David a morte de Sócrates


Capítulo V O corpo fluídico depois da morte



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Capítulo V
O corpo fluídico depois da morte


O perispírito descrito em 1804. – Impressões produzidas pelas aparições sobre os animais. – Aparição depois da morte. – Aparição do Espírito de um índio. – Aparição a uma criança e a uma sua tia. – Aparição coletiva de três Espíritos. – Aparição coletiva de um morto. – Algumas reflexões.

O perispírito descrito em 1804


Sob o título: Aparição real de minha mulher depois de morta – Chemnitz, 1804 –, o Dr. Wœtzel publicou um livro que causou grande sensação nos primeiros anos do século dezenove. Em muitos escritos foi ele atacado. Wieland, sobretudo, o meteu a ridículo na Enthauesia.106

Wœtzel pedira à sua mulher, quando enferma, que, se viesse a morrer, lhe aparecesse. Ela prometeu; porém, mais tarde, a pedido seu, o doutor a desobrigou do prometido. Todavia, algumas semanas depois de ter ela morrido, sentiu ele no quarto, que se achava fechado, uma forte rajada de vento, que quase lhe apagou a luz e abriu uma janelazinha do aposento. À branda claridade reinante, Wœtzel viu a forma de sua esposa, que lhe disse com voz meiga: “Carlos, sou imortal; um dia tornaremos a ver-nos.” A aparição e essas palavras se repetiram segunda vez, mostrando-se vestida de branco a morta e com o aspecto que tinha antes de morrer. Um cão, que da primeira vez não dera sinal de perceber coisa alguma, da segunda se pôs a farejar e a descrever um círculo, como se o fizesse em torno de alguma pessoa sua conhecida.

Noutra obra sobre o mesmo assunto (Leipzig, 1805), o autor fala de solicitações que lhe foram feitas no sentido de desmentir toda aquela história – “porque, do contrário, muitos sábios serão forçados a repudiar o que, até então, tinham tido como opiniões verdadeiras e justas e a superstição encontraria naquilo farto alimento”. Ele, porém, já pedira ao conselho da Universidade de Leipzig que lhe permitisse formular sobre o caso um juramento judiciário. O Dr. Wœtzel desenvolveu assim a sua teoria: “Depois da morte, a alma ficaria envolta num corpo etéreo, luminoso, por meio do qual poderia tornar-se visível, podendo também pôr outras vestes em cima desse invólucro luminoso. A aparição não atuara, com relação a ele, sobre o seu sentido interior, mas, unicamente, sobre o seu sentido exterior.”

Temos, nesta observação, uma prova da objetividade da aparição, por haver ela visto e reconhecido o cão. Indubitavelmente, uma imagem subjetiva, isto é, existente no cérebro do sábio, não houvera podido exercer aquela influência sobre um animal doméstico.


Impressões produzidas pelas aparições sobre os animais


No que escreveu sobre a vidente de Prévorst, Justinus Kerner alude a uma aparição que ela teve durante um ano inteiro. De cada vez que o Espírito lhe aparecia, um galgo negro, que havia na casa, como que lhe sentia a presença. Logo que a aparição se tornava perceptível à vidente, o cão corria para junto de alguém, como a pedir proteção, muitas vezes uivando forte. Desde o dia em que viu o vulto, nunca mais quis ficar só durante a noite.

No terrível episódio de casa mal-assombrada, que a Sra. S. C. Hall narrou a Robert Dale Owen,107 se vê que foi impossível fazer-se que um cão permanecesse, nem de dia, nem de noite, no aposento onde as manifestações se produziam. Pouco tempo depois destas começarem, ele fugiu e não mais o encontraram.

John Wesley, fundador da seita que lhe tomou o nome, deu publicidade aos ruídos que se ouviam no curato de Epworth. Depois de descrever esses sons estranhos, semelhantes aos que produziriam objetos de ferro ou de vidro caindo ao chão, acrescenta ele:

“Pouco mais tarde, o nosso grande mastim correu a refugiar-se entre minha mulher e eu. Enquanto duraram os ruídos, ele ladrava e pulava de um lado para outro, abocanhando o ar e isso, as mais das vezes, antes que alguém, no aposento, houvesse escutado coisa alguma. Ao cabo de três dias, tremia e se esgueirava rastejando, antes que começassem os ruídos. Era, para a família, o sinal de que estes iam principiar, sinal que nunca falhou.”

