David a morte de Sócrates


Capítulo II Estudo da alma pelo magnetismo



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Capítulo II
Estudo da alma pelo magnetismo


A vidente de Prévorst. – A correspondência entre Billot e Deleuze. – Os Espíritos têm um corpo; afirmações dos sonâmbulos. – Transportes (apport e asport). – As narrações de Chardel. – Outros testemunhos. – As experiências de Cahagnet. – Uma evocação. – Primeiras demonstrações positivas.

Acabamos de ver, no capítulo precedente, que a idéia de uma certa corporeidade, inseparável da alma, constituiu crença quase geral da antigüidade e a de uma multidão de pensadores até à nossa época.40 É evidente que essa concepção resulta da dificuldade que experimentamos em imaginar uma entidade puramente espiritual. Os nossos sentidos só nos dão a conhecer a matéria e mister se torna nos utilizemos a vista interior, para sentirmos que há em nós algo mais do que esse princípio. O pensamento, por si só, nos faz admitir, dada a sua carência de caracteres físicos, a existência de alguma coisa que difere do que cai sob a apreciação dos sentidos.

Mas, a idéia de um corpo fluídico também resulta das aparições. É manifesto que, quando se vê a alma de uma pessoa morta, forçoso é se lhe reconheça uma certa objetividade, sem o que ela se conservaria invisível. Ora, esse fenômeno se há produzido em todos os tempos e nas histórias religiosas e profanas formigam exemplos dessas manifestações do além.

Não ignoramos que a crítica contemporânea fez tábua rasa desses fatos, atribuindo-os em bloco a ilusões, a alucinações, ou à credulidade supersticiosa dos nossos avós. Strauss, Taine, Littré, Renan, etc., sistematicamente passam em silêncio todos os casos que poderíamos reivindicar. Semelhante processo não se justifica, porquanto, nos dias atuais, dados nos é comprovar as mesmas aparições e por métodos que permitem submetê-las a uma fiscalização severa. Assim sendo, assiste-nos o direito de concordar em que esses sábios se enganaram e que merecem atenção as narrativas de antanho.

Aliás, é fato positivo que não são novos os fenômenos do Espiritismo. Produziu-se em todos os tempos. Sempre houve casas mal-assombradas e aparições.41 Concebe-se, pois, que a idéia de que a alma não é puramente imaterial haja podido manter-se, a despeito do ensino em contrário das filosofias e das religiões.42

Era, porém, muito vaga, muito indeterminada a noção de um envoltório da alma. Esse corpo fluídico formar-se-ia subitamente, no instante da morte terrena? Seria para sempre, ou por tempo determinado, que a alma se revestia dessa substância sutil? Ou, então, essa aparência vaporosa seria devida apenas a uma ação momentânea, transitória, da alma sobre a atmosfera, ação destinada a cessar com a causa que a produzira? Eram questões essas que permaneceriam insolúveis, enquanto não se pudessem observar à vontade as aparições.


A vidente de Prévorst


O magnetismo foi o primeiro a fornecer meio de penetrar-se no domínio inacessível do amanhã da morte. O sonambulismo, descoberto por de Puységur, constituiu o instrumento de investigação do mundo novo que se apresentava. Submetidos a esse estado nervoso, puderam os sonâmbulos pôr-se em comunicação com as almas desencarnadas e descrevê-las minuciosamente, de modo a deixar convencidos os assistentes de que, na realidade, conversavam com os Espíritos.

O Dr. Kerner, tão reputado pelo seu saber, quanto pela sua perfeita honestidade, escreveu a biografia da Sra. Hauffe, mais conhecida sob a designação de A vidente de Prévorst.43 Não precisava ela adormecer, para ver os Espíritos. Sua natureza delicada e refinada pela enfermidade lhe facultava perceber formas que se conservavam invisíveis às outras pessoas presentes. Teve a sua primeira visão na cozinha do castelo de Lowenstein. Era um fantasma de mulher, que ela tornou a ver alguns anos depois.

Dizia, porém só quando a interrogavam com insistência, nunca espontaneamente, ter sempre junto de si, como o tiveram Sócrates, Platão e outros, um anjo ou daimon, que a advertia dos perigos a serem evitados não só por ela, como também por outras pessoas. Era o Espírito de sua avó, a Sra. Schmidt Gall. Apresentava-se revestida, como, aliás, todos os Espíritos femininos que lhe apareciam, de uma túnica branca com cinto e um grande véu igualmente branco.

Declarava que, após a morte, a alma conserva um espírito nérvico, que é a sua forma. Era esse envoltório que ela possuía a faculdade de ver, sem estar adormecida e muito melhor à claridade do Sol ou da Lua, do que na obscuridade.

“As almas, dizia, não produzem sombra. Têm forma acinzentada. Suas vestes são as que usavam na Terra, mas também acinzentadas, quais elas próprias. As melhores trazem apenas grandes túnicas brancas e parecem voejar, enquanto que as más caminham penosamente. São brilhantes os seus olhos. Elas podem, além de falar, produzir sons, tais como suspiros, ruge-ruge de seda ou papel, pancadas nas paredes e nos móveis, ruídos de areia, de seixos, ou de sapatos a roçar o solo. São também capazes de mover os mais pesados objetos e de abrir e fechar as portas.”

Eram objetivas essas visões? Quer dizer: verificavam-se algures, que não no cérebro da Sra. Hauffe? O Dr. Kerner procedeu a muitas investigações para se certificar da realidade desses Espíritos, que só a vidente percebia.

“Em Oberstenfald, uma dessas almas, a do conde Weiler, que assassinara seu irmão, apresentou-se à Sra. Hauffe, até sete vezes. Somente ela a viu; mas, vários parentes seus ouviram uma explosão, viram ladrilhos, móveis e candelabros se deslocarem, sem que pessoa alguma os tocasse, sempre que o fantasma vinha.

