Das passagens ao conceito de história: tempo, história e narraçÃo em walter benjamin



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DAS PASSAGENS AO CONCEITO DE HISTÓRIA: TEMPO, HISTÓRIA E NARRAÇÃO EM WALTER BENJAMIN.
Michel Gomes da Rocha

Graduado em História UFPE



mgr.ufpe@hotmail.com

Um grupo de refugiados que tenta fugir da França a pouco sitiada pelos nazistas tem a fronteira com a Espanha como uma esperança de salvação. A cidade de Port Bou na Espanha aparece como uma saída redentora, dali muitos suspeitos de comunismo, de serem judeus, ou mesmo subversivos a nova ordem podem começar uma nova vida. Estando em Setembro de 1940 o grupo avança pelos Pirineus e chega à fronteira onde é surpreendido pela presença da policia aduaneira que diz ter ordem de não permitir a saída de refugiados e tende ainda a repatriá-los. Um senhor de aproximadamente 50 anos que aparentava uma imensa melancolia, mas de um intelecto notável e enigmático que não aceita a idéia de voltar e ser preso novamente ingere algumas pastilhas de morfina e durante a madrugada morre. Seu suicídio tende a ser mais trágico quando pela manhã os demais refugiados são permitidos de partir adiante.1



É a partir desta pequena História que muitos leitores conheceram a trágica trajetória de vida de Walter Benjamin. Nascido na ultima década do século XIX, e tendo vivido o entre-guerras do século XX o autor que é considerado por muitos como um dos maiores críticos2 de seu tempo desenvolveu uma escrita que ademais, é alegórica e política. Os últimos momentos do autor, e sua condição de vida conturbada são de inspiração para quem vê nele a beleza do desespero.3 Mas compreender uma escrita impar em seu tempo e seu meio, e traçar um fio condutor é uma tarefa difícil, quando aparentemente a obra de Benjamin só nos apresenta incongruências ou mesmo descontinuidade na idéia de um todo. Talvez pensar sua postura de alguém que contesta uma experiência que se esfacela seja um itinerário, pois em toda obra do autor é marcante uma busca pela tradição, pelos antigos costumes, antigas histórias e maneiras ricas de se contar/narrar aquilo que foi vivido. Entretanto, o estudo de vida de Benjamin, dedicado a cidade de Paris, a qual ele tinha grande admiração, era um enigma até mesmo depois das primeiras publicações4 dos discípulos de Adorno5 na década de 1960, os estudiosos do pensador tinham apenas menções em suas correspondências do que seria as Passagens, o estudo que anunciava a Paris, a Capital do século XIX. É o trabalho que sutilmente ao remontar a aurora do capitalismo expressa à proto-história de novas relações, foi em Paris que Benjamin capta a gênese da modernidade já apontada por Baudelaire, tempo de fantasmagorias, de individualismo, numa cidade que antes possuía suas ruas precárias, e sujeita às barricadas dos operários, mas que depois cede espaço a uma arquitetura vertiginosa. Foi no segundo Império, no governo de Napoleão III que chega ao poder na prefeitura de Paris o barão Haussmann, homem que foi responsável pelas reformas de embelezamento estratégico da cidade, a construção de grandes prédios residenciais e comerciais, bulevares e a duplicação das ruas, a iluminação, as grandes exposições e um fator de suma importância, o expurgo da classe operária dos centros para as periferias, que fez de Paris não só a primeira metrópole do mundo, bem como fosse modelo para demais cidades.6 Este fenômeno ficou conhecido como Haussmannização, o embelezamento da cidade que concomitante a este avanço fechava os olhos para condição de boa parte da população,7 isto ficou claro pela exposição dos bolsões de miséria que a Paris antiga escondia. Como uma obra que se responsabiliza por uma filosofia material, as Passagens possuem uma História intrigante, desde suas primeiras idealizações como um artigo sobre Haussmann, até mesmo como estudo de uma feeria da modernidade, logo dão espaço a um projeto maior que vai ocupar os últimos treze anos da vida de Benjamin, de 1927 a 1940. Fica claro que enquanto obra que se arquiteta as Passagens derivam enquanto estética de construção de seu projeto anterior – Rua de mão Única,8 obra aforística que literariamente se constrói como a planta de um prédio. Enquanto obra, as Passagens são como algumas invectivas anteriores, enigmática, fragmentada e derivada de sua conjuntura, incompleta. Enquanto filosofia material se fosse concluída as Passagens nada menos seriam do que um dos maiores estudos filológicos e do cotidiano do século XIX, como proposta maior captaria as gêneses da modernidade enquanto campo de observação de figuras emblemáticas como Fourier, Saint-Simon, Daumier, Victor Hugo, Blanqui, Marx e Baudelaire, além das novas construções que são o emblema da nova metrópole, como as construções em ferro, os panoramas, as ruas, tipos de iluminação e os magazines de novidades que se apresentam como lojas de departamento.

