David a morte de Sócrates


Capítulo III Testemunhos dos médiuns e dos espíritos a favor da existência do perispírito



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Capítulo III
Testemunhos dos médiuns e dos espíritos
a favor da existência do perispírito


Desprendimento da alma. – Vista espiritual. – O Espiritismo dá certeza absoluta da existência dos Espíritos, pela visão e pela tiptologia simultâneas. – Experiências do Senhor Rossi Pagnoni e do Doutor Moroni. – Uma visão confirmada pelo deslocamento de um objeto material. – O retrato de Vergílio. – O avarento. – A criança que vê sua mãe. – Tiptologia e vidência. – Considerações sobre as formas dos Espíritos.

Verificamos que alguns sonâmbulos, mergulhados em sono magnético, podem ver os Espíritos e descrevê-los fielmente. Mas, essa faculdade possuem-na também pessoas não adormecidas, às quais foi dado o nome de médiuns videntes.

Para bem compreendermos o que então se passa, precisamos não esquecer que, na vida ordinária, quem vê não é o olho, como quem escuta não é o ouvido. O olho não passa de instrumento destinado a receber as imagens trazidas pela luz; a isso se limita o seu papel. Por si mesmo, ele é incapaz de fazer que distingamos os objetos. Fácil prová-lo. Se o nervo óptico for cortado ou paralisado, o mundo exterior não deixa, por isso, de se desenhar na retina; o indivíduo, porém, não o vê; tornou-se cego, se bem se lhe conserve intacto o órgão visual. A vista é, pois, uma faculdade do espírito; pode exercer-se sem o concurso do corpo, tanto que os sonâmbulos naturais ou artificiais vêem a distância, com os olhos fechados.64 Quando esses fenômenos se produzem, é que se tem ensejo de comprovar a existência de um sentido novo, que se pode designar pelo nome de sentido espiritual.

O sonambulismo e a mediunidade são graus diversos da atividade desse sentido. Um e outro apresentam, como se sabe, inúmeros matizes e constituem aptidões especiais. Allan Kardec pôs muito em evidência esse fato.65 Ele faz notar que, afora essas duas faculdades, as mais assinaladas por serem mais aparentes, fora erro supor-se que o sentido espiritual só no estado excepcional exista. Como os outros, esse sentido é mais ou menos desenvolvido, mais ou menos sutil, conforme os indivíduos. Toda gente, porém, o possui e não é o que menos serviço presta, pela natureza muito especial das percepções a que dá lugar. Longe de constituir a regra, sua atrofia constitui a exceção e pode ser tida como uma enfermidade, do mesmo modo que a carência da vista ou da audição.

Por meio desse sentido é que percebemos os eflúvios fluídicos 66 dos Espíritos; é que nos inspiramos, sem o sabermos, de seus pensamentos; que nos são dadas as advertências íntimas da consciência; que temos o pressentimento ou a intuição das coisas futuras ou ausentes; que se exercem a fascinação, a ação magnética inconsciente e involuntária, a penetração do pensamento, etc. Tais percepções são tão peculiares ao homem, como as da vista, do tato, da audição, do paladar ou do olfato, para sua conservação. Trata-se de fenômenos muito vulgares, que o homem mau nota, pelo hábito em que está de os experimentar, e dos quais não se apercebeu até ao presente, em conseqüência de ignorar as leis do princípio espiritual, de negar mesmo, como se dá com muitos sábios, a existência desse princípio. Mas, quem quer que dispense atenção aos efeitos que vimos de indicar e a muitos outros da mesma natureza, reconhecerá quanto são eles freqüentes e, ainda mais, que independem completamente das sensações que se percebem pelos órgãos do corpo.

A vista espiritual ou dupla vista


A vista espiritual vulgarmente chamada dupla vista ou segunda vista, lucidez, clarividência, ou, enfim, telestesia e agora criptestesia, é um fenômeno menos raro do que geralmente se imagina. Muitas pessoas são dotadas dessa faculdade, sem o suspeitarem; apenas o que há é que ela se acha mais ou menos desenvolvida. Facilmente se pode verificar que é estranha aos órgãos da visão, pois que se exerce, sem o concurso dos olhos, durante o sonambulismo natural ou provocado. Existe nalgumas pessoas no mais perfeito estado normal, sem o menor vestígio aparente de sono ou de estado extático. Eis o que a respeito diz Allan Kardec:67

“Conhecemos em Paris uma senhora em quem a vista espiritual é permanente e tão natural quanto a vista ordinária. Ela vê sem esforço e sem concentração o caráter, os hábitos, os antecedentes de qualquer pessoa que se lhe aproxime; descreve as enfermidades e prescreve tratamentos eficazes, com mais facilidade do que muitos sonâmbulos ordinários. Basta-lhe pensar numa pessoa ausente, para que a veja e designe. Estávamos um dia em sua casa e vimos passar pela rua alguém das nossas relações e que ela jamais vira. Sem ser provocada por qualquer pergunta, fez dessa pessoa o mais fiel retrato moral e nos deu a seu respeito opiniões muito ponderadas.

Contudo, essa senhora não é sonâmbula; fala do que vê como falaria de qualquer outra coisa, sem se distrair das suas ocupações. É médium? Não o sabe, pois, até bem pouco tempo, nem de nome conhecia o Espiritismo.”

Podemos aditar ao do Mestre o nosso testemunho. Há uma vintena de anos, demo-nos com uma Sra. Bardeau, que gozava dessa faculdade. Descrevia personagens que viviam na província, muito longe, ao Sul, personagens que ela nunca vira e de cujos caracteres, no entanto, apresentava circunstanciados pormenores. Conservava-se, todavia, no estado ordinário, com os olhos bem abertos, conversando sobre outros assuntos, interrompendo-se de quando em quando para acrescentar alguns traços que completavam a fisionomia ou o caráter das pessoas ausentes.

Hoje, ainda conhecemos uma parteira, Sra. Renardat, que pode ver a distância, sem estar adormecida. Tivemos disso prova inegável, porquanto descreveu com fidelidade um dos nossos tios, residente em Gray, indicou uma enfermidade que ele tinha e que os médicos ignoravam e lhe predisse a morte, sem jamais o haver conhecido. Essa senhora vê os Espíritos, como vê os vivos. Em muitas ocasiões tivemos de convencer-nos, pelas afirmações dos nossos amigos, de que ela entretinha relações com almas que haviam deixado a Terra, pois fazia delas retratos muito semelhantes e a linguagem que lhes atribuía lembrava a de que usavam durante a vida terrena.

