De clarice lispector a reading



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UMA LEITURA DE “A QUINTA HISTÓRIA”, DE CLARICE LISPECTOR

A READING “THE FIFTH STORY”, BY CLARICE LISPECTOR
Damaris Ribeiro de Paula – damarispaula@hotmail.com

Graduanda do UNISALESIANO

Prof. Dra. Adriana Monteiro Piromali Guarizo – UNISALESIANO – adrianaguarizo@yahoo.com.br





RESUMO
A história do conto tem seus primeiros esboços, a partir da criação de histórias e sua transmissão oral, para seu posterior registro escrito. Em determinado momento, o criador e contador de histórias assume a função de narrador, afirmando, assim, o caráter literário do conto. Os chamados “novos tempos”, a partir da Revolução Industrial, transformaram o modo de vida do homem, bem como a sua arte. A fragmentação de valores refletiu-se na escrita: surgem obras literárias sem conexão lógica, com palavras e pensamentos soltos (GOTLIB, 2002). A escritora Clarice Lispector representa uma ruptura no cenário da literatura brasileira. Sua linguagem, seu modo de escrita, assim como as temáticas por ela desenvolvidas, inauguram uma nova forma de se escrever e de se refletir a escrita na literatura brasileira. Seu conto “A quinta história”, estudado no presente trabalho, é representante contundente, dentre seus textos que “ensinam” ao leitor a arte de se contar histórias, da escrita e do fazer literário. O objetivo geral deste trabalho é fazer uma leitura do conto selecionado, buscando identificar de que modo os elementos estruturais (repetição) e linguísticos (metalinguagem) interferem na interpretação do texto escolhido. Para que esse seja alcançado, são os objetivos específicos: observar o enredo e a divisão estrutural do conto; examinar alguns dos principais elementos estruturais e linguísticos presentes na obra, diretamente relacionados à problemática desta pesquisa; bem como realizar uma breve leitura analítico-interpretativa do conto. Por meio de pesquisa bibliográfica e análise do texto escolhido, que se dará mediante a leitura de obras como: “Metamorfoses do Mal: Uma leitura de Clarice Lispector”, de Rosenbaum (2006); “Clarice: uma vida que se conta”, de Gotlib (2011); “Era uma vez: Eu – a não ficção na obra de Clarice Lispector”, de Manzo (2001); “Uma poética do escrever e da escrita em Água Viva, de Clarice Lispector”, de Guarizo (2013); “Teoria do conto”, de Gotlib (2002), entre outros. Os procedimentos adotados se constituíram em: leitura do texto literário; levantamento de literatura; revisão crítica da literatura levantada (seleção); fichamento e arquivamento de informações pertinentes; retorno ao texto literário, (releitura do conto escolhido); e possíveis resultados para o problema de pesquisa.
Palavras-chave: Conto. Clarice Lispector. “A quinta história”. Repetição. Metalinguagem.

ABSTRACT
The tale, or short story, has its first drafts, from the creation of stories and its oral transmission, for its later written record. At a given moment, the creator and storyteller assumes the role of narrator, affirming the literary character of the tale. The "new times", from the Industrial Revolution transformed the way of life of the man and his art. The fragmentation of values reflected in writing: literary works emerge without logical connection, with words and disconnected thoughts (GOTLIB, 2002). The writer Clarice Lispector is a rupture in Brazilian literature. Her language, her way of writing, as well as the themes developed by her, inaugurates a new way to write and to reflect written in Brazilian literature. Her short story "A quinta história," studied in this work, is bruising representative from her writings that "teach" to the reader the art of storytelling, writing and literary writing. The goal of this work is to read the short story selected, seeking to identify how the structural elements (repetition) and language (metalanguage) interfere with the interpretation of the chosen text. For this to be achieved, the specific objectives are: to observe the plot and the structural division of the short story; examine some of the major structural and linguistic elements in work directly related to the problematic of this research; as well as conduct a brief analytical-interpretative reading of the short story. Through literature review and analysis of the selected text, which will be by reading works such as: “Metamorfoses do Mal: Uma leitura de Clarice Lispector”, by Rosenbaum (2006); “Clarice: uma vida que se conta”, by Gotlib (2011); “Era uma vez: Eu – a não ficção na obra de Clarice Lispector”, by Manzo (2001); “Uma poética do escrever e da escrita em Água Viva, de Clarice Lispector”, by Guarizo (2013); “Teoria do conto”, by Gotlib (2002), among others. The procedures adopted were formed in: reading literary text; survey of literature; critical review of the literature raised (selection); book report and archiving relevant information; return to the literary text (rereading the chosen short story); and possible results for the research problem.

