Dádiva, sacrifício e magia na simbólica espiritualidade eclética



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Dádiva, sacrifício e magia na simbólica espiritualidade eclética
Gláucia Buratto Rodrigues de Mello1

Introdução

Este ensaio retoma uma análise já realizada (Mello, 2008) e acrescenta agora uma nova, a partir daquela. A primeira concerne um estudo simbólico dos dados etnográficos recolhidos em pesquisa de campo que realizei na Cidade Eclética (CE), por ocasião do meu doutoramento2, junto aos membros da Fraternidade Eclética Espiritualista Universal (FEEU) e posteriores retornos3 àquela comunidade. A FEEU foi constituída por um movimento que está inserido entre os milenarismos e messianismos do Brasil4. A Cidade Eclética, fundada por este movimento, em 1956, no planalto goiano, é, desde então, uma realidade construída a partir de uma utopia: a construção da Nova Jerusalém em terras sagradas, indicadas por entidades espirituais, através de um messias que ficou conhecido como Mestre Yokaanam (alagoano, nascido em 1931 e falecido em 1985).


Distante cerca de 60 km de Brasília, a Cidade Eclética foi construída em terras altas, praticamente virgens, quatro anos antes da capital do Brasil, igualmente impulsionada pelo sonho profético de Dom Bosco, aliado a outras crenças deles. Habita atualmente a Cidade Eclética uma população que gira em torno de 300 moradores fixos e cerca de 200 flutuantes, vivendo segundo normas sociais e princípios espiritualistas ecléticos5 bem definidos e conhecidos por eles, previstos pela Constituição Estatutária da FEEU, com Registro Civil de Pessoa Jurídica. Então, a primeira análise foi realizada à luz da teoria do imaginário antropológico (Durand, 1992) e esta agora, a partir daquela, à luz da teoria da dádiva (Mauss, 2003; 2005), ambas aplicadas ao mesmo objeto: o simbolismo e o estilo de vida em uma comunidade alternativa religiosa.
Conforme sabemos, na então nascente Escola Francesa de Sociologia, M. Mauss (1872-1950) escreveu com H. Hubert (1872-1927) um dos seus primeiros ensaios, “Sobre o Sacrifício”, originalmente publicado em 1899. Ali, eles tomam, por exemplo, privilegiado os modelos dos sacrifícios hindu e hebraico. Concordando parcialmente com Tylor6, eles entendiam que os sacrifícios naqueles modelos constituíam uma forma de dádiva (alimento) do fiel ao seu deus, conferindo àquele algum direito sobre este. Além disso, eles entendiam que o sacrifício era uma forma de consagração – passagem do domínio comum ao domínio religioso. Mais que uma oferenda, o objeto do sacrifício devia ser total ou parcialmente destruído ou consumido.
Alguns anos mais tarde, Mauss e Hubert publicaram outro ensaio, “Esboço para uma teoria geral da magia”, originalmente publicado em 1904. Neste célebre estudo, os autores distinguem ao mesmo tempo em que aproximam magia e religião, definem e caracterizam a magia, destacando as propriedades da magia simpática e a sua eficácia. Produtos de representações sociais, eles argumentam que magia e religião são objetos de crença nas quais agem forças coletivas. Mais tarde, firmando seus pressupostos teóricos, Mauss escreveu aquele que se tornou a sua maior contribuição para a sociologia francesa: o “Ensaio sobre a dádiva”, originalmente publicado em 19257, onde ele destaca a abordagem do fenômeno social total, relativo à troca e contratos no sistema de dádiva, que estabelece ou incompatibiliza vínculos sociais através da ação, a um só tempo voluntária e obrigatória, de dar-receber-e-retribuir. Na esteira teórica aberta por Durkheim, a grande contribuição de Marcel Mauss parece ter sido reforçar o valor simbólico e sistêmico do fato social: a compreensão de fatos sociais totais e a utilização de noções e conceitos operacionais de reciprocidade e complementaridade, que marcam os três ensaios destacados.

Uma comunidade solidária

Assim como desde sempre tem ocorrido com outros movimentos históricos sociais, alternativos, religiosos e messiânicos, desde a sua origem, a doutrina eclética da FEEU reprova a sociedade moderna ocidental por seus excessos - individualista, mercadológica, utilitarista, capitalista – e por sua lógica perversa e excludente que alija iniciativas mais humanitárias, comunitárias e solidárias. Na fraternidade, os irmãos ecléticos entendem que o estilo de vida moderno gera egoísmo, indiferença, imoralidade, vícios e violência; em outros termos: penúria material, miséria física, social e espiritual, contrárias a tudo aquilo que eles acreditam e sustentam sobre os princípios cristãos, que eles adotam.