Fazemos a respeito algumas observações, tomando-as ao ilustre naturalista Sir Alfred Russel Wallace.108

É sem dúvida notável e digna de atenção essa série de casos em que se puderam observar as impressões que os fantasmas produzem nos animais. Fatos tais certamente não se dariam, se fossem verdadeiras as teorias da alucinação e da telepatia. Eles, no entanto, merecem fé, porque quase sempre entram nas narrativas como episódios inesperados. Além disso, são anotados a fim de que não passem despercebidos, o que prova que os observadores conservavam o seu sangue-frio.

Mostram, irrefutavelmente, que grande número de fantasmas, percebidos pela visão ou pela audição, ainda quando seja uma única a pessoa que os perceba, constituem realidades objetivas. O terror que manifestam os animais que os percebem e a atitude que assumem, tão diferente da que guardam em presença dos fenômenos naturais, estabelecem, de modo não menos claro, que, embora objetivos, não são normais os fenômenos e não podem ser explicados por qualquer embuste, ou por eventualidades naturais mal interpretadas.

Continuaremos agora o estudo das aparições que se produzem após a morte. Salientaremos as semelhanças que existem entre essas aparições e as dos vivos e veremos que umas e outras apresentam clara analogia de caracteres, que implica a das causas. Se bem nos pareça pouco possível imaginar-se, para os casos precedentes, qualquer ação, ainda desconhecida, de um cérebro humano sobre outro cérebro humano, de maneira a alucinar completamente, impossível será, com as teorias materialistas, supor essa ação exercitada por um morto. Todavia, desde que os fatos são idênticos, ter-se-á que admitir, como causa verdadeira, a alma, quer habite a Terra, quer haja deixado este mundo.

É exato que os incrédulos são muito hábeis em forjar teorias, quando topam com fenômenos embaraçosos, cuja realidade não possam negar. Daí vem o terem estendido aos mortos a hipótese da telepatia, pretendendo que a ação telepática de um moribundo pode penetrar inconscientemente no espírito do paciente, de modo que a alucinação se dê muito tempo depois da morte daquele que a originou.

Apóia-se esta suposição nas experiências de sugestões em longo prazo. É sabido que se pode conseguir que pacientes muito sensíveis pratiquem atos bastante complicados, alguns dias e até alguns meses mais tarde. Despertado, o paciente nenhuma consciência tem da ordem adormecida no seu íntimo; mas, em chegando o dia determinado, executa fielmente a sugestão.

Se, pois, o pensamento de um morto é violentamente levado a um de seus parentes, pode este guardá-lo inconscientemente e, quando a alucinação se produzir, já não haverá uma aparição, mas apenas a realização de uma sugestão. É muito engenhoso este modo de conceber as coisas, porém, muito longe de explicar todos os fatos de aparição de mortos. Em primeiro lugar, a analogia entre a visão de um morto e uma sugestão retardada é absolutamente falsa, porquanto o agente – na maioria dos casos – não cogita de ordenar ao paciente que o veja mais tarde. Em segundo lugar, se, como nas aparições de vivos, há fenômenos físicos produzidos pela aparição, evidente se torna que não é uma imagem mental quem as executa: preciso se faz seja o ser desencarnado, o que demonstra a sua sobrevivência. Teremos adiante ocasião de mostrar quanto essas explicações, pretensamente científicas, costumam ser falsas e quão incompletas são sempre.

Voltemos aos casos referidos nos Phantasms of the Living.

Aqui temos um em que a aparição se produz pouco tempo após o trespasse. A narrativa é da Sra. Stella Chieri, Itália:109

Aparição depois da morte


“18 de janeiro de 1884.