Keywords: Short story. Clarice Lispector. “A quinta história”. Repetition. Metalanguage.




INTRODUÇÃO
De acordo com Gotlib (2002), o gênero conto, independente de sua extensão, ou do efeito que provoca no leitor, possui uma característica que sempre se fará presente: o movimento enquanto narrativa única através dos tempos. Mudam-se as técnicas, o modo como é narrado, mas sua estrutura fundamental permanece. Essa é característica fundamental do gênero: que mesmo atravessando séculos, sendo reescrito e retransmitido oralmente, sua essência, seu enredo permanecerá.

Segundo Jolles (apud GOTLIB, 2002), isso ocorre porque a fundamentação na qual se estrutura o conto está no acontecimento, não na ação dos personagens. Mesmo que, ao se narrar ou escrever de formas particulares, alterem-se as ações dos personagens, os “acontecimentos acontecem como deveriam acontecer”, pois os fatos estariam acima das ações, dos seus personagens e até mesmo daquele que o está narrando. É desse aspecto que nasce sua grandiosidade, pois o conto existe sem a necessidade do amparo de terceiros.

Herman Lima (apud GOTLIB, 2002), em “Variações sobre o conto”, identifica no conto clássico, ou tradicional, alguns aspectos teóricos fundamentais, como a permanência da ordem fixa: início, meio e fim da história.

Bader (apud GOTLIB, 2002) discute a evolução do modo tradicional narrativo para o modo moderno de narração. Os chamados “novos tempos”, a partir da Revolução Industrial, transformaram o modo de vida do homem, bem como a sua arte. A fragmentação de valores reflete-se na escrita. Esta nova realidade também se desarticula de um “início, meio e fim”, claros e fixos, como anteriormente. Tantas são as realidades, ou percepções que se tem dela, quantas são as experiências de cada indivíduo.

Para Julio Cortázar (apud GOTLIB, 2002), um conto excepcional é aquele que se torna inesquecível para seu leitor. É característico deste conto extremamente bom que cada elemento da narrativa possua uma função específica, insubstituível.

Quando refletimos sobre este ponto de vista, encontramos a importância que existe em cada elemento narrativo de um conto, para que este fique gravado na mente do leitor. Sua linguagem, assim como a forma como se encontrarão estruturados, fazem parte destes elementos.

O objetivo geral deste trabalho é fazer uma leitura do conto “A quinta história”, da escritora Clarice Lispector, buscando identificar de que modo os elementos estruturais (como a repetição) e linguísticos (como a metalinguagem) interferem na interpretação do texto escolhido. Para que esse seja alcançado, são os objetivos específicos: observar o enredo e a divisão estrutural do conto; examinar alguns dos principais elementos estruturais e linguísticos presentes na obra, diretamente relacionados à problemática desta pesquisa; bem como realizar uma breve leitura analítico-interpretativa do conto.

O conto “A quinta história”, de Clarice Lispector, aqui estudado, é um representante contundente, dentre os textos da autora, em que esta “ensina” ao leitor a arte de se contar histórias, a arte da escrita e do fazer literário.

O gênero conto em Clarice, como nos aponta Guarizo (2013), são (em comparação ao seu romance, por exemplo) mais estruturalmente constituídos. Os contos da escritora possuem em sua estrutura um eixo de formação, pelo qual percorreram os acontecimentos ao longo da narrativa.

Da mesma forma, também ressalta Guarizo (2013) que o trabalho de escrita clariciano possui características comuns a todos os gêneros que produziu: como o inacabamento e o hibridismo de gêneros. Mas essa particularidade quanto à estruturação presente em seu conto, definiu os rumos e escolhas dessa pesquisa.

Por meio deste estudo, pretende-se enriquecer os conhecimentos acerca do conto “A quinta história”, agregando ao mesmo uma nova leitura, tendo em vista a proposição de que cada leitor apresenta um olhar próprio ao estudar uma determinada obra ou texto, acrescentando sempre novas interpretações.

Esta pesquisa representou a sua pesquisadora a busca pela solução do que se constitui um dos enigmas, presente em uma das diversas produções literárias da escritora Clarice Lispector. A área é de grande importância para a investigadora desse estudo, tendo em vista o prazer e o fascínio que esta tem encontrado na leitura da obra de Lispector, vindo a gerar o interesse pela mesma, como área de investigação, e o desejo de sua exploração.