Conforme as suas crenças, a “religião verdadeira”, preconizada pelo cristianismo primitivo (dos primeiros tempos), acabará por lograr a reunião dos indivíduos de “boa vontade” num reino divino na Terra reformada. Diante da impossibilidade de mudarem radical e subitamente a sociedade maior em que viviam (a cidade do Rio de Janeiro, onde formaram a comunidade, em 1946), em 1956, o Mestre Yokaanam8 e seu grupo decidiram-se por retirarem-se para terras distantes e desabitadas, para lá fundarem a sua comunidade, onde acreditavam poder viver a comunidade fraterna, estabelecida por princípios morais cristãos e um estilo de vida que lhes pareciam mais adequados (Bauman, 2003). Historicamente, a doutrina eclética espiritualista universal foi por eles criada e a fraternidade foi fundada em 1946, com a abertura de templo estabelecido no centro da cidade do Rio de Janeiro para a prestação de serviços sociais e religiosos. Dez anos mais tarde, o grupo transferiu-se então para o planalto goiano, lá edificando a Cidade Eclética, que tornou-se a sede matriz da FEEU9.

Em seu estudo sobre a República Guarani, Lugon (1977) distingue a sociedade ideal dos primeiros cristãos, que fracassou, daquela dos guarani, que existiu com sucesso, durante um longo período (1610-1768) e que sucumbiu apenas por força de disputa entre espanhóis e portugueses. Ele explica que a sociedade fraterna que deu origem às primeiras comunidades cristãs, levantadas pela mensagem deixada por Jesus, foi formada pela crença de que somos todos irmãos, estamos todos juntos e que tudo deve ser comum a todos. Daí que se vendesse tudo o que se tivesse e se distribuísse tudo a todos, na medida da necessidade de cada um, de forma que não houvesse mais necessitados entre eles. Este modelo mostrou-se inviável desde o início e as primeiras comunidades cristãs jamais formaram uma sociedade porque elas não estavam organizadas para assegurar ...


... “de um modo estável, a produção e a repartição dos bens por elas próprias, mediante o simples funcionamento de suas instituições. Além disso, os bens de produção conservaram-se por tanto tempo propriedade privada, que não foram transformados pela venda em bens de consumo. As comunidades cristãs, por conseguinte, manifestaram-se mais como grupos de amizade e ajuda mútua, na base do desinteresse e abnegação pessoais, no seio de uma sociedade profundamente egoísta.