Desde há quinze anos, temos tido numerosas oportunidades de estudar a mediunidade vidente, que nem sempre se manifesta com esse cunho de constância que se nota nas narrativas acima. As mais das vezes, é fugitiva, temporária, mas, mesmo assim, nos faculta a certeza de que a crença na imortalidade não é vã ilusão do nosso espírito prevenido e sim uma realidade grandiosa, consoladora e sobejamente demonstrada. Aliás, vamos citar bom número de experiências que demonstram ser objetiva a visão dos Espíritos, porquanto esta coincide, explicando-as, com fenômenos físicos que nos caem sob a percepção dos sentidos materiais e que toda gente pode verificar.

Quando uma mesa se move e um médium vidente descreve o Espírito que sobre ela atua; quando esse médium chega a anunciar o que o Espírito vai dizer por intermédio do móvel, é despropositado imaginar-se que ele não veja realmente, uma vez que a sua predição se realiza e o Espírito dá testemunho de sua presença, exercendo ação sobre a matéria.

Se quisermos refletir que, há cinqüenta anos, no mundo inteiro se procede continuamente a pesquisas espíritas; que elas se processam nos mais diversos meios; que foram fiscalizadas milhares de vezes por investigadores pertencentes às classes sociais mais instruídas e, por conseguinte, menos crédulas, forçoso será considerarmos absurdo supor-se não sejam os Espíritos que produzam tais fenômenos, pois, por meio de incessantes comunicações com o mundo invisível, por meio de ininterruptas relações com os habitantes do espaço, que chegamos a adquirir conhecimentos certos sobre as condições da vida de além-túmulo.

Lembremo-nos de que existem mais de duzentos jornais publicados em todas as línguas que se falam no globo, que cada um prossegue isoladamente em seus trabalhos e que, malgrado a essa prodigiosa diversidade quanto às fontes de informações, o ensino geral é o mesmo, em suas partes fundamentais. Há de se convir que semelhante acordo é bem de molde a servir de fundamento à convicção que se gerou em cada experimentador, depois de haver estudado por si mesmo.

Exponhamos, conseguintemente, sem cessar, os resultados obtidos; não nos cansemos de colocar sob as vistas do público os documentos que possuirmos e, talvez lentamente, mas com segurança, chegaremos a conseguir que penetrem nas massas estes conhecimentos indispensáveis ao progresso e à felicidade delas.

O envoltório da alma fez objeto de perseverantes estudos da parte de Allan Kardec. Ele próprio confessa que, antes de conhecer o Espiritismo, não tinha idéias especiais sobre tal assunto. Foram seus colóquios com os Espíritos que lhe deram a conhecer o corpo fluídico e lhe proporcionaram compreender o papel e a utilidade desse corpo. Concitamos os que queiram conhecer a gênese dessa descoberta a ler a Revue Spirite, de 1858 a 1869. Verão como, pouco a pouco, se foram reunindo os ensinamentos a respeito, de maneira a constituir-se uma teoria racional que explica todos os fatos, com impecável lógica.

Não podendo estender-nos demasiado sobre esse ponto, limitar-nos-emos a citar uma evocação, que poderá servir de modelo a todos os investigadores que desejem verificar por si mesmos esses ensinamentos.


Evocação do Doutor Glas 68


As perguntas eram feitas por Allan Kardec, sendo dadas pelo médium escrevente as respostas.

P. – Fazes alguma distinção entre o teu espírito e o teu perispírito? Que diferença estabelece entre essas duas coisas?



R. – Penso, pois que sou e tenho uma alma, como disse um filósofo. A tal respeito, nada mais sei do que ele. Quanto ao perispírito, é, como sabes, uma forma fluídica e natural. Procurar, porém, a alma é querer achar o absoluto espiritual.

P. – Crês que a faculdade de pensar reside no perispírito? Numa palavra: que alma e perispírito são uma e mesma coisa?

R. – É exatamente como se me perguntasses se o pensamento reside no nosso corpo. Um é visto, o outro se sente e concebe.

P. – Não és, então, um ser vago e indefinido, mas um ser limitado e circunscrito?

R. – Limitado, sim, porém, rápido como o pensamento.

P. – Peço determines o lugar onde aqui te achas.

R. – À tua esquerda e à direita do médium.

Nota – Allan Kardec se coloca exatamente no lugar indicado pelo Espírito.

P. – Foste obrigado a deixar o teu lugar para mo ceder?

R. – Absolutamente. Nós passamos através de tudo, como tudo passa através de nós; é o corpo espiritual.

P. – Estou, portanto, colocado em ti?

R. – Sim.

P. – Mas, como é que não te sinto?

R. – Porque os fluidos que compõem o perispírito são muito etéreos, não suficientemente materiais para vós outros. Todavia, pela prece, pela vontade, numa palavra, pela fé, podem os fluidos tornar-se mais ponderáveis, mais materiais e sensíveis ao tato, que é o que se dá nas manifestações físicas.

Nota – Suponhamos um raio de luz penetrando num lugar escuro. Podemos atravessá-lo, mergulhar nele, sem lhe alterarmos a forma, nem a natureza. Embora esse raio luminoso seja uma espécie de matéria, tão rarefeita se acha esta, que nenhum obstáculo opõe à passagem da matéria mais compacta.

Evidentemente, a melhor maneira de chegar-se a saber se os espíritos têm um corpo consistia em perguntar-lho. Ora, nunca, desde que se fazem evocações, alguém comprovou que os desencarnados hajam dado uma resposta negativa. Todos afirmam que o envoltório perispirítico é, para eles, tão real quanto o nosso corpo físico o é para nós. Tem-se, pois, aí um ponto firmado pelo testemunho unânime de todos os que hão sido interrogados, o que explica e confirma as visões dos sonâmbulos e dos médiuns. Chegamos assim a uma ordem de testemunhos que fazem com que ressalte das concepções puramente filosóficas o perispírito, atribuindo-lhe existência positiva.


Um avarento no espaço


Desde o começo das manifestações espíritas, organizaram-se grupos de estudo em quase todas as cidades da França. Entregavam-se a pesquisas continuadas e os resultados obtidos se registravam quase sempre em atas, cujas súmulas eram enviadas à imprensa.

A nossa doutrina, portanto, não foi imaginada. Constituiu-se lentamente e a obra de Allan Kardec, resumindo essa imensa investigação, mais não é do que a compilação lógica, o aproveitamento de tão vasta documentação.