Outra alma de assassino, vestindo um hábito de frade, perseguiu a vidente, durante todo um ano, a lhe pedir, tal qual o fizera o conde Weiler, preces e lições de catecismo. Essa alma abria e fechava violentamente as portas, removia de um lugar para outro a louça, derribava pilhas de lenha, dava fortes pancadas nas paredes e parecia brincar de mudar, a todo momento, de lugar. Vinte pessoas respeitáveis a ouviram, ora dentro de casa, ora na rua, e atestariam o fato, se fosse preciso.

Um fantasma de mulher, trazendo nos braços uma criança, se mostrou muitas vezes à Sra. Hauffe. Como isso se desse com mais freqüência na cozinha, fez que levantassem uma laje e a uma grande profundidade foi achado o cadáver de uma criança.

Em Weinsperg, a alma de um guarda-livros, que cometera algumas infidelidades durante a vida, lhe apareceu, de sobrecasaca preta surrada, pedindo dissesse à sua viúva que não ocultasse mais os livros em que se encontravam suas escriturações falsas e indicou os lugares onde eles estavam, para que os entregasse à justiça. Ela atendeu ao pedido e com o auxílio daqueles livros foram reparadas algumas fraudes do morto.

Em Lenach, foi a alma de um burgomestre chamado Bellon, morto em 1740 com a idade de 79 anos, quem se lhe apresentou a pedir conselhos para escapar à perseguição de dois órfãos. Ela lhe deu os conselhos solicitados e, ao cabo de seis meses, a alma não mais voltou.

Essa morte está mencionada nos registros da paróquia de Lenach, com uma nota assinalando que o burgomestre causara dano a muitas crianças das quais era tutor.”

Acrescenta o Doutor Kerner que poderia citar uma vintena de aparições, cuja autenticidade foi depois verificada. Estando perfeitamente reconhecida a honradez desse doutor e achando-se quase sempre de cama a Sra. Hauffe, sem poder locomover-se e cercada de membros de sua família, nenhum embuste fora possível. São, pois, reais os fatos e, se bem hajam ocorrido muito antes que se falasse de Espiritismo, guardam as maiores analogias com os que presentemente se observam.

A correspondência entre Billot e Deleuze


Ouçamos agora uma segunda testemunha abonada, médica e homem honestíssimo, o venerável Billot, afirmando, na correspondência que manteve com Deleuze,44 sua crença nos Espíritos:

“Um fenômeno que provasse positivamente a existência dos Espíritos, desses seres imateriais que, segundo os “espíritos fortes”, não podem de maneira alguma cair ao alcance dos sentidos do homem, seria sem dúvida próprio para excitar a curiosidade pública e, sobretudo, prender a atenção dos sábios de todos os países, quaisquer que fossem as suas opiniões a respeito... Pois bem, tal fenômeno existe. Esta asserção que, à primeira vista, tem visos de paradoxo, para não dizer de extravagância, nem por isso deixa de encerrar uma grande verdade.” 45

Refere o nosso autor que fez parte, durante longo tempo, de uma associação de magnetizadores e pacientes, onde observou fenômenos de comunicação com os Espíritos, o que determinou a sua crença num mundo invisível, povoada pelas almas das pessoas mortas.

“As sessões começavam pela parte mística, isto é, pela atanatofania, ou aparição dos Espíritos, e terminavam pela parte médica, isto é, pelo rafaelismo, ou medicina angélica. Quando digo aparição não quero dizer que os Espíritos se tornassem visíveis aos associados, pois que só o eram para os sonâmbulos. Entretanto, a presença deles era indicada por algum sinal positivo, fato que posso atestar, pela circunstância de ser eu o encarregado de escrever tudo o que se passava naquelas sessões.”

As mais das vezes as inteligências que dirigem os sonâmbulos tomam formas de anjos. Vestem túnicas brancas, cintos de prata e freqüentemente asas. Acontece também reconhecerem, os lúcidos, pessoas do lugar, mortas há mais ou menos tempo. Mesmo no estado normal, os pacientes percebem não raro a voz dos guias invisíveis.

“Sinto, a princípio – diz um deles –, ligeiro sopro, como o da passagem de um zéfiro suave, que logo me refresca e esfria o ouvido. A partir daí, perco a audição e entro a perceber um zumbido fraco no ouvido, como o de um mosquito. Prestando então a mais acurada atenção, ouço uma voz que me diz o que em seguida repito.”

Alucinação auditiva, dirá o doutor moderno que ler esta narrativa, alucinação provocada, provavelmente, por auto-sugestão, ou por uma sugestão inconsciente do Dr. Billot. Mas, semelhante explicação se tornará inadmissível, desde que se prove que o ser invisível exerce uma ação física sobre o sonâmbulo, sem que este haja pensado no que vai acontecer e que o fato, da primeira vez, ocorra na ausência do doutor.

