David a morte de Sócrates


Capítulo III O mundo espiritual e os fluidos



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Capítulo III
O mundo espiritual e os fluidos


As forças. – Teoria mecânica do calor. – Conservação da energia. – O mundo espiritual. – A energia e os fluidos. – Estudo detalhado sobre os fluidos: estados sólido, liquido, gasoso, radiante, ultra-radiante e fluídico. – Lei de continuidade dos estados físicos. – Quadro das relações da matéria e da energia. – Estudo sobre a ponderabilidade.

As forças


Citemos de novo o nosso instrutor espiritual.183

“Se um desses seres desconhecidos que consomem a efêmera existência nas regiões tenebrosas do fundo do oceano, se um desses poligástricos, dessas nereidas – miseráveis animálculos que da Natureza unicamente conhecem os peixes ictiófagos e as florestas submarinas – recebesse de súbito o dom da inteligência, a faculdade de estudar o seu mundo e de levantar sobre as suas apreciações um raciocínio conjetural, abrangendo a universalidade das coisas, que idéia faria da Natureza viva que se desenvolve no meio em que ele vive e do mundo terrestre existente fora do campo de suas observações?

Se, depois, por um efeito maravilhoso do seu novo poder, esse mesmo ser chegasse a elevar-se acima das suas trevas eternas, à superfície do mar, não longe das margens opulentas de uma ilha de rica vegetação, ao banho fecundante do Sol, dispensador de calor benfazejo, que juízo faria ele dos seus juízos anteriores, acerca da Criação universal? Não substituiria de pronto a teoria que houvesse construído por uma apreciação mais ampla, porém, ainda tão incompleta, relativamente, quanto à primeira. Tal ó homens! A imagem da vossa ciência, toda especulativa...

Há um fluido etéreo, que enche o espaço e penetra os corpos. Esse fluido é a matéria cósmica primitiva, geratriz do mundo e dos seres. São inerentes ao éter as forças que presidiram às metamorfoses da matéria, as leis imutáveis e necessárias que regem o mundo. Essas forças múltiplas, indefinidamente variadas segundo as combinações da matéria, localizadas segundo as massas, diversificadas, quanto ao modo de ação, segundo as circunstâncias e o meio, são conhecidas na Terra sob o nome de gravidade, coesão, afinidade, atração, magnetismo, eletricidade. Os movimentos vibratórios do agente são os de: som, calor, luz, etc.

Ora, assim como uma única é a substância simples, primitiva, geratriz de todos os corpos, mas diversificada em suas combinações, também todas essas forças dependem de uma lei universal, diversificada em seus efeitos, lei que lhes está na origem e que, pelos decretos eternos, foi soberanamente imposta à Criação, para lhe constituir a harmonia e a estabilidade permanentes.

A Natureza jamais está em oposição a si mesma. Uma só é a divisa no brasão do Universo: Unidade. Remontando-se à escala dos mundos, encontra-se unidade de harmonia e de criação, ao mesmo tempo em que uma variedade infinita nessa imensa platéia de estrelas; percorrendo-se-lhes os degraus da vida, desde o último dos seres até Deus, a grande lei de continuidade se patenteia; considerando-se as forças em si mesmas, pode-se formar com elas uma série, cuja resultante, a confundir-se com a geratriz, é a lei universal....



Todas essas forças são eternas e universais, como a Criação. Sendo inerentes ao fluido cósmico, elas necessariamente atuam em tudo e em toda parte, modificando, sucessivamente, ou pela simultaneidade, ou pela sucessividade, as ações que exercem. São predominantes aqui, ali apagadas, poderosas e ativas em certos pontos, latentes ou secretas noutros. Mas, finalmente, estão sempre preparando, dirigindo, conservando e destruindo os mundos em seus diversos períodos de vida, governando os maravilhosos trabalhos da Natureza, em qualquer parte onde eles se executem, assegurando para sempre o eterno esplendor da Criação.”

Difícil dizer melhor e exprimir de maneira tão elevada quanto concisa os resultados todos a que a ciência tem chegado e nos há feito conhecer.

Escapa ao poder do homem criar qualquer parcela de energia, ou destruir a que existe. Transformar um movimento em outro é tudo o que lhe está ao alcance. O mundo da mecânica, diz Balfour Stewart,184 não é uma manufatura criadora de energia, mas um como mercado ao qual podemos levar certa espécie particular de energia e trocá-la por um equivalente de energia de outro gênero, que mais nos convenha... Se lá chegarmos sem coisa alguma nas mãos, podemos ter a certeza de voltar sem coisa alguma.

É absurdo, diz o Padre Secchi, admitir-se que o movimento, na matéria bruta, possa ter outra origem que não o próprio movimento.

Assim, não se pode criar a energia e firmado está que ela não pode destruir-se. Onde um movimento cessa, imediatamente aparece o calor, que é uma forma equivalente desse movimento. Esta a grande verdade formulada sob o nome de conservação da energia, idêntica à lei de conservação da matéria.

Assim como esta não pode ser aniquilada 185 e apenas passa por transformações, também a energia é indestrutível: experimenta tão-só mudanças de forma. Até ao século XIX, a prática diuturna dava, na aparência, motivos para crer-se que a energia era parcialmente suprimida.

Pertence a J. R. Mayer, médico de Heilbronn (reino do Wurtemberg), ao dinamarquês Colding e ao físico inglês Joule a glória de terem demonstrado que nem uma só fração de energia se perde e que é invariável a quantidade total de energia de um sistema fechado. Essa demonstração, conhecida sob a denominação de teoria mecânica do calor, constitui uma das mais admiráveis e fecundas obras do século XIX.

Descobrindo a que quantidade exata de calor corresponde um certo trabalho, isto é, uma certa quantidade de movimento, a Ciência fez que a indústria mecânica desse um passo gigantesco. Aplicando semelhante descoberta à Química, fez esta entrasse para o rol das ciências finitas, isto é, daquelas cujos fenômenos se podem reduzir todos a fórmulas matemáticas. Finalmente, em Fisiologia, as noções de que tratamos deram lugar a que se achasse a medida precisa da intensidade da força vital.