Aqui a narrativa de um dos fatos então apurados, conforme a publicou um jornal espírita de Bordéus, em 1864:69

“Toda gente conheceu em Angoulême um homem de sórdida avareza, não obstante a sua posição de opulência, que todos sabiam magnífica. Chamava-se L... e morava numa água-furtada de sua casa, cujos demais cômodos permaneciam desabitados. Como os vizinhos não o vissem durante vários dias, chamaram a polícia, que mandou abrir a porta do aposento, para saber o que fora feito dele. Acharam-no quase a morrer. Tendo à cabeça um boné de papel meio queimado e encostado a uma mesa, estava o homem como que a contemplar algumas moedas de ouro ali espalhadas. No interesse do próprio infeliz, que de há muito se afastara de toda a sua família, a justiça mandou arrecadar o dinheiro que ele escondera aqui e ali pela casa, depositou-o num estabelecimento bancário e remeteu o pobre abandonado para um hospital, onde veio a falecer pouco depois.

A uma primeira evocação feita alguns dias após sua morte, ele acudiu e declarou que absolutamente não estava morto e que queria o dinheiro que lhe haviam subtraído. Transcorridos muitos meses, no mesmo grupo, fez-se, a 25 de setembro de 1863, segunda evocação, com o concurso de dois médiuns, escrevente um, vidente o outro em estado sonambúlico. Este último descreveu a fisionomia e as vestes do Espírito evocado, a quem não conhecera em vida. Conversou com ele ou transmitiu as respostas que lhe eram dadas. Por outro lado, o médium escrevente obtinha, ao mesmo tempo, sob a influência do Espírito presente, a comunicação seguinte, posta em confronto com a que provinha do sonâmbulo, para facilitar a inteligência da simultaneidade do recebimento das duas.

Evocação


Médium escrevente – Sr. Guimberteau:

Que é o que ainda querem de mim? Peço que me deixem ir embora. Isto começa a me aborrecer. Melhor fariam, se restituíssem o dinheiro que me roubaram. Acham que não é abelinável (abominável)? Eu que trabalhei toda a minha vida para encher uma pequenina bolsa honesta. Pois bem! Senhores, tomaram-me tudo; arruinaram-me; estou atirado à rua, não tenho onde cair morto. Não sei onde descansar a cabeça. Oh! tenham a bondade de me restituir tudo isso. Ficar-lhes-ei reconhecido, se conseguirem que me atendam.

(O evocador pondera ao Espírito que nada de tudo aquilo lhe pode mais fazer falta, uma vez que ele deixara a Terra.)

R. – Você diz que nada me faz falta. É ter topete! Meu dinheiro, então, não é nada?

P. – Onde estás?

R. – Você bem o vê: a seu lado.

P. – Mas, por que te obstinas em procurar as tuas riquezas terrenas, quando devias antes cuidar de constituir um tesouro no céu?

R. – Oh! esta agora! Você devia dizer onde está esse tesouro que eu devo achar. Você é um péssimo farsista, sabe?

P. – Não conhece Deus?

R. – Não tenho essa honra. Quero o meu dinheiro.

P. – Foste forçado a vir aqui?

R. – Está claro que sim. Se não me obrigassem a permanecer aqui exposto aos olhares de vocês, já me teria ido há muito tempo

P. – Aborrece-te então a nossa companhia?

R. – Muito. (O lápis bate na mesa com tanta rapidez e tal violência, que se quebra.)

Médium vidente – Sra. B...:

Vejo um velho ali a escrever. É bem vil. Mas, como é vil! Não tem apenas dentes na boca. Tem enormes lábios pendentes. Traz um boné sujo de algodão, uma blusa, ou um casaco branco, também sujo. Como ele é vil, meu Deus!



P. – É ele quem está fazendo que o Sr. Guimberteau escreva?

R – É. Ele se encontra ao lado desse senhor. Mostra-se como alguém que é apedrejado. É um verdadeiro tigre!



P. – Ele foi obrigado a vir?

R. – Há alguém que o obriga.

P. – Por que não se vai embora, uma vez que tanto o molesta a nossa companhia?

R. – Foi chamado. Isto pode contribuir para que conheça a sua situação.

A sessão prossegue. Adormecido, o sonâmbulo descreve outros Espíritos e nota, em seguida, um padre que vem manifestar-se. Logo, o médium escrevente recebe uma comunicação do padre C..., que alguns presentes conheciam. Dita ele: “Vejamos. Vou fazer que o médium escreva calmamente algumas linhas, para que o vidente tenha tempo de me examinar em todos os sentidos. É preciso que me reconheçam pelos detalhes que ele fornecer sobre a minha pessoa. Isso vos porá em condições de acreditar que vêm ajudar-vos os Espíritos que evocais.”

Aqui, como se verifica, é manifesta a ação do desencarnado, que se empenha e esforça por assinalar bem a sua personalidade. Vê coroada de êxito essa tentativa. Os assistentes reconhecem um eclesiástico da cidade, recentemente falecido, e a Sra. B... diz a um que a interroga: “Sim, vi outrora esse homem; é um cura. Gordo, corado. Não lhe sei o nome. Tem pouco cabelo, todo embranquecido.”

A visão sonambúlica confirma a autenticidade do agente que faz com que o médium escreva e demonstra o nenhum valor da teoria segundo a qual as comunicações procedem sempre do inconsciente de quem escreve.

A narrativa que segue permite se comprove que o médium vidente é absolutamente incapaz de enganar e que, se a verdade irrompe da boca da inocência, tem aqui aplicação esse provérbio.

Visão de uma criança


O relato que se vai ler fê-lo o professor Morgari, a 20 de outubro de 1863, na Sociedade dos Estudos Espíritas de Turim.70

Refere ele que, achando-se, no mês citado, em Fossano, travou relações com o professor P..., homem muito instruído, que vivia imerso em profunda mágoa por haver perdido sua jovem esposa, que lhe deixara três filhinhos. Para lhe minorar a dor, o Sr. Morgari falou-lhe do Espiritismo:



Il miser suole

Dar facile credenza quel che vuole.71

Ficou então decidido que se tentaria obter uma comunicação da morta querida. Com dois companheiros de estudos e uma sua irmã, o Sr. Morgari se sentou à mesa, bem como o professor P... e uma irmã sua. Obtiveram estes o nome de um de seus parentes, um certo irmão Agostinho. Em seguida, veio outro Espírito, o do pai deles, Luís, o qual, além do nome, disse exatamente a idade com que falecera. Não será ocioso notar que tais nomes o Sr. Morgari e sua irmã, recém-chegados a Fossano, desconheciam completamente.

Cedamos agora a palavra ao autor da narrativa:

“Se a experiência houvesse terminado aí, observa ele, eu nada vos diria, porquanto nada até então ocorrera que não fosse para nós outros muito vulgar. Mas, neste ponto é que começa o maravilhoso.