Anteriormente ao início desta pesquisa, foi realizada uma seleção que abordasse os principais estudos relacionados ao problema do trabalho, tendo em vista a vastidão bibliográfica e os múltiplos estudos que vêm sendo publicados sobre a autora e sua produção literária.

Algumas obras que compreendem o tema desta pesquisa foram intensamente estudadas para esse trabalho, como: Rosenbaum (2006), em “Metamorfoses do Mal: Uma leitura de Clarice Lispector” e Alonso (2012), em “Um caleidoscópio de baratas: a narrativa especular de Clarice Lispector” com suas análises do conto estudado; Gotlib (2011), em “Clarice: uma vida que se conta” e Manzo (2001), em “Era uma vez: Eu – a não ficção na obra de Clarice Lispector”, biografias da autora do conto; e Guarizo (2013), em “Uma poética do escrever e da escrita em Água Viva, de Clarice Lispector”, Nunes (2006), em “Clarice Lispector jornalista – páginas femininas e outras páginas” e Gotlib (2002), em “Teoria do conto”, embasamento teórico para o trabalho.

Os procedimentos adotados se constituíram em: leitura do texto literário (o conto “A quinta história”, de Clarice Lispector); levantamento de literatura; revisão crítica da literatura levantada (seleção); fichamento e arquivamento de informações pertinentes; retorno ao texto literário, (releitura do conto escolhido); e a apresentação de possíveis resultados para o problema de pesquisa, em uma breve leitura analítico-interpretativa do conto “A quinta história”, da escritora Clarice Lispector, realizada pela pesquisadora, a partir da literatura estudada e do seu olhar particular sobre o conto.
1 O CONTO “A QUINTA HISTÓRIA” E SUAS ORIGENS NA RECEITA E NA CRÔNICA CLARICEANA

De acordo com Alonso (2012), o conto “A quinta história” foi escrito por Clarice Lispector e publicado pela primeira vez na obra “A legião estrangeira” em 1964 e posteriormente no livro Felicidade Clandestina no ano de 1971.

Nunes (2006) nos lembra de que antes de ser publicado como conto, “A quinta história” se constituía em uma receita para matar baratas, publicada por Lispector em páginas femininas de 2 revistas e 1 jornal carioca. E mesmo sob a estrutura textual de receita, a autora já atribuía ao texto certo caráter dramático, assim como alguns elementos que também iriam constituir posteriormente o conto.

Segundo Nunes (2006), sua primeira aparição em jornal sob a forma da receita “Meio cômico, mas eficaz” ocorreu no jornal Comício no ano de 1952, na página feminina “Entre Mulheres”, que Clarice assinava sob o pseudônimo de Tereza Quadros. Posteriormente, atuando como ghost writer da atriz e modelo Ilka Soares no jornal Diário da noite, Clarice publica o texto como a crônica “Receita de assassinato (de baratas)” em agosto de 1960.

Desde suas origens, vemos nessa trama, do ato/jogo/ritual de matar baratas, um interessante jogo narrativo. Segundo Alonso (2012), a repetição interna desarticula o corpo textual e intervém na rede de relações do texto, de modo a apontar o encontro de encadeamentos significativos para a interpretação do texto. Dessa forma, temos desde os textos que possivelmente originariam o conto estudado neste trabalho, a importância da estrutura textual para a leitura e atribuição dos significados.

Candido (apud GUARIZO, 2013), enfatiza a importância do trabalho de Clarice justamente pela sua preocupação com a forma, porque “[...] ao narrar, a escritora dá ênfase à expressão, ao próprio trabalho de narrar” (GUARIZO, 2013, p. 41). O crítico destaca o fato de que a escritora dava tanta importância ao modo de narrar, a forma como o fazia, quanto ao conteúdo do que estava sendo dito.



2 O ENREDO DO CONTO “A QUINTA HISTÓRIA”, DE CLARICE LISPECTOR
O enredo do conto “A quinta história” gira em torno de uma narradora-personagem que relata sua experiência com a aplicação de uma receita para matar baratas, aprendida com uma senhora que a ouviu se queixar do problema com os insetos: “[...] queixei-me de baratas. Uma senhora ouviu-me a queixa. Deu-me a receita de como matá-las” (LISPECTOR, 1987, p. 81).