“A maioria das Passagens de Paris surge nos quinze anos após 1822. A primeira condição para seu aparecimento é a conjuntura favorável do comércio têxtil. Os magasins de nouveautés, os primeiros estabelecimentos a manter grandes estoques de mercadorias, começam a aparecer” (BENJAMIN, 2007, p. 40). “A segunda condição para o surgimento das Passagens advém dos primórdios das construções em ferro. O Império percebeu nesta técnica uma contribuição para renovar a arquitetura no espírito da Grécia antiga” (BENJAMIN, 1987).

“À forma do novo meio de produção, que no inicio ainda é denominada por aquela do antigo (Marx), correspondem na consciência coletiva imagens nas quais se interpenetram novo e antigo” (BENJAMIN, 1987, p. 41). Novo e antigo são duas categorias que aparecem na modernidade aparentemente enquanto antagônicas, e ainda, uma como superação da outra. No entanto, o novo aqui se inspira no antigo, neste caso a arquitetura helênica. O antigo dá espaço ao novo, mas este se aproxima do novo não só pelo caráter de modelo, mas porque o antigo teve seu apogeu e após seu declínio. O novo enquanto fugaz tem de renovar-se para manter-se enquanto novo, não podendo este já anuncia seu fim. O grande exercício de Benjamin foi empreender esta observação na modernidade e através das categorias de alienação e fetiche, observa este fenômeno entre os homens.9

“O caráter fetichista da mercadoria é tomado como chave da consciência e principalmente da inconsciência da burguesia do século XIX. Um capitulo sobre as exposições universais e principalmente um capitulo importante sobre Baudelaire trazem elementos decisivos sobre isso” (WIGGERHAUS, 2006, p. 215). “As exposições universais são lugares de peregrinação ao fetiche mercadoria” (BENJAMIN, 1989, p. 43). Estas aparecem com o objetivo de entreter as classes operárias, teve apoio dos Saint-simonianos de inicio que apoiavam a industrialização, após são percebidas como locais de alienação das classes trabalhadoras. Paris enquanto local de novos tipos anuncia em Baudelaire seu novo “engenho, que se alimenta da melancolia, é um engenho alegórico. Com Baudelaire, pela primeira vez, Paris se torna objeto da poesia lírica. Não é uma poesia que canta a cidade natal, ao contrário, é o olhar que o alegórico lança sobre a cidade, o olhar do homem que se sente ali como um estranho” (BENJAMIN, 1989, p. 47). Aparentemente assustadora, Paris traz a figura do flâneur enquanto modo de vida que “dissimula ainda com um halo conciliador o futuro modo de vida sombrio dos habitantes da grande cidade” (BENJAMIN, 1989, p. 47).

A arquitetura das passagens parece ter sido criada para a flânerie; a importância deste espaço é decisiva em Benjamin, que faz da passagem uma imagem dialética da Paris oitocentista. As passagens, ao mesmo tempo que anunciam as grandes lojas, transformam a rua em interior: procuram familiarizar o homem, segundo Benjamin, com o universo glacial das mercadorias (MURICY, 1987, p. 500).

Mas para o flâneur que encena neste espaço a rua se torna sua moradia que, “entre as fachadas dos prédios, sente-se em casa tanto quanto o burguês entre suas quatro paredes” (BENJAMIN, 1989, p. 35). “Para ele, os letreiros esmaltados e brilhantes das firmas são um adorno de parede tão bom ou melhor que a pintura a óleo no salão do burguês; muros são escrivaninha onde apóia o bloco de apontamentos; bancas de jornais são suas bibliotecas, os terraços dos cafés, as sacadas de onde, após o trabalho, observa o ambiente.” (BENJAMIN, 1989, p. 35).


Enquanto contra-senso desta nova realidade ele subverte sendo:

O desocupado: ele se permite não fazer nada em um mundo onde o privilégio do ócio não é mais reconhecido sequer na classe dirigente, que se afana nos negócios. Não se submetendo às exigências de horários, o flâneur é uma figura essencialmente transgressora: o seu passeio, ao sabor da imaginação e do desejo, é uma manifestação não- intencional contra o tempo da indústria. Além disso, o flâneur também se recusa aos deveres do consumidor. Ele não vai “às compras”. Perambula pelas passagens, embriagado pela multidão produtiva. (MURICY, 1987, p. 500).
Por ter tomado tanto tempo da vida de Benjamin o trabalho das Passagens quando não diretamente influenciam de alguma forma em outros momentos de sua produção, é o caso de A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica,10 texto teórico que aborda questões do século XX como a dissolução da aura, o cinema como nova forma de expressão artística, a fotografia, mas tem na capital do século XIX a aurora de alguns fenômenos que aqui são abordados.11 Benjamin até mesmo intencionou trabalhar mais a fundo a psicanálise na Paris como forma de interpretar o onírico,12 mas foi incentivado por Horkheimer13 a não embrenhar-se nestes caminhos, pois outros estudiosos da Teoria crítica debruçavam-se nesta temática, mas é abordando através de categorias dialéticas as imagens de desejo que seu trabalho deveria se desenhar enquanto cartografia de um tempo.

Para Benjamin, a predominância do “agora” nas coisas era dialética – não era, pois, uma passagem ou uma reviravolta como para Adorno ou Hegel, mas a saída fora do tempo homogêneo para entrar num tempo pleno, a explosão da continuidade histórica, do progresso que se desenrola com uma inexorabilidade mítica, mas atenuado sob dimensões decisivas. Benjamin qualificava de “dialéticas” as imagens que consideravam uma presentificação do passado por que elas não estavam fora do tempo nem eram momentos de um fluxo de acontecimentos contínuo e homogêneo, mas de constelações instantâneas do passado (WIGGERHAUS, 2006, p. 223).

Nos vale agora pensar não só a interface deste grande trabalho com seu tempo, com suas possibilidades e expectativas, mas pensá-lo como documento de um tempo, de uma trajetória de vida que foi construído na esfera do público e do privado. Além do fascínio pela abordagem benjaminiana enquanto leitura distinta de mundo nos chama atenção à rede intrincada de suas relações que tanto colaboraram, bem como trouxeram turbulências na produção de sua obra prima. O valor que este trabalho toma para o autor que ao fugir pelos Pirineus e ser perguntado sobre o valor de sua bagagem assevera ser mais importante que sua própria vida. São trajetórias que tomam contornos da subjetividade e suas correspondências com seus amigos nos traz clarividência quanto a suas intenções, desejos, frustrações e sonhos. Elencamos quanto a este tipo de fonte dois materiais, as cartas entre Walter Benjamin e seu amigo Gershom Sholem compiladas e traduzidas14 e aquelas contidas na versão alemã da obra das Passagens que além dos cadernos contidos na edição brasileira possuem suas mais significativas correspondências quanto à produção de sua grande obra, acessamos estas através de Löwy15 que empreende uma leitura talmúdica de seu último escrito, palavra por palavra, frase por frase, este escrito salienta o autor “constituem um dos textos filosóficos e políticos mais importantes do século XX. No pensamento revolucionário talvez seja o documento mais significativo desde as “teses sobre Feuerbach” de Marx” (LÖWY, 2005, p. 17). Tanto quanto o projeto das Passagens este texto é “enigmático, alusivo, até mesmo sibilino, seu hermetismo é constelado de imagens, de alegorias, de iluminações, semeado de estranhos paradoxos, atravessado por fulgurantes intuições” (LÖWY, 2005, p. 17).

Quanto à recepção deste pensamento no Brasil, acredita-se que em meados da década de 1980 que ele toma espaço, mais nitidamente tomando o autor como crítico literário ou mesmo das artes. A editora brasiliense responsabilizou-se pelas edições das obras escolhidas divididas em três volumes, mediante a distribuição dos textos/ensaios nos livros não por uma ordem cronológica e sim por amplitude de divulgação de seus temas tratados pode parecer para o grande público entusiasta que não haja relação alguma entre as Passagens e “Sobre o Conceito de História”, além de um estudo mais detido, que possa mostrar essas similitudes as cartas contendo as intenções de Benjamin ilustram seu grande projeto, diagnosticar e até mesmo lançar uma saída redentora para o esfacelamento da experiência européia. É unânime em seus comentadores a assertiva de que os direcionamentos de Moscou o imbuíram de escrever seu texto que tornou-se seu testamento.