O Espírito da pranteada esposa, que viera dirigir tocantes palavras a seu marido, manifesta o desejo de ver os filhos que dormiam em aposentos contíguos e, de repente, a mesa entra a mover-se com uma rapidez qual eu antes nunca vira, deslizando e girando tão vivamente, que apenas dois ou três dentre nós a podiam acompanhar, tocando-a com a ponta dos dedos. Penetrou em seguida no aposento mais próximo, onde uma das crianças, menina de três anos, dormia profundamente no seu berço. Acercando-se a mesa, como se fora dotada de vida e de sentimento, se inclina, no ar, para a criancinha que, sempre a dormir, lhe estende os bracinhos e exclama com essa tranqüila surpresa que sobremodo nos encanta na meninice: “Mamãe! Oh! Mamãe!” O pai e a tia, comovidos até às lágrimas, lhe perguntam se realmente está vendo a mãe: “Estou, vejo-a.. Como está bonita! Oh! Como está bonita!” Perguntada onde a via: “Numa grande claridade!” Responde. “Vejo-a no Paraíso.” Nesse instante, vimos a criança fazer com os bracinhos um círculo, como se quisesse abraçar-se ao pescoço de sua mãezinha, e, coisa surpreendente, entre os braços e o rosto da menina, havia só o espaço necessário a caber a cabeça da que fora sua mãe. Durante a cena, a menina movia brandamente os lábios, como se estivesse a dar beijos, até que, por fim, a mesa recaiu no chão, conservando-se o anjinho com as mãos juntas e inexprimível sorriso.

Essa a verdade pura, simples e leal, de que me faço fiador, assim em meu nome, como no dos meus companheiros, todos prontos a confirmar com suas assinaturas esta narrativa, conforme eu próprio faço.”

Esse testemunho de uma criança de três anos reconhecendo sua mãe não poderá ser suspeito, nem mesmo aos mais cépticos.

Ninguém poderá ver aí qualquer sugestão, pois que a criança dormia e era aquela a primeira vez que seu pai e sua tia se ocupavam com o Espiritismo. O que aí há é a confirmação da crença de que a mãe sobrevivia no espaço e continuava a prodigalizar seu amor ao marido e aos filhos.

Aqui vão outros exemplos, que corroboram os que acabamos de citar.

Experiências do Professor Rossi Pagnoni e do Doutor Moroni


Em 1889, foi publicado um volume muito sério,72 relatando as experiências espíritas desses senhores, continuadas em Pezaro (Itália) com grande apuro de observação científica. Dentre muitos fenômenos importantes, vamos referir os casos seguintes, que se enquadram completamente no nosso assunto.

Servia de instrumento ao Dr. Moroni, para descrever os Espíritos que se manifestavam por meio da mesa, uma mulher chamada Isabel Cazetti, ótimo paciente hipnótico. Em muitas ocasiões, foi-lhe dado verificar que eram contrárias às crenças dos assistentes as indicações que a sonâmbula ministrava. Descrevia às vezes um Espírito que absolutamente não era o que se evocava e, com efeito, a mesa deletreava um nome muito diverso do Espírito que fora chamado. Eis aqui um exemplo:

“Dois amigos meus se puseram à mesa tiptológica, colocada a alguns metros da hipnotizada, para evocarem o Espírito de uma pessoa que lhes era afeiçoada, de nome Lívia, evocação já conseguida pelo mesmo meio. Enquanto isso, a hipnotizada fazia os sinais que costuma fazer quando vê um Espírito, sinais que lhe são peculiares à faculdade.

Moroni, eu e os outros assistentes, rodeando-a bem de perto, lhe perguntamos baixinho o que estava vendo. Respondeu: “Uma senhora, parente da pessoa menos alta das que estão sentadas à mesa.” Supusemos que se enganava, porquanto, como sabíamos, aqueles amigos evocavam uma pessoa amiga, não uma parenta. De súbito, porém, a mesa bateu: “Sou tua tia Lúcia; venho porque te estimo.”

Com efeito, o assistente de menor estatura contava entre os seus mortos uma tia desse nome, na qual, entretanto, não pensava e que o outro assistente não conhecia. Em seguida, o médium murmurou ao ouvido de Moroni que um rapaz, cujo nome começava por R..., estava à mesa. Esta efetivamente bateu R, primeira letra do nome do rapaz, que nos saudou. Depois, ouvimos na biblioteca um grande ruído e o médium, a sorrir, disse que fora aquele Espírito, que nos quisera dar sinal da sua partida.”

Chamamos muito particularmente a atenção do leitor para estas experiências, pois provam, de modo evidente, que são mesmo Espíritos os que se manifestam e não entidades quaisquer. Não se pode aplicar aqui nenhuma das pretensas explicações baseadas na transmissão do pensamento do evocador ao médium – uma vez que este anuncia de antemão um nome em que os assistentes não pensam – nem a da intervenção de um ser híbrido, formado dos pensamentos de todos os assistentes, não se podendo tampouco pretender que sejam elementais, elementares, ou influências demoníacas.

São as almas dos mortos que afirmam a sua sobrevivência por ações mecânicas sobre a matéria. Não apresentam uma forma indeterminada, mas as dos corpos terrenos que tiveram durante a encarnação. A inteligência se conservou lúcida e vivaz; revela-se em plena atividade após a morte. Temos em nossa presença o mesmo ser que vivia outrora neste mundo e que apenas mudou de estado físico, sem nada perder da sua personalidade de outrora.

Como nunca será demais insistir em tais fatos, vamos referir alguns outros. Narrativa de uma sessão:

“Sentaram-se à mesa da tiptologia dois dos nossos amigos, evocando Lúcia. A primeira letra batida lhes fez crer que conseguiriam o que desejavam; mas, o médium segredou ao ouvido de Moroni (que tomou nota num pedaço de papel, dobrou-o e colocou em cima da mesa) que, em vez de Lúcia, era o Espírito de Lívia que batia, dizendo “obrigado”. Deu-se como fora anunciado e verificou-se que essa palavra estava realmente escrita.

O médium pediu a Moroni que tomasse o lugar de um daqueles senhores à mesa tiptológica. Ele assim fez e outra pessoa se colocou ao lado do médium e lhe perguntou o que via. O interrogado respondeu de maneira a não ser ouvido pelos demais: “É a irmã do doutor.” A mesa, com efeito, bateu – “Assunta”, nome de uma falecida irmã de Moroni e que lhe pediu permanecesse à mesa. Então, disse o médium, ao ouvido do amigo que se lhe pusera ao lado, que o pai do doutor desejava comunicar-se. A mesa bateu estas palavras: “Sou teu pai e posso qualificar de ditoso este momento em que me acho contigo.”

Eis outro relato, em que não é menor a evidência, do que nos últimos casos reproduzidos.

