Débora E. Universidade Salgado de Oliveira



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Andrade, Débora E. - Universidade Salgado de Oliveira
Biografia e História na obra Past and Present de Thomas Carlyle
Em uma resenha de Friedrich Engels intitulada “A situação na Inglaterra”, publicada em 1843 no Anuário Franco-alemão1, o escritor socialista se dedica a apresentar para os leitores alemães a obra recém publicada de um crítico social romântico de seu tempo, o historiador e escritor Thomas Carlyle (1795-1881). Past and Present, escrita em 1843, talvez tivesse passado despercebida para qualquer adepto atual do marxismo, mas Engels, fundador do materialismo histórico, leu-a com entusiasmo, apesar de discordâncias fundamentais, procurando nela material para inspirá-lo em seu próprio trabalho de pesquisa que iniciara em 1842, quando morava na cidade de Manchester na Inglaterra, e que completaria dois anos mais tarde, resultando na publicação de A condição da classe operária na Inglaterra.

Em sua resenha ele afirma que o escritor escocês, um dos grandes nomes do pensamento romântico na Inglaterra, um dos maiores divulgadores da literatura alemã das últimas décadas, era o único no "mundo culto" de seu tempo a expor os problemas humanos que se abatiam sobre a classe operária. Explorando passagens e afirmações contidas em Past and Present, Engels pretende ilustrar a situação da classe operária inglesa, sobretudo no que concerne às críticas do escritor às relações sociais correspondentes ao sistema industrial e aos problemas advindos da organização da classe operária.

O jovem Engels não foi o único intelectual em seu tempo a elogiar este filósofo, historiador, orador e crítico social que buscou toda sua vida poder intervir na realidade e que encontrou na literatura o seu púlpito privilegiado, influenciando efetivamente muitas mentes brilhantes da sociedade vitoriana de meados do século XIX. Seu nascimento humilde na pequena cidade escocesa de Ecclefechan e sua criação calvinista forneceram-lhe tanto o desejo incansável de afirmar seu talento, quanto a convicção de que a modernidade precisava refundar as bases morais e religiosas sobre as quais se apoiava. Deixou o ginásio local (Annan) e graduou-se em teologia na Universidade de Edinburgh, ainda considerada uma das mais avançadas instituições de ensino superior da Grã Bretanha. Entretanto o momento nodal em sua trajetória foi seu encontro com as obras dos escritores alemães Goethe, Schiller e outros românticos entre os anos de 1819-1821, que lhe forneceu a segurança e a afinidade teórica que precisou para prosseguir em sua missão de escritor: revelar a verdade por detrás das aparências, revelar o "segredo aberto do universo".

Tendo escrito traduções e resenhas literárias das obras dos alemães (como Goethe Tieck, Hoffman e Richter) o escritor passa a publicar panfletos políticos sobretudo nas revistas Edinburgh Encyclopaedia, New Edinburgh Review e Fraser's Magazine (entre 1819-1824) e se volta para a percepção dos problemas do presente, distancia-se do discurso liberal e conservador que procurava distorcer o sentido da grave crise política e econômica, expressa no crescimento das fileiras de desempregados que passavam a integrar a massa de indigentes. Por trás dos problemas econômicos, das reformas políticas, das impessoais estatísticas, Carlyle enxergou a classe trabalhadora, vislumbrou para além de crises periódicas, que esgotaram o país na década 1830-40 que vivenciaram as grandes agitações políticas e desemprego generalizado, um processo real de deteriorização física e moral daquela classe que, em suas próprias palavras, constituía a Nação Britânica.

Alguns dos seus trabalhos mais expressivos são: Signs of the Times (1829), The History of the French Revolution, de 1837, Sartos Resartus que escreveu já em Londres, Hero and hero Worship (1840-41), a mais impressionante das obras de perfil histórico e biográfico de Carlyle. Nos panfletos Chartism (1839), e em seu livro Past and Present (1843), ele desenvolve a "Questão da Condição da Inglaterra", que elegeu como seu objeto privilegiado.

Interessa-nos no nosso trabalho abordar a questão da relação entre História e biografia pela ótica de Carlyle, tanto através da filosofia da História que ele esboça em Signs of the Times (1829), On History (1830), em On History Again (1833), e em On Biography (1832) como nas suas duas obras nas quais ela é realizada, concretizada, ou seja em Hero and hero Worship e Past and Present . Nestas duas obras estão contidas assistematicamente o seu pensamento político e social compreendendo questões como a perda e a busca da autoridade, a condição do homem de letras na sociedade industrial moderna, a concepção sobre industrialismo e o papel social e histórico das classes trabalhadoras, sua simpatia pelos movimentos operários, pelo cartismo, e de outro lado sua admiração pelos grandes líderes intelectuais e políticos da História.