Mas, não se limitou a isso o estudo experimental da energia. Conseguiu-se demonstrar que todas as diferentes formas que ela assume: calor, luz, eletricidade, etc., podem transformar-se umas nas outras, de maneira que uma daquelas manifestações é capaz de engendrar todas as demais.

Dessas descobertas experimentais decorre que as forças naturais, conforme ainda hoje se chamam, não são mais do que manifestações particulares da energia universal, ou, em última análise, dos modos de movimento. O problema da unidade e da conservação da força foi, pois, resolvido pela ciência moderna.

Possível se tornou comprovar no universo inteiro a unidade dos dois grandes princípios: força e matéria.

A luneta e o telescópio permitiram se visse que os planetas solares são mundos quais o nosso, pela forma, pela constituição e pela função que preenchem. Nem só, porém, o nosso sistema obedece a tais leis, todo o espaço celeste está povoado de criações semelhantes, evidenciando a semelhança de organização das massas totais do Universo, ao mesmo tempo em que a uniformidade sideral das leis da gravitação.

Os sóis ou estrelas, as nebulosas e os cometas foram estudados pela análise espectral, que demonstrou serem compostos esses mundos, tão diversos, de materiais semelhantes aos que conhecemos na Terra. A mecânica química e física dos átomos é a mesma lá, que neste mundo. É, pois, em tudo e em toda parte, a unidade fundamental incessantemente diversificada.

Que confirmação magnífica daquela voz do espaço que, há cinqüenta anos, afirmava que eterna é a força e que as séries dessemelhantes de suas ações têm uma resultante comum, que se confunde com a geratriz, isto é, com a lei universal!

Assim, portanto: força única, matéria única, indefinidamente variada em suas manifestações, tais as duas causas do mundo visível. Existirá outro, invisível e sem peso? Interroguemos de novo os nossos instrutores do Além. Eles respondem afirmativamente e cremos que também quanto a isso a Ciência não os desmentirá.

O mundo espiritual 186


“O fluido cósmico universal, como foi ensinado, é a matéria elementar primitiva, cujas modificações e transformações constituem a inumerável variedade dos corpos da Natureza. Como elementar princípio universal, ele se apresenta em dois estados distintos: o de eterização ou imponderabilidade, que se pode considerar o estado normal primitivo, e o de materialização ou de ponderabilidade, que, de certo modo, é apenas consecutivo àquele. O ponto intermediário é o da transformação do fluido em matéria tangível; mas, ainda aí não há transição brusca, pois que os nossos fluidos imponderáveis podem considerar-se um termo médio entre os dois estados.

No estado de eterização, o fluido cósmico não é uniforme; sem deixar de ser etéreo, sofre modificações tão variadas, em gênero, senão mais numerosas quanto no estado de matéria tangível.

Essas modificações constituem fluidos distintos que, embora procedendo do mesmo princípio, são dotados de propriedades especiais e dão lugar aos fenômenos particulares do mundo invisível.

Sendo tudo relativo, esses fluidos têm para os Espíritos uma aparência tão material, como a dos objetos tangíveis para os encarnados e são para eles o que são para nós as substâncias do mundo terrestre. Eles os elaboram e combinam para produzir determinados efeitos, como fazem os homens com os seus materiais, se bem que por processos diferentes.

Lá, entretanto, como neste mundo, só aos Espíritos mais esclarecidos é dado compreender o papel dos elementos constitutivos do mundo deles. Os ignorantes do mundo invisível são tão incapazes de explicar os fenômenos que observam e para os quais concorrem, muitas vezes maquinalmente, como o são os ignorantes da Terra para explicar os efeitos da luz ou da eletricidade e para dizer como os vêem e entendem.”

É admiravelmente justo o que se acaba de ler. Interrogai ao acaso dez pessoas que passem pela rua, perguntando-lhes quais são as operações sucessivas da digestão ou da respiração e ficai certos de que nove delas não saberão responder-vos. No entanto, em nossa época, a instrução já se acha bastante disseminada. Mas, quão poucos se dão ao trabalho de aprender ou de refletir!

“Os elementos fluídicos do mundo espiritual fogem aos nossos instrumentos de análise e à percepção dos nossos sentidos, feitos que estes são para a matéria tangível e não para a etérea. Alguns há peculiares a um meio tão diferente do nosso, que não podemos fazer deles idéia, senão mediante comparações tão imperfeitas como aquelas pelas quais um cego de nascença procura fazer idéia da teoria das cores.

Mas, dentre esses fluidos, alguns se acham intimamente ligados à vida corpórea e pertencem de certo modo ao meio terrestre. Em falta de percepção direta, podem observar-se-lhes os efeitos e adquirir, sobre a natureza deles, conhecimentos de certa exatidão. É essencial esse estudo, porquanto constitui a chave de uma multidão de fenômenos que só com as leis da matéria se não explicam.

No seu ponto de partida, o fluido universal se acha em grau de pureza absoluta, da qual nada nos pode dar idéia. O ponto oposto é o da sua transformação em matéria tangível. Entre esses dois extremos, há inúmeras transformações, mais ou menos aproximadas de um ou de outro. Os fluidos mais próximos da materialidade, os menos puros conseguintemente, compõem o que se poderia chamar a atmosfera espiritual da Terra. É desse meio, no qual também diferentes graus de pureza existem, que os Espíritos encarnados ou desencarnados extraem os elementos necessários à economia de suas existências. Por muito sutis e impalpáveis que sejam para nós, não deixam esses fluidos de ser de natureza grosseira, comparativamente aos fluidos etéreos das regiões superiores.

Não é rigorosamente exata a qualificação de fluidos espirituais, porquanto, em definitivo, eles são sempre matéria mais ou menos quintessenciada. De realmente espiritual, há só a alma ou princípio inteligente. Eles são qualificados de espirituais, em comparação e, sobretudo, em razão da afinidade que guardam com os Espíritos. Pode dizer-se que são a matéria do mundo espiritual. Daí o serem denominados fluidos espirituais.

Quem, ao demais, conhece a constituição íntima da matéria tangível? Ela possivelmente só é compacta com relação aos nossos sentidos. Prová-lo-ia a facilidade com que a atravessam os fluidos espirituais 187 e os Espíritos, aos quais ela não opõe obstáculo maior do que o que à luz oferecem os corpos transparentes.