Após alguns ensaios de tiptologia, declarou o médium que o pai de um Sr. L... desejava falar-lhe:

“Fizemos que o Sr. L... Se levantasse da mesa e lhe solicitamos que tentasse escrever noutra mesa, visto que um Espírito queria comunicar-se por seu intermédio, e o rodeamos, para auxiliar nessa primeira experiência. Dois de nós nos aproximamos do médium e lhe perguntamos quantos Espíritos via no momento ao nosso derredor. Respondeu que via três: o que já fora indicado e duas senhoras, sendo uma delas tia daquele que o interrogava. Trazendo este consigo um retrato dessa tia, misturou-o com outras fotografias, que pudemos reunir, de senhoras, e as entregou todas ao médium. Este, sem as examinar, o que, aliás, não podia fazer, devido à meia obscuridade reinante no canto onde estávamos da sala, não podendo, tampouco, ser, como dizem, sugestionado pelo interrogante, uma vez que não via as fotografias e não sabia em que ordem o acaso as dispusera, separou uma e a entregou ao referido interrogante. Era a da sua parenta. Ao Sr. L... deu o médium pormenores íntimos sobre seus negócios de família. Como estrangeiro que era, o Sr. L... residia de pouco tempo na nossa cidade. Seu pai morrera havia uns vinte anos.”

Para concluir as brevíssimas citações desse importante trabalho, vamos dizer de que modo o Dr. Moroni foi levado a estudar os fenômenos espíritas. Quando ele era ainda simples magnetizador, para quem todas as imagens que o sonâmbulo dizia ver não passavam de alucinações, um dos primeiros fatos que o fizeram começar a crer foi o seguinte:

“Uma noite, estando magneticamente adormecido, o médium exclamou de súbito, agitando um braço: “Ai!” Perguntando-lhe Moroni: “Que há?”, ela respondeu: “Foi Isidoro que me beliscou.” (Isidoro era um irmão de Moroni, falecido havia alguns anos.) O médico descobriu o braço do médium e lá encontrou, com efeito, uma marca semelhante à que deixa a pressão de dois dedos na epiderme. Até aí, porém, nada de espantar, porquanto o que se dera podia muito bem ser o resultado de uma auto-sugestão da própria senhora. Disse-lhe então Moroni: “Se é verdade que meu irmão se acha presente aqui, dê-me ele uma prova disso.” Respondeu o médium, a sorrir: “Olhe lá.” (Apontava com o dedo para uma parede que lhe ficava muito distante.) O médico olhou e viu um cabide, ali dependurado num prego, mover-se vivamente para a direita e para a esquerda, como se uma mão invisível o empurrasse num e noutro sentido.”

Aqui a afirmativa do médium é confirmada, corroborada por uma manifestação material. Pudemos certificar-nos, pelos exemplos precedentes, que os fenômenos não se originam de uma exteriorização do médium, pois que o ser que se manifesta revela coisas que aquele ignora.

Não se pode igualmente invocar a transmissão do pensamento:

1º – Porque os movimentos da mesa se produzem sem que o médium a toque, indicando esses movimentos, previamente anunciados, um nome em que os assistentes não pensam;

2º – Porque a transmissão do pensamento podia efetuar-se entre o magnetizador e o seu paciente, como o relata o Doutor Moroni, que não conseguiu fazê-lo pronunciar o nome “Trapani”, em que ele pensava energicamente.73 Com mais forte razão, não se pode conceber como haveria o médium de ler o pensamento dos assistentes, que lhe são por completo estranhos e com os quais não se põe em relações magnéticas.

Diante de tais fenômenos, a incredulidade, se é sincera, tem que depor as armas. Há indivíduos, porém, subjugados a tal ponto pelo orgulho, que se envergonhariam de confessar um erro. São retardatários, tanto pior para eles. Restam inúmeros pesquisadores sem idéias preconcebidas, para que tomemos a peito comunicar-lhes as nossas descobertas.

Basta, aliás, a quem quer que seja, prosseguir nesses estudos com o firme desejo de instruir-se, para estar certo de adquirir uma convicção racional, baseada em fatos pessoais. Sobejam os exemplos. Julgamos de bom aviso pôr sob as vistas do leitor caso recente, para mostrar que as manifestações se dão em todos os meios. Tudo está em saber e querer suscitá-las.

Tiptologia e vidência


“Caro Senhor,

Ao regressar de Caen,74 fui passar alguns dias na casa de meu irmão em Meurchin, pequena aldeia do Pas-de-Calais. Como minha família me sabe muito amante do Espiritismo, como me vê ditoso por lhe praticar os preceitos, mil perguntas me dirigem os seus membros constantemente sobre o assunto, perguntas a que respondo de modo a fazer que nasça nos que me ouvem o desejo de levantar uma ponta do véu que nos oculta os esplendores de além-túmulo.

Foi em virtude dessas palestras que meu irmão organizou uma reunião para a qual convidou seus amigos, honestos camponeses, que não se fizeram de rogado para assistir a ela. Havia uma quinzena de pessoas, todas escolhidas entre a gente bem reputada da aldeia. Aguardando a hora marcada para a evocação, palestra-se um pouco. Cada um narra fatos mais ou menos singulares de que foi testemunha no curso de sua existência e que me permitem deduzir, incidentemente, a conclusão de que as manifestações espíritas são muito mais freqüentes do que se imagina.

Às oito horas, pus-me a ler algumas passagens de O Livro dos Espíritos, procurando atrair os bons Espíritos. Dirijo ao Todo-Poderoso uma curta invocação que os circunstantes ouvem em profundo recolhimento.

Três pessoas têm as mãos pousadas sobre uma mesa pequena, que, ao cabo de dez minutos, entra a mover-se.

P. – É um Espírito? Bata uma pancada para o sim e duas para o não.

R. – Sim.

P. – Queres dizer-nós o teu nome? Vou pronunciar as letras do alfabeto: bate no momento em que eu pronunciar a letra que desejes fique escrita.

R. – Maria José.

“É minha mãe, exclama um dos assistentes, o Sr. Sauvage. Acabo de ver-lhe o espectro diante de mim; mas, passou apenas e logo desapareceu.”



P. – És, de fato, a mãe do Sr. Sauvage?

R. – Sim.

Baixa-se a luz, ficando, porém, bastante claridade para que possamos ver o que se passa. Sauvage declara, ao cabo de alguns minutos de espera, que está vendo muito distintamente sua mãe, falecida a 24 de maio de 1877.