A República Guarani foi, por seu lado, uma sociedade fraternal organizada segundo os princípios cristãos, no sentido em que a fraternidade estava praticamente inscrita na sua estrutura, seu regime de propriedade, seus modos de produção e distribuição, em todas as suas instituições” (Lugon, 1977:9-10)
Certamente, precisamos guardar as diferenças entre sociedades indígenas e sociedades urbanas, como é o caso da FEEU, que enfrenta problemas diversos daquelas e persiste com convicção sempre renovada pela fé. Na origem desta comunidade e nos anos seguintes, o Brasil viveu uma macro tensão política entre os blocos capitalista e socialista. Na década de sessenta, com o golpe militar, o Mestre Yokaanam foi acusado de ser comunista. Desinteressado de participação política civil, a sua convicção era por uma forma de socialismo religioso, nos moldes daquele que prevaleceu entre os primeiros cristãos, os essênios. Em 1956, os membros da FEEU interessados na fundação da Cidade Eclética venderam seus bens e disponibilizaram seus recursos para a criação da comunidade fraterna. Tendo como ponto de chegada apenas uma velha casa de fazenda semi-abandonada, em terras despovoadas e distantes de tudo, compradas com os poucos recursos comuns deles, começaram do nada - construíram suas casas, prepararam as terras para as plantações e passaram a criar galinhas e algum gado. Construíram uma pequena barragem para a produção de energia elétrica e marcenaria para a produção dos seus móveis. Criaram lavanderia e cozinha comuns, tudo em regime de mutirão e divisão do trabalho por competência e idade. Hoje, eles contam com alguma ajuda do governo, doações diversas, contribuições mensais e aposentadorias dos seus membros.
Separar o trigo do joio sempre foi a tônica dos discursos do fundador da FEEU e da doutrina eclética. O sonho de plantar uma semente boa em terras virgens e santificadas ganhou nas terras altas, planas, desabitadas e distantes de tudo, no planalto goiano, a sua possibilidade efetiva de realização. Ali, eles permanecem ainda, relativamente isolados de tudo aquilo que eles não querem para si e não podem mudar10. Ainda que a sociedade moderna adentre a comunidade e as suas casas, através dos meios de comunicação, da permeabilidade de relações sociais, políticas, econômicas e religiosas, que eles respeitam, e das leis civis, que eles acatam como cidadãos brasileiros, na comunidade fraternal, eles podem filtrar as suas visões de mundo e viver a vida ao seu modo, ao mesmo tempo em que contam assim atrair, pelo exemplo, mais adeptos para a expansão da fraternidade por uma sociedade espiritualista cristã universal.
A comunidade social e religiosa da Cidade Eclética deve o seu relativo sucesso e continuidade aos mesmos fatores que sustentaram a república guarani: organização social e religiosa gerenciando um sistema de comunidade de bens e serviços institucionais, com organicidade previsível, fazendo valer direitos e deveres iguais, assegurados pela boa vontade de todos, por Registro civil e por Constituição estatutária. Eles contam igualmente com a simpatia das populações vizinhas do entorno, por sua natureza cordial e pelos serviços que prestam: assistência social, espiritual e terapêutica, que oferecem a todos os que por eles ali buscam. Além disso, eles conquistaram o respeito da sociedade maior e contam com apoio do governo para o desenvolvimento e contratação de serviços institucionais de educação e saúde. Tudo isso constitui um suporte fundamental para eles, ao mesmo tempo em que têm conseguido assegurar o desejável distanciamento do mundo individualista e competitivo em que vivemos, limitado pelo poder aquisitivo, que impõe fronteiras cruéis de inserção ou exclusão, conforto ou necessidades, limitações que se colocam por dinheiro e custos, tudo isso que eles conhecem muito bem. Lutando por um ideal espiritualista, os líderes e moradores da Fraternidade levam uma vida simples e digna, enfrentando dificuldades diversas para conservar seus princípios, face às exigências e seduções do mundo exterior.

O missionário e o messianismo

O Mestre Yokaanam teve a sua figura messiânica exemplarmente construída, segundo o modelo judaico-cristão, a partir do seu trigésimo terceiro aniversário (idade do Cristo). Estudou em colégio de padres salesianos, ingressou na Ordem dos Franciscanos, antes de fazer carreira militar e civil como aviador. Morou alguns anos na Bolívia e na Alemanha. Foi piloto particular do então presidente Getúlio Vargas até ser reformado pelas Forças Armadas com o cargo de coronel. A passagem da sua vida de cidadão comum para a vida missionária ocorreu em 1944, após grave acidente aéreo que sofreu com a queda do avião nas águas da Baía da Guanabara, quando administrava uma aula de vôo. O acidente levou a vida de um oficial da Aeronáutica (para o qual era ministrada a aula) e teria levado a dele também, não fosse a intervenção divina, uma vez que, tendo sofrido várias fraturas por todo o corpo, conseguiu livrar-se do cinto de segurança e nadar algumas centenas de metros, antes de ser resgatado do mar, conforme pude recuperar em sua biografia.