Tendo por elemento primitivo o fluido cósmico etéreo, há de a matéria tangível ter a possibilidade de voltar, desagregando-se, ao estado de eterização, como o diamante, que é o mais duro dos corpos, pode volatilizar-se em gás impalpável. A solidificação da matéria mais não é, em realidade, do que um estado transitório do fluido universal, que pode volver ao seu estado primitivo, quando deixam de existir as condições de coesão.

Quem sabe mesmo se, no estado de tangibilidade, a matéria não é suscetível de adquirir uma espécie de eterização, que lhe dê propriedades particulares? Certos fenômenos, que parecem autênticos, tenderiam a fazê-lo supor. Ainda não possuímos senão as balizas do mundo invisível e o futuro sem dúvida nos reserva o conhecimento de novas leis que permitirão se conheça o que para nós continua a ser mistério.”

Vejamos agora, por meio das modernas descobertas, se são exatas estas concepções.


A energia e os fluidos


Até há pouco, a Ciência negava a existência de estados imponderáveis da matéria e a hipótese do éter estava longe de ser unanimemente admitida, apesar da sua necessidade para tornar compreensíveis os diversos modos da força. Atualmente, já a negação não será talvez tão absoluta, pois que toda uma categoria de novos fenômenos veio mostrar a matéria revestida de propriedades de que nem se suspeitava.

A matéria radiante dos tubos de Crookes revela as energias intensas que parecem inerentes às últimas partículas da substância. Os raios X, que nascem no ponto em que os raios catódicos tocam o vidro da empola, ainda mais singulares são, porquanto se propagam através de quase todos os corpos e têm propriedades fotogênicas, sem serem visíveis de si mesmos. Finalmente, as experiências espíritas de Wallace, de Beattie, de Aksakof consignam, fotografados, esses estados da matéria invisível, que concorrem para a produção dos fenômenos espíritas.

O Dr. Baraduc, o comandante Darget, o Dr. Adam, o Dr. Luys, o Sr. David e as experiências do Sr. Russel 188 põem de manifesto essas forças materiais que emanam constantemente de todos os corpos, mas, sobretudo, dos corpos vivos, e os clichês que se obtêm são testemunhos irrecusáveis da existência desses fluidos.189

Assistimos, presentemente, à demonstração científica desses estados imponderáveis da matéria antes tão obstinadamente repelidos. Mais uma vez, confirma-se o ensino dos Espíritos, sendo a prova de veracidade das suas revelações dada por pesquisadores que não partilham das nossas idéias e que, portanto, não podem ser suspeitados de complacências.

É necessário que o público, ao ouvir-nos falar de fluidos, se habitue a não ver nessa expressão um termo vago, destinado a mascarar a nossa ignorância. É necessário fique ele bem persuadido de que estamos constantemente mergulhados numa atmosfera invisível, intangível pelos nossos sentidos, porém, tão real, tão existente, quanto o próprio ar.

Não é certo que as maiores inteligências do século, os mais hábeis analistas, químicos e físicos hão vivido em contacto com o argônio, o novo gás que faz parte integrante do ar, sem lhe suspeitarem a presença? Esse exemplo deve inspirar modéstia a todos quantos orgulhosamente proclamam que sabem todas as coisas e que a Natureza nenhum mistério mais lhes guarda. A verdade é que ainda somos muito ignorantes e que a nossa existência se escoa num lugar do qual só pequeníssima parte conhecemos.

O de que todos se devem bem compenetrar é de que a atmosfera que nos circunda contém seres e forças cuja presença normal somos incapazes de apreciar. O ar se encontra povoado de miríades de organismos vivos, infinitamente pequenos, que não lhe turvam a transparência. No azul translúcido de um belo dia de verão volteia uma inumerável quantidade de sementes vegetais, que irão fecundar as flores. Ao mesmo tempo, o espaço se encontra atravancado de bilhões de seres, aos quais foi dado o nome de micróbios.

Todos esses seres evolvem dentro de gases cuja existência nada nos revela. O ácido carbônico, produzido por tudo o que tem vida ou se consome, mistura-se aos gases constitutivos do ar, sem que alguém o possa suspeitar. Quase todos os corpos emitem vapores que imergem nesse laboratório límpido e os nossos olhos permanecem cegos para todos esses corpos tão diversos, cada um com a sua função e a sua utilidade.

Tampouco os nossos sentidos nos advertem dessas correntes que sulcam o globo e desorientam a bússola durante as tempestades magnéticas. Só raramente a eletricidade se manifesta sob forma que nos seja apreciável. Ela não existe unicamente no instante em que o raio risca a nuvem, em que repercutem ao longe os roncos do trovão; antes, atua perpetuamente, por meio de lentas descargas, por meio de trocas incessantes entre todos os corpos de temperaturas diferentes. A própria luz não a percebemos, senão dentro de limites muito acanhados. Seus raios químicos, de ação tão intensa, escapam completamente à nossa visão.

Somos banhados, penetrados por todos esses eflúvios em meio dos quais nos movemos e longuíssimo tempo viveu a humanidade sem conhecer tais fatos que, entretanto, sempre existiram. Foram necessárias todas as descobertas da ciência, para criarmos sentidos novos, mais poderosos, mais delicados do que os que devemos à Natureza. O microscópio nos revelou o átomo vivo, o infinitamente pequeno; a chapa fotográfica é, ao mesmo tempo, um tato e uma retina, de incomparáveis finura e acuidade de visão.

O colódio registra as vibrações etéreas que nos chegam dos planetas invisíveis, perdidos nas profundezas do espaço, e nos revela a existência deles. Apanha os movimentos prodigiosamente rápidos da matéria quintessenciada; reproduz fielmente a luz obscura que todos os corpos à noite irradiam. Se a nossa retina possuísse essa singular sensibilidade, seríamos impressionados pelas ondas ultravioletas, como o somos pela parte visível do espectro.