Contando eu mais ou menos quinze anos, fui passar algum tempo com o Dr. J. G., em Twyford, Hants, e lá me afeiçoei a um primo do doutor, rapaz de 17 anos. Tornamo-nos inseparáveis, juntos passeávamos de bote, juntos andávamos a cavalo, de todas as diversões participávamos, como irmãos.

Porque fosse de saúde muito delicada, eu cuidava dele, vigiando-o constantemente, de sorte que nunca passávamos, sequer, uma hora, longe um do outro.

Desço a estes pormenores todos para lhe mostrar que não havia o menor vestígio de paixão entre nós. Éramos, um para o outro, como dois rapazes.

Certa noite, vieram chamar o Sr. G..., para ver o primo que caíra de súbito gravemente enfermo de uma inflamação dos pulmões. Ninguém nada me dissera da gravidade da doença; eu, portanto, ignorava que o rapaz corria perigo de vida e, por isso, não me inquietava a seu respeito. A noite, ele morreu. O Sr. G... e sua irmã foram à casa de uma tia, deixando-me sozinha no salão de visitas. Ardia no fogão um fogo vivo e eu, como muitas moças, gostava de estar junto da lareira, para ler à claridade das chamas. Não sabendo que o meu amigo estava mal, conservava-me tranqüila, apenas um pouco aborrecida por não poder ele passar a noite ao meu lado, tão só me sentia.

Estava eu lendo calmamente, quando a porta se abriu e Bertie (o meu companheiro) entrou. Levantei-me bruscamente, a fim de aproximar do fogo uma poltrona para ele, pois me parecia estar com frio e não trazia capote, se bem na ocasião nevasse. Pus-me a repreendê-lo por haver saído sem se agasalhar bastante. Em vez de responder, ele colocou a mão no peito e abanou a cabeça, o que, a meu ver, queria significar que não sentia frio, que sofria do peito e perdera a voz, coisa que de vez em quando acontecia. Censurei-lhe ainda mais a imprudência. Estava a falar, quando o Sr. G... entrou e me perguntou a quem me estava dirigindo. Respondi: “A este insuportável rapaz, que sai sem capote, com um resfriado tão sério, a ponto de não poder falar. Empreste-lhe o seu capote e mande-o para casa.”

Jamais esquecerei o horror e o espanto que se pintaram no semblante do doutor, porquanto sabia (o que eu ignorava) que o pobre rapaz morrera, havia uma meia hora, e vinha precisamente dar-me essa notícia. A sua primeira impressão foi a de que já eu a recebera e de que isso me ocasionara a perda da razão. Fiquei sem compreender por que me obrigou a sair do salão, falando-me como se o fizesse a uma criancinha. Durante alguns momentos trocamos observações incoerentes, explicando-me ele, depois, que eu tivera uma ilusão de óptica. Não negou que eu houvesse visto Bertie com meus próprios olhos; mas, apresentou-me uma explicação muito científica dessa visão, temendo que me assustasse ou ficasse debaixo de uma impressão aflitiva.

Até ao presente, não falei a quem quer que fosse desse acontecimento, em primeiro lugar porque encerra para mim uma triste recordação e, também, porque temia me tomassem por espírito quimérico e não me acreditassem. Minha mãe, essa me disse que fora um sonho. Entretanto, o livro que eu lia na ocasião, intitulado O Sr. Verdant Green, não é dos que fazem dormir e recordo-me bem de que muito me ria de alguns disparates do herói, no instante mesmo em que a porta se abriu.”

Às diversas perguntas que lhe dirigiram os investigadores, a Sra. Stella respondeu:

“A casa do rapaz ficava mais ou menos a um quarto de hora de marcha da do Sr. G... E Bertie morreu cerca de vinte minutos antes que o doutor lhe deixasse a casa. Quando o Sr. G... entrou, havia perto de cinco minutos que a aparição estava na sala. O que sempre me pareceu muito singular é que eu tenha ouvido o ruído da maçaneta a girar e da porta a se abrir. Com efeito, foi o primeiro desses ruídos que me fez levantar do livro os olhos. A aparição caminhou, atravessando a sala, em direção à lareira e se sentou, enquanto eu acendia as velas. Tudo se passou de modo tão real e natural, que mal posso agora admitir que não fosse uma realidade.”

