Das Damas de Caridade a Mary Richmond e a Infância do Serviço Social



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Colaboradora: Gizely Lima, Acadêmica de Serviço Social, e-mails: koallita@bol.com.br, koallita@hotmail.com




Introdução

A definição mais conhecida para Serviço Social é a da moça boazinha que ajuda os pobres, porém, esta visão se deve a sua origem histórica, baseada na ação de senhoras da sociedade do século XVIII, que ajudavam os menos afortunados com alimentos e roupas. Estas senhoras passaram a ser conhecidas como “Damas de Caridade”. No entanto, conforme o texto veremos que o Serviço Social não se baseia apenas em caridade momentânea, mas em outras ações.



Das Damas de Caridade a Mary Richmond e a Infância do Serviço Social

De acordo com a autora Ana Maria Ramos Estevão, com a consolidação do capitalismo e a divisão de poder para controlar a massa de pessoas que migravam para as cidades, estabeleceu-se que o Estado iria impor a paz usando de violência e as igrejas cuidariam das questões sociais, ou seja, da caridade. Assim a burguesia, mas precisamente as “damas de caridade” praticariam o bem e resolveriam os problemas sociais através da reforma dos costumes de cada um. Para tanto, as “damas de caridade” acreditavam que situação dos pobres era causada por eles mesmos e que apenas uns bons conselhos e uma ajuda inicial seriam o suficiente para melhorar sua vida.

Mas o fato era que a assistência social não era realizada de modo adequado naquela época. Somente depois o século XIX é que começaram a aparecer os primeiros esboços de técnicas e de organizações. O primeiro passo foi dado pelas paróquias e depois se expandindo por pequenos bairros até conquistar um espaço na cidade inteira. A partir desse momento, as “damas de caridade” passaram a conhecer as verdadeiras necessidades de cada um, estudando cada necessidade. Mas foi em 1869 que se deu o primeiro grande passo, pois fundou-se a Sociedade de Organização da Caridade em Londres, onde se dizia que cada caso deveria ser pesquisado e feito um relatório, que por sua vez, seria estudado por uma comissão, para ,assim, decidir sobre o plano de ação a ser executado. A ajuda deveria ser sistematizada e o beneficiado seria responsável por sua própria readaptação, também seria providenciado ajuda em instituições. Os agentes receberiam orientações e seria feito um cadastro central buscando evitar abusos e repetição de pesquisa sem contar com a lista de obras de beneficência que permitia organizá-las adequadamente.

Este modelo se espalhou por todos os países capitalistas. É a partir desse momento que começa o processo de institucionalização do Serviço Social, surgindo assim uma nova profissão. Levando a criação da primeira escola de Serviço Social, em Amsterdã no ano de 1899. Neste meio tempo, mudou-se a forma de avaliar os casos, substituindo os argumentos fornecidos pela Igreja por explicações cientificas que passam a se adaptar a realidade de cada país. Os conselhos e ajuda material que as damas de caridade davam agora são substituídas por um trabalho não só com o beneficiado, mas com sua família.

Com o desenvolvimento da sociedade capitalista, os problemas sociais começaram a se agravar e foi nesse momento que Mary Richmond, que era assistente social, começa a pensar e escrever como o Serviço Social deveria ser exercido. Usando as experiências de colegas e aluna, ela diferencia “assistência social” de Serviço Social e mostra que é necessário ter bases técnicas para se exerce essa profissão. Que com a crise em que viviam estavam perdendo seu caráter voluntario passando para uma profissão dentro da divisão social de trabalho.

No livro Caso Social Individual, publicado em 1917 por Mary Richmond, mostra que a assistente social primeiro deveria procurar saber o histórico socioeconômico de cada individuo que buscasse ajuda não só conversando com ele, mas com todos que o rodeavam. Através das informações adquiridas poder-se-ia saber o que motivava o individuo pra que ele pôde-se mudar. Esse trabalho passou a ser chamado de “compreensões”, pois visava compreender o meio social e a personalidade. Em seguida deveria começar o trabalho chamado de “as ações”, onde iria ser tomar as ações necessárias para que se desenvolvesse a personalidade do individuo. Mas para isso era necessária a participação do meio com seu apoio. O resultado desse processo que exigia tempo, paciência e relatórios detalhados, era as alternativas e caminhos que o individuo teria para desenvolver sua personalidade. E está proposta de trabalho é chamada de Serviço Social de Casos Individuais.