Pois bem! essa chapa preciosa ainda presta o serviço de dar-nos a conhecer os fluidos que emanam do nosso organismo, ou que nele penetram. Mostra-nos, com irresistível certeza, que em torno de nós forças existem, isto é, movimentos da matéria sutil, que se diferençam uns dos outros pelos seus caracteres particulares, por uma assinatura especial. Presentemente, já não se pode duvidar dessas modalidades, desses avatares da matéria.

Há, envolvendo-nos, uma atmosfera fluídica incorporada na atmosfera gasosa, penetrando-a de todos os lados. São ininterruptas as suas ações: é todo um mundo tão variado, tão diverso em suas manifestações, quanto o é a natureza física, isto é, a matéria visível e ponderável. Há fluidos grosseiros, como fluidos quintessenciados, uns e outros com propriedades inerentes ao respectivo estado vibratório e molecular, que os tornam substâncias tão distintas, quanto o podem ser, para nós, os corpos sólidos ou gasosos.

Mas, que energias se manifestam nesse meio! Que de mudanças visíveis, de mobilidade, de plasticidade nessa matéria sutil! Quanto ela difere da pesada, compacta e rígida substância que conhecemos. A eletricidade nos permite julgar da instantaneidade das suas transformações: é um prodígio, uma febre contínua. É bem a fluidez ideal para as tão leves, tão vaporosas, tão instáveis criações do pensamento. É a matéria do sonho, na sua impalpável realidade.

Estudando a matéria gasosa, chegamos a imaginar esses estados transcendentes. Já, sob a forma radiante, vemos os átomos, movendo-se com velocidades fantásticas, produzirem fenômenos cuja intensidade, dada a massa de matéria posta em jogo, é realmente formidável e essa energia nos faz compreender a força, em suas manifestações superiores de luz, eletricidade, magnetismo, devidas às rapidíssimas ondulações do éter.

Torna-se admissível que esses átomos animados de enormes velocidades retilíneas, girando sobre si mesmos com vertiginosa rapidez, desenvolvam uma força centrífuga que anula a atração terrestre. Sim, é mais que provável que eles se diferenciem entre si pela quantidade de força viva que individualmente contêm e podemos entrever a inesgotável variedade de agrupamentos que se constituem entre essas inúmeras formas de substâncias.

É o mundo espiritual, o que nos cerca e penetra, em o qual vivemos. Com ele entramos em relações por meio do nosso organismo fluídico. Porque possuímos um perispírito, possível se nos faz atuar sobre esse mundo invisível à carne. É pela nossa constituição espiritual que os Espíritos têm ação sobre nós e nos podem influenciar.

Estudo sobre os fluidos


É tão importante a demonstração da existência dos fluidos, para a compreensão dos fenômenos espirituais, que devemos examinar esse problema sob todos os seus aspectos. A experiência espírita há demonstrado que a alma se acha revestida de um envoltório material, mas invisível e intangível no estado normal, e que se move num meio físico que carece de peso. Urge, pois, apresentemos todas as razões que tendem a provar o fato capital da existência de um mundo imponderável, porém tão real como o em que vivemos.

Acreditava-se, outrora, que a luz, a eletricidade, o calor, o magnetismo, etc., eram substâncias inteiramente distintas umas das outras, dotadas de natureza própria, especial, que as diferençavam completamente. As pesquisas contemporâneas demonstraram falsa semelhantes concepção.

Nas primeiras idades da ciência, não só parecia que as forças eram separadas, mas também que o número delas se multiplicava ao infinito. Considerava-se cada fenômeno como a manifestação de uma certa força. Entretanto, pouco a pouco se reconheceu que efeitos diferentes podem derivar de uma causa única. Desde então, diminuiu consideravelmente o número das forças, cuja existência se admitia. Newton identificou a gravidade e a atração, reconhecendo na queda da maçã e na manutenção do astro em sua órbita efeitos de uma mesma causam: a gravitação universal. Ampère demonstrou que o magnetismo é apenas uma forma da eletricidade. A luz e o calor, desde longo tempo, são tidos como manifestações de uma mesma causa: um movimento vibratório extremamente rápido do éter.

Nos dias atuais, uma grandiosa concepção veio mudar de novo a face à ciência: a de que todas as forças da Natureza se reduzem a uma só. A energia ou a força (são sinônimos os dois termos) pode assumir todas as aparências, sendo, alternativamente, calor, trabalho mecânico, eletricidade, luz e dar origem às combinações e decomposições químicas. Às vezes, a força como que se acha oculta ou destruída. Simples aparência. Pode-se sempre encontrá-la novamente e fazê-la passar de novo pelo ciclo de suas transformações.

Inseparável da matéria, a força é indestrutível, fazendo-se mister que à energia se aplique este princípio: em a Natureza, nada se perde, nem se cria.

É tão verdade isto, que, quando um movimento sofre brusca interrupção, imediatamente uma coisa nova aparece: é o calor. Assim, um pedaço de chumbo, colocado na bigorna, se aquecerá violentamente sob os golpes do martelo do ferreiro; uma bala de artilharia, batendo num alvo de ferro, poderá chegar à temperatura do rubro; as rodas de um trem em marcha despedem centelhas, quando se apertam subitamente os freios. Se o movimento da Terra em torno do Sol cessasse instantaneamente, diz Helmholtz que a quantidade de calor gerado por esse fato seria tal, que faria passar ao estado de vapor toda a massa terrestre.

Temos, portanto, que calor e movimento são duas formas equivalentes da energia, formas que mutuamente se substituem, tomando-se visível uma, quando a outra desaparece. Determinou-se exatamente a que quantidade de calor corresponde uma certa quantidade de movimento, medida a que se dá o nome de equivalente mecânico do calor.

Torna-se então fácil de compreender-se que aquecer um corpo é aumentar-lhe o movimento interno, isto é, o de suas moléculas. Sabemos que, desde o átomo invisível até o corpo celeste perdido no espaço, tudo se acha sujeito a movimento. Tudo gravita numa órbita imensa ou infinitamente pequena. Mantidas a uma distância definida umas das outras, em virtude do próprio movimento que as anima, as moléculas guardam entre si relações constantes, que só se alteram pela adição ou subtração de certa quantidade de movimento. Em geral, a aceleração do movimento das moléculas lhes aumenta as órbitas e as afasta umas das outras, ou, por outras palavras, aumenta o volume dos corpos. É justamente por isso que o calor se apresenta como fonte de movimento.