P. – Podes – perguntei ao Espírito – fazer que teu filho te ouça?

R. – Ela me acena com o dedo – diz o Sr. Sauvage. – Não sei o que quer dizer... Ah! ouço-lhe a voz; ouço-a muito bem.

P. – Que diz ela?

R. – Ditosa; diz que é ditosa.

P. (Ao Espírito) – Não precisas que oremos por ti?

R. – Sim, isso sempre nos dá prazer. Estou fatigada, boa-noite, voltarei doutra vez.

Logo depois dessa visão, a mesa se põe de novo em movimento. Dá pulos tão violentos que nos assustam.

Aumentada a luz, oramos em favor do Espírito que assim acusava a sua presença e pedimos a Deus, bem como aos nossos guias invisíveis, que continuassem a dispensar-nos seu amparo, a fim de que outras visões se produzissem.

Outro Espírito se anuncia pela mesa, dizendo-se o da primeira mulher do Sr. Grégoire, presente à sessão.



P. – Poderias mostrar-te ao Sr. Sauvage?

R. – Posso.

Após um instante de expectativa, o médium declara que vê uma mulher, com uma coifa branca e um lenço por cima. “É a touca que usou na Bélgica durante a sua enfermidade”, informa o Sr. Grégoire.



P. – Tens alguma coisa a dizer a teu marido?

R. – Não.

Evidentemente, a presença da segunda esposa do Sr. Grégoire vexa o Espírito.



P. – Conhece Sidônia Descatoire, minha mãe? – perguntei ao Espírito.

R. – Conheço, ela está aqui a seu lado.

P. – Poderias pedir-lhe que se mostre ao médium? Muito gostaria de conversar com ela.

R. – O Espírito se afasta – diz o Sr. Sauvage –, já não o vejo... Ah! Eis agora uma anciã.

P. – Como é ela?

R. – Bastante corpulenta. Rosto redondo, maçãs salientes e vermelhas, olhos pardos, cabelos castanhos, começando a encanecer. Ri, olhando para o senhor.

P. – É isso exatamente. Não lhe nota nenhum sinal no rosto?

R. – Sim, uma espécie do a que se dá o nome de “beleza”, aqui, diz, indicando a têmpora direita.

(Minha mãe tinha uma pequena mancha escura na têmpora esquerda; mas, como estava de frente para o médium, este via do lado direito a mancha.)



P. – Absolutamente certo. É mesmo minha mãe! Exclamei emocionado. Mãe querida é feliz?

R. – Muito feliz – diz o Sr. Sauvage, que ouve a voz de minha mãe e repete o que dela escuta.

P. – Costumas estar por vezes perto de mim?

R. – Quase sempre.

P. – Vês meu irmão Edmundo, aqui presente?

R. – Sua mãe se volta para o lado do Sr. Edmundo – diz o médium. – Sorri. Parece encantada com esta entrevista.

P. – Após a desencarnação, custaste a recobrar a lucidez?

R. – Dois dias.

P. – Costumas ver Emília (minha falecida mulher)?

R. – Vejo-a, sim. Ela, porém, não está aqui; acha-se mais longe.

P. – Posso contar que também ela venha comunicar-se?

R. – Virá, mais tarde.

P. – E meu pai?

R. – Está aqui.

“Vejo um vulto por detrás de sua mãe – diz o médium –, mas não o distingo bem. É um vulto gordo e alto... Ei-lo ao lado de sua mãe. Bastante corpulento. São dois bons velhos bem adequados um ao outro.”

Um colóquio íntimo se estabelece entre meus pais e eu. Comovemo-nos até às lágrimas, meu irmão e eu. Não duvidamos da presença deles. O Sr. Sauvage não conhecia, não podia conhecer os nossos caros defuntos, que sempre viveram no Norte. Além disso, a sessão fora improvisada e realizada na mesma noite e o médium, que um momento antes ignorava possuísse a faculdade de que é dotado, de maneira nenhuma poderia prever quais as pessoas que se evocariam, nem a natureza das perguntas que lhes iam ser dirigidas. As expressões empregadas por meus pais, certas frases que lhes eram habituais, tudo constituía, para nós, outras tantas provas de identidade. Aliás, outros Espíritos se manifestaram, revelando coisas que só eles conheciam e algumas das pessoas presentes. Assim, um marido se apresentou e lembrou à esposa palavras que lhe dissera ao morrer e que a interessada declarou exatas.

Os Espíritos nos prometeram novos fenômenos, entre os quais um transporte, que esperam poder mais tarde produzir.

Aquelas tocantes manifestações terminaram por unânimes agradecimentos ao Pai celestial que, logo numa primeira reunião, nos dera tão grande demonstração da sua bondade, prometendo todos praticar a filosofia espírita.

Foi considerável o efeito produzido sobre os assistentes. Sentia-se que uma revolução se produzira no íntimo de cada um. Homens, que até então nenhuma fé depositavam no futuro do além-túmulo, se achavam presas de remorso e faziam em voz alta reflexões que uma hora antes teriam feito corassem, acusando-se de não haverem empregado o tempo em beneficio da Humanidade. Que acontecerá, quando toda gente se ocupar com esse gênero de estudo e quando todas as faculdades mediúnicas, agora latentes, estiverem em ação ?

Meurchin, 10 de outubro de 1896.

Luis Delatre


Telegrafista

A maioria dos assistentes fez questão de assinar este relato, em testemunho de ser a expressão da verdade:



Sauvage – Sra. Avransart – Lohez Etienne – Sauvage – Rigolé – H. Avransart – E. Delattre – T. Hugo – Sra. Grégoire – Ernest Grégoire – C. Sauvage – C. Hoca.

Um belo caso de identificação


Há manifestações que não apresentam um caráter físico, material, mas que nem por isso são menos convincentes para quem as observa. A esse respeito, é muito instrutivo o caso seguinte.75

O Sr. Al. Delanne se achava em Cimiez, perto de Nice, e lá se encontrou com o Sr. Fleurot,76 professor, e sua mulher, com os quais travara ele relações numa viagem anterior. A conversação cai sobre o Espiritismo e a Sra. Fleurot narra o que se segue:

“Pouco tempo depois de haverdes passado pela nossa cidade, meu marido e eu, ainda sob a impressão das narrativas que nos tínheis feito acerca das manifestações espíritas de que foi testemunha, compramos os livros de Allan Kardec. Eu ardia no desejo de me tornar médium, mas a minha convicção se firmou, com exclusão dos processos da mesa ou da escrita.

Vai para perto de seis meses, vi em sonho diferentes personagens de destaque, a discutirem questões de alto alcance filosófico. Aproximo-me receosa e muito emocionada. Dirijo-me ao que me pareceu mais simpático.

– Consentiria, pergunto-lhe, em me esclarecer sobre um assunto importante, cuja solução ignoro? Que é feito da alma após a morte?