Recuperando-se dos graves ferimentos causados pelo acidente, Oceano de Sá esteve internado em hospital por dois meses e meio, período em que lhe ocorreu uma visita espiritual ou uma visão, quando recebeu a sua missão espiritual de abandonar a vida civil para dedicar-se exclusiva e inteiramente à vida espiritual. Ele deveria levar adiante a formação de uma fraternidade espiritualista eclética, a fundação de uma cidade que deveria ser a Nova Jerusalém e ali, seguindo os princípios espiritualistas ecléticos, reunir os povos para a fundação de uma igreja universalista nos moldes do cristianismo primitivo. A doutrina espiritualista eclética é formada pelo consórcio de uma escolha ou seleção do que eles consideram o melhor nas religiões; basicamente: do cristianismo primitivo, do espiritismo kardecista, da “umbanda cristã” (entenda-se, livre de “africanismos”: sacrifícios animais e outras oferendas, fetiches e bebida alcoólica) e de princípios esotéricos dos antigos essênios, da maçonaria, de mestres espirituais (Budha, entre outros) e de orientadores “extraterrestres”.
Sensibilizado pelo acidente sofrido, trazendo já uma formação religiosa, orientação kardecista e movido por forte convicção íntima, Oceano de Sá decidiu-se por abraçar a sua missão. À saída do hospital, ele deixou para trás o homem comum e habilitou o messias Yokaanam11. Empreendeu então uma peregrinação solitária e preparou a sua reaparição, apresentando nova identidade e a sua missão a um grupo de amigos espiritualistas com os quais já realizava trabalhos de natureza espiritual e que a ele se juntaram e constituíram o grupo originário da fraternidade. Dois anos depois, o mestre Yokaanam liderava um grupo crescente de seguidores e fundava a fraternidade, abrindo as portas do templo para a caridade pública em um estabelecimento tornado templo, no centro do Rio de Janeiro. Daí às pregações públicas, peregrinações urbanas e a um crescente afluxo de pessoas necessitadas, que encontravam no interior do templo apoio, orientação e cura.
Quaisquer que sejam as denominações empregadas – messias, missionário, enviado, mestre, Yokaanam representou, no seio da sua fraternidade, a figura do Salvador, na qualidade de um Pai generoso, carismático, provedor, inspirado, reconhecido por seus seguidores, por sua capacidade oratória, por sua prática espiritualista, por sua intermediação com o sobrenatural e, sobretudo, por sua capacidade de curar. Sofreu perseguições - calúnias ou denúncias - enquanto provações. Vieram a peregrinação-êxodo (quando ele deslocou o “seu povo” do Rio para o planalto) e a fundação de uma cidade santa, com base na comunidade fraterna. Intencionalmente construídas ou não, tais etapas constituem exemplarmente a narrativa constitutiva do modelo messiânico (Queiróz, 1965).

Elementos de crença mágica e religiosa

Os estudiosos dos movimentos messiânicos destacam a importância do reconhecimento e legitimidade dos seus líderes espirituais. Só haverá a liderança e a formação de um grupo, se ele, o líder, for reconhecido por seu grupo. Para isto, o líder, na qualidade de Pai, terá que provar a sua superioridade e legitimidade. Ele deverá manifestar qualidades extraordinárias que convençam o grupo sobre a sua participação divina. A qualidade extraordinária mais elementar começa sempre pelo exemplo da bondade e da humildade, mas traduz-se, sobretudo, pela capacidade de operar milagres, de realizar curas. Podemos aproximar por essas características do messias aquelas atribuídas ao mago ou feiticeiro. Mauss (2003:126) destaca a importância de forças coletivas, pela via das representações sociais, concorrendo para a legitimação de um feiticeiro no interior da sua comunidade.


Em ambos os contextos – do messianismo e da magia - a crença se sustenta pela eficácia. Mauss e Hubert explicitam no contexto da magia ... “não duvidamos mesmo que os fatos de magia comportem um “fazer crer” constante, e que até as ilusões sinceras do mágico foram sempre, em certo grau, voluntárias” ... “em todos os casos, não se trata de simples embuste” ... “Ele tem naturalmente o espírito de sua função, a gravidade de um magistrado; é sério porque é levado a sério, e é levado a sério porque se tem necessidade dele” ... ”a crença do mágico e a do público não são duas coisas diferentes; a primeira é o reflexo da segunda, já que a simulação do mágico só é possível em razão da credulidade pública”. Certamente, e desde sempre, falsos messias, seduzidos pela vaidade ou levados pela insanidade, valeram-se do desespero de populações abandonadas à miséria material e espiritual. Mas os “verdadeiros” messias se acreditam e são acreditados por sua comunidade e, por isso, são respeitados, seguidos e também perseguidos.
Fundamentando ambas as práticas – religiosa e mágica – com vistas à cura, as tradições antigas e novos movimentos religiosos dispõem ou criam seus próprios ritos, com funções aparentemente diversas, mas complementares e auxiliares, como: expurgo, purificação, proteção, êxtase religioso, contato com o divino e com o sobrenatural, práticas de transcendência. Os cultos extáticos, certas beberagens, inalação da fumaça de tabaco e de outras plantas, a entoação de cânticos, hinos ou mantras, a dança, a música e uma infinidade de terapias corporais e psíquicas, observadas nas práticas culturais diversas vêm atender este fim. Entre os ritos da Fraternidade, o batismo ocupa lugar de destaque na atenção dos irmãos ecléticos, nos seus esforços de ordem, pureza e inserção no plano esotérico. Originalmente, o batismo é um rito de imersão e emersão, um símbolo de purificação e de renovação, com o desaparecimento do ser pecador nas águas da morte e o aparecimento do ser purificado, reconciliado com a fonte divina da vida nova12. Trata-se de uma entrega voluntária pela confiança para a fé de renascer na graça divina.