Esta última observação mostra que a moça se achava em seu estado habitual. Ria, lendo um livro alegre e de modo nenhum se encontrava predisposta a uma alucinação. O Espírito de Bertie, que apenas acabara de abandonar o seu corpo, entra na sala, fazendo girar a maçaneta da porta. O ruído é tão real, que a faz levantar a cabeça. Se se tratasse de uma alucinação, quem a teria produzido?

Já vimos que a mãe de Helena 110 – fantasma de vivo – abriu uma porta; assistimos aqui ao mesmo fenômeno produzido por Bertie, no estado de Espírito. A alma do rapaz não é visível para o doutor – tal qual como o duplo de Frederico 111 para o amigo de Goethe – mas atua telepaticamente sobre Stella e objetivamente sobre a matéria da porta.

“Começamos a aperceber-nos – diz F. H. Myers, um dos autores dos Phantasms –, quão intimamente ligadas se acham as nossas experiências de telepatia entre vivos à telepatia entre os vivos e os mortos. Ninguém, todavia, quer com estas ocupar-se, por medo da pecha de misticismo.”

A aparição se assemelhava tanto a Bertie quando vivo, que a moça lhe fala, o repreende por ter saído sem capote. Numa palavra: persuade-se de que ele lá está, pois que caminhou desde a porta até a poltrona em que se sentou.

Se o fenômeno se houvera produzido alguns minutos antes da morte de Bertie, em vez de se produzir depois, entraria na classe dos acima estudados. Aqui, porém, o corpo está sem vida, só a alma se manifesta, sem que, no entanto, qualquer mudança se haja operado nas circunstâncias exteriores pelas quais ela atesta a sua presença. Os traços fisionômicos são idênticos aos do corpo material. O talhe, o andar, tudo lembra o ser vivo.

Citemos outro caso, no qual o Espírito que se manifesta imprime ao seu perispírito tangibilidade bastante para poder pronunciar algumas palavras, se bem já não pertencesse ao número dos vivos.112


Aparição do Espírito de um índio


A Sra. Bishop, Bird em solteira, escritora muito conhecida, mandou-nos, em março de 1884, esta narrativa, quase idêntica a outra, de segunda mão, que nos fora remetida em março de 1883. Excursionando pelas Montanhas Rochosas, travou ela relações com um índio mestiço, chamado Nugent, porém, conhecido pelo nome de “Mountain Jim”, e sobre o qual adquirira considerável influência.

“No dia, diz a narradora, em que dele me despedi, Mountain Jim estava muito comovido e muito excitado. Tivéramos uma longa palestra sobre a vida mortal e a imortalidade, palestra a que eu pusera fim proferindo algumas palavras da Bíblia. Muito impressionado, mas também muito exaltado, ele exclamara: “Não tornarei talvez a vê-la nesta vida; vê-la-ei, porém, quando eu morrer.” Repreendi-o brandamente, pela sua violência, ao que ele retrucou, repetindo, com mais energia ainda, a mesma coisa e acrescentando: “Nunca esquecerei as palavras que a senhora acaba de me dirigir e juro que tornarei a vê-la, quando eu morrer.” Dito isso, separamo-nos.

Durante algum tempo, tive notícias dele. Fui sabedora de que se conduzira mal, pois retomara seus costumes selvagens, e mais tarde vim a saber que se achava muito doente, em conseqüência de ferimentos que recebera numa rixa; depois, que estava melhor, mas que formava projetos de vingança. Da última vez que me chegaram notícias suas, eu me achava no Hotel Interlaken, em Interlaken, na Suíça, em companhia da Srta. Clayson e da família Ker. Algum tempo depois de as ter recebido (fora em setembro de 1874), estava recostada na cama a escrever uma carta para minha irmã, quando, erguendo os olhos, vi Mountain Jim em pé diante de mim. Fitava-me e, quando lhe dirigi o olhar, disse-me em voz baixa, mas muito distintamente: “Vim, como prometi.” Em seguida, fez um sinal com a mão e disse: “Adeus!”