Tais perspectivas relacionam-se com a concepção da História romântica que o escritor possui. Ele se crê o arauto do germanismo, o porta-voz de uma nova filosofia que interpretaria a atividade artística como uma disciplina capaz de fazer nascer grandes poderes morais".2 Na primeira metade do século XIX o cercamento dos campos, a industrialização e urbanização começam a se impor aos contemporâneos. A experiência de desenraizamento e de contato com uma cidade grande a partir de 1839, a cidade de Edinburgh, deixou Carlyle deprimido; mas mais de duas décadas depois a degradada e populosa metrópole londrina já não era grande e movimentada o suficiente para o escritor e publicista que dependia de um influente círculo literário que lhe garantiriam a publicação de seus trabalhos. Decidiu então mudar-se da pacata e isolada fazenda em Craigenputtoch (Escócia) para Cheyne Row, em Chelsea, Londres, onde recebia amigos de todas as posições políticas, desde revolucionários e radicais a conservadores e aristocratas.3

Durante algum tempo Carlyle subsistiu oferecendo cursos, sobre literatura alemã, História da Literatura e sobre os heróis e o culto aos heróis, que seria publicado em 1841 como Heroes and Hero-Worship. Após a publicação destas aulas, escreveu Past and Present, no qual a paixão pela História, a fascinação pelos heróis e sua "Questão da condição da Inglaterra" estariam, enfim, congregadas em uma só obra. Apesar de ter uma preocupação quase obsessiva pela história, que pode ser compreendida facilmente pelas questões relevantes no seu tempo e pelas suas leituras, Carlyle não é considerado um historiador profissional, ao contrário, ele pertence a uma geração que antecede a primeira geração de historiadores profissionais que seguiu as mudanças da comunidade histórica dos anos de 1850.

Os estudos históricos em 1830 eram uma combinação da prática dos antiquários e de uma carreira erudita mais ortodoxa, mas tinham enorme prestígio na sociedade vitoriana, como constata Philipa Levine em seu livro The Amateur and the professional . A partir de 1830 começa uma transformação nas atribuições institucionais, com a fundação de sociedades locais e novos organismos nacionais designados para promover o interesse no passado. Em 1840 estas sociedades passam a determinar o curso das atividades e da carreira profissional, e em 1850 o governo assumiu os projetos da iniciativa privada e ergueu a Secretaria do Arquivo Central para publicação de itens muito custosos para serem publicados pelos clubes particulares.

A fundação do New Public Record Office em Fetter Lane, tornaria possível a constituição da primeira classe de profissionais da história - os funcionários públicos e arquivistas, encarregados da classificação dos registros nacionais. Foram seguidos pelos professores universitários e pesquisadores. A História nesta época ganha reconhecimento acadêmico com a criação de cursos universitários de História, especialmente nas antigas universidades de Cambridge e Oxford, e há conseqüentemente a expansão da carreira professoral e tutorial. A reforma destas duas universidades pelo governo liberal nas décadas de 1850 e 1870 e a fundação de novas universidades abriram um novo campo para os historiadores. Carlyle recebe em 1865 o título honorífico de reitor da Universidade de Edinburgh após toda uma vida de dificuldades financeiras, sem nunca ter sido do corpo docente desta instituição. Como afirma Levine, Macaulay e Carlyle estão fora desta comunidade histórica que se estabelece e ambos tiveram um alcance mais amplo a leitores e admiradores de diferentes áreas do conhecimento.

Optamos por apresentar primeiramente o pensamento de Carlyle sobre a história e a relação do presente com o passado, o papel do sujeito histórico nesta relação, porque concordamos com Josep Fontana em seu livro História: análise do passado e projeto social quando ele afirma que existem idéias que orientam o pensador social e historiador na tarefa de pensar o passado e de construir um modelo de interpretação deste passado. Para Fontana "toda visão da história constitui uma genealogia do presente", porque tem em geral uma função de legitimação ou de contestação política do presente que estão circunscritas a um projeto social que lhe é subjacente, que podem ser ora a afirmação de uma hegemonia, ora contra-hegemônicos, e pretendem intervir e efetivamente estimulam ações concretas na realidade do presente e para o futuro.