Com efeito, esses guias espirituais podem atuar sobre o corpo dos pacientes, pois o doutor foi testemunha de uma sangria que por si mesma cessara, logo que o sangue saíra em quantidade suficiente, sem que, em seguida, houvesse necessidade de fazer-se qualquer ligadura.46

Nota-se a cada instante, nas cartas desse sábio, que ele, durante muitos anos, assistiu a visões de Espíritos, cuidadosamente descritos pelos sonâmbulos. Com um senso crítico notável, Billot submeteu seus pacientes a numerosas experiências e só se pronunciou categoricamente depois de haver estudado por longo tempo. Não se trata de um crente que aceita às cegas todas as doutrinas. Ele raciocina friamente e só à evidência se rende. Não lhe falta bom senso para não atribuir a causas sobrenaturais a ação do Espírito sobre a matéria, no que apenas vê o efeito de leis ainda ignoradas, mas que um dia serão descobertas:

“Quanto às operações dos Espíritos sobre o corpo, se algumas há que se podem qualificar de prodigiosas, nem por isso são contrárias a Natureza. Ora, havendo ainda muitas coisas ocultas na Natureza, não é de espantar sejam tidos por sobrenaturais certos fenômenos que, todavia, se incluem na ordem das coisas criadas. E, se algumas leis da Natureza ainda se nos conservam ocultas, é porque o homem ainda não foi estudado como o deve ser, isto é, em todas as suas relações com a Criação.” 47

Nessa correspondência, é digno de observar-se o caráter particular de cada um dos contendores: Deleuze, frio e desconfiado, com dificuldade se rende às prementes objurgações “do solitário”, conforme Billot se intitula. Entretanto, ele concorda, afinal, em que pôde observar pacientes que se achavam em comunicação com as almas dos mortos.

“O magnetismo – diz – demonstra a espiritualidade da alma e a sua imortalidade; ele prova a possibilidade da comunicação das Inteligências separadas da matéria com as que lhe estão ainda ligadas; nunca, porém, me apresentou fenômenos que me convencessem de que essa possibilidade se efetiva com freqüência.” 48

Um pouco adiante, torna-se mais afirmativo e escreve ao Dr. Billot:

“O único fenômeno que parece estabelecer a comunicação com as Inteligências imateriais são as aparições, das quais há muitos exemplos. Como estou convencido da imortalidade da alma, não vejo razão para negar a possibilidade da aparição das pessoas que, tendo deixado esta vida, se preocupem com os que lhes foram caros e venham apresentar-se-lhes para lhes dar salutares conselhos. Acabo de colher um exemplo. Ei-lo.

Uma moça sonâmbula, que perdera o pai, por duas vezes o viu muito distintamente. Viera dar-lhe conselhos importantes. Depois de lhe elogiar o proceder, anunciou-lhe que um partido se lhe ia apresentar; que esse partido pareceria convir e que o rapaz não lhe desagradaria; mas, que ela não seria feliz desposando-o e que, portanto, o recusasse. Acrescentou que, se ela não aceitasse esse partido, outro logo depois apareceria, devendo achar-se tudo concluído antes do fim do ano. Estava-se no mês de outubro.

O primeiro rapaz foi proposto à mãe da moça; esta, porém, impressionada com o que o pai lhe dissera, o recusou.

Um segundo jovem, que acabava de chegar da província, foi apresentado por amigos; pediu a donzela em casamento, realizando-se este a 30 de dezembro.

Não pretendo dar este fato como prova sem réplica da realidade das aparições; mas, quando nada, ele a torna tanto mais verossímil, quanto se sabe que há outros fatos do mesmo gênero.”

A fim de levar seu amigo a uma crença completa, decide-se Billot a lhe narrar os fenômenos de transporte 49 de que fora testemunha. Aqui, não se pode duvidar que uma inteligência estranha aos assistentes esteja em comunicação com a sonâmbula, pois que fica sempre uma prova tangível dessa ação supraterrestre.

Eis como nosso doutor relata o fenômeno:

“Tomo a Deus por testemunha da verdade contida nas observações que seguem... a causa ressaltará tão-só das demonstrações materiais e cairá sob a percepção dos sentidos, por virtude da observação e da experiência.

1ª observação


Uma senhora, atacada, havia algum tempo, de cegueira incompleta, solicitava dos nossos sonâmbulos um auxílio que detivesse os progressos da amaurose que, em breve, não lhe permitiria distinguir das trevas a claridade. Certo dia (a 17 de outubro de 1820), dia de sessão, disse a sonâmbula consultada: “Uma donzela me apresenta uma planta... toda coberta de flores... não a conheço absolutamente... não me dizem o nome... Entretanto, ela é necessária à Sra. J...”

– Onde encontrá-la? – perguntei –, uma vez que nos campos nenhuma planta temos em floração, achando-nos, como nos achamos, na estação fria.50 Será preciso procurá-la longe daqui?

– Não se preocupe – responde a sonâmbula –, ela nos será trazida, se for preciso.

Como insistíssemos para saber em que lugar a donzela nos quereria indicar a referida planta, a senhora cega, que se achava presente, defronte da sonâmbula, exclamou: “Meu Deus! Palpo uma toda florida no meu avental; acabam de depor aí... Veja, Virgínia (era o nome da sonâmbula)... veja: será a que lhe ela apresentava há pouco?

– Sim, senhora – respondeu Virgínia –, é essa mesma. Louvemos a Deus, agradecendo-lhe esse favor.”

Examinei então a planta. Era um arbúsculo, quase como um tomilho de tamanho médio. As flores, labiadas e em espigas, exalavam delicioso perfume. Pareceu-me o tomilho de Creta. Donde vinha ela? Do seu país natal ou de alguma estufa? Não o soube. O que sei muito bem é que possuo dessa planta uma haste que a donzela me concedeu, depois de muitas instâncias.”

A quem, lendo-lhe o livro, se haja convencido da boa-fé e da lealdade do Dr. Billot, não será possível pôr em dúvida a sinceridade dessa narrativa. Diremos, pois, com ele: “Não prova, esta primeira observação, de maneira irrecusável, o espiritualismo? Haverá mister comentários? Não põe ela por terra qualquer teoria diferente da que expomos (intervenção dos Espíritos)? Incorremos em erro dizendo que só esta teoria pode explicar tão extraordinário fenômeno?”