Ele, com bondoso sorriso, respondeu:

– A alma é imortal, não pode aniquilar-se nunca. A tua, neste instante, se acha no espaço, liberta momentaneamente dos entraves da matéria, gozando, por antecipação, da sua liberdade. Assim será sempre, desde que deixes definitivamente o teu corpo de carne, para viveres da nossa própria vida espiritual.

– Custa-me a crê-lo – repliquei –, porquanto, se fôsseis habitantes da erraticidade, já não teríeis o tipo humano, nem estaríeis vestidos semelhantemente aos homens.

Retrucou-me ele:

– Se a ti nos apresentássemos sob uma forma inteiramente espiritualizada, não terias apercebido da nossa presença, tampouco nos houveras reconhecido.

– Reconhecer-vos, dizeis? Nada, porém, me faz lembrar as vossas fisionomias e nenhuma recordação guardo de já vos ter visto alguma vez.

– Estás bem certa disso?

Então, que maravilha! aquele que me respondia foi de súbito banhado de claridade por uma intensa luz fluídica e, em pérolas elétricas, um nome se lhe formou por cima da cabeça e eu li, deslumbrada e encantada, o nome venerado de Blaise Pascal.

De tal modo gravado se acha em mim o seu semblante, que jamais se me apagará da memória, enquanto eu viva. Como nunca, em parte alguma, me fora dado ver a fotografia do ilustre sábio, cuidei, ao despertar, de correr, juntamente com meu marido, a quem logo referi o meu singular sonho, às casas dos vendedores de estampas. Fomos à de Visconti, o mais afamado livreiro de Nice, para comprar o retrato de Blaise Pascal. Ele nos mostrou diversas gravuras representando o grande homem, porém, nenhuma reproduzia os traços do desconhecido que me falara. Ali estavam, com efeito, a sua figura cheia de nobreza, seus grandes olhos, o nariz aquilino, a cabeça coberta por soberba peruca ondulada; mas, em nenhuma daquelas imagens descobria eu a pequenina deformidade do lábio inferior, para a qual a minha atenção fora particularmente atraída durante a visão. O lábio era um pouco arregaçado, tal como se o defeito fosse conseqüência de um acidente qualquer, na mocidade.

O livreiro, experto, afirmou que já apreciara muitas gravuras com a fisionomia de Pascal e vira retratos seus pintados a óleo ou a aquarela, porém, jamais notara em nenhum o defeito que eu persistentemente assinalava.

Regressando a casa, eis que me reaparece o sorrisinho céptico do Sr. Fleurot. Isso me enraivecia a mim, que rejubilava a idéia de fazê-lo partilhar da minha convicção, oferecendo-lhe uma prova da identidade da personagem vista em sonho.

Repetidamente tornei a ver, durante o sono, o meu protetor, que me prometeu velar por mim durante o meu cativeiro terrestre e me explicar mais tarde à causa da afeição que votava à minha família. Ousei mesmo falar-lhe da pequena deformidade do lábio e lhe perguntei se, em vida, ela fora reproduzida nalgum de seus retratos.

– Foi, respondeu-me, nas primeiras fotografias minhas, publicadas pouco tempo após a minha morte.

– Ainda existe alguma? Dizei-me, eu vo-lo exoro.

– Procura e acharás!...”

Refere a Sra. Fleurot que, aproveitando as férias de seu marido, os dois vasculharam, em Marselha e Lião, todas as casas de negócio onde poderiam achar o que desejavam, sem que em nenhuma encontrassem o retrato revelador. Teve então o Sr. Fleurot a inspiração de ir a Clermont-Ferrand, onde viram coroada de êxito a perseverança que vinham demonstrando. Encontraram, em casa de um negociante de antigüidades, o verdadeiro retrato de seu ilustre amigo, com a real deformação do lábio inferior, tal qual a Sra. Fleurot vira em sonho.

Por muitos títulos, é bastante instrutivo esse relato. Em primeiro lugar, firma a identidade do Espírito, pois que nenhum dos retratos existentes na cidade de Nice acusava o sinal característico que se encontrava no original, na terra de nascimento do autor das Provinciais. Em segundo lugar, há uma frase do Espírito digna de nota, a que intencionalmente sublinhamos: Se nos houvéramos apresentado a ti sob uma forma inteiramente espiritualizada, não nos terias visto, nem, ainda menos, reconhecido.

Comprova-se assim que tanto mais sutil e etéreo é o perispírito, quanto mais depurada está a alma. Com efeito, diz Allan Kardec que os Espíritos adiantados são invisíveis para os que lhes estão muito inferiores quanto ao moral; mas, essa elevação não obsta a que o Espírito retome o aspecto que tinha na Terra, aspecto que ele pode reproduzir com perfeita fidelidade, até nas mínimas particularidades. Assim como, no domínio intelectual, nada se perde, também nada desaparece do que há constituído a forma plástica, o tipo de um Espírito. Eis outro exemplo desse notável fenômeno.

O retrato de Vergílio


A Sra. Lúcia Grange, diretora do jornal La Lumière (A Luz), extraordinário médium vidente no estado normal, viu o célebre poeta Vergílio tão distintamente, que pôde publicar-lhe o retrato em o número de 25 de setembro de 1884 da sua revista, onde o descreveu exatamente assim:

“Vergílio – Coroado de louros. Rosto forte, um tanto longo; nariz saliente, com uma bossa do lado; olhos azul-cinza-escuros; cabelos castanho-escuros. Revestido de longa túnica, tem todas as aparências de um homem robusto e sadio. Disse-me, quando se me apresentou, este verso latino que o lembra: Tu Marcellus eris.”

Qualificaram de fantástico esse retrato. Tacharam de suspeito o Espírito, porquanto, diziam, muito provavelmente haviam de ser delicados os traços do meigo Vergílio, visto ter sido ele muito feminil, “mais mulher do que uma mulher”.

Que responder a tais críticas? Nada. Aconteceu, no entanto, que uma inesperada descoberta veio dar razão à Sra. Grange.

Recentemente, em trabalhos de reparação que se faziam em Sousse, encontrou-se um afresco do primeiro século, onde se vê o poeta em atitude de compor a Eneida. O que lhe revelou a identidade foi o poder-se ler, no rolo de papel aberto diante dele, o oitavo verso do poema: Musa mihi causas memora. A Revue Encyclopédique de Larousse reproduziu esse trecho autêntico, pelo qual se reconhece que a descrição feita pelo médium se aplica exatamente ao grande homem, que nada em absoluto tinha de efeminado.

Este fato confirma o precedente, estabelecendo, pela observação, que o perispírito contém todas as formas que haja tido neste mundo.