Sob sua influência, as moléculas, afastando-se cada vez mais, fazem que os corpos passem do estado sólido ao líquido, em seguida ao de gás. Os gases, a seu turno, se dilatam indefinidamente, pela adição de novas quantidades de calor, isto é – de movimento – e, se se criar embaraço a essa expansão, ele exercerá considerável pressão sobre as paredes do vaso que o contenha. É assim que as moléculas dos gases ou dos vapores, em cativeiro nos cilindros das locomotivas, transmitem ao êmbolo a força que se emprega para produzir a tração dos trens, isto é, trabalho mecânico.

Quando, pois, os movimentos moleculares de um corpo se mostrem grupados de maneira a apresentar, uns com relações aos outros, centros fixos de orientação, diremos que esse corpo é sólido;

Quando os movimentos moleculares de um corpo estejam grupados de maneira que os centros desses grupos sejam móveis, uns com relação aos outros, o corpo é líquido;

Quando as moléculas de um corpo se movem em todos os sentidos e colidem umas com as outras milhões de vezes por segundo, o corpo é chamado gás.190

Convém notar que, à proporção que a matéria passa do estado sólido ao estado líquido, o volume aumenta; depois, do estado líquido ao gasoso, a dilatação do mesmo peso de matéria se torna ainda maior, de sorte que a matéria se rarefaz, ao mesmo tempo em que o movimento molecular se pronuncia. Um litro d’água, por exemplo, dá 1.700 litros de vapor, isto é, ocupa um volume 1.700 vezes superior ao que tinha no estado líquido; nessas condições, as atrações mútuas entre as moléculas diminuem e o movimento oscilatório das mesmas moléculas se torna mais rápido.

Com efeito, segundo cálculos de probabilidades,191 os sábios chegaram a admitir que se pode considerar constante a velocidade média das moléculas para um mesmo gás, qualquer que seja a direção do caminho percorrido. O valor dessa velocidade média, por segundo, à temperatura do gelo em fusão, isto é, a 0º, e à pressão barométrica de 760 mm, é de:

461 metros para as moléculas do oxigênio;

485 para as do ar;

492 para as do azoto;

1.848 para as do hidrogênio.

Tais velocidades são comparáveis à de um projétil à saída de uma arma de grande alcance. A velocidade das moléculas é tanto maior, quanto mais leve é o gás, isto é, quanto menos matéria contém na unidade de volume. Logo, se num tubo fechado se fizer o vácuo tão perfeito quanto possível e se obrigarem as moléculas restantes a mover-se em linha reta, por meio da eletricidade, obter-se-á o estado radiante que Crookes descobriu.

Como muito se fala desse estado especial, expliquemos claramente em que consiste ele.

Sabemos que os gases se compõem de um número indefinido de particulazinhas em incessante movimento e animadas, conforme suas naturezas, de velocidades de todas as grandezas.

Sabemos igualmente que, em conseqüência do número imenso delas, essas partículas não podem mover-se em nenhuma direção, sem se chocarem, quase imediatamente, com outras partículas.

Que se dará se, de um vaso fechado, se retirar grande parte do gás ali encerrado? É claro que, quanto mais diminuir o número das moléculas do gás, tanto menos oportunidade terão as que restarem de chocar-se umas com as outras. Pode-se, pois, induzir que, num vaso fechado, onde se faça cada vez maior vazio, crescerá a distância que qualquer molécula poderá percorrer, sem se chocar com outras. Teoricamente, o comprimento do percurso livre, isto é, o comprimento da distância que uma molécula qualquer poderá percorrer, sem colidir com outra, estará na razão inversa das moléculas restantes, ou, o que vem a dar no mesmo, na razão direta do vácuo produzido.

Como, no estado gasoso ordinário, as moléculas se acham em colisão contínua umas com as outras; como essa colisão contínua é precisamente o que determina as propriedades físicas do gás, segue-se que, se as moléculas percorrem espaços maiores sem se chocarem, dessa diferença na maneira de se comportarem hão de decorrer propriedades físicas diferentes e, por conseguinte, um estado novo para a matéria. O quarto estado será tão distante do estado gasoso, quanto este o é do estado líquido. Foi o que Crookes experimentalmente demonstrou.

Aqui se acusa nitidamente a lei que assinalamos, segundo a qual quanto mais rarefeita é a matéria, tanto mais rápido é o movimento molecular. É tal a velocidade destas últimas partículas da matéria, que os metais mais refratários, submetidos ao bombardeio das moléculas, não tardam a tornar-se rubros e mesmo a fundir-se, se a ação for suficientemente prolongada. Nesse estado, a matéria, se bem que excessivamente rara, ainda tem um peso apreciável, não por meio da balança, mas por meio do raciocínio. O vácuo produzido é tal, que, se supusermos a pressão barométrica ordinária, representada por uma coluna de mercúrio da altura de 4.800 metros, a pressão da matéria radiante não poderá equilibrar mais de um quarto de milímetro de mercúrio! Ela ainda tem peso, o que explica que conserva suas propriedades químicas, porquanto não há dissociação.

Mas, se acompanharmos a ciência em suas induções, ser-nos-á possível conceber um estado em que a matéria se ache tão rarefeita que o seu movimento molecular a liberte da atração terrestre. É o éter dos físicos que primeiro realiza essa concepção. Para serem compreensíveis os diversos aspectos da energia, imaginou-se o Universo cheio de uma substância imponderável, perfeitamente elástica, a qual, graças à sua sutileza, penetraria todos os corpos. Conforme vibre mais ou menos rapidamente, essa matéria dá lugar aos fenômenos que para nós se traduzem em sensações de calor, sendo as mais lentas as vibrações; de eletricidade, se forem as mais rápidas; de raios obscuros, se for atividade química; finalmente, às vibrações excessivamente rápidas da luz visível e invisível.