Alguns dos pontos que retornam no pensamento de Carlyle são o papel do herói ontem e hoje, a corrupção e o caos do mundo contemporâneo pela introdução do maquinismo, e a função da História passada com relação ao presente. Este último tópico pode ser analisado primeiro porque abrirá caminho para pensarmos as outras facetas de seu pensamento e como se articulam. A compreensão da História em Carlyle pode ser explorada através de um conjunto de textos, particularmente da década de 1830, mas se deve iniciar por um artigo publicado na Fraser's Magazine em Novembro de 1830 - On History.

Ao conceituar a História como a 'filosofia que ensina através da experiência', ele afirma que todo o conhecimento existente é um produto da História enquanto experiência registrada e sendo assim ele reafirma a importância do pensamento e da crença como materiais essenciais à reconstituição histórica, portanto “todos os homens são historiadores”4, porque as vidas dos indivíduos são relatadas de forma histórica, as conquistas e fatalidades são relacionadas seletivamente pelo tempo e pela memória, enquanto os fatos se perpetuam para alguns poucos indivíduos. Esta perspectiva aponta para outra tendência no pensamento histórico e romântico do autor, o interesse pelos "anônimos" na História e a história cotidiana feita de tradições, crendices, hábitos alimentares, de trabalho e de devoção.

Em um outro texto de 1833, On History Again5, Carlyle mantém esta linha de argumentação, sugerindo que é possível chamar a História de “a mensagem, verbal ou escrita, que toda a humanidade destina a cada homem”; “é a comunicação mais articulada, enquanto que a [mensagem] desarticulada e muda, inteligível e ou não, reside dentro de nós ou ainda, à nossa volta, tão estranhamente através de cada fibra de nosso ser, a cada passo de nossa atividade, como a relação do passado com o presente, do distante com o que está próximo”6 que ele denomina também de uma Carta de Instruções da gerações antigas às mais novas.

Ele se afasta da História Oficial dos grandes eventos políticos reconhecendo a diversidade das suas representações das quais não é possível discernir a "verdadeira representação" de um evento. Para o publicista, as experiências passadas funcionam como lições presentes e como forma de embasar os discursos dos mais diversos partidários. Cada um examina a História de acordo com uma Filosofia que lhe é própria. Ele reconhece assim a difusão da História em plena época romântica: a História está em toda a parte, inclusive fora do discurso histórico formal; aquela que está na literatura, nos romances, ou mesmo em todo conhecimento prático, constitui uma "História Indireta", que poderíamos interpretar como uma filosofia ou visão de mundo.Em uma passagem ele expõe seu ponto de vista: "A verdade é que, duas dificuldades, nunca inteiramente superadas residem no caminho. Antes da filosofia poder ensinar através da experiência, deve ser reunida e registrada de modo inteligível."7

Carlyle demonstra ter a compreensão de que existem várias dificuldades no caminho daqueles que buscam a "verdade dos fatos". A primeira reside nos documentos, alguns perdidos, outros dados como sem importância. Ele entende que há uma seleção arbitrária pelo tempo ou promovida artificialmente pelo homem que faz com que seja imperfeita aquela experiência através da qual a filosofia deve ensinar. Há também uma discrepância fundamental entre história narrada e história vivida. As impressões registradas são sucessivas (relacionadas enquanto causa e efeito), enquanto os acontecimentos realizados e vivenciados se passam simultaneamente, a ponto de não se poder atribuir esta causalidade, pois todo evento individual é conseqüência não de um, mas de todos os outros eventos, anteriores ou contemporâneos, e irão por sua vez combinar-se a todos os outros e dar origem ao novo..."8.

A existência para ele é um caos no qual a combinação de eventos é permanente e dinâmica - um caos indefinido no tempo e indecifrável - e é este caos que o historiador retrata, portanto é um erro pensar que uma combinação de fatores possíveis esgotam o problema. Recuperando a idéia de On History Again, da História como uma memória individual (que é seletiva), como uma "Carta de Instruções", ele acrescenta que na História Universal, desde o início dos tempos, há uma infinidade de "anônimos" que a fizeram, mas que foram relegados pelo tempo ao esquecimento

As especulações de Carlyle contrariando os historiadores de seu tempo, ao reconhecer a "incompletude" do discurso histórico por conta da "ininteligibilidade" e da "inacessibilidade" do passado, são percebidas por Anne Rigney em seu artigo de 1996, publicado na revista History and Theory. Se esta característica da idéia de História de Carlyle restringiu sua popularidade entre os historiadores por um lado, por outro proporcionou aos seus trabalhos o engajamento imaginativo do leitor com o passado, estimulando sua imaginação e subjetividade. Assim o historiador também é um árbitro, é a autoridade (como um grande homem), um poeta - pois tem a autoria para construir uma narrativa – que organizava o material caótico em uma forma coerente.