Quando a Srta. Bessie Ker me veio trazer o almoço, tomamos nota do acontecido, da data e da hora. Mais tarde, chegou-nos a notícia da morte de Mountain Jim e verificamos que, levada em conta a diferença das longitudes, a data coincidia com a da sua aparição.”

Esta, na realidade, segundo os autores, se dera oito horas depois da morte, ou catorze horas, se ocorreu no dia seguinte ao indicado pela Sra. Bishop.

Comprova-se invariavelmente que a distância não constitui obstáculo ao deslocamento do Espírito, pois que ele pôde manifestar a sua presença na Europa muito pouco tempo após sua morte na América. As observações precedentemente feitas aplicam-se aqui ao aspecto exterior do Espírito. Julgamos, entretanto, que a materialização, neste caso, foi mais completa do que no último citado, porquanto ele dirigiu um adeus à vidente, o que nos reconduz ao caso em que o fantasma de vivo igualmente pronuncia algumas palavras. Esta observação firma que também o Espírito dispõe de um órgão para produzir sons articulados e de uma força para acioná-lo. Veremos, dentro em pouco, que no perispírito não existe apenas o laringe, mas todos os órgãos do corpo material. O que, acima de tudo, nos importava assinalar é a notável uniformidade que se observa na maneira de agir dos fantasmas, quer se trate de um desdobramento, quer da materialização temporária de um habitante do espaço.

Mencionemos, por fim, mais um caso em que o mesmo Espírito se manifesta, com pequeníssimo intervalo, a duas pessoas.

Aparição a um menino e a uma sua tia


Sra. Cox, Summer Hill, Queenstown, Irlanda.113

“Na noite de 21 de agosto de 1869, entre oito e nove horas, estava eu, sentada, no meu quarto de dormir, em casa de minha mãe, em Devonport. Meu sobrinho, um menino de sete anos, estava deitado no quarto ao lado. Tive de repente a surpresa de vê-lo entrar correndo no meu aposento e a gritar aterrorizado: “Tia! Acabo de ver meu pai andando à volta da minha cama!” Observei-lhe: “Que tolice! estavas a sonhar!” Ele: “Não, não sonhei.” E não quis voltar para o seu quarto. Vendo que não conseguia persuadi-lo a que voltasse, acomodei-o na minha cama. Entre dez e onze horas também eu me deitei.

Cerca de uma hora depois, creio, dirigindo o olhar para o lado da lareira, vi distintamente, com grande espanto, a forma de meu irmão, sentado numa poltrona, sendo que sobremaneira logo me impressionou a palidez mortal do seu semblante. (Nesse momento, meu sobrinho dormia a sono solto.) Fiquei tão aterrada (sabia que naquela ocasião meu irmão se achava em Hong Kong), que cobri a cabeça com o lençol. Pouco depois, ouvi-lhe nitidamente a voz, chamando-me pelo meu nome, que foi repetido três vezes. Quando de novo olhei para o lugar onde o vira, ele havia desaparecido. No dia seguinte, narrei o fato à minha mãe e à minha irmã e disse que tomaria nota de tudo e assim fiz. Pela primeira mala chegada da China, veio-me a triste notícia da morte súbita de meu irmão, ocorrida a 21 de agosto de 1869, na baía de Hong Kong, em conseqüência de um ataque de insolação.

Minnie Cox.

Segundo informações complementares, a data da morte precedeu de algumas horas a aparição.

É impossível admitir-se aqui a alucinação, porquanto o mesmo Espírito se faz visível a uma criança e a uma mulher que não estavam juntos. Cada uma dessas pessoas reconhece a aparição e, com a segunda, para atestar a sua identidade, o irmão chama pela irmã três vezes seguidas. A alma fazia empenho, evidentemente, em assinalar de modo positivo a sua presença, donde devemos legitimamente induzir que ela se achava materializada. A irmã olhou tão atentamente para o irmão, que lhe notou a palidez extrema do rosto. Afastemos, portanto, neste caso, qualquer outra interpretação diferente da que atribui à alma desencarnada o poder de mostrar a sua sobrevivência.