Será aí, porém, o limite extremo que não se possa ultrapassar nas pesquisas? Não, pois sabemos, pelas experiências espíritas, que os Espíritos possuem corpos fluídicos, que nenhuma das formas da energia pode influenciar. Nem os frios intensos dos espaços interplanetários, que chegam a 273 graus abaixo de zero, nem a temperatura de muitos milhares de graus dos sóis qualquer influência exercem sobre a matéria perispirítica. É que esse invólucro da alma procede do fluido cósmico universal, isto é, da substância em sua forma primitiva. Nenhuma mudança poderá atingi-la; ela, em sua essência, é imutável. Não se acha sujeita às decomposições, por não poder simplificar-se, uma vez que se encontra no estado inicial, último tempo a que hão de fatalmente ir ter todas as mutações. Mesclam mais ou menos o perispírito os fluidos do planeta a que o Espírito se acha ligado. O trabalho da alma consiste justamente em desembaraçar o seu corpo fluídico de todas as escórias que se lhe agregaram, desde a origem da sua evolução.

Entre esse estado perfeito – em que o mínimo de matéria é animado do máximo de força viva – e o estado sólido a 273° – em que o máximo de matéria contém o mínimo de movimentos vibratórios – há uma infinidade de graus que formam a escala de todas as modalidades possíveis da matéria. Estamos, pois, cientificamente autorizados a dizer que os fluidos não são simples criações da imaginação; que eles correspondem, no mundo físico, a realidades positivas, a estados ainda não descobertos, mas que a matéria radiante, os raios X, o fluido que impressiona as chapas fotográficas e o éter nos animam a conceber como existentes de fato. Não é de duvidar-se que pesquisas ulteriores farão se descubram mais tarde essas modificações tão variadas dos estados da substância primitiva, à medida que se aperfeiçoem os nossos meios de investigação e que a ciência voltar suas vistas para o invisível e para o imaterial, em vez de se acantonar por sistema no domínio grosseiramente tangível e cujo território é tão limitado.

Aliás, a força da evolução obriga fatalmente os retardatários a abrir o intelecto às novas concepções. A fotografia do invisível, quer opere nas insondáveis profundezas da extensão, quer penetre no interior das substâncias opacas, patenteia ao espírito possibilidades que, há alguns anos apenas, seriam tachadas de utopias supersticiosas. Faz-se mister que a humanidade se liberte das enervantes afirmações dos materialistas. Soou a hora em que tem de cair o véu que tolhia a visão clara da Natureza.

Apesar das mais extravagantes teorias, forjadas para explicarem os fenômenos espíritas sem a intervenção dos Espíritos, a verdade se evidencia de maneira esplêndida. Sim, temos uma alma imortal. Sim, as vidas sucessivas na Terra e no espaço são simples trechos do interminável caminho do progresso e todos nos achamos em marcha para altos destinos. O sentimento da imortalidade, que sempre se manifestou em todas as idades do gênero humano, que se atestou, de modo tangível, em todas as épocas, por manifestações semelhantes às que hoje observamos, está prestes, enfim, a receber sua explicação científica. Esplenderá então a moral sublime da solidariedade, da fraternidade e do amor, forçosa conseqüência das vidas sucessivas e da identidade de origem e de destino. Por termos o sentimento vivo de que soou a hora em que a ciência há de unir-se à revelação, é que todos os esforços empregam por trazer a nossa pedra ao edifício. Para todos espíritos independentes, que se não ache cegado por idéias preconcebidas, são fora de dúvida que as descobertas contemporâneas acarretam firmes apoios ao espiritualismo.

As especulações precedentes sobre a matéria no estado sólido, líquido ou gasoso se justificam plenamente, como é fácil de ver-se. Dado que, verdadeiramente, os gases são formados de átomos a moverem-se em todos os sentidos com prodigiosa rapidez, é claro que, resfriando-se esses gases, isto é, reduzindo-se-lhes o movimento, suas moléculas se aproximarão. Se, ao demais, ajudarmos essa concentração por meio de pressões enérgicas, o gás há de passar ao estado líquido e de, afinal, solidificar-se, quando as suas moléculas possam exercer as mútuas atrações. É precisamente o que se dá.

Só ultimamente se chegou a comprovar esses resultados que a teoria fazia prever. Assim é que o Senhor Cailletet mostrou que o oxigênio se liquefaz a 29 graus abaixo de zero, sob uma pressão de 300 atmosferas, ou, então, conforme o Sr. Wroblewski o determinou, sob a pressão de uma atmosfera, mas fazendo-se descer a temperatura a 184 graus abaixo de zero. O ar que respiramos se torna líquido, quando a temperatura é de 192 graus abaixo de zero. A dois graus de menos, também o azoto se torna líquido. De sorte que, se o Sol se extinguisse, isto é, se deixasse de nos dar o calor que mantém todos os corpos terrestres no estado atual, a Terra seria inabitável, porquanto o ar provavelmente se solidificaria, bem como o hidrogênio e todos os gases; não mais haveria atmosfera e um frio mortal substituiria a animação e a vida.

Incontestavelmente, reina continuidade em todas as manifestações da matéria e da energia. Todos os estados, tão diversos, das substâncias se ligam entre si por estreitos laços; não há barreira intransponível a separar os gases impalpáveis das matérias mais duras ou mais refratárias. Em realidade, uma continuidade existe perfeita nos estados físicos, que podem passar de um a outro por gradações tão suaves, que racionalmente podem ser considerados formas amplamente espaçadas de um mesmo estado material. Tanto mais exato é isto, quanto nenhum estado material possui qualquer propriedade essencial de que os outros não partilhem.

Os sólidos, sob fortes pressões, se escoam como os líquidos, e os gases podem comportar-se como corpos sólidos pouco compressíveis. O Sr. Tresca, submetendo o chumbo a uma pressão de 130 quilogramas por centímetro quadrado, fez correr dele um veio líquido, qual se estivesse fundido. O Sr. Daubrée 192 produziu erosões e arrancamentos em blocos de aço, pela força de gases violentamente comprimidos. O efeito foi semelhante ao que teria produzido o choque de um buril de aço energicamente acionado.