Esta sensação de impotência do escritor para agir efetivamente no mundo, para agir politicamente em conjunto com outros intelectuais, acompanha a perda da fé religiosa, a busca de uma nova identidade do escritor que vai se refletir no tratamento que do dispensará ao seu herói enquanto homem de letras em Hero and Hero worship(1840) .

Carlyle queria fazer o passado falar ao presente, e sob o ponto de vista de seu projeto, sua obra mais importante não é uma biografia monumental de Oliver Cromwell que a princípio pretendia escrever, nem o épico da História da Revolução Francesa, mas seu Past and Present. Neste livro a sua comparação da História com a Biografia, assim como a história dos anônimos, pode ser reconhecida de forma mais marcante do que em Hero and Hero-worship, no qual ele afirma que “a vida social é a agregação da vida de todos os indivíduos que constituem a sociedade: a história é a essência de inumeráveis biografias” que encontram-se inacessíveis para nós. Contraditoriamente nesta mesma obra ele identifica a História e Biografia dos grandes homens, mais capazes de conhecer e de agir (pois eles colocam ordem onde só havia caos). Carlyle embasa sua argumentação com a frase de Jean Paul Richter de que os homens comuns são “abundante(s) em narrativa, e limitado (s) em reflexão; somente com os homens cultos acontece de outra forma, acontece o oposto".9

O culto ao herói para Carlyle é uma característica do ser humano, assim como a presença do herói é fundamental pois ele revoluciona a maneira de pensar de uma determinada sociedade, que passa a adotar a sua maneira de pensar:

...Por que, como a entendo, a História Universal, a história de tudo que o homem realizou neste mundo, é no fundo a história dos grandes homens que trabalharam aqui. Eles eram os líderes dos homens, estes grandes indivíduos, eram os modelos, os exemplos e em amplo sentido, os criadores do que quer que a grande massa dos homens planejem fazer ou atingir. Todas as coisas que vemos já realizadas no mundo são propriamente o resultado material exterior, a percepção prática e corporificada, de pensamentos que habitavam as mentes dos grandes homens enviados ao mundo: a alma da história inteira do homem, pode ser acertadamente considerada, a sua história.10


Os heróis aos quais ele se refere - e em Hero and Hero Worship Carlyle aponta para seis classes de Heróis tomados de diferentes épocas e países - não são apenas os grandes nomes da História Universal, aqueles reconhecidos pela historiografia, mas também os marginais da História política de sua época, como Cromwell e Rousseau.11 O heroísmo caracteriza-se pela relação divina que une, em todos os tempos, a humanidade ao grande homem, que é ao mesmo tempo um guerreiro, um capitão, um poeta, um profeta, um pensador devoto e um inventor, isto é, trata-se acima de tudo de um líder espiritual.

Carlyle acredita que quanto mais se progride no tempo mais os homens aperfeiçoam sua forma de saudar o grande homem, o que não invalida outras formas de crença e outros heróis que foram verdadeiros em seu próprio tempo. No livro Past and Present escrito três anos depois de Hero and Hero-Worship, o autor recupera a existência de um herói anônimo da Idade Média, o abade Samson de St Edmundsbury, através da crônica de um monge do século XII (a Crônica de Jocelin de Brakelonda- um livro de canção escrito originalmente em latim e publicado em 1840, em uma revista de uma sociedade de antiquários das décadas de 1830 e 1840). Neste livro “reside a alma de todo o passado; a voz articulada e audível do corpo e a substância material dele têm desaparecido como em um sonho".12 Sua elaboração substituiu o projeto de escrever uma biografia de Oliver Cromwell que ensinasse algo ao presente sobre liderança verdadeira (seguindo a idéia da "filosofia que ensina através da experiência"). Ele apresenta forte influência das concepções medievalistas do romantismo germânico (de Herder, Goethe, Fichte, Novalis e Schlegel), como explica a historiadora Alice Chandler em seu livro A dream of order.O meio em que Carlyle nasceu tornou familiar a ele resquícios da paisagem medieval, enquanto estranhava aquela atmosfera escura e artificial das cidades industriais. A completude e autenticidade da fé medieval trazia a ele a segurança que o capitalismo retirava, proporcionava a liderança e o heroísmo necessários para manter a harmonia social através do respeito à rígida hierarquia social e tornava possível a existência de "um mundo todo ele heróico". Esta visão idealizada da Idade Média fornece uma referência moralizante para se criticar a civilização industrial em um período em que o desemprego, a inflação e a fome assombravam grande parte dos trabalhadores, embora como compreendem Marx e Engels as relações de produção na Idade Média baseavam-se também na exploração, na coerção de uma classe por outra.