Encerremos a série dos casos que fomos pedir à Sociedade de Pesquisas Psíquicas com dois tão probantes, que tornam supérfluos quaisquer comentários.

Aparição coletiva de três Espíritos


“19 de maio de 1883.

Srta. Catarina, Sr. Weld.114

Filipe Weld era o filho mais moço do Sr. James Weld, de Archers Lodge, perto de Southampton, e sobrinho do falecido cardeal Weld. Em 1842, seu pai o mandou para o colégio Saint-Edmond, próximo de Ware, no Hertfordshire, para fazer seus estudos. Rapaz de boas maneiras e amável, fez-se muito estimado de seus mestres e camaradas. Na tarde de 16 de abril, Filipe, acompanhado de um de seus mestres e de alguns companheiros, foi passear de canoa pelo rio. Era esse um exercício de que gostava muito. Quando o mestre avisou que estava na hora de regressar ao colégio, Filipe pediu licença para mais uma corrida. O mestre consentiu e os rapazes rumaram até ao ponto onde faziam a virada. Chegados aí, Filipe, manobrando o barco para dar a volta, caiu acidentalmente no rio e afogou-se, apesar de todos os esforços empregados para salvá-lo.

Transportaram-lhe o corpo para o colégio e o Reverendíssimo Dr. Cox, o diretor, ficou profundamente contristado e aflito. Resolveu ir em pessoa à casa do Sr. Weld, em Southampton.

Partiu naquela mesma tarde e, passando por Londres, chegou a Southampton no dia seguinte. Foi de carro a Archers Lodge, residência do Sr. Weld e, antes de entrar, viu o Sr. Weld a pequena distância do portão, dirigindo-se para a cidade. O Dr. Cox fez parar o carro, desceu e encaminhou-se para o Sr. Weld. Ao aproximar-se, disse-lhe este, impedindo-o de falar: “Não precisa dizer coisa alguma, pois já sei que Filipe morreu. Ontem à tarde, estando a passear com minha filha Catarina, ambos de repente o vimos. Estava na alameda, do outro lado da estrada, entre duas pessoas, sendo uma delas um moço vestido de preto. Minha filha foi a primeira a percebê-lo e exclamou: “Papai, já viste alguém tão parecido com o Filipe como aquele rapaz?” – “Como ele, não, respondi, pois que é ele próprio!” Coisa singular: minha filha nenhuma importância ligou a esse episódio. Para ela, apenas víramos alguém que se parecia extraordinariamente com seu irmão. Encaminhamo-nos para aquelas três formas. Filipe olhava sorridente e com uma expressão de ventura para o mancebo vestido de preto, que era mais baixo do que ele. De repente, como que se desvaneceram às minhas vistas e nada mais vi, senão um camponês que antes eu divisara através daquelas três formas, o que me levou a pensar que eram Espíritos. Contudo, a ninguém falei, temendo afligir minha mulher. Aguardei ansioso o correio do dia seguinte. Com grande satisfação para mim, nenhuma carta recebi. Esquecera-me de que as cartas de Ware só chegavam à tarde e os meus receios se acalmaram. Não mais pensei naquele acontecimento extraordinário, até ao momento em que o vi de carro perto do meu portão. Tudo então reviveu em meu espírito e logo compreendi que me vinha anunciar a morte do meu querido rapaz.”

Imagine o leitor o inexprimível espanto do Dr. Cox ao ouvir essas palavras. Perguntou ao Sr. Weld se já vira alguma vez o rapaz trajado de preto para o qual Filipe olhava com um sorriso de grande satisfação. O Sr. Weld respondeu que jamais o vira, porém, que tão nitidamente os traços do seu semblante se lhe haviam gravado no espírito, que estava certo de o reconhecer imediatamente, assim o encontrasse. Narrou então o Dr. Cox ao amargurado pai todas as circunstâncias em que se dera a morte de seu filho, ocorrida precisamente à hora em que aparecera à sua irmã e ao seu genitor. O Sr. Weld foi ao enterro do filho e, ao deixar a igreja, após a triste cerimônia, olhou em torno de si para ver se algum dos religiosos se parecia com o moço que vira ao lado de Filipe, mas em nenhum descobriu a menor semelhança com a figura que lhe aparecera.