Ao longo do conto, nos será relatada uma mesma história de 5 formas diversas, cada uma levando também um diferente título. Mesmo com um único enredo, cada história se distingue da outra, pois apresentam diferentes pontos de vista em relação aos acontecimentos.

Segundo Guarizo (2013), diferentes abordagens dessa mesma história revelam ao leitor sempre novos elementos, e possibilitam diversificados ângulos de visão a partir de cada uma delas. A escolha dos títulos para as narrativas está estreitamente vinculada ao ângulo de abordagem que terá a história. Estes não são distribuídos entre as histórias ao acaso, mas intencionalmente determinados, de acordo com o enfoque a ser trabalhado.

As possibilidades não se esgotam ao final da proposta da 5ª história (a ser construída pelo próprio leitor), pelo contrário, a própria narradora já havia iniciado o conto afirmando no 1º parágrafo: “Farei então pelo menos três histórias verdadeiras porque nenhuma delas mente a outra. Embora única seriam mil e uma, se mil e uma noites me dessem” (LISPECTOR, 1987, p. 81).

Gotlib (2011), ao abordar as sutilezas das construções narrativas de Lispector em sua obra “Clarice: uma vida que se conta”, trata do conto “A quinta história” como uma narrativa que se faz por meio de um desdobramento ad infinitum de 5 histórias que se sucedem a partir de um único ponto: como matar baratas.

Rosenbaum (2006), ao analisar esse mesmo conto, em sua obra “Metamorfose do Mal: Uma leitura de Clarice Lispector”, também nos traz a ideia da infinitude narrativa originada de um único enredo: “[...] as variantes se multiplicam a partir de um ponto único, origem desdobrável que acaba por buscar-se a si mesma interminavelmente” (ROSENBAUM, 2006, p. 133).

Esta é a concepção de que uma única história guarda em si muitas outras, sendo que, ao mesmo tempo, todas essas histórias não passam de uma: “O uno e o infinito, portanto, encontram-se no novelo da literatura” (ROSENBAUM, 2006, p. 133).

Mas Rosenbaum (2006) nos alerta para uma contraposição, se observarmos lado a lado a estrutura: moldura do conto, e seu conteúdo: teor do enredo. O primeiro aponta para essa infinitude de narrativas, enquanto que o segundo focaliza apenas um único tema: a morte. O infinito versus a morte:

As variações sobre o mesmo tema ganham a dimensão de um quadro de Escher, cujos jogos de ilusão de ótica abrem caminhos que parecem descer, mas ascendem; outros que se espelham qual labirintos, terminando em becos sem saída (ROSENBAUM, 2006, p. 133).
Temos aqui, de forma mais explicitada, a importância da estruturação do texto de Clarice Lispector para ricas possibilidades de construção dos seus sentidos. Ao considerarmos que estrutura e conteúdo se contrapõem, percebemos nesse jogo, nada mais que a intenção de fazer com que por meio da estrutura (moldura do conto), o conteúdo, o teor da mensagem que se pretende passar, ganhe ainda mais força. Opostos, quando colocados lado a lado, reforçam o efeito um do outro: como o dia ao lado da noite, o infinito (estrutura) reforça o impacto que temos da morte (conteúdo) no conto.

3 DIVISÃO ESTRUTURAL E NARRATIVAS INTERNAS AO CONTO “A QUINTA HISTÓRIA”, DE CLARICE LISPECTOR
A partir do 2º parágrafo, é que se iniciará a narração das “histórias”. Guarizo (2013) ressalta que a cada novo título e história, será perceptível uma gradativa diminuição da fabulação/dos fatos da narrativa e o aumento dos elementos ficcionais.

Na 1ª versão da história, sob o título “Como matar baratas”, sua estrutura textual se assemelha a de um relato em que se priorizam os fatos. Predominam-se os verbos, e estes são todos de ação. Também notamos uma narrativa enxuta, direta e objetiva, que se consiste exclusivamente em relatar fatos acontecidos. Portanto, seu foco narrativo é o enredo, a apresentação dos fatos ocorridos a partir da problemática do aparecimento de baratas, e que se encerra assim que essas são exterminadas, deixando de existir, portanto, o conflito: “Assim fiz. Morreram” (LISPECTOR, 1987, p. 81).

Esse tipo de narrativa é característica do conto em seu modelo tradicional. “Como matar baratas” apresenta a estrutura clássica da narrativa, nela predominam aspectos que trazem o mínimo de equilíbrio e harmonia ao seu enredo: a obediência à ordem de início meio e fim da história.