Acabo de terminar um certo número de teses sobre o conceito de Historia. Por um lado, essas teses se aplicam às visões que se encontram esboçadas no capitulo I do ‘Fuchs’. Por outro, devem servir como base teórica para o segundo ensaio sobre Baudelaire. Constituem uma primeira tentativa de fixar um aspecto da historia que deve estabelecer uma cisão inevitável entre nossa forma de ver e as sobrevivências do positivismo que, na minha opinião, demarcam muito profundamente até os conceitos de historia que, em si mesmos, nos são os mais próximos e os mais familiares”. Carta de 22 de fevereiro de 1940. Gesammelte Schriften (Frankfurt, Suhrkamp, 1977) (LÖWY, 2005, p. 33).
É perceptível nas intenções de Benjamin que este texto esteja no projeto das Passagens, ao contrário do que muitos pensam, de serem duas reflexões distintas. Seu contato como bolsista do Instituto para a pesquisa Social foi importante para esta escolha quando sua gama de anotações sobre Paris tomam os contornos de Baudelaire, dividindo seus estudiosos a pensarem ser daí por diante a produção de duas obras distintas, ou mesmo que aquelas intenções de antes das Passagens realizar-se-iam agora no não concretizado Baudelaire, alegorista. Enquanto referencial teórico para o uso das correspondências enquanto documento e escrita de si, os trabalhos de Ângela de Castro Gomes nos traz luz ao pensarmos “a escrita auto-referencial ou escrita de si integrante de um conjunto de modalidades do que se convencionou chamar produção de si no mundo moderno ocidental” (GOMES, 2004). Tomando mesmo temas subjetivos como a verdade no escrito e a sinceridade, além das experiências do autor Ângela situa “a escrita de si que assume a subjetividade de seu autor como dimensão integrante de sua linguagem, construindo sobre ela a ‘sua’ verdade” (GOMES, 2004). “O que passa a importar para o historiador é exatamente a ótica assumida pelo registro e como seu autor a expressa. Isto é, o documento não trata de “dizer o que houve”, mas de dizer o que o autor diz que viu, sentiu e experimentou, retrospectivamente, em relação a um acontecimento” (GOMES, 2004).

A sinceridade expressa na narrativa, que pretende traduzir como que uma essência do sujeito que escreve, obscureceria a fragmentação, a incoerência e a incompletude do individuo moderno. O risco para o pesquisador que se deixa levar por esse feitiço das fontes pode ser trágico, na medida em que seu resultado é o inverso do que é próprio dessas fontes: a verdade como sinceridade o faria acreditar no que diz a fonte como se ela fosse uma expressão do que “verdadeiramente aconteceu (GOMES, 2004).


A escrita de cartas expressa de forma emblemática tais características, com uma particularidade: elas são produzidas tendo, a priori, um destinatário. Assim, tal como outras práticas de escrita de si, a correspondência constitui, simultaneamente, o sujeito e seu texto. Mas, diferentemente das demais, a correspondência tem um destinatário especifico com quem vai estabelecer relações. Ela implica uma interlocução, uma troca, sendo um jogo interativo entre quem escreve e quem lê – sujeitos que se revezam, ocupando os mesmos papéis através do tempo. Escrever cartas é assim “dar-se a ver”, é mostrar-se ao destinatário, que está ao mesmo tempo sendo “visto” pelo remetente, o que permite um tête-à-tête, uma forma de presença (física, inclusive) muito especial (GOMES, 2004).
É nesta seara que as correspondências benjaminianas podem irradiar até mesmo outros significados a sua obra, alegórico por excelência, seus textos permitem as mais diversas interpretações de suas entrelinhas enquanto produção alegórica. É tratando de alegorias e metáforas Willi Bolle em seu livro Fisiognomia da Metrópole Moderna16 assevera que o próprio nome atribuído ao estudo Passagens não só é referente às galerias e vitrines parisienses, que ademais é só mais um dos temas que Benjamin aborda na constelação da Paris oitocentista. Seriam as Passagens enquanto título, uma metáfora da situação da Alemanha naquele momento; seria a “passagem” da República de Weimar, da inflação, das experiências em baixa, alegorizada (já tratada) no livro sobre o Drama Barroco Alemão, ao autoritarismo do III Reich. O autor que toma a obra de Benjamin como arquétipo de leitura das cidades, tomando esta forma de interpretação para ler uma metrópole do terceiro mundo dá um enfoque temporal vivido pelo Autor para abstrair a metáfora que intitula sua grande obra.

Não obstante, a reflexão aqui proposta é que a abordagem do Autor como metáfora ultrapassa a “Passagem” temporal da República de Weimar ao III Reich de que falou Willi Bolle. Equivaleria assim a “Passagem” do século XIX, da aurora do capitalismo à sua época de vida, onde existiria um estado de exceção.17 O estudo de Benjamin traça a decadência ou mesmo o esfacelamento da experiência européia com o inicio da modernidade, e a cidade de Paris não deixaria de ser o melhor objeto para tamanha análise, estendendo-se ao caos político prefigurado no inicio da II Grande guerra na européia, símbolo maior do ocaso desta geração.18

As teses “Sobre o Conceito de História” retratam a alienação da época em que viveu Benjamin, carrega a frustração de um pensador que vê o sonho do comunismo abalado por um pacto de não-agressão, e que acima de tudo traz uma nova concepção de História, com um tempo messiânico, que traz consigo a redenção dos malogrados, daqueles que não tiveram vez, mas que em sua escritura/reescritura terão sua chance antes perdida e que no agora possuem imensos índices de possibilidade.