Mas com o agravamento da crise capitalista foi necessário fazer alguns ajustes no que se refere ao modo como se tratava os casos, com isso criou-se o Serviço Social de Grupo. Um psicólogo alemão passou a fazer dinâmicas em grupo e isso teve resultados práticos, esta teoria passou a ser praticada por varias áreas inclusive o Serviço Social. Em 1934 começa-se a definir técnicas e objetivos para este novo método de trabalho. E no ano seguinte Gisella Konopka mostra a necessidade de se criar laços de amizade e ajuda em face da solidão causada pelas grandes cidades.

O trabalho então em grupo evolui para um Serviço Social de Comunidade, onde vários grupos que tinham objetivos em comum deveriam se interligar e desenvolver os recursos potenciais e os talentos de grupos de indivíduos. Posteriormente passa-se a procurar o equilíbrio entre os recursos e as necessidades. Este trabalho comunitário ganha força quando o governo passa a se esforça em promover a melhorias econômicas, sócias e culturais para essas comunidades. Mas com o pós-guerra era necessário alternativas para a proposta socialista, por isso a “comunidade” deveria procurar desenvolver seus próprios recursos tanto humanos quanto matérias.

Este trabalho em comunidade foi tão bem sucedido que até mesmo a Organização das Nações Unidas propõe o desenvolvimento de comunidade para países subdesenvolvidos, salvando esses países do comunismo.

O Feijão e o Sonho: O Serviço Social Descobre a Luta de Classes

Segundo a autora, a revolução socialista cubana de 1959, os Estados Unidos se vêem na obrigação de apresentar para os países latinos americanos propostas alternativas, pois esses países eram de maioria analfabeta, faminta, culturalmente atrasada e economicamente subdesenvolvida. O objetivo passa a ser, trazer esses países para a modernidade capitalista, sendo necessário um esforço do povo e do governo para que esse progresso de cinqüenta anos se realiza-se em cinco. Para o Serviço Social, principalmente no Brasil, procuramos o exemplo dos Estados Unidos para nos modernizarmos. O governo passa a visar não somente o crescimento econômico, mas o homem. E o assistente social aceita este desafio e busca as melhores formas para desempenhá-las. Na década seguinte o assistente social passa a ter mais técnica e procura ser mais neutro, frio e distante dos problemas tratados. Diante desses fatos cria-se a Aliança para o Progresso, que oferecia ajuda material e idéias desenvolvimentistas e era uma resposta aos problemas políticos e ao atraso cultural.

O Serviço Social continua trabalhando e acha outro campo de atuação, no Brasil, que é a indústria, esse desenvolvimento é paralelo ao da área publica, sendo este segundo um campo mais autônomo. Acreditava-se que naquele momento tudo iria ocorrer conforme o planejado, mas o Serviço Social no Brasil e na America latina entra em crise existencial. Porque mesmo as técnicas estando certas notou-se que o método aplicado em países desenvolvidos não tinha o mesmo efeito em países subdesenvolvidos. Também era impossível ser neutro, frio e descompromissado diante de problemas sócias tão graves. Surgindo assim a Geração 65, onde o Serviço Social descobre a luta de classes.

A Geração 65 passou a lutar por um Serviço Social que fosse de acordo com as nossas realidades, então começou a pensar, teorizar, ensinar e ensaiar algo realmente latino-americano. Mas sofreu outro abalo, quando tudo que se acreditava começou a ruir, pois não se falava mais em subdesenvolvimento, mas em dependência, capitalismo monopolista, imperialismo. A harmonia e o equilíbrio social deram lugar a contradições, lutas de classe, conflitos de interesse. Os próprios assistentes sociais deixam de pensar em pobres, carentes, patologia social e desenvolvimento comunitário para falar em mudança de estrutura, trabalhadores, compromisso com a população e revolução.

