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A Influência do Populismo no Rádio Brasileiro durante o Estado Novo

De Daniel Praciano Nobre (jornalista)

Introdução

O rádio brasileiro, durante o período do Estado Novo, foi de grande importância para o governo ditatorial de Getúlio Dornelles Vargas, o líder populista que governou o País de 1930 a 1945. Nosso trabalho tem como objetivo principal mostrar como se deu a ligação entre o governo populista de Vargas e o rádio, quer dizer, como o governo utilizou o rádio em seu benefício.

A dificuldade de encontrar material de pesquisa é notória durante todo o trabalho, pois, em certos momentos, sentimos que poderíamos ir mais longe, mas a falta de material que embazasse nossas certezas impossibilita esse avanço. Pesquiso sobre o tema e todos os assuntos que o circundam desde março de 1995 e, até hoje, continuo a busca (sem muito sucesso). Não existem muitos arquivos no Brasil e, mais especificamente, no Ceará, o que dificultou deveras nosso objetivo. Tive a sorte de encontrar uma professora que me deu material de apoio para 30% da monografia. Outra vez tive a felicidade de contar com a ajuda de um dos professores que hoje vão me julgar para adquirir outro material para este trabalho. Enfim, este trabalho não foi só científico, mas, e principalmente, de reconstituição histórica, o que o torna mais difícil e, ao mesmo tempo, interessante. Até o novo meio de comunicação, a Internet, não possui material de apoio suficiente para uma pesquisa detalhada.

Mas quanto à monografia, quero dizer que foi feito um esforço para deixá-la a mais completa possível. Começamos com um histórico da vida de Vargas, da infância até a iniciação política, pois achamos importante que o leitor saiba quais foram suas influências. Influências estas que podem ter sido vitais na formação do grande estadista que foi Vargas.

No capítulo seguinte, tentamos mostrar o que foi o Populismo, política utilizada por Vargas e que só foi derrotada com o golpe militar de 1964. Procuramos explicar como o populismo foi utilizado pelos governos latino-americanos, em especial no Brasil, México e Argentina. É bom frisar que Brasil, Argentina e México utilizaram o populismo como saída para suas crises política-econômica-sociais, mas, em cada um destes países, o populismo teve sua peculiaridade.

No quarto capítulo, o leitor verá quais foram os fatores que provocaram a revolução de 30 e, posteriormente, o golpe do Estado Novo que deu amplos poderes a Vargas. Quais foram os motivos que levaram o, então presidente eleito pelo Congresso, Getúlio Vargas, a cancelar as eleições presidenciais e implementar um dos períodos mais repressores da vida política brasileira.

Já no quinto capítulo, o leitor vai poder acompanhar toda a trajetória do Estado Novo. Vai ficar sabendo o que foi este período dentro da vida brasileira, o qual tipo de política econômica e social foi implementada pelo ditador Vargas e, principalmente, como ele utilizou a mídia em seu benefício. Tentaremos também traçar um paralelo entre a comunicação social na Alemanha nazista e a comunicação social no Brasil estadonovista. E, para encerrar, vamos mostrar, de forma resumida, o que foi o período do Estado Novo para a mídia impressa.

O sexto capítulo trouxe uma ampla análise sobre o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), órgão criado por Getúlio para reprimir os meios de comunicação opositores à política populista de Vargas e divulgar os feitos do governo getulista. Feitos esses verídicos ou não.

Em seguida, teremos um capítulo somente sobre o rádio, de suas origens no Brasil até o final do Estado Novo, em 1945. Tudo de relevante aconteceu neste período é retratado aqui para que o leitor já comece a se preparar para o que virá no capitulo seguinte, onde tentamos mostrar a influência que teve o populismo no rádio brasileiro e, em especial, na Rádio Nacional, porta-voz não-oficial do governo Vargas.

Pois bem, neste último capítulo, traçamos um perfil da Rádio Nacional e de sua importância dentro da política populista do Estado Novo, onde o objetivo do ditador era se perpetuar no poder a qualquer custo.

E, para encerrar, fizemos um capítulo sobre o que foi e como funcionou "A Hora do Brasil", horário obrigatório e oficial do governo ditatorial de Getúlio Vargas onde era listado para o povo brasileiro o que o ditador estava fazendo em benefício da Nação.

Apesar de todas as dificuldades de coleta de material de pesquisa para esta monografia, acreditamos que temos aqui um material que vai servir de referência para trabalhos futuros.



Getúlio Vargas: O homem e suas influências políticas

Getúlio Dornelles Vargas nasceu em São Borja, no Rio Grande do Sul, em 19 de abril de 1883 e suicidou-se no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, em 24 de agosto de 1954.

O início da família Vargas é confuso. O avô de Getúlio, Evaristo José Vargas, nasceu em Encruzilhada, Rio Grande do Sul, entre 1808 e 1812. Era descendente do bandeirante paulista Francisco de Paula Bueno e da espanhola Ana Joaquina de Vargas. Evaristo foi soldado voluntário da República Farroupilha e lutou sob as ordens de Bento Gonçalves. Casou-se com Luísa Maria Teresa Vargas e teve 14 filhos.