É claro que este trabalho traz em seu bojo uma gama de influências, desde a de seus amigos Gershom Sholem com a cabala judaica, Bertholt Brecht com o comunismo e a idéia do teatro Épico,19 às influências teóricas variam desde a abstração surrealista e seu método de montagem, ao pensamento de Nietzsche nas suas II Considerações intempestivas20 que traçam uma crítica lúcida a idéia de História refletindo o lugar do homem enquanto ser que participa deste turbilhão e que pensa sua ação diante de perspectivas históricas, criticando assim a idéia de progresso, objeto de maior crítica benjaminiana enquanto devir da civilização, sem esquecer das duas perspectivas mais pontuais: Marx21 e Baudelaire.22

É apoiando-se em três fontes até então incongruentes enquanto campo teórico que Benjamin empreende sua crítica, o Romantismo alemão, como forma de reação, o messianismo judaico enquanto concepção que preza a redenção dos oprimidos e o marxismo como teoria revolucionária. Correntes de interpretação surgiram, mediante a incompreensão ou divergência diante da interpretação do texto, vão desde a querela entre Sholem que diz ser as teses um documento cabalístico, a Brecht que pensa as teses como um documento materialista com subterfúgios alegóricos na religião e no romantismo enquanto movimento nostálgico. Ainda existe uma terceira que traz Habermas a sua frente pensando as teses como um contra-senso do pensamento benjaminiano. Löwy lança aquela que parece não só ser a mais atraente, mas a que reflete concisamente o engajamento benjaminiano.

Benjamin compartilhava com Proust a “preocupação de salvar o passado no presente, graças a percepção de uma semelhança que transforma os dois. Transforma o passado porque este assumi uma nova forma, que poderia ter desaparecido no esquecimento; transforma o presente porque este se revela como a realização possível da promessa anterior – uma promessa que poderia se perder para sempre, que ainda pode ser perdida se não for descoberta inscrita nas linhas atuais (GAGNEBIN, 1985).


Articularmos a reflexão em torno das Passagens benjaminianas e sua visão sobre o Conceito de História se torna oportuno quando trazemos o pensamento de Benjamin para nossa realidade. A grande proposta do Autor em seus textos foi de tirar do continuum da história os fragmentos malogrados, de uma história que por ser linear só pode contemplar o passado com um olhar que vê algo a ser superado, mas para o Autor, nesta nova leitura/escrita do passado a geração presente tem papel fundamental na formação da consciência daquilo que para muitos ficou para traz, ou fora mesmo esquecido, mas há também dai “a importância da exigência que vem do passado: não haverá redenção para a geração presente se ela fizer pouco caso da reivindicação das vitimas da história” (LÖWY , 2005, p. 52). Deste modo a filosofia benjaminiana longe de ser apenas uma crítica estética é uma filosofia política e engajada por excelência numa escrita da historia que ao invés de trazer o passado como numa espécie de miragem que tenta pensá-lo como este de fato foi, especulando uma dita verdade, “mas articular historicamente o passado não significa conhecê-lo “como ele de fato foi”. Contudo, “significa apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela relampeja no momento de um perigo. “Cabe ao materialismo histórico fixar uma imagem do passado, como ela se apresenta, no momento do perigo, ao sujeito histórico, sem que ele tenha consciência disso” (BENJAMIN , 1985). Este perigo ameaça tanto a existência da tradição como os que a recebem, e esta tradição não é isenta de barbárie como o Autor salienta.23 Porém, o “dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer” (BENJAMIN , 1985).

“O assombro com o fato de que os episódios que vivemos no século XX “ainda” sejam possíveis, não é um assombro filosófico. Ele não gera nenhum conhecimento, a não ser o conhecimento de que a concepção de história da qual emana semelhante assombro é insustentável” (BENJAMIN, 1985, Tese VIII). Daí que a concepção universalista que esboça Benjamin mostra-se como potencial de esperança para melhores sociabilidades e por um futuro com menos discrepâncias ao qual nos encaminhamos. O materialista que revive um passado deve dar a cada acontecimento sua devida importância, para que aqueles que um dia foram vítimas, tenham agora sua redenção.