Faremos notar que não havia ali possibilidade de fraude, pois que a planta era desconhecida naquela região e, ao demais, com flores, quando a estação absolutamente não se prestava a isso. Não esqueçamos tampouco o delicioso perfume que se espalhou de súbito pelo aposento, quando a planta apareceu. Este pormenor, por si só, bastaria para demonstrar a autenticidade do fenômeno. Citamos este fato, não somente para afirmar a realidade da visão, mas também para mostrar o poder que possuem os Espíritos de atuar sobre a matéria, por processos que ainda completamente desconhecemos.

Deleuze não põe em dúvida o fenômeno, porque outros semelhantes lhe foram com freqüência descritos.

“Tive esta manhã – escreveu ele ao Dr. Billot – a visita de um médico muito distinto, homem de espírito, que já apresentou várias memórias à Academia das Ciências. Vinha para me falar do magnetismo. Narrei-lhe alguns fatos de que você me deu conhecimento, sem, entretanto, declinar o seu nome. Respondeu-me que disso não se admirava e me citou grande número de fatos análogos, que muitos sonâmbulos lhe apresentaram. Você bem poderá imaginar que fiquei muito surpreendido e que a nossa conversação se revestiu do maior interesse. Entre outros fenômenos, referiu-me ele o de objetos materiais que o sonâmbulo fazia vir à sua presença, fenômeno esse da mesma ordem que o do aparecimento do ramo de tomilho de Creta...”

Por esse testemunho se vê que os fenômenos de transporte já não eram ignorados no começo do século dezenove, o que mais uma vez demonstra a continuidade das manifestações espíritas que constantemente se hão dado, mas que o público rejeitava como diabólicas ou considerava apócrifas, se não produzidas por charlatães.

Se nos não faltasse espaço, divulgaríamos como Billot entrava em comunicação com os Espíritos, por intermédio do dedo de seu paciente, então perfeitamente vígil, mediante uma espécie de tiptologia especial. Limitar-nos-emos a recomendar ao leitor essa interessante correspondência, a fim de podermos dar a palavra a outras testemunhas.


As narrações de Chardel


Vamos agora apresentar alguns extratos das narrativas de Chardel, os quais instruem ao mesmo tempo sobre as relações dos sonâmbulos com o mundo dos desencarnados e sobre o estado do sonâmbulo durante o sonambulismo.51

Certa vez, estando a ditar algumas prescrições terapêuticas ao seu magnetizador, disse-lhe em tom singular a sonâmbula Lefrey:

– Veja bem que ele me ordena.

– Quem é – pergunta o doutor – que lhe ordena isso?

– Ora! ele; o senhor não o ouve?

– Não, a ninguém ouço, nem vejo.

– Ah! tem razão – replica ela –, o senhor dorme, ao passo que eu estou desperta...

– Como você, minha cara, está a sonhar, pretende que eu durmo, se bem me ache com os olhos perfeitamente abertos e a tenha sob a minha influência magnética, dependendo tão-só da minha vontade fazê-la voltar ao estado em que se encontrava ainda há pouco. Você se julga desperta porque me fala e dispõe, até certo ponto, do seu livre-arbítrio, embora não possa levantar as pálpebras.

– O senhor está adormecido, repito-o. Eu, ao contrário, estou quase tão completamente acordada, quanto o estaremos um dia. Explico-me: tudo o que o senhor pode ver, atualmente, é grosseiro, material; de tudo o senhor distingue a forma aparente; as belezas, reais, porém, lhe escapam, enquanto que eu, que estou com as minhas sensações corporais temporariamente suspensas, que tenho a alma quase inteiramente liberto de seus entraves habituais, vejo o que lhe é invisível, ouço o que seus ouvidos não podem escutar, compreendo o que lhe é incompreensível.

Por exemplo, o senhor não vê o que sai do seu corpo e vem para mim, quando me magnetiza; eu, entretanto, vejo isso muito bem. A cada passe que o senhor me dá, vejo sair-lhe das extremidades dos dedos como que pequenas colunas de uma poeira ígnea, que se vem incorporar em mim e, quando o senhor me isola, fico por assim dizer envolta numa atmosfera ardente, formada dessa mesma poeira ígnea.52 Ouço, quando o quero, o ruído que se faz ao longe, os sons que partem e se espalham a cem léguas daqui. Numa palavra: não preciso que as coisas venham a mim; posso ir ter com elas, onde quer que estejam, e apreciá-las com muito maior exatidão, do que o poderia qualquer outra pessoa que não se encontre em estado análogo ao meu.”

Refere também o autor da Fisiologia do Magnetismo que uma sonâmbula costumava ter, à noite, uma espécie de êxtase, que explicava assim:

“Entro, então, num estado semelhante ao em que o magnetizador me põe e, dilatando-se o meu corpo pouco a pouco, vejo-o muito distintamente longe de mim, imóvel e frio, como se estivesse morto. Quanto a mim, assemelho-me a um vapor luminoso e sinto-me a pensar separada do meu corpo. Nesse estado, compreendo e vejo muito mais coisas do que no sonambulismo, quando a faculdade de pensar se exerce sem que eu esteja separada dos meus órgãos. Mas, escoados alguns minutos, um quarto de hora, no máximo, o vapor luminoso de minha alma se aproxima cada vez mais do meu corpo, perco os sentidos, cessa o êxtase.”

Acrescenta o autor que, chegando a esse grau de expansão do sistema nervoso, o homem espiritualizado, ou, se o preferirem, fluidificado em todo o seu ser, goza de todas as faculdades dos a quem se chamam Espíritos e que somente nesse estado é que se acha, por assim dizer, quebrada e completamente difundida a centralização da sensibilidade nervosa.

Havemos de ver que a narrativa dessa sonâmbula, referente ao estado de vapor luminoso que ela assume desde que sai do seu corpo, tem a confirmá-la experimentalmente os trabalhos de De Rochas sobre a exteriorização da sensibilidade.

