mato sou cobra verde, no jardim sou beija-flor, dentro dágua sou dourado, no laço sou laçador...”. Não podemos esquecer do especialista em rios “nada que nem um peixe”.

Outro termo encontrado aqui no interiorrrrrr e em várias regiões do Brasil: “Em casa de ferreiro, espeto de pau!’.

A mosca que caiu na sopa do Raul Seixas é igual a da piada que é conhecida nacionalmente. Uma mosca incomoda muita gente, um enxame, então, incomoda muito mais. Se é varejeira, as donas de casa saem correndo atrás delas com vassouras, panos de prato e até tamancas, tentando afastar ou acertar as mesmas. Claro, que a mutuca é inimiga mortal do peão da estância. Chega-se a conclusão que o inseto não é muito agradável. Aí, vem aquela expressão: “O cara é tão chato que é um moscão...”. Se o vivente irradia um pouco de desconhecimento dos fatos, ignorante, pronto: “Aquele cara é um banana!”. A fruta não tem culpa, mas pode ser entendido como um cara frouxo e medroso.

Mas um dos insultos mais complicados e que resulta em briga de adaga no bolicho é o boiadeiro ouvir de um mosca-tonta: “ô, seu boi de bota”. É um desrespeito muito grande...Para não brigar, o “miolo mole”, covardemente, “se largou a la cria (campo a fora), correndo que nem rabo de foquete.

Deus o livre se a mulher é muito faceira e festeira. Já fazem uma ligação com uma ave, ou duas aves: “Aquela lá é um jacu”, ou “aquela mulher é uma galinha”. Dá uma pena das aves, que culpa têm elas?

Voltando ao mundo tropeiro. Pela lida, o pessoal vai aprendendo a ter paciência e, ao mesmo tempo, curtindo o fiel jeito de viver e não abre mão, de jeito nenhum, amigo e companheiro, de se dobrar as coisas que não gosta: “Mais teimoso do que uma mula empacadeira”.

Parece coisa da década de 60 mas não tem nada a ver com a jovem guarda. Uma ofensa venial é chamar o desafeto de “Bunda mole”. Vem do confronto cultural entre o mundo rural e urbano. Quando um “filinho de papai” chega na fazenda e não pode andar muito a cavalo porque assa o traseiro e depois tem que passar minâncora (pomada que antecede o nebacetim).

Os filósofos de plantão também adoram o mundo animal quando denominam um “porco chauvinista” aos inimigos ideológicos. Mas a utilização de alguns ditados é variada, dependendo da situação: “aquilo é uma porcaria...”.

Quando alguém cai de uma cadeira ou quebra um banco ao sentar, os parentes lascam esta “macaco gordo não fica em galho seco!”. Também se ouve quando o guri é muito gordo e amunta num petiço magricela e rengo...

O gáucho é conhecido e reconhecido pela sua coragem, valentia e também, desculpem, pela gavolice. Aí, para se mostrar mais que os outros, tem que agüentar ouvir: “gaúcho que é gaúcho não come mel, chupa a abelha!”. E nesta seara, quando o pessoal vai tomar banho pelado na lagoa, as piadas sobre a masculinidade aparecem na água fria: “eu tenho um peru grande e você um peruzinho, eh, eh, eh...”. A resposta pode ser um coice muar: “Você é uma besta”. “Cê é um cachorro, safado!”, “cobra grande não tem veneno” (ôps).

Lógico que a maldade corre o mundo, as coxilhas e o pampa. De vez enquando, de soslaio, na periferia das cidades, onde vive o pessoal do tal de “êxodo rural”, curte e com malidiências, ao falador renomado, lasca esta: “aquela ali é uma cascavel, língua afiada, fala de todo o mundo!”. Quer dizer, fofoqueira. “Fala mais do que papagaio”.

A lenda diz que a sogra é saco de pancada dos humoristas de rádio e televisão. Ledo engano. O povão leva isto à sério e compara a sogra a várias espécimes de peçonhentas cobras: cascavel, jaracaca, jibóia, sucuri. Mas acham mais bonito dizer: “a minha sogra tava tão braba, tão braba, que batia o guizo...” risos em profusão. Na sala de dança, sogra, dama, prenda, donzela ou moça de perna fina (com pernas de saracura) pode-se ouvir num canto um cochicho: “aquela se rebola que nem cobra mal matada...”.

Afinal, uma expressão que se ouve de Sul a Norte, tudo a ver com nossa temática é “o olho do dono que engorda a tropa” ou “o olho do dono que engorda a boiada”. Se a criatura não fica junto com os bichos e entregar para outros cuidarem “se cuida que cavalo bão não cria chifre...”. Vale para o tropeiro que fica fora muitas semanas e deixa a mulhé em casa, recebendo outros tropeiros, mundeados e aproveitadores da fé das pessoas... Por isto, “muié se cuida que nem Nossa Senhora”. Amém.

Nesta tropeada das falações, o cuéra tem que ter sensibilidade para ser nosso parceiro...


Quem desejar acrescentar alguma coisa, envie para tonybel@uol.com.br


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