Cerca de quatro meses mais tarde partiu em visita a seu irmão, Sr. Jorge Weld, em Seagram Hall, no Lancashire, levando consigo toda a família. Certo dia, indo com sua filha Catarina, a passeio na aldeia vizinha de Chikping, depois de assistir a um ofício religioso na igreja, foi à casa do sacerdote visitá-lo. Enquanto esperavam que o padre aparecesse, os dois visitantes se entretiveram a examinar as gravuras dependuradas nas paredes da sala. Súbito, o Dr. Weld se deteve diante de um retrato (não se podia ler o nome escrito embaixo, porque a moldura o encobria) e exclamou: “É a pessoa que vi com Filipe; não sei de quem é este retrato, mas, tenho a certeza de que foi esta a pessoa que vi com Filipe.” Passados alguns instantes, entrou o sacerdote e o Sr. Weld imediatamente o interpelou com respeito à gravura. Respondeu ele que esta representava Santo Estanislau Kostka e que considerava aquele um bom retrato do jovem santo.

O Sr. Weld se tornou presa de grande emoção. Santo Estanislau fora um jesuíta que morrera muito moço. Tendo sido o pai do Sr. Weld grande benfeitor daquela ordem, sua família era considerada sob a proteção especial dos santos jesuítas. Ao demais, Filipe, havia pouco, se tomara, em conseqüência de circunstâncias diversas, de particular devoção a Santo Estanislau. Além disso, este santo é tido como o padroeiro dos afogados, conforme consta da história de sua vida. O reverendo logo ofereceu o retrato ao Sr. Weld que, naturalmente, o recebeu com a maior veneração e o conservou até à morte, passando, depois de ocorrida esta, à sua filha (a narradora), que vira a aparição ao mesmo tempo em que seu pai e que ainda o guarda consigo.”

São típicas as circunstâncias deste relato. Não só o filho se apresenta a seu pai sob uma forma que, embora transparente, permite que aquele o reconheça perfeitamente, como também um de seus companheiros apresenta fisionomia tão característica, que o Sr. Weld pôde reconhecê-lo num retrato, depois de passados quatro meses. Sua filha igualmente o reconhece, o que exclui toda idéia de alucinação. Aliás, o fato de o Sr. Weld, antes da manifestação, não ter conhecido a imagem de Santo Estanislau mostra bem que ele não pode ter sido vítima de uma ilusão.

Eis agora um último caso em que a aparição é reconhecida por todas as pessoas da casa.


Aparição coletiva de um morto


Sr. Charles A. W. Lett, do Real Clube Militar e Naval, rua Albermale, Londres.115

“3 de dezembro de 1885.

A 5 de abril de 1873, o pai de minha mulher morreu na sua residência, em Cambrook, Rosebay, perto de Sydney. Umas seis semanas depois de sua morte, certa noite, pelas nove horas, minha mulher entrou acidentalmente num dos quartos de dormir da casa. Acompanhava-a uma jovem, a Srta. Berton. Ao entrarem no quarto – achava-se aceso o bico de gás – tiveram ambas a surpresa de dar com a imagem do capitão Towns, refletida na superfície polida do armário. Viam-se-lhe a metade do corpo, a cabeça, as espáduas e os braços. Dir-se-ia um retrato em tamanho natural. Tinha pálido e magro o rosto, como ao morrer. Trazia uma jaqueta de flanela cinzenta, com que costumava dormir. Surpreendidas e meio apavoradas, supuseram, a princípio, ser um retrato que houvessem pendurado no quarto e cuja imagem viam refletida. Mas, não havia ali nenhum retrato daquele gênero.