Prossigamos.

Outra sonâmbula que, como essa, tinha, durante a noite, visões que em nada se assemelhavam aos sonhos ordinários e que a deixavam em extrema fadiga, disse um dia ao mesmo doutor:

“Parecia que me achava suspensa nos ares, sem forma material, tornada por inteiro vapor e luz, e que lhe mostrava, deitado na cama, qual verdadeiro cadáver, o meu corpo. Veja, dizia-lhe eu, está morto e assim estará dentro de trinta dias. Depois, insensivelmente, aquela luz, que eu sentia ser eu mesma, se aproximou do cadáver, meteu-se nele e recuperei os sentidos, exausta como após longo e penoso sono magnético.”

Outros testemunhos


Para os que crêem na imortalidade da alma, indubitável se torna que, sendo possível a comunicação com os Espíritos, quem haja de realizá-la tem que se colocar numa posição tão próxima quanto possível da em que se achará depois da morte.

Ora, com certos pacientes, o sonambulismo parece eminentemente apropriado a dar esse resultado. Momentaneamente desprendido, ao menos em parte, do laço fisiológico, o Espírito se encontra num estado quase idêntico ao em que um dia se achará permanentemente. Ao demais, se admitirmos que as almas desencarnadas se comunicam entre si, o que parece evidente, claro se faz que elas poderão manifestar-se aos sonâmbulos, quando estes se acharem mergulhados no sono magnético.

Isso os magnetizadores, em sua maioria, se viram obrigados a reconhecer. Malgrado ao seu cepticismo, diz o Dr. Bertrand,53 falando de um sonâmbulo muito lúcido:

“Essa mulher se exprimia sempre como se um ser distinto, separado dela e cuja voz se fazia ouvir na região do estômago, lhe houvesse transmitido todas as noções extraordinárias que ela manifestava em sonambulismo. Verifiquei o mesmo fenômeno na maior parte dos sonâmbulos que tenho observado. O caso mais vulgar é o em que ao sonâmbulo parece que os acontecimentos que ele anuncia lhe são revelados por uma voz.”

O barão du Potet, por longo tempo incrédulo, foi, a seu turno, constrangido a confessar a verdade. Informa ele como encontrou de novo, no magnetismo, a espiritologia antiga e quais os exemplos que o levaram a crer no mundo dos Espíritos, mundo que, diz,54 “o sábio rejeita como um dos maiores erros dos tempos idos, mas em o qual o homem profundo é induzido a acreditar por efeito de exame sério dos fatos”.

Noutro lugar,55 afirma que se pode entrar em relações com os Espíritos desprendidos da matéria, a ponto de obter-se deles aquilo de que se tenha necessidade.

Poderíamos multiplicar as citações tomadas à rica biblioteca do magnetismo espiritualista e mostrar que Charpignon, Ricard, o padre Loubet, Teste, Aubin, Gauthier, Delaage, etc., creram nas comunicações entre vivos e desencarnados. Não devemos, porém, esquecer que o nosso objetivo especial é o estudo do perispírito e, por isso, passamos imediatamente a um pesquisador consciencioso, homem de boa-fé, Cahagnet, que foi quem melhor estudou esses fenômenos.

As experiências de Cahagnet


Até aqui ouvimos muitos magnetizadores afirmando a realidade das relações do nosso com um mundo supranormal. As mais das vezes, os pacientes vêem “seus guias” ou “anjos guardiães”, que eles quase sempre descrevem como sendo um belo jovem, vestido de branco. As visões, muito freqüentemente, são místicas: é a Virgem que aparece; recitam preces para afastar os maus Espíritos. Raramente a personagem descrita é um defunto.

Será que sempre os pacientes vêem personagens reais? Não o cremos; a maior parte do tempo, são sugestionados pelo experimentador e também pela própria imaginação. Devemos, pois, preservar-nos cuidadosamente de dar qualquer crédito às suas afirmações, desde que estas não assentem em provas absolutas, do gênero das que reproduzimos, apresentadas pelo Dr. Billot.

Carece de valor positivo a visão de um Espírito, se não há certeza absoluta de que não se trata de uma auto-sugestão do sonâmbulo ou de uma transmissão de pensamento do operador.

O seguinte fato, que o Dr. Bertrand citou numa de suas conferências e que o general Noizet reproduziu, é prova convincente do que dizemos.56

Um magnetizador muito imbuído de idéias místicas tinha um sonâmbulo que durante o sono só via anjos e Espíritos de toda espécie, visões essas que serviam para confirmar cada vez mais a crença religiosa do primeiro. Como ele costumasse mencionar, em apoio do seu sistema, os sonhos desse sonâmbulo, outro magnetizador tomou a si desiludi-lo, mostrando-lhe que o referido sonâmbulo só tinha as visões que ele relatava, porque no seu próprio cérebro existia o tipo de tais visões. Para provar o que avançava, propôs-se a fazer que o mesmo sonâmbulo visse todos os anjos do paraíso reunidos em torno de uma mesa a comer um peru. Adormeceu então o sonâmbulo e, ao cabo de algum tempo, lhe perguntou se não via algo de extraordinário. Respondeu o interrogado que estava vendo uma grande reunião de anjos. – Que fazem eles? Inquire o magnetizador. – Estão ao redor de uma mesa e comem. Não pôde, entretanto, precisar qual o alimento de que se serviam.

Cumpre, portanto, se observe extrema circunspeção em aceitar narrativas de sonâmbulos, pois toda gente sabe que eles às vezes são muito sugestionáveis, mesmo mentalmente. Desconfiemos de descrições do paraíso e do inferno, quais as têm feito pacientes e místicos de todos os países e de todas as épocas.