A forma como a autora fundamenta a primeira versão da história sobre os fatos ocorridos, restringindo-se quase que exclusivamente a esses, enfatiza a função que conhecemos do conto enquanto narrativa que se perpetua através dos tempos por sua grandeza nos acontecimentos, não nos personagens ou em suas ações. São sobre estes fatos que se estruturarão e se multiplicarão as demais narrativas ao longo do conto.

A narrativa ocupa poucas linhas, seu tom banal ao descrever o projeto e execução do crime é que chocam o leitor. Primeiramente, a narradora-personagem atrai os insetos, por meio de uma estratégia de simulação do fatal na doçura do açúcar, componente da fórmula mortífera. Para em seguida, anunciar uma morte violenta sob a expressão “esturricaria o de-dentro delas”.

Rosenbaum (2006) chama a atenção para o aspecto linguístico da ênfase ao advérbio que se substantiva: “o de-dentro”, tendo em vista que o mesmo ganha destaque, como: “[...] alvo maior a ser destruído pelo feitiço tão preciso e medido” (ROSENBAUM, 2006, p. 134). Temos aqui um claro recurso linguístico utilizado pela escritora para dar sentido maior à morte no conto: “A expressão ‘esturricaria o de-dentro’ encarna, em toda a sua violência, o massacre interior como modo de morrer” (ROSENBAUM, 2006, p. 134).

Lispector possui essa habilidade de desenvolver em seus textos aspectos linguísticos que provocam no leitor as reações pretendidas pela autora. Em “Como matar baratas” esse recurso se destacou na ênfase ao advérbio substantivado “o de-dentro”, mas os recursos de que se utilizará ao longo do conto serão inúmeros.

No conto estudado, as repetições são marcadas pelo início do enredo que se repete no início de cada nova narrativa, demarcadas por parágrafos. A demarcação por meio dessas repetições remete ao caráter múltiplo que possui a visão de um fato, mesmo que sob o ponto de vista de um único indivíduo. Esta é uma característica presente no que concebemos como conto moderno: o desmembramento infinito de um único ponto de vista, originado a partir da fragmentação da realidade nos tempos modernos.

À medida que, a cada nova versão da história, mudam-se as perspectivas sobre os fatos, altera-se a técnica, a forma como os fatos são apresentados. Mas os fatos, a estrutura fundamental do conto permanece. Característica elementar ao conto enquanto narrativa que não se dilui. Com isso, o múltiplo originado pela técnica da repetição, também possui a função de enfatizar o uno, a história enquanto uma apenas.

A segunda história “[...] é a primeira mesmo” (LISPECTOR, 1987, p. 81), como afirma a própria narradora, mas seu enfoque narrativo é outro, e com a mudança deste, altera-se o título: “O Assassinato”. Assim como insinua o título, essa versão se enfoca no ato de matar as baratas, “enxugando” os elementos fatuais e dando ênfase, dessa vez, à visão subjetiva da narradora ao buscar eliminar os insetos. É a partir desse momento que o enredo começa a ser deixado de lado. Isso se intensificará gradualmente ao longo da narrativa.

Inicialmente, em “O Assassinato”, a narradora retoma, de forma sucinta, os fatos da 1ª versão até o ponto em que essa aplicaria a receita para matar as baratas: “E então entra o assassinato” (LISPECTOR, 1987, p. 81). O tom de mistério já prenuncia que a forma como a narradora-personagem usará para acabar com as baratas será o clímax dessa história. A palavra “assassinato” como título, e como termo recorrente na narrativa, nos fornece a pista certa do que este ato representa para a narradora.

Rosenbaum (2006) nos aponta o quanto a narradora passa a abandonar a frieza contida na primeira versão da história, e se deixa ser invadida por uma crescente excitação assassina a partir de “O Assassinato”. Aquela que seria uma pacata dona de casa se descobre uma potencial assassina a partir dessa versão da história.

O olhar que a narradora-personagem lança nesta narrativa sobre o planejamento e o ato matar baratas é o de que estes não seriam mais simples providências, corriqueiras no cotidiano doméstico, como são vistos em geral pelas pessoas. A narradora coloca estes atos (planejar e matar baratas) em um plano de importância maior. São atos desenvolvidos com intenso prazer sádico.