Estando as duas ainda a olhar, entrou no quarto a irmã de minha mulher, Srta. Towns, e, antes que as outras lhe falassem, exclamou: “Meu Deus! olhem o papai.” Como na ocasião passasse pela escadaria uma das criadas de quarto, chamaram-na e lhe perguntaram se via alguma coisa. Ela respondeu: “Oh! Senhorita, o patrão!” Mandaram chamar Graham, ordenança do capitão Towns, o qual, assim que chegou ao quarto, foi exclamando: “Deus nos guarde! Senhorita Lett, é o capitão.” Chamaram também o mordomo e depois a Sra. Crane, ama de minha mulher, e ambos disseram o que viam. Finalmente, pediram à Sra. Towns que viesse. Ao deparar com a aparição, encaminhou-se para ela de braços estendidos, como para segurá-la; mas, ao passar a mão pela face do armário, a imagem começou a desaparecer pouco a pouco e nunca mais foi vista, embora o quarto continuasse ocupado.

Tais os fatos como se deram, sendo impossível duvidar deles. As testemunhas de nenhum modo foram influenciadas. A todas era feita a mesma pergunta, logo que chegavam ao quarto, e todas responderam sem hesitação. Eu, no momento, estava em casa, mas não ouvi chamarem-me.

C. A. W. Lett.

“As abaixo assinadas, depois de lerem a narrativa acima, certificam que está exata. Todas nós fomos testemunhas da aparição.

Sara Lett. – Sibbie Singth (Towns em solteira).”

Além dos casos citados, As Alucinações Telepáticas trazem sessenta e três outros análogos.

Tanto custa às verdades novas abrir caminho através da inextricável balseira das idéias preconcebidas, que a inevitável alucinação não deixou de ser invocada, para explicar os casos em que as aparições de Espíritos são vistas simultaneamente por muitas pessoas. Com a maior simplicidade imaginável, com espantosa desenvoltura, dizem os negadores que a alucinação, em vez de ser única, é coletiva. Em vão se lhes objeta que as testemunhas gozam de perfeita saúde e se acham no uso de todas as suas faculdades; que essas testemunhas, conquanto diversas, se referem a um mesmo objeto, descrito ou reconhecido identicamente por todos os observadores, o que constitui sinal certo da sua realidade: os incrédulos abanam a cabeça desdenhosamente e, fazendo garbo da sua ignorância, preferem atribuir o fato a um desarranjo momentâneo das faculdades mentais dos observadores, a uma ilusão que se apodera de todos os assistentes, antes que reconhecer lealmente a manifestação de uma inteligência desencarnada.

A negação, porém, para legitimar-se, precisa de limites, porquanto não lhe é possível manter-se, desde que seja posta em face das provas experimentais, que permanecem quais testemunhos autênticos da realidade das manifestações.

Notemos que, em todos os casos precedentemente referidos, a certeza da visão em si mesma não é contestada; o que os opositores negam é que seja objetiva, isto é, que se haja produzido algures, que não no cérebro do ou dos assistentes. Pretendem eles que os relatos das testemunhas não podem ter valor absoluto, dado que, a admitir-se uma coisa tão inverossímil como a aparição de um morto, ou a realidade de um fenômeno sobrenatural, mais vale se suponha, da parte dos vivos, uma aberração do espírito.

Mas, ainda aqui, os incrédulos desprezam um fato muito importante, pois, se há uma alucinação, não pode esta ser uma alucinação qualquer; tem que estar ligada a um acontecimento real e achar-se com este em íntima conexão. Não podem, conseguintemente, atribuir-se ao acaso ou a meras coincidências as visões telepáticas e, se demonstrarmos possível a provocação artificial de tais fenômenos, fica fora de dúvida que os que se produzem acidentalmente são devidos a uma lei natural ainda ignorada.

É precisamente o que vamos fazer no capitulo seguinte. Levando mesmo mais longe a experimentação, comprovaremos que certas aparições são tão reais, que se chega a fotografá-las. Desde então, nem sequer a sombra de uma dúvida poderá restar acerca da objetividade delas, tão obstinadamente contestada.





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