Na sua inacabada History of German Literature, Carlyle ressalta a sociedade cavaleiresca como símbolo desta cultura virtuosa:

...pela primeira vez o grande princípio de ordem, ou de submissão à lei era universalmente inculcado, e a sua manutenção fez delas hábitos e deveres sociais. Assim, a força empenhava a si mesma na conquista da razão ... A cavalaria era a tradução, na prática, de todos os sentimentos mais nobres da espécie humana.

Aqui estavam enfim os velhos valores alemães e a humildade cristã harmoniosamente mesclados; e o novo homem europeu erguia-se, em todos os aspectos um homem que jurou solenemente lutar pelas viúvas e pelos orfãos, para defender a sacra Igreja e a verdade. Em toda a parte ele se levantaria em oposição nos momentos em que a ordem fosse quebrada, quando o poder estivesse ameaçando o direito, o que era isto senão o reconhecimento do natureza celestial e infinita da virtude. A filosofia moral do século XII poderia envergonhar aquela do século XVIII; pois a primeira conhecia [de fato a realidade] e afirmava o que a outra tinha praticamente esquecido, que além da esfera dos sentidos existe um reino invisível no homem.13
Fascinado pela História, particularmente pela História Medieval, Carlyle escolhe este período como modelo, como fonte de comparação ocasional para um projeto mais ambicioso que resultaria em Past and Present, obra em que resgata um fragmento desta época e exercita sua crítica social. O escritor escocês nos leva do presente (1843) ao passado pré-normando, e deste para os tempos de Henrique II e Ricardo Coração de Leão, e então de volta para o presente, permanecendo o passado como seu contraponto na memória do leitor.

No livro Carlyle inseriu alertas a propósito do século XIX sem distinguí-los das palavras profetizadas por Jocelin no documento e apesar disto manteve-se fiel a sua fonte, descrevendo, passo a passo muitas imagens e comentários elaborados pelo monge medieval. Ao apresentar o autor da sua fonte, o monge Jocelin, Carlyle descreve-o como um personagem de pouca importância que, no entanto, fala ao século XIX com extrema familiaridade. O manuscrito de Jocelin consegue traduzir ao olhar moderno o que parecia remoto, exótico ou irrelevante. Segundo ele, Jocelin é ingênuo em muitas das suas constatações, bem humorado e irônico em vários momentos da narrativa, mas esta contém também imprecisões, pontos obscuros e freqüentemente deixa de responder às perguntas que sentimos necessidade de fazer a ele, ao menos as que interessavam a Carlyle a propósito do cotidiano da vida do século XII. O silêncio de Jocelin sobre questões religiosas é entendido por Carlyle como algo positivo, como consenso em relação à fé, assim como lamenta a impossibilidade de sua fonte responder as suas perguntas permanece "completamente mudo para nós, apesar de ainda ser perfeitamente audível"14.

O livro possui uma estrutura que impressiona pela exposição, sob a forma de romance de ficção, embora para o autor a diferença entre a ficção e o fato histórico reside em que a ficção é apenas um veículo para a verdade histórica15. Carlyle em suas idas e vindas do passado ao presente e ao futuro16 (ao século IX, XII e XIX) intervém na narrativa como um profeta que transmite uma "mensagem divina" ao leitor, onisciente sobre os acontecimentos vindouros. Ele acaba por fascinar o leitor pela sobreposição e comparação constantes dos tempos históricos, pelo exercício imaginativo explícito e indiscreto, pelo engajamento com idéias que são recorrentes ao longo da narrativa e que servem para demonstrar a tese do seu autor, mais do que para meramente ilustrar os fatos ocorridos em uma época, como era o caso de History of the French Revolution. Ele tira conclusões que sua fonte não permite em absoluto, pela narrativa ter sido interrompida no momento em que Samson partia para uma Cruzada. Carlyle sustenta a tese de que a Idade Média era povoada por heróis mesmo depois de seu herói Samson encontrar enormes resistências em administrar de forma idônea o mosteiro. Prefere acreditar que depois de tantos anos de administração os monges habituaram-se ao modo do Abade governar e que tudo teria voltado a normalidade, embora isto não seja mencionado por Jocelin. Em Past and Present Carlyle descreve as condições materiais e espirituais das pessoas comuns do século XII, daqueles que construíram a grandeza da Inglaterra, indivíduos que viveram e agiram, inventaram e trabalharam, já que para ele o presente contém ambos, o passado e o futuro inteiros.