Ambos, barata e leitor, são igualmente atraídos e envolvidos pela articulação discursiva utilizada pela escritora ao longo do conto. A estrutura textual utilizada por esta, segundo Rosenbaum “[...] se sobrepõe ao teor destrutivo de seu conteúdo” (ROSENBAUM, 2006, p. 136). Temos assim, a importância da estrutura com sua articulação discursiva para essa leitura do conto “A quinta história”.

A narrativa de “O Assassinato” se encerra com a finalmente extinção das baratas, vista pela narradora como o retorno da paz: “Em nosso nome, amanhecia” (LISPECTOR, 1987, p. 83). Mas, veremos que, na verdade este não seria o fim do “problema”. A narradora-personagem continuará a nos envolver com as narrativas que se sucederão, demonstrando o mal que se renova pelo mal, em um rito, viciante, por meio do seu jogo discursivo espiralado em repetições.

A repetição, segundo Guarizo (2013), é adotada na poética de Clarice Lispector como recurso metalinguístico e poético. Tal recurso faz parte do procedimento estilístico que a escritora adota intencionalmente em suas obras. Os efeitos que se alcançam desse recurso são: a expansão dos sentidos, que a cada nova repetição, ganha novos detalhes, novas perspectivas; a criação de certo ritmo ao texto, que estabelecem certos contornos estruturais, com a intenção de envolver o leitor neste jogo discursivo.

A terceira história recebe o título “Estátuas”. Nesta, o enredo será apresentado de forma ainda mais concisa, dando margens maiores aos aspectos ficcionais.

Previsivelmente, a narrativa se inicia da mesma forma que a primeira e a segunda, dando continuidade ao jogo de repetições. Mas, como bem salientado por Gotlib (2011), “Estátuas” se estende para além da segunda narrativa, seu clímax se inicia a partir do momento em que a narrativa anterior acaba: quando, pela manhã, a protagonista vai até a área e vê as baratas mortas.

O ponto de enfoque nesta história será a caracterização, a exploração visual das baratas transformadas em “estátuas”: “[...] num cenário de riqueza plástica, como ‘um alvorecer em Pompeia’. A argúcia da narradora manifesta-se na construção das esculturas [...]” (GOTLIB, 2011, p. 345).

Em “Estátuas”, o olhar da narradora-personagem é ainda mais subjetivo que nas narrativas anteriores. Como aponta Gotlib (2011), nessa narrativa, as baratas “[...] se acham dispostas segundo o ‘estilo de morrer’, mas que coincide com o respectivo ‘estilo de viver’ de cada uma” (GOTLIB, 2011, p. 345). A narradora se prende na descrição das baratas esculturadas pelo gesso mortífero.

Estas se encontram dispostas tal como morreram, petrificadas de acordo com a forma como morreram: algumas interrompidas, pegas de surpresa: “[...] no meio de um gesto que não se completaria jamais” (LISPECTOR, 1987 p. 83).

A forma como cada barata é descrita em sua morte coincide com a forma como viviam. O que a narradora, em breve momento de compaixão, ao descrever os monumentos, quer nos transmitir é que a morte “[...] se particulariza e expõe o que cada um é” (ROSENBAUM, 2006, p. 139). Esta é a grande metáfora identificada nessa narrativa, pois as imagens apresentadas pela narradora quanto às diferentes reações que as baratas apresentam em relação à morte estão carregadas de metáforas em relação ao comportamento humano.

A narrativa se encerra com o retorno do distanciamento entre narradora-personagem e os insetos: “[...] - de minha fria altura de gente olho a derrocada de um mundo. Amanhece. Uma ou outra antena de barata morta freme seca à brisa. Da história anterior canta o galo” (LISPECTOR, 1987, p. 84). Mais uma vez, desponta o recurso da repetição: ao final de “Estátuas” repete-se a imagem do galo que canta, o mesmo final dado à narrativa anterior.

A 4ª narrativa não possui título, o que logo se sabe por intermédio da narradora é que essa “[...] inaugura nova era no lar” (LISPECTOR, 1987, p. 84). Por essa fala, o leitor conclui que acontecerá uma mudança próxima no teor da narrativa.

No entanto, nesta história o enredo será reduzido ao mínimo, restringindo-se a dois períodos: “Começa como se sabe: queixei-me de baratas. Vai até o momento em que vejo os monumentos de gesso” (LISPECTOR, 1987, p. 84). A “nova era”, a que a narradora havia se referido, está vinculada a sua percepção de que as baratas não foram verdadeiramente extintas.