Com a crise política estabelecida a sociedade latino-americana começa a falar em socialismo e a questionar o status quo. O Serviço Social entra em pânico ao se questionar o que fariam se o socialismo chega-se, pois sempre trabalharam de braços dados com o sistema. Mas no Brasil consegue-se achar uma possível solução: o arrocho, a repressão e o Ato Institucional nº5. Nos outros países da America do Sul tomou-se outro rumo, surgia o Movimento de Reconceituação do Serviço Social onde tudo que se acreditavam, conceitos e bases teóricas não valiam mais nada, pois tudo reproduzia a ideologia burguesa, capitalista e exploradora. O Serviço Social passa a se chamar Trabalho Social e sua nova concepção é concientizadora-rvolucionaria, o método de trabalho era pelo materialismo histórico e dialético, e seus textos eram baseados nas idéias marxistas. Essa reconceituação foi mais rápida em alguns lugares do que em outros, dependia do tipo de política exercida pelo país, no caso do Brasil, vivíamos sob a ditadura militar. O Serviço Social apenas se adequou a modernidade e as necessidades do Estado e das empresas monopolistas, pois o Estado cuidou do processo de modernização da sociedade brasileira.

O resultado disso é que muitos assistentes sociais passaram a confundir a profissão com a militância política, ou a trabalha de forma infeliz, pois o mesmo passou a ser visto como controlador social e dos interesses do Estado. Fazer um balanço dos acontecimentos passados é fácil, mas retomar o presente e mais difícil, pois a Historia continua.



Intervalo para Mudança de Cenário

Brasil – de 20 a 30: Questão social um caso de policia – caridade e repressão

Conforme o texto, devemos observar o inicio do Serviço Social como profissão no Brasil. Este começa com a industrialização e a concentração urbana, junto com a briga do proletariado por um lugar na política. A “questão social” passa a ser a necessidade de se levar em consideração os interesses da classe operaria em formação. Mesmo a precisão do Serviço social por grupos de classe dominante, as reivindicações dos operários não incluía a implementação desse serviço, mas foram justamente os burgueses que contribuíram para o estabelecimento da profissão. Isso acontecia porque as jornadas de trabalho eram de mais ou menos 16 horas diárias, conforme a necessidade da empresa, independente de sexo ou idade sem contar com a falta de direitos que hoje já temos. Qualquer tipo de lazer, educação ou saúde ficava a cargo da filantropia e caridade.

Formam-se assim as Sociedades de Resistência e os sindicatos que visavam primeiramente defender o poder aquisitivo, em seguida a promulgação de leis trabalhistas. Fizeram isso através de greves e manifestos, e mesmo diante de agressões continuaram lutando. Com isso o Estado viu-se obrigado e promulgar leis como a de férias, que eram de apenas 15 dias, e o código de menores que regulava o trabalho de crianças. As empresas passam a se “preocupar” então com os dias de folga, pois como os operários não tinham educação estavam então sujeito ao ócio e a vícios.

Passa a ser necessário medidas sociais complementares para esse tempo livre, como proporcionar equipamentos de lazer e educação formal. Assim as empresas oferecem assistência médica, precária, caixa de auxilio, escolas, vilas operárias e outros.



Brasil – décadas de 40 a 50: Questão social – um caso de política

Com o desenvolvimento das Ligas das Senhoras Católicas e da Associação das Senhoras Brasileiras, criou-se base material, humana e organizacional, que foi muito bem sucedida, permitindo a expansão da ação social e até o surgimento da primeira escola de Serviço Social, em São Paulo no ano de 1936. Do inicio à formação técnica foi um processo muito rápido.

A questão social passa então a ser uma questão política. E as tarefas desenvolvidas se assemelham muito com as exercidas pelas primeiras profissionais no inicio do século passado. Mas com as escolas de Serviço Social, o governo vai criando instituições que vão assumindo a assistência social e ao mesmo tempo legalizando a profissão. E mesmo não tendo bons resultados o Conselho Nacional de Serviço social mostrou a preocupação do Estado com a assistência publica.

A Legião Brasileira de Assistência Social, criada em 1942 por decreto-lei, tinha como objetivo trabalhar em favor do progresso do Serviço Social e procurar canalizar e conseguir apoio político para o governo. A LBA, tinha nível nacional permitindo apoio as escolas já existentes, e a criação dessas em capitais onde ainda não havia, melhorando a formação técnica, permitindo também a expansão e organização do Serviço Social.



O Sonho Acabou e o Feijão Está Caro, o Serviço Social Põe os Pés no Chão

Conforme a autora, o fim do projeto revolucionário para a America Latina, na década de 70, põe fim aos sonhos dos assistentes sociais, mas não totalmente. A um problema ainda no âmbito do Serviço Social que é a questão dos princípios. Vimos que é necessário respeitar a pessoa humana e sua dignidade, esta também tem direito a condições para sua auto-realização. Somente quando a ONU elabora os direitos da pessoa humana é que o Serviço Social passa a se analisar. Pois a consciência infeliz não basta para resolver os problemas sociais.