Com Cahagnet 57 tudo é completamente diverso. Já não são seres angélicos que se mostram, mas Espíritos que viveram entre nós e que se tornam reconhecíveis por se apresentarem com o mesmo aspecto que tiveram neste mundo, com vestuários semelhantes aos que aqui usavam. São nítidas e precisas as suas recordações e dão provas de discernimento e de vontade, como se ainda estivessem na Terra. Não são simples reprodução de imagens dos seres desaparecidos: são individualidades que conversam, se movem, vivem e afirmam categoricamente que a morte não as atingiu. Já há nisso alguma coisa de verdadeiro Espiritismo; daí, aquele tolle geral, quando apareceram Os Arcanos da vida futura desvendados. Tudo o que a ignorância, o fanatismo, a tolice reeditaram posteriormente contra a nossa doutrina foi então despejado sobre o pobre magnetizador. Ouçamos o seu doloroso lamento.

“Nosso adversário, o barão du Potet,58 nos dissera as seguintes palavras, para nós proféticas, quando publicamos o primeiro volume desta obra: “O senhor trata destas questões com a excessiva antecipação de vinte anos; o homem ainda não está preparado para as compreender.”

Ah! respondemos, porque então banha ele de suas lágrimas as cinzas dos que julga haver perdido para sempre? Em que momento da existência humana poderá chegar mais a propósito, para dizer a esse homem: Consola-te, aquele que supões separado de ti para sempre se acha a teu lado, a te afirmar, por meu intermédio, que está vivo, que se sente mais ditoso do que na Terra e que te aguarda em esferas próximas para continuar em intimidade contigo. Se não queres acreditar no que te digo, atenta na linda cabeça desta criança, que chora porque te vê chorar, porque lhe dizes que ela não tornará a ver sua querida mamãe. Põe-lhe a mão na fronte e, ao cabo de poucos minutos, tu a verás sorrir para aquela que julgas morta e a ouvirás contar-te o que é feito de sua mãe, onde está e o que faz. Não poderás duvidar um instante de que esse mármore que te apavora é a porta do templo da imortalidade, onde viveremos todos eternamente, para eternamente nos amarmos.

Digo isto a esse irmão infortunado e ele, em vez de me apertar a mão em sinal de reconhecimento, me lança um olhar de desprezo, exclamando: Este homem está louco!”

Mas, era um lutador soberbo esse trabalhador, que teve a glória de fazer-se o que foi: um dos pioneiros da verdade. Combateu vigorosamente seus contraditores, reduzindo-os ao silêncio. Os dois primeiros volumes dos Arcanos contêm as descrições de experiências realizadas com oito extáticos que possuíam a faculdade de ver os Espíritos desencarnados. O ponto culminante foi atingido com um deles, Adélia Maginot, com quem ele obteve longa série de evocações. Há na obra mais de 150 atas firmadas por testemunhas que declaram haver reconhecido os Espíritos que a sonâmbula descreveu. É esse um fato importantíssimo, para o qual nunca será demais chamar a atenção. Não se pode razoavelmente supor que homens pertencentes a todas as esferas sociais, de indiscutível honradez, se hajam conluiado para atestar mentiras. Há, pois, nessas experiências uma nova estrada, uma mina fértil a ser explorada pelos pesquisadores ávidos de conhecimentos sobre o além. Eis aqui um exemplo que mostra como habitualmente as coisas se passavam.59

Uma evocação


“O Sr. B..., magnetizador e subscritor dos Arcanos, deseja uma sessão de aparição. Logo que Adélia cai em estado sonambúlico, chamamos o Sr. B... Ernesto, Paulo, morto, irmão do Sr. B... A essa sessão assiste a mãe deste senhor.

Diz Adélia: Ei-lo! Dá-nos alguma indicação? Vejo-lhe os cabelos castanho-claros, fronte bela e ampla, olhos tendendo para o pardo, sobrancelhas bem arqueadas, nariz um tanto pontiagudo, boca média; tez clara, pálida e delicada, queixo redondo, corpulência fraca, se bem deva ter sido forte; a moléstia o enfraqueceu muito; traz um costume de cor escura (azeitona, creio); tem ar dolente, calmo e sofredor; provavelmente sofreu do coração e do peito, experimentou fraquezas nas pernas. Não andava isento de pesares, muito se afligia intimamente, sem deixar que o percebessem; ficava às vezes pensativo, absorvido por idéias sombrias; amava uma pessoa, donde boa parte das suas penas; era muito sensível.

– Que idade ele te parece ter?

– Cerca de vinte e cinco anos; seu estomago se fatigou muito com excessos da mocidade.

– Quem o recebeu no céu?

– Seu avô.

– Teve, de fato, seu pai uma visão em que o viu no céu ao lado de sua avó?

– É verídica essa visão, mas quem primeiro o recebeu foram seus avôs paternos, que ele conheceu na Terra; esse avô lhe estendia os braços, nos quais ele se precipitou; sua avó estava entre os outros, não faltava gente a esperá-lo... Não teve agonia. Não acreditava no magnetismo, mas pede que eu diga a seu irmão que agora acredita.

– Quem velava o seu cadáver?

– Sua família.

– Onde foi enterrado?

– No Père-Lachaise.

– Seus restos ficaram sempre no mesmo túmulo?

– Não; foram reunidos aos de seu avô, desse que primeiro o recebeu no céu.

– Quais as pessoas que iam logo após o seu esquife?

– Dentre todos, ele distinguiu melhor seu irmão.

– Adélia está fatigada; terminamos.