Assim, Past and Present é uma obra mais compacta, menos erudita do que a História da Revolução Francesa, mas na qual se percebe a presença de uma filosofia da história. Também descobriremos ao lê-lo que não se trata de um épico tradicional - a forma com que Carlyle pretendia escrever a história e como escreveu sobre a Revolução em França - mas ao invés de escrever sobre o que já estava morto, o que não podia ser mudado, Past and Present tem o dinamismo de uma história que está em processo de construção.




1 Engels, Friedrich, Escritos de juventud. México, Fondo de cultura econômica, 1981. vol.2 (obras fundamentales de Carlos Marx e Federico Engels)

2 DICTIONNAIRE DES AUTEURS, de tous les temps et de tous les pays. Paris, ed. Laffont, 1990. (Bouquins)p .54.

3 Nos círculos intelectuais em Londres. Travou contato e fez amizade com muitas personalidades do meio intelectual e político, com John Sterling - cuja biografia escreveria mais tarde - com F. D. Maurice, J. G. Lockhart e R. M. Milnes, em seguida com Lord Houghton e a aristocrata Lady Hariet Baring, com o industrial James Marshall a quem muito admirava, com Erasmus Darwin, com o radical J. S. Mill, com Browning, Tennyson, William Foster, com os revolucionários Giuseppe Mazzini e Duffy, com Froude e com o escritor mordaz Thackery, e até mesmo com o primeiro Ministro conservador Robert Peel, que apesar de ter sido ironizado por ele diversas vezes, apreciava muito a sua companhia. Carlyle era um amigo atencioso e um debatedor tolerante mas sua obcessão pelo trabalho acabava por isolá-lo das discussões e muitos amigos acabaram simplesmente por deixar de freqüentar sua casa e seus círculos sociais.

4 CARLYLE, Thomas, "On History " In: Thomas Carlyle : selected writings. Harmondsworth, Penguin Books, 1986.

5 "On History Again" fez parte de um discurso inaugural para a abertura da "Sociedade para a Difusão da Honestidade Comum" e foi reproduzida na Fraser's Magazine n º 41, depois compilado em "English and other critical essays". O Morning Papers avaliou o discurso como "tendo tocado da manerira mais maravilhosa, didaticamente, poeticamente e profeticamente, neste e no outro mundo, por sua eloqüência apaixonada...".

6 CARLYLE, Thomas, "On History Again" In: English and other critical essays.London, J. M. Dent & Sons Ltd, 1925.p.91.

7 Ibidem. p.52.

8 Ibidem.p55.

9 Ibidem.p. 94.

10CARLYLE, Thomas, Hero and Hero-worship, New York: The Macmillian Company, 1897.p 2.

11 Os seis heróis eram :o herói como divindade, o herói como profeta, o herói-poeta, o herói como padre, como homem de letras e por fim o herói como rei.

12 Ibidem. p. 215

13 Unfinished History of German Literature, apud CHANDLER, A .Op. cit. p.130.

14 CARLYLE, T. Past and Present. London, Chapman Hall, 1897. Vol.X. p.44.

15 Ibidem. p.46.

16 O primeiro, o terceiro e o quarto livros são dedicados a esclarecer a situação presente, a abordar uma vez mais a "questão da condição da Inglaterra" (depois de já ter escrito Signs of the Times e Chartism) e nos dois últimas livros, ele dispõe-se principalmente a avaliar a disposição das classes superiores e como indica o título do último livro, propõe possíveis soluções para o futuro como a reforma moral da middle class e aquelas Reformas legislativas mencionadas no capítulo "Impossible" em Chartism.

X Encontro Regional de História – ANPUH-RJ



História e Biografias - Universidade do Estado do Rio de Janeiro - 2002



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