Certamente, a salvação constitui outro tema fundamental para a compreensão das crenças e movimentos milenaristas, em geral. Ela representa o retorno à origem, à companhia divina e dos ancestrais, no paraíso. No caso dos irmãos ecléticos, a salvação justifica todos os sacrifícios terrenos e passageiros, em proveito da vida eterna que virá e deve ser considerada tanto ao nível individual quanto coletivo. O livre-arbítrio e a fé na qualidade de “eleitos” concorrem em grande medida na confiança para a salvação individual; no entanto, considerando que estamos todos “no mesmo barco”, viajando na mesma “nave-mãe”, eles consideram de responsabilidade coletiva as conseqüências pelas escolhas e ações coletivas sociais porque elas afetam a todos. Assim mesmo, eles confiam que aqueles que atendem ao chamado divino serão reunidos como uma grande família num tempo e numa Terra melhores. Uma conduta adequada aos princípios espiritualistas ecléticos é uma prática voluntária e altruisticamente interessada.


Certamente, a conduta religiosa adequada requer uma oferta de si. Mauss e Hubert (2005:106) explicam um aspecto muito particular do sacrifício religioso. Eles argumentam que no sacrifício há um ato de abnegação, já que o sacrificante se priva e dá. E geralmente essa abnegação lhe é mesmo imposta como um dever, pois o sacrifício nem sempre é facultativo; os deuses o exigem em benefício da cura, como ocorre muito freqüentemente entre os membros da fraternidade espiritualista eclética. Deve-se às divindades o culto, o serviço, como diz o ritual hebreu; deve-se a eles sua parte, como dizem os hindus, explicam os autores. Mas essa abnegação e essa submissão não suprimem o interesse quanto ao retorno: o sacrificante dá algo de si e é em parte para receber e quando recebe, ele serve novamente aos deuses. O sacrifício se apresenta assim sob as leis da dádiva. É uma forma de contrato - as partes envolvidas trocam seus serviços e cada uma tem a sua parte, pois os deuses também têm necessidade dos humanos.
Na mesma linha do desinteresse pelas coisas terrenas e do interesse pelas coisas sagradas se estabelece a renúncia ao mundo entre os espiritualistas ecléticos. O Mestre Yokaanam teria localizado a desordem, o caos, a decadência e a morte em muitas situações humanas ... “as devastações, misérias, fome, nudez, epidemias e infortúnios diversos conseqüentes, que se alastraram na Terra, de longe a largo ... os homens persistem mais vorazes e desumanos que nunca”13. Para combater esta situação de degradação humana e social, ele concebeu uma terapêutica moral e disciplinar que rege toda a organização social e espiritual na fraternidade (cf. Mello, 2008). Além disso, em seus discursos, ele exaltava a importância da caridade, da moralidade, da renúncia, o “desprezo a tudo que é mundano e transitório”14. A prática da caridade e a observância de uma conduta exemplar, nos moldes do cristianismo original, constituem para os irmãos ecléticos um caminho seguro para a ascensão espiritual, com vistas à reabilitação de uma situação original.

A prática da dádiva desinteressada pelo trabalho espiritual de caridade

A maior parte da fraternidade foi reunida pela esperança de uma vida em sociedade mais justa, mais solidária, sensibilizada pela dor proveniente sobretudo de doença. A assistência espiritual que a FEEU na Cidade Eclética oferece é fortemente ancorada em trabalhos de cura por via da mediunidade com atendimento médico em um hospital e no interior do templo que ficam na parte interna da cidade. Uma escola de formação esotérica e espiritualista que ali existe forma e prepara anualmente seus quadros de médiuns. Segundo acreditam, o desenvolvimento ou a manifestação de capacidade mediúnica depende de qualidades individuais e de herança de natureza cármica, conforme a concepção que eles15 têm sobre a Lei do Carma, expressa nos seguinte termos: “Toda a energia que liberamos, seja através de atitudes ou emissão de pensamentos e sentimentos, segue no éter até alcançar o destino a que esse propõe, retornando em seguida à sua origem. Manifesta-se a energia emitida – seja de que natureza for – como um planeta a orbitar, sendo que, durante seu movimento de translação, ele emitirá sua influência ao objeto alvo; tal irradiação possuirá característica construtiva ou destrutiva, conforme sua natureza, retornando ao seu ponto de partida sem abandonar suas qualidades natais”.