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1Em seu livro o filósofo Slavoj Zizek propõe uma leitura de mundo em outra perspectiva, em paralaxe, e traz uma história que foi veiculada em jornal de grande circulação na Europa, o The Observer com noticia de 8/7/2001. Por JEFFRIES, Stuart. “Did Stalin´s Killers Liquidate Walter Benjamin?” Nesta noticia aponta Zizek, vem à tona outra versão sobre o fim do autor: Walter Benjamin não se matou em 1940 numa aldeia da fronteira espanhola por medo de ser mandado de volta à França e, portanto, aos agentes nazistas; ele foi morto ali por agentes de Stalin. Alguns meses antes de morrer, Benjamin escreveu as teses “Sobre o conceito de história”, análise curta, mas devastadora, do fracasso do marxismo; ele morreu numa época em que muitos ex-partidários dos soviéticos estavam desiludidos com Moscou por causa do pacto entre Hitler e Stalin. Como resposta, um dos killerati (intelectuais socialistas recrutados como agentes stalinistas para cometer assassinatos) o matou. A principal causa de seu assassinato foi que, quando fugiu pelas montanhas, da França para a Espanha, Benjamin levava um manuscrito, a obra-prima em que estivera trabalhando na Bibliothèque Nationale de Paris, a elaboração das “teses”. A pasta que continha o manuscrito fora confiada a um colega refugiado que a perdeu convenientemente no trem entre Barcelona e Madri. Em resumo Stalin leu as “teses” de Benjamin, conhecia o projeto do novo livro baseado nelas e queria impedir sua publicação a qualquer custo... Zizek nos apresenta uma história que destoa daquela apresentada pela bibliografia biográfica do autor, porém, possui traços concernentes a nossa proposta neste trabalho; apontar os laços entre as Passagens e o texto “Sobre o conceito de História”, o autor deixa claro que o projeto benjaminiano das teses nasce de sua obra prima que está relacionada à Paris e, assim as Passagens. Ver: ZIZEK, Slavoj. A visão em paralaxe. Trad. Maria Beatriz de Medina. São Paulo: Boitempo, 2008. P. 13, 14.

2A afirmação é de José Guilherme Mequior que mesmo indo de encontro com algumas proposições de Benjamin diz ser ele o melhor ensaísta alemão deste século. Ver: KONDER, Leandro. Walter Benjamin: o marxismo da melancolia. 3ºEd. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1999.

3Neste trabalho o autor discute a questão da linguagem em Benjamin, apontando principalmente a influência do pensamento de Franz Kafka para sua perspectiva, é notório que o desenvolvimento do pensamento de Kafka se dá por suas categorias históricas de longa duração. Ao discutir o tema o autor salienta que: é esse desespero que “revela a beleza” do acusado. É que Kafka torna belo o desespero daqueles que sofrem uma lei desconhecida, através da descrição da sua situação sem solução aparente, sejam quais forem as suas esperanças individuais. O que nos é enigmático é observar as palavras do autor e pensar como elas se caracterizam com o estado de cissiparidade de Benjamin, este escreveu uma filosofia material sobre Paris, escreveu um texto (as teses) que retrata uma dada alienação de seu tempo, ou mesmo de sua geração, tido como um texto de caráter profético e até mesmo conscientizador. Mesmo estando em desespero Benjamin escreveu significativos textos para uma análise profunda de seu tempo, no entanto teve um fim trágico. Assim, o título do trabalho de Ferreira se encaixa muito bem para pensarmos a trajetória final de Benjamin quando também concebemos que seus textos finais além da eloqüência são tomados por um verniz pela conjuntura em que são produzidos. FERREIRA, Gil A. Baptista. A beleza do desespero - o prazer da decifração em Walter Benjamin. Disponível em: www.bocc.ubi.pt. Acesso: 26/01/10.

4 São muitos os comentadores que condenam a postura de Adorno perante Benjamin, mostrando apatia a algumas versões de seus textos relacionados à Paris, cobrando a categoria dialética, alertando que este a negligenciara, obrigando-o a reescrevê-los, um desses textos que resultam destas cobranças é o Sobre alguns temas em Baudelaire onde o autor discute mais nitidamente a categoria do “choque”, a concordância de Benjamin para muitos evidencia muito mais sua condição atribulada, principalmente financeira, sendo assim dependente de sua bolsa do Instituto para a Pesquisa Social, a qual Adorno era seu contato direto. Ver: GAGNEBIN, Jeanne Marie. Sete aulas sobre Linguagem, memória e História. 2ª ed. Rio de Janeiro; Imago, 2005.