Um dos filhos de Evaristo Vargas foi Manuel do Nascimento Vargas, que nasceu em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, em 25 de novembro de 1844. Manuel faleceu em São Borja em 23 de outubro de 1943. Aos 23 anos, Manuel se alistou no posto de cabo, para lutar na Guerra do Paraguai, de onde voltou coronel. Lá, recebeu várias menções elogiosas de seus superiores e, quando voltou, tornou-se rapidamente um próspero estancieiro. Casou-se em 1872, com Cândida Dornelles, de família de prestígio na região. Além de Getúlio, nasceram outros quatro filhos: Viriato (1874-1953), Protássio (1877-1970), Espártaco (1892 - ?) e Benjamim (1898-1973).

O pai de Vargas foi um dos primeiros a aderir às teses de Júlio Castilhos, fundador e organizador do Partido Republicano na Província gaúcha. Manuel se tornou chefe desse partido no município de São Borja, cuja Câmara Municipal iniciara, em princípios de 1889, a campanha contra o terceiro reinado, através de uma monção dirigida ao País. Participou do lado dos "pica-paus" (castilhistas), contra os maragatos (gasparistas), da revolução federalista em 1893, recebendo do então presidente da República, Floriano Peixoto, a patente de general. Manuel foi prefeito do município de São Borja, de 1907 a 1911.

Quanto a Getúlio, este iniciou sua vida nos bancos das escolas só após a guerra civil (1893-1894). Foi para a Escola de Minas, em Ouro Preto, Minas Gerais, onde já se encontravam seus irmãos Viriato e Protássio. Porém, um incidente entre jovens gaúchos e paulistas, que resultou na morte de um paulista, trouxe-os de volta a São Borja. Getúlio tentou seguir carreira no Exército como seu pai, mas por problemas disciplinares e talvez também pelas suas características físicas (era baixinho e tinha tendência a obesidade), como afirmou Affonso Henriques em seu livro Ascensão e Queda de Getúlio Vargas - O Maquiavélico -, não permaneceu muito tempo na vida militar.

Em março de 1904, Vargas se matriculou na faculdade de Direito de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Fundou, junto com os amigos João Neves da Fontoura, Firmino Paim Filho, Maurício Cardoso e mais dois cadetes da Escola Militar, Pedro Aurélio Góis Monteiro e Eurico Gaspar Dutra, o Bloco Acadêmico Castilhistas, uma organização de estudantes civis e militares que tinha por objetivo a defesa e a prorrogação do pensamento e da obra de Júlio Castilhos.

O gosto pelos meios de comunicação surgiu cedo. Três anos após entrar na faculdade, tornou-se secretário da redação do jornal "O Debate", fundado em 3 de julho de 1907, que era dirigido por Paim Filho.

Nessa época, recebeu influências filosóficas de Augusto Comte, através da leitura de seu Cours de Philosophie Positive, além de ter preparado um artigo sobre Émile Zola para a revista Panthum, em que destacava no escritor francês impulsos progressistas. Tornou-se bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais em 25 de dezembro de 1907, sendo eleito orador da turma. Após a diplomação, foi nomeado para o cargo de segundo promotor público no Tribunal de Porto Alegre, mas logo regressou a São Borja, onde constituiu o seu escritório de advocacia.

Quanto à vida política de Getúlio Vargas, ela também começou cedo. Apesar de várias desavenças com Borges de Medeiros, presidente do Estado do Rio Grande do Sul, elegeu-se deputado estadual à Assembléia Legislativa gaúcha pela primeira vez em 1901. No seu segundo mandato, em 1915, renunciou em solidariedade a amigos pressionados por Borges de Medeiros e retornou em 1919, após rejeitar o cargo de chefe de polícia do Estado oferecido pelo presidente do Estado com a finalidade de fazer as pazes com Getúlio. Além destas três oportunidades, Vargas ainda foi deputado estadual em 1921. Mas não ficou muito tempo. Afinal, logo em 28 de outubro de 1922, Vargas se elegia deputado federal, cargo que viria a reconquistar em 1924, quando passou a exercer a liderança da bancada gaúcha na Câmara Federal. Durante sua permanência no cargo, defendeu o governo contra a revolta em São Paulo - o segundo 5 de Julho de 1924 - chefiada por Isidoro Dias Lopes. Getúlio também defendeu o modelo político-jurídico de Estado forte, organizado por Júlio Castilhos, durante sua participação na comissão encarregada de estudar a reforma constitucional proposta pelo presidente Artur Bernardes.



Populismo

O populismo é um fenômeno político que modificou as estruturas de vários países, principalmente Brasil, México e Argentina. Os dois primeiros atravessavam uma crise econômica e política fortes, enquanto o terceiro, além dos problemas econômicos, vivia sob forte crise política, graças a vários golpes seguidos. O populismo serviu para o propósito de alguns dirigentes latino-americanos e também como bandeira na tentativa de alterar os padrões de governo na Rússia e nos Estados Unidos no final do século XIX. "O populismo russo propunha uma revolução, pensando como sociedade ideal, aquela livre da 'modernização' capitalista e com valores profundamente agraristas. O populismo norte-americano, defendido por pequenos proprietários rurais, também fazia críticas ao capitalismo, mas não pretendia transformações radicais na sociedade".