A prática mediúnica representa assim uma oportunidade de resgate cármico - quanto mais se trabalha com a mediunidade para o bem do outro, mais se diminui as próprias penas espirituais. Desta forma, eles contam estar colaborando para a melhoria da qualidade de vida espiritual sobre a Terra, trazendo progresso moral e espiritual, individual e coletivo. Na qualidade de espiritualistas, os membros da fraternidade acreditam na vida eterna do espírito e no seu progresso no correr das várias existências do mesmo espírito imortal em corpos mortais. O tratamento mediúnico, ou seja, a intervenção de um agente espiritual intermediando o sagrado e a dor de um consulente pode trazer, em alguns casos, a cura súbita e conforto, sempre.

Além disso, eles entendem que pela prática da mediunidade eles se prestam como instrumento divino, intermediando a comunicação humana com a divindade, ao mesmo tempo em que sentem bem estar com o contato e domínio de forças animais primitivas; finalmente, eles acabam por exercer assim uma forma indireta de proselitismo. Isto porque, de acordo com as estatísticas de um membro da fraternidade entrevistado, um entre duzentos consulentes acaba tornando-se candidato. Os membros da FEEU entendem que pela prática mediúnica realizam um exercício divino de caridade. Na qualidade de intermediários, entre a dádiva e um sofrimento não há o que receber financeiramente. Sensibilizado com o alívio ou a cura por dádiva divina, o beneficiário se coloca, muitas das vezes, igualmente como intermediário, ingressando na fraternidade. Ao final, eles esperam reconhecerem-se pelas qualidades espiritual e moral como uma grande fraternidade, vivida por indivíduos com consciência e responsabilidade, com o benefício da partilha por uma coletividade melhor e mais justa.


Sacrifício

A errância pela Terra representa uma busca e é também um tema milenarista, por excelência, constituído pela grande constelação simbólica da culpa ou da punição por falta cometida, arquetipicamente relacionada à expulsão do Paraíso. Caída na temporalidade, restou à humanidade a busca do paraíso terrestre ou a ascensão espiritual ao paraíso celestial. Esta busca não é conseqüentemente uma aventura fácil; antes, representa uma caminhada cheia de dificuldades e provações, como se deve esperar. Assim, os membros da fraternidade, herdeiros dessa herança imaginária, filhos de Adão e Eva, se colocam consciente ou inconscientemente na posição de peregrinos, no tempo e no espaço, nas suas existências aqui na Terra, suportando e vencendo privações e injustiças, como uma oportunidade individual de expiação e reabilitação no caminho da redenção. Por isso, devem aceitar com resignação e humildade as provas que lhes forem colocadas, praticar a caridade e cuidar da sua evolução espiritual, com vistas à reconquista do tempo e do espaço originais de uma Ordem primordial.