O Sr. B... ficou encantado com essa experiência; a senhora sua mãe se mostra imersa na mais profunda dor; seu filho lhe manda dizer por Adélia que não chore, que ele é mais feliz do que ela; desejara que ela concluísse o tempo de suas provas; fora visitá-la muitas vezes durante o sono para a consolar, não tendo feito que se lembrasse de suas visitas para lhe não aumentar a amargura dos pesares. Apareceu do mesmo modo ao senhor seu irmão e ainda lhe aparecerá. Agradece-lhe o tê-lo sepultado.

O Sr. B... não descobre uma silaba a suprimir desse acervo de detalhes; a senhora sua mãe apenas alimenta certas dúvidas quanto à cor dos olhos; não pode lembrar-se qual exatamente era. Permitiu Deus que a nossa fé mais se fortalecesse. O Sr. B... desejando, por questões de família, ocultar o seu nome, assinou uma segunda via da ata desta sessão, para me garantir, no futuro, contra as reticências que alguns homens desmemoriados e chicanistas possam opor à realidade do que ouviram e reconheceram verdadeiros. Daqui por diante procederei assim.

No dia seguinte ao dessa sessão, o Sr. B... veio a nossa casa para dizer que, em conseqüência daquela aparição, ele convocara uma reunião de família, a fim de se certificar da cor exata dos olhos de seu irmão; a generalidade das recordações foi favorável à cor que Adélia descrevera. Grande satisfação me deu essa particularidade, porque, havendo aquele senhor dito a Adélia: – “A senhora se engana; minha mãe acha que os olhos eram azuis; persiste a senhora em vê-los castanhos?” – ela respondeu: – “Ser-me-ia muito fácil concordar com a senhora sua mãe, uma vez que ela os julga tais e que isso confirmaria a verdade de tudo o que por mim foi dito; mas, eu mentiria e não diria o que vejo. Para mim, são castanhos.” Foi em face dessa afirmativa que aquele senhor convocou para uma reunião o membro de sua família e se considerou no dever de me dar ciência do resultado de tal reunião.”

A cada passo, encontram-se nesses volumes provas semelhantes. Fora, porém, conhecer mal a nossa época imaginar-se que essas narrativas tiveram o dom de determinar convicções. Ninguém jamais contestou a boa-fé de Cahagnet; seus contemporâneos o reconheceram homem honesto, incapaz de alterar a verdade, mas pretenderam que aqueles fenômenos podiam explicar-se todos por uma transmissão de pensamento, a se operar entre o consultante e o paciente.

Podemos certificar-nos do nenhum valor dessa objeção, neste caso, desde que atentemos nas circunstâncias que acompanharam a aparição. Ela conversa, manda dizer à sua mãe, por Adélia, que não se atormente. E porque aquela imagem estaria associada à do avô paterno, quando, no pensamento da mãe e do irmão, a avó do morto era quem o devera ter recebido no Além? 60

Aliás, para responder a semelhante objeção, que foi a arma sempre à mão dos incrédulos, o autor relata certo número de aparições às quais ainda menos aplicável é a mencionada explicação.61

Aqui está uma, entre muitas outras.

“O padre Almignana, já citado, parecendo não mais convencido pelos detalhes que, sobre a aparição de seu irmão, Adélia lhe fornecera e que ele solicitara na segunda sessão, veio comunicar-me suas dúvidas a respeito. No momento Adélia estava adormecida. Ele me pediu evocasse a irmã de sua criada, que se chamara Antonieta Carré e morrera havia alguns anos.62 Evoquei-a.

– Disse Adélia: – Vejo uma mulher de altura mediana, cabelos castanho-claros, de cerca de 45 anos, não bonita, de pequenos olhos cinzentos, nariz grande um tanto grosso na extremidade, tez amarelada, boca chata; tem o que chamamos papeira; faltam-lhe dentes da frente, sendo os poucos que lhe restam escuros como tocos; suas vestes são as que no campo se denominam trajes caseiros: corpete escuro, saia listrada um tanto curta; avental de chita em torno do corpo; no pescoço um lenço de quadrados; suas mãos denotam trabalhos pesados: trabalhava no campo; tinha um irmão que morreu depois dela; não está, porém, no mesmo plano que ela, porque, sem ser um mau sujeito, não era muito regrado. Essa mulher me dá a impressão de ter sido muito boa.

O Sr. Almignana levou escritos esses pormenores e me endereçou uma carta donde extraio as passagens seguintes:

“Depois de ter lido quatro vezes, para Maria Francisca Rosália Carré, os sinais acima, ela me declarou que eram tão exatos, que não podia deixar de reconhecer sua própria irmã, Antonieta Carré, na mulher que aparecera à sonâmbula. Quanto a seu irmão, confirma que morreu depois da irmã, como o dissera Adélia. Acrescenta uma circunstância que não deixa de ser digna de nota: diz ter sonhado, na noite de 30 para 31 de janeiro (véspera da sessão), que se achava junto ao túmulo da irmã e do irmão, mas que sua atenção era mais solicitada pela primeira. (Ela jamais sonhara com a irmã desde que esta morrera.)”

“Assinado: Almignana.”

Farei notar, a meu turno, que o padre Almignana, como a sua criada, não sabiam, no dia dessa sessão, que chamaríamos aquela mulher. Foi de improviso que lhe dirigi a seguinte pergunta: Conhece algum morto cuja aparição pudesse convencê-lo? Ele me respondeu: Chame a irmã de minha criada; assim, nenhuma influência haverá, nem comunicação de pensamento, pois a minha criada não está aqui e nada sabe do que se vai passar. Como se acaba de ver, o êxito foi completo. Aquela mulher, para melhor provar a seu patrão que o que ele ouvira era verdade, disse ter sido ela quem dera à irmã o lenço descrito. A aparição de Antonieta Carré é de molde a destruir a objeção malévola da transmissão de pensamento, ou, então, somos todos loucos, pretendendo provar a asnos a existência da alma.”