As assistentes sociais sentiam-se intimidadas sobre seu cotidiano. Mas como era necessário trabalhar para continuar vivendo e comendo, o Serviço Social continuou nas suas atividades, mas procurar sempre adquirir maior jogo de cintura. Passamos a atuar na FEBEM, nos postos de saúde, Centros de saúde do Estado, Secretaria da Família e do Bem Estar Social, INPS e na empresas. Mas boa parte da população não sabe diferenciar o trabalho da assistente social, da educadora sanitária ou da pedagoga, por isso deve ser dado o melhor atendimento possível. Notou-se que a partir de 1975 algumas praticas que não era dos assistentes sócias, estão migrando.

Alguns profissionais ainda acreditam que se deva participar de movimentos sócias e mobilizações. Outros vão atrás da população saber suas necessidades e conscientizá-los e que eles devem fiscalizar e cobrar pelos serviços que lhes são prestados. Hoje busca-se nos espaços profissionais. Busca-se também recuperar técnicas antes negadas ou consideradas alienantes e reacionárias. Passou-se a identificar e comprometer-se com a população como trabalhadores assalariados numa sociedade capitalista.



Do Pobre ao Cidadão

Segundo o texto, no Brasil, temos a tradição do favor e do privilégio. Isso se dá porque os primeiros trabalhadores aqui foram os portugueses que haviam sidos expulsos de Portugal. Depois vieram os índios, mas que não deram certo e enfim os negros, pois naquela época ou se era senhor de terra ou escravo e o que não eram nenhum dos dois era “homem livre”. Estes trabalhavam no serviço publico, ou comerciantes ou de favores de senhores e políticos. Por isso a idéia de que não se tinha nenhum direto a trabalho, pois este era considerado um castigo. E quando alguém vai a uma instituição publica exercer seus direitos, este tem o pensamento de pedir um favor e não o der um cidadão que vai usufruir seus diretos.

No Brasil, ser podre não é um problema social, mas sim uma vergonha. E com continuo crescimento das cidades, viver nelas é um sacrifício, pois não se tem noção de que somos cidadãos. É neste âmbito que o Serviço Social busca se redimensionar. Buscamos explicações em varias ciências, e conseguimos compreender melhor a sociedade, mas fazer a ligação entre o cotidiano e a Historia é algo novo.

Identificamos-nos muitos com nossos clientes, a população, porque também somos cidadão, pagamos impostos, que deveriam ser revertidos em serviços sociais. Sendo a maioria dos assistentes sociais funcionários públicos, então o verdadeiro patrão é a população, pois o salário vem dos impostos pagos por estes. Por isso deves ser facilitadores do exercício destes direitos. Não devemos trabalhar por causa de uma consciência culpada, mas como profissionais com suas incertezas e esperanças.



Conclusão: Novos Horizontes...

Novos caminhos têm surgido para o Serviço Social, mas dois momentos foram marcantes na organização da categoria profissional. Um em 1978 com a Associação Profissional das Assistentes Sociais de São Paulo, que desde sua criação em 1968, continuo lutando mesmo diante da conjuntura política da época. E o outro em 1979 com o II Congresso Brasileiro de Serviço Social, onde se reafirmou os interesses da categoria.

Vermos o povo defendendo os assistentes sociais, ou exercendo mandato como Vereador, mostrar as mudanças conquistadas. A procura da sociedade em exigir melhor atendimentos e condições de maneira menos desigual. Novas situações estão surgindo e devemos nos preparar para fazê-las bem feito.

Se analisarmos de maneira critica, poderemos ver que o Serviço Social tem um longo caminho pela frente. E que as batalhas travadas no passado nunca devem ser esquecidas, pois estas são nossas origens. Também devemos estar sempre nos atualizando e informando, pois conformem mostrou o livro, o capitalismo está em constante mudança, e estas trazem novos problemas sociais e caberá a nós buscarmos soluções não só paliativas, mas de logo prazo e que fiquem como marcos de vitoria na historia de nossa profissão.

Em fim é necessário conhecer a historia para que possamos construir um futuro melhor e preparado para os desafios que apareceram.

Andar pelo mundo sem tomar conhecimento dele,

é o mesmo que andar por uma biblioteca e

não tocar nos livros.



- Dan Brown


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