Certamente, o paraíso não é passível de descoberta pura e simples: é preciso merecê-lo. O merecimento constitui um outro tema milenarista fundamental (Mello, 2002; 2008). Invariavelmente, o insucesso desta procura deve-se ao cumprimento de uma lei que, entre os membros da fraternidade, poderia ser traduzida pelo imperativo do progresso moral e espiritual: se quisermos reconquistar o paraíso, precisaremos provar a nossa descendência divina pelo exercício de solidariedade, de compaixão e pureza de propósitos. Este exercício requer dedicação e sacrifício. Assim, os membros da fraternidade aceitam com humildade os seus infortúnios, entendendo que a sua passagem pela Terra representa uma oportunidade individual de provações e crescimento, para a qual concorre o princípio espiritualista por excelência: o livre-arbítrio, que estabelece a responsabilidade individual por nossas escolhas. Assim é que a disciplina moral, a formação espiritual, a prática da humildade e da caridade entre os membros ecléticos da fraternidade representem meios que justificam um fim: as graças (merecimento) aos olhos de Deus.
Caridade que é dádiva
A missão de orientar uma coletividade não é tarefa fácil, conforme podemos imaginar. Certamente, e a história o registra, muitos loucos, fanáticos e falsos messias surgiram e surgem ainda, valendo-se da inocente esperança de indivíduos e coletividades desesperadas. Mas, quando um orientador espiritual consegue mobilizar uma coletividade importante que nele confia, estamos diante de um fenômeno social que merece a nossa atenção. O messias salvador se constitui na grande constelação simbólica do herói. Este herói, via de regra, se constitui na adoção de um modelo, que alia uma estrutura exemplar e uma história de vida. Esta estrutura exemplar é via de regra assimilada de tradições antigas, adaptadas a renovadas realidades sociais.
No caso da construção da figura messiânica do Mestre Yokaanam, vieram agregar o modelo patriarcal e o simbolismo do soberano na figura do Pai da tradição judaica cristã: eleição divina, retiro espiritual, provações e retorno glorioso16. Guardadas as devidas proporções e particularidades, o movimento messiânico que deu origem à formação da fraternidade apresenta a particularidade de tratar-se de um movimento messiânico urbano, em moldes modernos. O mestre surgiu em uma cidade grande, mas usou cabelos e barba crescidos, vestiu túnicas longas, usou sandálias rústicas, trouxe um crucifixo ao peito, apoiou-se em grande cajado e, por tudo isso, foi motivo de chacota. Por seus atributos sobrenaturais – personalidade carismática, eloqüência, assistência espiritual e social e dom da cura - ele foi e é reconhecido por seu grupo como um verdadeiro líder espiritual.

Considerações finais

Concordando com R. Smith17, no ensaio sobre o sacrifício, Mauss e Hubert destacam que o puro e o impuro não são contrários que se excluem, são dois aspectos da realidade religiosa. O sacrifício porta a ambigüidade das forças religiosas. É apto ao bem e ao mal e a vítima representa tanto a morte quanto a vida, tanto a doença quanto a saúde18. No ensaio sobre a magia, os autores destacam que a magia e seus ritos são fatos de tradição; ela é acreditada e não percebida, e permanece misteriosa mesmo para aquele que a realiza. Na medicina mágica, as forças ocultas, os espíritos se encontram nas palavras, nos encantos, nos procedimentos rituais; onde reina o mundo das idéias que opera “uma eficácia muito especial” 19, não-mecânica. Sacrifício e magia são produtos de tradição, partes do sistema de crenças, com caráter multiforme e ambíguo, formam um todo e envolvem uma coletividade.


No seu ensaio sobre a dádiva, Mauss firma a sua compreensão sobre o fato social total. Ele acredita ter deixado clara a existência do regime da dádiva na vida material e moral entre alguns povos melanésios e polinésios, admitindo que o regime da dádiva possa ser extensivo aos povos modernos ocidentais, criando ou destruindo laços sociais. Ele entende que o sistema de dádiva se estabelece de maneira mítica, imaginária, simbólica, coletiva, uma vez que as coisas trocadas nunca se separam completamente de quem as troca.
Do sacrifício à dádiva, Mauss anuncia já no primeiro ensaio um princípio pleno de conseqüências, tomado da obra de Tylor20: o sacrifício é como “uma dádiva que o selvagem faz a seres sobrenaturais aos quais lhe convém se ligar. Depois, quando os deuses se alçaram e se afastaram dos homens, a necessidade de continuar a transmitir-lhes essa dádiva fez nascer os ritos sacrificiais, destinados a fazer chegar até esses seres espirituais as coisas espiritualizadas. À dádiva sucedeu a homenagem em que o fiel não exprime mais qualquer esperança de retorno”21. A explicação sociológica, tal como a compreendia M. Mauss22, busca relações inteligíveis - como os fatos sociais são produzidos, de quais forças resultam. A explicação sociológica procede indo de um fenômeno social a outro, estabelecendo relações entre fenômenos sociais. Godbout (1999) e Caillé (2002) defendem esta compreensão em Mauss – a dádiva é pensada e colocada em relação com os outros sistemas de relações sociais, não havendo ruptura, mas gradação e tradução recíproca, com os simbolismos constitutivos de um se deixando traduzir no outro.
O projeto da fraternidade parece escolha mas constitui-se como dádiva, dádiva que é “obrigação espontânea” e individual com vistas a um projeto coletivo. Mauss mostra que a dádiva está na base das grandes civilizações antigas e está presente também nas nossas sociedades e que a coisa recebida não é inerte: ela quer voltar à fonte. Os deuses e os homens contraem necessidades, obrigações e graças. Essa dinâmica é alimentada por uma força que une humanidade e divindade, indivíduos entre si e indivíduos em coletividade. Esta dinâmica tem no elemento simbólico a sua força e a sua eficácia; e aqui encontramos no elemento simbólico a correspondência com a ação divina que, conforme argumenta Leloup (2008), vincula, unifica e restaura a inteireza vital.