Urge se compreenda que a grandeza do efeito que um corpo produz está longe de corresponder ao peso desse corpo. Assim, uma quantidade extremamente fraca de gás, diz o Sr. Daubrée, falando da dinamite, produz efeitos verdadeiramente assombrosos. O peso de um quilograma e meio de gás, atuando sobre um prisma de aço de 134 centímetros quadrados (o que corresponde ao peso de 162 miligramas por milímetro quadrado), produz nele, a par de diferentes escavações na superfície, o seguinte:

1º) Rupturas, que somente pressões de um milhão de quilogramas seriam capazes de produzir, isto é, a pressão de um peso 600 mil vezes maior do que o do gás causador de tais despedaçamentos;

2º) Esmagamentos, que não podem corresponder a menos de 300 atmosferas.

Postas em confronto com efeitos mecânicos determinados pelo raio, mostram essas experiências que as mais altas formas da energia se acham sempre ligadas à matéria cada vez mais rarefeita.



É, pois, por indução absolutamente legítima que acreditamos na existência dos fluidos, isto é, de estados materiais em que a força viva das moléculas ou dos átomos aumenta sem cessar, até ao estado primitivo, que se caracterizará pelo máximo de força viva no mínimo de matéria. Entre a matéria sólida e o fluido universal, depara-se com uma imensa série graduada de transições insensíveis, em que o movimento molecular vai em constante crescendo. Pode-se resumir no quadro seguinte tudo o que acabamos de examinar:


Na unidade de volume máximo de matéria, ligada ao mínimo de força viva, limite absoluto: 273º abaixo de zero.

Matéria no estado sólido.

  • Minerais, metais, sais, etc.

  • Orientação fixa dos agrupamentos moleculares, uns com relação aos outros.

  • Oscilações restritas e movimentos de vibração das moléculas.




Matéria no estado líquido.

  • A água, o vinho, o álcool, etc.

  • Orientação móvel dos agrupamentos moleculares uns com relação aos outros.

  • Oscilações lentas, mas começo do movimento de rotação das moléculas sobre si mesmas.




Matéria no estado gasoso.

  • O ar, o hidrogênio, o oxigênio, etc.

  • Movimentos rápidos de translação das moléculas em todas as direções, acompanhadas de uma rotação mais pronunciada, à medida que a matéria se rarefaz.




Matéria no estado etérico imponderável.

  • Manifestando-se pelos fenômenos caloríficos, luminosos, elétricos. vitais, etc.

  • Movimentos de translação, mais rápidos do que no estado precedente; movimento rotatório dos átomos, desenvolvendo uma força centrífuga, que contrabalança a ação da gravitação.




Matéria no estado fluídico.

  • Todos os fluidos do mundo espiritual. Caracterizados por movimentos cada vez mais rápidos das moléculas e dos átomos. Sempre imponderáveis.

Na unidade do volume: máximo de força viva com o mínimo de matéria.

Matéria no estado cósmico ou primordial.

  • Máximo de movimentos atômicos. A matéria está no seu ponto extremo de rarefação. Acha-se no estado inicial e contém, em potência, todos os estados enumerados acima.



A ponderabilidade


Estudando o quadro precedente, é-nos lícito perguntar como pode a matéria chegar ao ponto de não pesar, isto é, a tornar-se imponderável. Compreendemos facilmente que a matéria, passando do estado sólido à forma gasosa, ocupe um volume maior, pois que o calor tem por efeito aumentar a amplitude das vibrações de todas as partes infinitamente pequenas que constituem o corpo, mas é claro que, se se recolher todo o gás produzido pela transformação de um corpo sólido em corpo gasoso, esse gás terá sempre o mesmo peso que quando estava concentrado sob uma forma material. Parece incompreensível que a matéria possa deixar de ter peso, mesmo que a imaginemos tão rarefeita quanto o queiramos; entretanto, é certo que a eletricidade ou o calor nenhuma influência exercem sobre a balança, qualquer que seja a quantidade que desses fluidos se acumule no prato do aparelho. Se tais manifestações da energia derivam de movimentos muito rápidos da matéria etérea, precisamos tentar compreender porque essa matéria não pesa.

Devemos prevenir o leitor de que, neste ponto, recorremos a uma hipótese e de que nos é toda pessoal a maneira pela qual resolvemos o problema. Se, portanto, não for concludente a nossa demonstração, a falta só nos deve ser imputada a nós e não ao Espiritismo.

Para termos a explicação do que neste caso se passa, precisamos lembrar-nos de que a ponderabilidade não é propriedade essencial dos corpos. O a que neste mundo se chama o peso de um corpo mais não é do que a soma das atrações exercidas pela Terra sobre cada uma das moléculas desse corpo. Ora, sabemos que a atração decresce com muita rapidez segundo o afastamento, pois que ela diminui na razão do quadrado da distância. Vemos, portanto, que um corpo pesará mais ou menos conforme esteja mais ou menos afastado do centro da Terra. A experiência demonstra que é assim. Pesando-se um pedaço de ferro em Paris, se seu peso for igual a dois quilogramas, quer isso dizer que a força de atração, nessa cidade, é, para aquele corpo, igual a 2 quilogramas. Se transportarmos esse ferro para o equador, ele pesará menos 5 gramas e 70 centigramas e no pólo mais 5 gramas e 70 centigramas. Que foi o que se deu?

Evidentemente, a massa do corpo considerado não mudou durante a viagem; mas, como a Terra, no equador, é mais volumosa, estando aquele pedaço de ferro mais afastado do seu centro, a atração é menos forte, sendo de 5,70g a diminuição por ela sofrida. No pólo, produziu-se a ação oposta, por isso que a Terra aí é achatada, de sorte que a gravitação aumentou de 5 gramas e 70 centigramas.

Logo, em geral, um corpo varia de gravidade conforme seja maior ou menor a sua distância ao centro da Terra. A gravidade é uma propriedade secundária, não ligada intimamente à substância. Bem compreendido isto, mais fácil se torna conceber-se como a matéria pode vir a ser imponderável. Bastar-lhe-á desenvolver uma força suficiente a contrabalançar a atração terrestre.