Mais um pormenor referente a essa aparição:

“O Sr. Almignana, alguns dias após aquela sessão, veio a nossa casa e me contou que a sua criada se encontrara na véspera com um homem da sua terra, para o qual lera, pois que os tinha consigo, os sinais da irmã, perguntando-lhe se conhecia a pessoa a quem os mesmos se referiam. O homem lhe respondeu: Mas, é de sua irmã morta o retrato que a senhora me faz; é da gente não se enganar. A criada do Sr. Almignana ponderou ao homem que entre os sinais se mencionava um pequeno botão na face e que ela, entretanto, jamais notara na irmã nenhum sinal desse gênero. Ao que o homem replicou: Está enganada; tinha ela um aqui (e mostrou o lugar). Maria Francisca se recordou e ainda mais convencida ficou, assim como o Sr. Almignana, desejoso dessa exatidão perfeita, que nenhum cabimento deixa à dúvida.

Foi necessária uma terceira pessoa para estabelecer a realidade daquele pormenor que, portanto, não podia ter sido visto no pensamento de pessoa alguma. (Eu esquecera de mencionar esse pequeno sinal nas indicações que acima se lêem.)”

São dessa natureza os fatos que firmam convicção. Reportando-se aos Arcanos, aí encontrará o leitor grande número deles. As narrativas que contêm constituem documentos preciosos, porquanto se acham autenticados; mostram que o Espírito conserva ou pode retomar no espaço a forma que tinha na Terra e a reproduz com extraordinária fidelidade, de maneira a ser reconhecido, mesmo por pessoas estranhas. Esses seres que se apresentam ao vidente afirmam suas personalidades por meio de uma linguagem idêntica à de que usavam neste mundo e pela revelação de particularidades de suas vidas passadas, que somente eles podiam conhecer.

Um ponto ainda nos deve prender a atenção. Compreende-se que a alma humana seja imortal, pois difere do corpo; que constitua uma unidade indecomponível; menos compreensível é, no entanto, que ela possa apresentar-se revestida de roupas. Onde toma tais roupas, que, evidentemente, não são imortais? Estudaremos mais longe essa questão e esperamos deixá-la inteiramente elucidada. Vejamos como Cahagnet a explica:63

“O Sr. du Potet, apreciando o primeiro volume desta obra, ridiculizou o que dizemos acerca das vestes com que se apresentam os Espíritos que chamamos às nossas sessões de aparições, exclamando: “Vê o senhor tal Espírito uniformizado de guarda nacional?” Outro crítico, insistindo na mesma apreciação, chegou a nos negar a possibilidade de conversar com esses Espíritos no patoá que falamos. Em conseqüência, negou-se a admitir que eles usem vestes terrenas.

O número 162 do Jornal do Magnetismo traz uma narrativa muito curiosa sobre as manifestações espirituais que presentemente se dão na América e pelas quais os Espíritos estabelecem relações com os homens da Terra, conversam com eles e lhes tornam sensíveis as suas presenças, por meio de contactos, transportes de móveis e ruídos que todos os espectadores escutam.

O autor desse artigo, caindo nos mesmos erros do Sr. du Potet, parece não admitir que os Espíritos se mostrem envergando roupas que os assistentes afirmam ver.

Perguntaremos a esses escritores: prefeririam que os Espíritos nos aparecessem em trajes de Adão?

Perguntar-lhes-emos, ao demais, quem lhes provaria que eles são seres pensantes, se não falassem? Quem lhes provaria que não são simples imagens de trespassados, daguerreotipadas na memória do interrogante, se não respondessem às perguntas deste, no patoá que falamos, está claro, para que os compreendamos?

Se não tivessem uma linguagem tão representativa como a terrestre, dir-se-ia que ninguém os pode interrogar.

Se nos respondessem numa linguagem musical, aromática ou sensitiva, dir-se-ia que são lingüistas orgulhosos, que não querem conspurcar a língua que falam com as frases e os sons de que se serviam na Terra.

Se vêm vestidos como neste mundo, são tidos como extremamente vulgares e fora do progresso das modas terrestres.

Se se trajam mais elegantemente, acham que estão muito agarrados ao ideal das Mil e Uma Noites.

Se se mostram nus, são considerados impudicos e toda gente quer saber como é que trajavam na Terra.

Com que tecido querem então que eles se cubram? Qualquer tecido, por mais espiritualizado que seja, será sempre um tecido que exigiu um tecelão.”

A verdade é que o Espírito cria, voluntariamente ou não, a sua vestidura fluídica, conforme mais adiante o veremos.

Em suma, a idéia de um corpo espiritual da alma se libertou duma parte de sua obscuridade. Graças ao sonambulismo, já nos achamos de posse de um meio de ver os Espíritos e de nos certificarmos de que eles se apresentam com uma forma corpórea que reproduz fielmente o corpo físico que tinham na Terra. Isto já não é uma hipótese; é um fato resultante da observação experimental. Mister se torna ler os numerosos atestados que se encontram no fim do seu segundo volume, para se ficar bem persuadido de que os trabalhos de Cahagnet não são isolados. Foram retomados e verificados por grande número de magnetizadores, que afirmaram ter obtido os mesmos resultados. Para nós, portanto, é ponto fora de questão e fácil se nos torna renovarmos esses fenômenos, pois basta nos coloquemos nas condições indicadas pelo autor.

Vamos ver agora, através de experiências feitas em companhia de médiuns, bem como por meio das aparições espontâneas, que é uma lei geral essa em virtude da qual a alma se mostra, após a morte, com aparência idêntica à que tinha quando vivia no corpo.




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