5Adorno publicou os primeiros artigos relacionados aos estudos sobre Paris nas edições seguintes a aquela em que estava A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica da revista do Instituto para a Pesquisa Social, é daí que alguns leitores conhecem mais a fundo este estudo a partir de textos como Paris do Segundo Império, o flâneur, a boêmia, jogo e prostituição. Já em 1962 é publicada uma versão de “Sobre o conceito de História”. Depois aparecem outras versões que variam até mesmo o número de teses, fica claro a objetivação de Benjamin de não publicar aquele texto naquele momento pensando nos mal entendidos que ele geraria. Assim, o mesmo seria o prólogo do não escrito Baudelaire. Ver: GAGNEBIN, Jeanne Marie. Seis teses sobre as “teses” Ver também: LÖWY, Michael. Walter Benjamin: aviso de incêndio: uma leitura das Teses “Sobre o conceito de História”. Trad. Wanda Nogueira Caldeira Brant. São Paulo; Boitempo, 2005.

6O fenômeno civilizatório foi exemplo para vários centros urbanos em todo o mundo. Moscou, Londres, São Paulo, Rio de Janeiro e até mesmo a cidade do Recife foram espaços que se transformaram e que, ademais eram justificados por um discurso higienizador. Sobre este tema na cidade do Recife possuímos pretensão de reflexão em outro trabalho. São notáveis os trabalhos de alguns autores que mencionam, ou mesmo discutem em seus trabalhos da influência francesa no Recife como forma de vida, bem como de povo civilizado. Ver os trabalhos de: GARCÉA, Artur. Recife. A modernidade do Século XIX: pensamentos, discursos e transformações urbanas. In: Histórias Inúmeros Autores. Recife: Oito de Março. 2005; REZENDE, Antônio Paulo. O Recife - Histórias de uma cidade. 2ªed. Recife, Fundação de Cultura Cidade do Recife. 2005; ARRAIS, Raimundo. O Pântano e o Riacho, a formação do espaço público no Recife do século XIX. São Paulo, Edusp: 2003; SIAL, Vanessa. Reforma Cemiterial Oitocentista e o Caso do Caçote: Uma Necrópole que o Recife não quis. In: Clio – Revista de Pesquisa Histórica. Número 24, vol. 2. 2006.

7É neste ponto que a crítica de Baudelaire se destaca das suas contemporâneas, mesmo possuindo o fascínio pelos novos tempos fugidios, este imprime uma ferrenha Crítica para seu caráter excludente enquanto projeto político-emancipatório e é daí sem dúvida que surge o fascínio de Benjamin, o autor sempre procurou estudar uma época por outros prismas, no drama barroco, através de peças desconhecidas, muitas que nem sequer foram encenadas, e na modernidade isto se registra na poesia lírica baudelairiana. Ver: MATOS, Olgária C. F. O Iluminismo visionário: Benjamin, leitor de Descartes e Kant, São Paulo; Brasiliense, 1993.


8BENJAMIN, Walter. Rua de Mão Única - Obras Escolhidas II. Trad. Rubens Rodrigues Torres Filho e José Carlos Martins Barbosa. São Paulo: Brasiliense, 1987.

9Consiste neste ponto a invectiva benjaminiana quanto à linguagem e a narratividade, ou melhor, sua perda. Já anteriormente em textos como “Experiência e pobreza” e o “Narrador” Benjamin traça um diagnostico da perda da capacidade de intercambiar experiências e notadamente em “Sobre alguns temas em Baudelaire” é se inspirando em Bergson e Proust enquanto pensadores da memória que Benjamin distingue a memória voluntária, que estaria em nossas “rédeas” de pensamento e a memória involuntária que só seria possível enquanto o sujeito fosse habilitado a transmitir uma tradição, a modernidade relegada a “experiência do choque” estaria em vias de extinção deste recurso. Ver: BENJAMIN, Walter. Charles Baudelaire um Lírico no auge do Capitalismo - Obras Escolhidas III. Trad. José Carlos Martins Barbosa e Emerson Alves Baptista. São Paulo; Brasiliense, 1989.

10BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, Arte e Política - Obras Escolhidas. Trad. Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1985.

11TIEDMANN, Rolf. Introdução à Edição Alemã. In: BENJAMIN, Walter. Passagens. Trad. Irene Aron (Alemão) e Cleonice Paes Barreto Mourão (Francês). Org. Willi Bolle e Olgária C. F. Matos. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo: Belo Horizonte: UFMG, 2007. P. 16.