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MELLO, Gláucia B. R. (2008) Cristãos Ecléticos e a Nova Jerusalém no Planalto Goiano. ISBN 978-85-908056-0-1. Livro eletrônico disponibilizado nos endereços: www.antropologia.com.br/tribo/glauciamello/livro e www.jornaldomauss.org

QUEIRÓZ, M. I. P. (1965) O Messianismo no Brasil e no Mundo. São Paulo, Dominus Ed.

TAROT, C. (2002) “Pistas para uma história do nascimento da graça” IN MARTINS, P. H. (org.) A dádiva entre os modernos. Petrópolis: Vozes

YOKAANAM (1995) O Cristianismo reúne, não divide!... Rio de Janeiro: Ed. da Academia Eclética Exotérica da Fraternidade Universal



(1974) Yokaanam fala à posteridade! Rio de Janeiro: Folha Carioca Editora S.A.

1 Antropóloga e Socióloga, Pesquisador Visitante na ENSP-FIOCRUZ, Rio de Janeiro.

2 Este primeiro trabalho de campo foi realizado no período de fev-abril/1998. A tese de doutoramento em Sociologia na Université de Grenoble II foi defendida em 1999 e publicada em 2002 (Mello, 2002).

3 Em julho/2000 e em abril/2002. O produto do primeiro trabalho de campo, acima referido, mais estas duas outras idas a campo, deram origem a uma segunda publicação, em 2008 (Mello, 2008), de onde extraí o material para a segunda análise, objeto deste ensaio.

4 Cf. Desroche, 1969 e Queiróz, 1965.

5 O sistema de crenças da FEEU está fundado no que eles sistematizaram como doutrina espiritualista eclética universal (cf. Mello, 2002; 2008).

6 Tylor, E.B., 1876-78, La civilisation primitive.

7 Os três ensaios surgiram pela primeira vez na revista L’Année Sociologique, fundada por Durkheim, em 1896.

8 Natural de Maceió, nascido em 1911, foi batizado com o nome de Oceano de Sá. O seu nome de batismo, ele mudou para Yokaanam quando tomou para si a missão da doutrina eclética e a criação da FEEU. Ele faleceu em abril de 1985, em Brasília, vítima de derrame cerebral.

9 A FEEU conta atualmente com 16 filiais: 6 no Estado do Rio de Janeiro, 3 no Estado de Goiás; 2 no Estado de Minas Gerais, 1 na Paraíba, 1 em Pernambuco, 1 no Paraná, 1 no Paraguai e 1 na Argentina.

10 A Cidade Eclética é dividida em parte interna e parte externa. Esta divisão é bem marcada por muro e cerca que circulam toda a cidade, separando claramente a parte interna da cidade, por onde circulam apenas os membros da fraternidade e aonde os estranhos à comunidade podem adentrar apenas com autorização e na companhia de um membro da comunidade.

11 Nome designado para ele pelos “espíritos instrutores”, equivalente ao nome hebraico de São João Batista, “o mergulhador do deserto”, o “batizador do rio Jordão”, contemporâneo de Jesus Cristo e considerado o precursor do cristianismo dos primeiros tempos.

12 Cf. Chevalier & Gheerbrant, 1990.

13 Yokaanam, 1995: 155.

14 Yokaanam, 1974: 30-31.

15 O Nosso, jornal da FEEU, n.619, ano 55, out./2001.

16 Cohn (1983); Pereira de Queiroz (1965).

17 W. R. Smith (1875-89), “Sacrifice” In Encyclopaedia Britannica; e (1889) The religion of the Semites.

18 Cf. Mauss & Hubert, 2005:64-5.

19 Cf. Mauss & Hubert, 2003:57.

20 E. B. Tylor, 1876-78, La civilisation primitive.

21Cf. Mauss & Hubert, 2005:8.

22Fauconnet & Mauss “La Sociologie: objet et méthode” artigo extraído da Grande Encycloédie, vol. 30, Société anonyme de la Grande Encyclopédie, Paris, 1901, IN: Marcel Mauss. Essais de Sociologie, Éditions de Minuit, 1968 e 1969: 6-41.





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