Uma aparição


No caso que segue, é impossível atribuir-se a aparição a uma idéia preconcebida, pois o Espírito que se manifestou era completamente desconhecido da senhora que o viu. Em virtude de circunstâncias diversas foi que se pôde saber quem era ele e verificar-lhe a identidade. Damos a palavra ao autor da narrativa:77

“Eich, 1º de junho de 1862.

Senhor,

Minha mulher absolutamente não acreditava nos Espíritos e eu não me preocupava com essa questão. Dizia ela, às vezes: “Temo os vivos, mas de maneira alguma me arreceio dos mortos. Se eu soubesse que há Espíritos, desejaria vê-los, pois que nenhum mal me poderiam fazer e essa aparição me proporcionaria a confirmação do dogma cristão segundo o qual nem tudo se extingue conosco.”



Vivíamos no campo. Em nosso quarto, situado ao norte, desde que o ocupáramos se tinham com freqüência produzido rumores estranhos, que nos esforçávamos por atribuir a causas naturais. Certa noite do mês de fevereiro do ano passado, a Sra. Mahon foi despertada por um contacto muito sensível em seus pés, como se, disse ela, lhe houvessem dado pequenas palmadas. E acrescentou: “Há alguém aqui.” Depois, tendo-se virado para o lado esquerdo, entreviu, num canto escuro do quarto, qualquer coisa informe a se mover, o que a fez repetir: “Afirmo-te que aqui está alguém.”

Eu me achava deitado numa cama próxima da sua e lhe respondi: “É impossível. Tudo está bem fechado e posso assegurar-te que não há pessoa alguma, porque, há uns dez minutos, estou acordado e sei que reina profundo silêncio. Enganas-te.”

Entretanto, voltando-se para o lado oposto, ela viu distintamente, entre a cama e a janela, um homem alto, delgado, vestindo uma espécie de gibão justo, listrado, e com a mão direita erguida, em atitude de ameaça. Seu vulto se destacava bem, na meia obscuridade reinante. Diante dessa aparição, ela experimentou certo sobressalto, crente de que um ladrão se introduzira na casa, e me repetiu pela terceira vez: “Há, sim, há alguém aqui.” Ao mesmo tempo, sem perder de vista um só instante a aparição, que se conservava imóvel, cuidou de acender a vela.

Devo dizê-lo: era tal em mim a convicção de que minha mulher se achava sob o império de uma ilusão, em conseqüência de algum sonho; estava tão persuadido de que nenhuma pessoa estranha podia ter penetrado no nosso apartamento, no qual, aliás, o meu cão de guarda fizera a sua costumada ronda, após o jantar dos criados; era tão profundo o silêncio desde que eu despertara, que, embalado por essas idéias, não pensei em abrir os olhos. Se minha mulher me houvera dito: “Vejo alguém”, seria diverso, eu teria olhado imediatamente. Tal, porém, não se deu. Provavelmente, as coisas deviam passar-se do modo por que se passaram.

Seja como for, durante todo o tempo que ela gastou para acender a vela, a aparição lhe esteve presente. Desvaneceu-se com a luz. Ao ouvir-lhe a narrativa pormenorizada do que ocorrera, levantei-me. Percorri o apartamento inteiro. Nada. Consultei o relógio, eram quatro horas.

A partir de então, diversos fatos singulares se têm dado no apartamento: ruídos inexplicáveis, luzes vistas de fora, por mim, através das janelas do primeiro andar, quando todos se acham no andar térreo; desaparição súbita de moedas das minhas próprias mãos; pancadas, etc. Mas, a aparição não se repetiu. Convém dizer que à noite conservávamos acesa uma lampadazinha.

Ultimamente, estando em Paris, a Sra. Mahon perguntou à sonâmbula do Sr. Cahagnet se poderia dizer-lhe qual o Espírito que se lhe manifestara. A resposta foi esta:

“Vejo-o... É um homem revestido da toga de juiz com amplas mangas.” Objetou minha mulher não ter sido assim que ele se lhe apresentara. “Pouco importa. Digo-lhe que é a ele que eu vejo. Tomou as vestes que mais lhe convinham. Quando vivo, foi juiz, muito demandista por natureza. Ao morrer, achava-se com a razão perturbada por motivo de um processo injusto que via quase perdido. Suicidou-se então nas cercanias de sua casa. Está errante. A senhora costumava dizer que tinha vontade de ver um Espírito ... Ele veio.”

Essa explicação não satisfez bastante à Sra. Mahon, para quem eram novos todos aqueles pormenores. Poucos dias depois do seu regresso ao Luxemburgo, encontrando-se na casa de umas pessoas às quais repetia a resposta que lhe dera a sonâmbula, todos os que a ouviam exclamaram: “Mas, é o Sr. N..., que se afogou há muitos anos no lago ali perto. Era juiz... de caráter rabugento. Estava a pique de perder um processo contra um de seus sobrinhos... Tratava-se de prestar contas de tutela... Perdeu a cabeça... suicidou-se.”

Exatamente o que dissera a sonâmbula.

Não lhe oculto que foi profunda a impressão em todos os presentes... Também não devo deixar de dizer-lhe que a Sra. Mahon ignorava, como eu, essa história do juiz N... E, conseguintemente, a sonâmbula não poderia ler-lhe no espírito as particularidades precisas que revelou.

Entrego-lhe o fato e o autorizo a publicá-lo. Pelo que concerne à exatidão, afirmo-a sob a garantia da minha palavra.

Eugênio Mahon
Vice-Cônsul da França

Algumas reflexões


Eis, pois, levados, pouco a pouco, a comprovar que aquele corpo fluídico, entrevisto na antigüidade como uma necessidade lógica, é positiva realidade, atestada pelas aparições, tanto quanto pela visão dos sonâmbulos e dos médiuns.

Esses seres que vivem no espaço, isto é, ao nosso derredor, têm uma forma perfeitamente determinada, que permite sejam descritos com exatidão. Já não é lícita hoje qualquer dúvida acerca desse ponto, visto serem por demais numerosos os testemunhos de experimentadores sérios, para que se admita, numa discussão sincera, a negação pura e simples.

Resta inquirir se esse envoltório se constitui depois da morte, ou, o que é mais provável, se está sempre ligado à alma. É verdadeira esta última suposição, possível há de ser comprovar-se-lhe a existência durante a vida. É o que vamos fazer imediatamente, apelando, não mais para magnetizadores ou espíritas, e sim para investigadores inteiramente estranhos aos nossos estudos, para sábios imparciais, cujas verificações tanto mais valor terão, quanto nenhuma ligação guardem com qualquer teoria filosófica.




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