Unida a essa nova percepção, está a de que o ato de ter matado aquelas baratas, para obter sucesso, deveria se repetir diariamente, como em um rito, viciante, ávido por ser constantemente renovado. Dessa segunda percepção, surge uma terceira: a da escolha. A partir desse momento, a protagonista poderia escolher entre continuar ou não a efetuar seu plano perverso diariamente, transformando-o em ritual, salientando que “[...] qualquer escolha seria a do sacrifício: eu ou minha alma” (LISPECTOR, 1987, p. 84). Ao preservar implícita sua decisão, a narradora envolve ainda mais o leitor em seus jogos narrativos.

Na quinta história, temos o desaparecimento dos elementos narrativos fatuais. Na verdade, essa história consiste em algo que se assemelha mais a uma proposta de uma quinta narrativa, cujo título seria: “Leibnitz e a Transcendência do Amor na Polinésia”, do que uma narrativa, propriamente dita.

Gotlib (2011) caracteriza a última versão como uma história que não se consuma. A quinta história não vai além do seu título, no mínimo estranho, e da, mais uma vez, repetição do começo das demais histórias: “Começa assim: queixei-me de baratas” (LISPECTOR, 1987, p. 84).

O final da quinta narrativa encerra também o conto. Assim como é perceptível ao leitor que a última história não possui um fim em si, a narrativa de “A quinta” história, como mencionado anteriormente, poderia desdobrar-se em sexta, sétima, oitava, infinitas histórias.

O fim que se dá ao conto reitera uma das primeiras afirmações da narradora de que essa história é constituída de incontáveis possibilidades: “[...] seriam mil e uma, se mil e uma noites me dessem” (LISPECTOR, 1987, p. 84), e que por isso não possui um final convencional às narrações, traço característico da poética de Clarice Lispector.



4 ALGUNS DOS ELEMENTOS ESTRUTURAIS E LINGUÍSTICOS DE “A QUINTA HISTÓRIA” PARA SUA INTERPRETAÇÃO
A repetição é marca fundamental da estruturação do conto “A quinta história”, e é sobre esse elemento que o conto tem seus contornos delineados. Mas seria a repetição, para além da estrutura, elemento importante quando pretendemos realizar sua leitura interpretativa?

Em “A quinta história”, as repetições são marcadas pelo início do enredo, que se repete ao princípio de cada nova narrativa, e pela se figura do galo que canta, presente no final da segunda e da terceira história. A demarcação que a autora constrói por meio da repetição remete ao caráter múltiplo que possui a visão de um fato, mesmo que sob o ponto de vista de um único indivíduo.

Segundo Gotlib (2002), esta é uma característica presente no que concebemos como conto moderno: o desmembramento infinito de um único ponto de vista. Originado a partir da fragmentação da realidade nos tempos modernos.

A repetição, como visto anteriormente em Guarizo (2013), é adotada na poética de Lispector como recurso metalinguístico e poético, e se constitui como parte do procedimento estilístico que a escritora adota intencionalmente em suas obras.

São os efeitos que a escritora alcança a partir do recurso da repetição: a expansão dos sentidos, que a cada nova repetição, ganha novos detalhes, novas perspectivas; a criação de certo ritmo ao texto, que estabelecem certos contornos estruturais, com a intenção de envolver o leitor neste jogo discursivo.

Quanto à metalinguagem, podemos notá-la claramente enquanto intenção primeira da construção do conto. Guarizo (2013) nos aponta que a própria escritora, da montagem do livro em que constaria o conto estudado, “A legião estrangeira”, dividiu os contos em duas seções, ficando “A quinta história” na primeira parte do livro. Nesta seção, prevaleciam os textos que buscavam, por meio de sua linguagem, elaborar uma reflexão metalinguística.

No conto, a protagonista retoma o ato de matar baratas incessantemente. A cada nova versão, os fatos apresentados na primeira história se repetem, mas os pontos de vistas lançados sobre as narrativas as distinguem entre si. Esse processo aponta na narrativa única a multiplicidade de possibilidades existentes nessa.

A indicação desse percurso, feito pela escritora, tem como objetivo refletir sobre o “fazer literatura”, mostrando ao leitor que existem múltiplas, infinitas possibilidades diferentes de se contar uma única história: “Embora uma única, seriam mil e uma, se mil e uma noites me dessem” (LISPECTOR, 1987, p. 81).