Ora, notou-se, precisamente, que os corpos que giram em torno de um centro, como a Terra sobre si mesma, desenvolvem uma força a que foi dado o nome de força centrífuga. Porque essa força tem por efeito diminuir a gravidade, em mecânica se define o peso de um corpo como sendo – a resultante da atração do centro terrestre, diminuída da ação que a força centrífuga exerce. Ela no pólo é nula e máxima no equador. Calculou-se que, se a Terra girasse 17 vezes mais depressa, isto é, se fizesse a sua rotação em 1 hora e 24 minutos, a força centrífuga se tornaria grande bastante para destruir a ação da gravidade, de modo que um corpo colocado no equador deixaria de pesar.

Apliquemos estes conhecimentos mecânicos às moléculas materiais que, como se sabe, são animadas de um movimento duplo, de oscilação e de rotação, e possível nos será imaginar, para cada uma delas, um movimento de rotação bastante rápido para que a força centrífuga desenvolvida anule a de gravitação. Nesse momento, a matéria se torna imponderável. Esta hipótese se ajusta bem aos fatos, pois que, à medida que a matéria se rarefaz, aumentam de rapidez os seus movimentos moleculares, como temos comprovado relativamente aos gases. A grande lei de continuidade nos leva a supor que o estado gasoso não é o limite último que se possa atingir; a matéria fluídica é aquela em a qual, acentuando-se o movimento molecular gasoso, a rarefação também se acentua e, com o desenvolver a rotação das moléculas crescente força centrífuga, a matéria passa ao estado de invisível e imponderável.

Em seu discurso sobre a gênese dos elementos, Crookes foi conduzido a levantar a questão de saber se não existem elementos de pesos atômicos menores do que zero, isto é, que não pesam. Lembra ele que, em nome da teoria, o Dr. Carnelay reclamou esse elemento, essa “não-substancialidade”. Cita igualmente a opinião de Helmholtz, segundo o qual a eletricidade é, provavelmente, atômica, como a matéria. Isto posto, ele pergunta se a eletricidade não será um elemento negativo e se o éter luminoso também não o será. Declara: “não é impossível conceber-se uma substância de peso negativo”. Antes dele, o Sr. Airy, na sua Vida de Faraday, escrevera: “Posso facilmente conceber que em torno de nós abundem corpos não submetidos a essa ação intermútua e, por conseguinte, não sujeitos à lei de gravitação.”

Aí chegado, podemos perguntar se a matéria primitiva é rigorosamente imponderável, isto é, absolutamente livre de toda e qualquer ação da gravitação.

Sabemos, evidentemente, que os movimentos da matéria primitiva, conhecidos sob os nomes de luz, calor, eletricidade, etc., nenhuma ação exercem sobre a mais sensível balança; não haverá, porém, apesar de tudo, uma atração que retenha essas forças da matéria em torno da Terra, de maneira a constituir para esta um envoltório permanente? Cremos que tal é a realidade e vamos dizer em que nos baseamos para emitir essa hipótese.

Examinando o nosso sistema solar, a Astronomia nos ensina que, primitivamente, o Sol e todos os planetas formavam uma imensa nebulosa de matéria difusa, tal qual outras que ainda vemos no espaço. Antes que se houvesse operado a condensação dessa matéria em focos distintos, qual poderia ser a sua densidade? Camille Flammarion responde com exatidão:193

“Suponhamos toda a matéria do Sol, dos planetas e de seus satélites uniformemente repartida no espaço esférico que a órbita de Netuno abrange; daí resultaria uma nebulosa gasosa, homogênea, cuja densidade é fácil de calcular-se.

Como a esfera d’água de igual raio teria um volume de mais de 300 quatrilhões de vezes o volume terrestre, a densidade procurada não seria de mais de meio trilionésimo da densidade da água. A nebulosa solar seria 400 milhões de vezes menos densa do que o hidrogênio à pressão ordinária, o qual, como se sabe, é o mais leve de todos os gases conhecidos (ele pesa 14 vezes menos que o ar: dez litros de ar pesam 13 gramas; dez litros de hidrogênio pesam 1 grama).”

Vê-se, pois, que essa matéria nebulosa atinge tal grau de rarefação, que a imaginação não a pode conceber; entretanto, a matéria ainda pesa, nesse estado último. Este ponto se acha perfeitamente determinado pelo estudo dos cometas, que são amontoados nebulosos de densidade extremamente fraca e que, no entanto, obedecem às leis da atração. Isto mostra que os fluídos formadores da nossa atmosfera terrestre têm uma densidade tão fraca quanto se queira, mas suficiente para os reter em nossa esfera de atração. Decorre daí este outro ponto importante: que a alma, revestida do seu corpo fluídico, não pode abalar para o infinito, no momento em que a morte terrena a libera da prisão carnal. Somente quando se ache terminada a sua evolução terrena, isto é, quando o perispírito está suficientemente desprendido dos fluidos grosseiros que o tornam pesado, é que o espírito pode gravitar para outras regiões e abandonar, afinal, o seu berço e, como o pássaro, desferindo o vôo, fugir do ninho onde viu a luz.

Aliás, também é possível que entre a matéria pesada e os fluidos relações existam oriundas, não mais da gravitação, porém de ações indutivas, como as que existem entre as correntes elétricas e magnéticas.

Estes argumentos, que se poderiam multiplicar, mostram que a ciência especulativa não se opõe de forma alguma à existência dos fluidos e que, nesse terreno, os Espíritos nos instruíram tão bem e tão exatamente, quanto lhes era possível fazê-lo. Os nossos instrutores do espaço se revelam bons químicos e excelentes físicos. Acionam forças e leis que ainda temos de descobrir, quer com relação aos fenômenos de transporte, quer para produzir essas maravilhosas materializações de que resulta a formação temporária, parcial ou total, de um ser vivo!

Completo é preciso que se torne o acordo entre o mundo espiritual e a Ciência, para que se opere a transformação desta humanidade rebelde, que cada dia mais se atola na negação de toda espiritualidade. Mas, a ação da Providência se faz sentir e as manifestações supraterrestres vêm arrancar os povos ao torpor em que caíram. Já muitas inteligências despertam e procuram saber o que se oculta por detrás dessas aparições, dessas casas assombradas, desses fenômenos espíritas que se lhes apresentavam como superstições vulgares. Vem próximo o dia em que as multidões aprenderão, com emoção religiosa, que a alma é imortal e que o reino da justiça imanente do Além se ergue sobre as bases inabaláveis da certeza científica.




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