12Esta aplicação do modelo onírico ao século XIX deveria eliminar desta época o caráter de período concluso, de passado definitivo, daquilo que literalmente se tornou história. Ver: TIEDMANN, Rolf. Op. cit. P. 17

13Horkheimer como gestor do Instituto aprovava os projetos de pesquisa. Benjamin aparece no programa como estudioso do século XIX. É através de cartas que o autor toma conhecimento da aprovação de seu trabalho. A comunicação foi recebida com benevolência por Horkheimer. “Seu trabalho promete ser notável” escreveu ele a Benjamin, em setembro de 1935. “O método que consiste em captar a época a partir de pequenos sintomas superficiais parece desta vez revelar toda sua força. O Senhor dá um grande passo à frente quanto às explicações materialistas já propostas nos fenômenos estéticos”. Essa obra mostrara claramente “que não há teoria abstrata da estética, mas que essa teoria coincide todas às vezes com a história de uma dada época”. Ver: WIGGERHAUS, Rolf. Op. Cit. P. 221.


14SCHOLEM, Gershom. Correspondência. Trad. Neusa Soliz. São Paulo: Editora perspectiva, 1993.

15LÖWY, Michael.Walter Benjamin: aviso de incêndio: uma leitura das Teses “Sobre o conceito de História”. Trad. Wanda Nogueira Caldeira Brant. São Paulo: Boitempo, 2005.

16O título é tirado das fisionomias que são uma nova literatura policial do século XIX, que ademais estipula tipos urbanos como o flâneur, o trapeiro, o dandy. Entre outras coisas as fisionomias estratificam, homogeneízam a população detectando o caráter dos traseuntes anônimos a partir de seus traços exteriores. Fisiognomia vem do título da obra de Johann Caspar Lavater Fragmentos Fisiognomônicos que escreveu a Fisiognomia no século XVIII. BOLLE, Wille. Fisiognomia da Metrópole Moderna. São Paulo; Edu São Paulo, 1994.

17Tomando como referencial a carta enviada a alguns amigos contendo seu ultimo texto – Sobre o conceito de História.

18Em carta a Adorno Benjamin salienta a frustração do entre guerras e diz que sua geração é uma geração perdida por ter vivido o entre guerras e as mazelas que essa experiência traz. Interessante notar que Adorno mais a frente ao estudar o homem alemão e sua suscetibilidade a regimes autoritários vai abstrair o conceito de Vida falsa, tanto quanto o de Vida danificada.

19É notável que a influência de Brecht vá se dá mais nitidamente no texto sobre a Reprodutibilidade técnica, enquanto teoria estética que trata da dissolução da aura. Mas existem aqueles em que o misticismo judaico também é presente, é claro que as teses por terem gerado direcionamentos de interpretação possuem os defensores do viés teológico. Segundo Löwy, que interpreta o texto mais detidamente a influencia Brechtiana é notável no que diz respeito ao tempo messiânico e a idéia de redenção. Ver: LÖWY, Michael. Walter Benjamin: aviso de incêndio: uma leitura das Teses “Sobre o conceito de História”. Trad. Wanda Nogueira Caldeira Brant. São Paulo: Boitempo, 2005.

20Este texto de Nietzsche contribui muito para a idéia de crítica ao progresso. Asseverando existir três tipos de História, são elas: Monumental ou mesmo antiquaria, tradicional e crítica. Na história monumental o homem observa o passado como algo grandioso e ele aspira reproduzir em suas ações esse passado glorioso. Na história tradicional o homem se apega a costumes e tende a reproduzir no presente aquilo que foi valioso no passado, buscando no passado suas grandezas e tentando reproduzi-las tal qual elas aconteceram, esse tipo de postura traria uma História de “efeitos em si”, vazia quanto a significados. A História crítica seria aquela preconizada por aqueles que não se identificam com a História oficial, impondo uma crítica a este passado e tomando mesmo este como culpado pelos seus sofrimentos do presente. Ver: NIETZSCHE, Friedrich W. Escritos sobre História. São Paulo: Loyola, 1990.

21Notadamente no Capital, especificamente em sua crítica ao fetichismo da mercadoria, usufruindo dos conceitos de alienação, de parcialização do trabalho ao contrário daquele artesanal que por sua dinâmica permite o intercambiar de experiências e a categoria de revolução que ganha novo contorno junto ao messianismo judaico. Ver: MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. Vol. II Trad. Reginaldo Sant’Anna. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.

22Desde o conceito de Modernidade que é o transitório, o efêmero, o contingente, é a metade da arte, sendo a outra metade o eterno e o imutável. Ver: BAUDELAIRE, Charles. Sobre a Modernidade: o pintor da vida moderna. Org. Teixeira Coelho. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997.

23“Pois todos os bens culturais que ele vê têm uma origem sobre a qual ele não pode refletir sem horror. Devem sua existência não somente ao esforço dos grandes gênios que os criaram, como à corvéia anônima dos seus contemporâneos. Nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um monumento de barbárie. E, assim como a cultura não é isenta de barbárie, não o é, tampouco, o processo de transmissão da cultura”. BENJAMIN, Walter. Op. Cit. Tese VII.



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