A partir dos recursos da repetição (estrutural) e da metalinguagem (linguístico), Clarice Lispector constrói as bases para a mensagem que pretende transmitir por meio do conto. A metalinguagem vale-se da repetição (elaborada ao longo de todo o texto) que põe em prática o primeiro enunciado da narrativa: a intenção do conto em demonstrar que são inúmeras as possibilidades de construção de sentidos. Tem-se assim a indivisibilidade entre estrutura e o conteúdo para uma leitura analítico-interpretativa do conto.

CONCLUSÃO
A problemática desse estudo esteve em compreender qual seria a interferência da estruturação e da linguagem na interpretação (tema e conteúdo) do conto “A quinta história”, de Clarice Lispector pelo leitor.

Desde o princípio, partiu-se do pressuposto de que a interpretação do conto escolhido estaria extremamente vinculada aos elementos textuais estrutural e linguístico, do conto estudado. Dessa forma, a observação desses elementos seria crucial para a construção de uma leitura analítico-interpretativa do conto.

Como estudado, o enredo do conto “A quinta história” gira em torno de uma narradora-personagem que relata sua experiência com a aplicação de uma receita para matar baratas, aprendida com uma senhora que a ouviu se queixar do problema com os insetos.

Ao longo do conto, a narradora relata essa mesma história, de formas diversas, tendo em vista que as narrativas que compõem o conto se constituem de diferentes pontos de vista em relação ao fato ocorrido. Para isso, a autora utiliza-se dos recursos da repetição e da metalinguagem.

Foi concluído que esses recursos constroem as bases para a mensagem transmitida pelo conto. A metalinguagem vale-se da repetição, que coloca em prática o primeiro enunciado da narrativa: a intenção em demonstrar que são inúmeras as possibilidades de construção de sentidos.

Verificou-se assim a indivisibilidade entre estrutura e conteúdo para uma leitura analítico-interpretativa do conto.

O conto “A quinta história” é, ao mesmo tempo, a “forma simples”, de Jolles (apud GOTLIB, 2002) e a “forma artística”: é simples, por ser único, pois permanece o mesmo ao longo de todas as possibilidades narrativas apresentadas ao longo do conto, como também as infinitas possibilidades que não o são.

Clarice nos mostra o caminho introspectivo que pode percorrer o acontecimento de um fato, por meio das múltiplas visões que conta o narrador.

Em uma leitura mais ampla, poderíamos notar que o caminho pelo qual percorre as narrativas de “A quinta história” é o mesmo que tem percorrido o gênero conto ao longo dos séculos, em sua trajetória e transformações históricas: desde sua firmação enquanto modelo tradicional (a estrutura clássica em “Como matar baratas”), até sua concepção enquanto conto moderno (o rompimento total com a lógica na quinta história: “Leibnitz e a Transcendência do Amor na Polinésia”). Mas esta é uma perspectiva que poderá ser desenvolvida somente em pesquisas posteriores.

REFERÊNCIAS
ALONSO, M. Um caleidoscópio de baratas: a narrativa especular de Clarice Lispector. Literatura em Debate. v. 6, n. 11, p. 15-31, dez. 2012. Disponível em: Acesso em: 03 nov. 2014.
BOOTH, W. C.; COLOMB, G. G.; WILLIAMS, J. M. A arte da pesquisa. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
GOTLIB, N. B. Clarice uma vida que se conta. 6. ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2011.
___________. Teoria do conto. 10. ed. São Paulo: Editora Ática, 2002.
GUARIZO, A. M. P. Uma poética do escrever e da escrita em Água Viva, de Clarice Lispector. 2013. Tese (Doutorado em Letras) – Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas, Universidade Estadual Júlio de Mesquita Filho, São José do Rio Preto.
LISPECTOR, C. A paixão segundo G.H. 1. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
____________. A legião estrangeira. 6. ed. São Paulo: Editora Ática, 1987

MANZO, L. Era uma vez: Eu – a não ficção na obra de Clarice Lispector. 1. Ed. Curitiba: Secretaria de Estado da Cultura: The Document Company – Xerox do Brasil, 1997.


NUNES, A. M. Clarice Lispector jornalista – páginas femininas & outras páginas. São Paulo: Senac, 2006.
ROSENBAUM, Y. Metamorfoses do Mal: Uma leitura de Clarice Lispector. 1. ed. São Paulo: Fapesp, 2006.

Universitári@ - Revista Científica do Unisalesiano – Lins – SP, ano 5., n.11, jul/dez de 2014



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