Podemos definir o populismo de diversas formas. Pode-se defini-lo como a política usada por um grupo para tomar o poder com o propósito de alavancar a política industrial, colocada em segundo plano devido à supremacia da oligarquia agrícola. Outro conceito para populismo diz que ele é a tentativa dos meios de comunicação de popularizar líderes políticos, buscando estabelecer entre eles e seu público uma relação mais direta e pessoal, conceitos encontrados no texto Populismo e Comunicação, de José Marques de Melo, organizador do livro homônimo.

Já segundo Francisco Weffort, populismo é um fenômeno de participação política das classes populares, urbanas, "particularmente enraizado naquelas cidades de maior ritmo de crescimento, mais fortemente atingidas pelo desenvolvimento industrial e pelas migrações".

Mas e quanto ao populismo no Brasil e na América Latina? Como funcionaram nos dois casos?

Populismo na América Latina: um breve histórico

O populismo não foi um fenômeno político exclusivo do Brasil. Na América Latina, mais notadamente no México e na Argentina também houve experiências deste fenômeno político.

A exemplo do Brasil, os dois países passavam por um processo de restruturação política e profundas crises econômicas, principalmente no México, já que o período populista mexicano teve início em 1934, cinco anos depois do "crack" da Bolsa de Nova Iorque.

O maior expoente do populismo mexicano foi seu presidente, Lázaro Cárdenas, que governou o México de 1934 a 1940. Com o cardenismo, retomavam-se "os ideais aburguesados da Revolução Mexicana. Cárdenas se pretendia o verdadeiro tradutor dos interesses das massas mexicanas, admitindo e defendendo sua participação no jogo político e entendendo como fundamental seu papel na sociedade".

A luta de Cárdenas era tentar reestruturar economicamente o País, visto que para ele seria através da economia que o México conseguiria tornar-se forte. E, para que isso fosse alcançado, teria que contar com o apoio de todo o povo mexicano, não só da burguesia, responsável pelo crescimento da produção, mas também das massas, que eram tidas por Cárdenas como o motor do progresso da sociedade. Já ao Estado, caberia o papel de juiz e de conciliador social, pois para que estas duas classes antagônicas pudessem dar as mãos era necessário que o Estado interviesse. E só o Estado poderia fazer isso visto que seus interesses eram para o bem de toda a população mexicana.

Essa união possibilitaria a extinção de um desenvolvimento unicamente voltado nos moldes socialistas ou nos moldes capitalistas, pois, para Cárdenas, o ideal seria um sistema baseado na Revolução Mexicana que seria, a síntese dos dois sistemas. Ao Estado, pois, caberia o papel de garantir que as duas classes antagônicas - burguesia e proletariado - convivessem dentro de um projeto nacional comum, que proporcionasse benefícios para ambos os lados.

Havia uma política de respeito aos direitos da população. Durante o governo de Cárdenas, houve um verdadeiro estouro de greves (nas cidades), que não tiveram em momento algum a interferência repressiva do Estado. Nunca, em nenhum governo pós-revolução, aconteceram tantas greves. Houve isso, porque Cárdenas acreditava que "as greves representavam a legítima manifestação dos operários na busca de melhores condições de vida". Ainda quanto às greves, o governo populista do México, além de legitimá-las, também afirmava que os donos das fábricas não poderiam deixá-las paralisadas, visto que isso seria um ato antipatriótico.

Cárdenas acreditava piamente na capacidade do Estado de intervir no campo da luta entre a burguesia e o proletariado, estabelecendo limites de atuação para cada um dos grupos. Para isso, era vital manter a neutralidade. Esta neutralidade, aliada à superioridade frente a classe burguesa e a classe operária através de uma política de interesses comuns, também asseguraria as condições necessárias para o desenvolvimento econômico que, segundo Cárdenas, era como o México poderia tornar-se forte.

Se o populismo mexicano se caracterizou pela forma democrática de atuar com a burguesia e com o proletariado, o argentino de Juan Carlos Perón, que governou a Argentina de 1946 a 1955, destacava-se por ser mais repressor aos movimentos sindicais.

A Argentina, antes de Perón assumir o poder, vivia afundada em uma crise política. Sucessivos golpes de Estado modificavam seqüencialmente os presidentes do País e as políticas sociais e econômicas. Perón foi eleito por uma chapa contraditória, já que aliava setores da classe operária com setores importantes do Exército, Igreja, além do apoio da burguesia. Com estes grupos aliados à sua chapa e mais suas atitudes antiliberais e nacionalistas, Perón ora era acusado por alguns membros da oposição de fascista, ora era aclamado por outros como responsável pelo progresso social argentino.

Apesar de o governante argentino reconhecer a existência de classes sociais, bem como os conflitos entre elas, ele não acreditava que o conflito fosse prejudicial para os interesses da nação, desde que o Estado interviesse nestes conflitos. Ao privilegiar o Estado, Perón, assim como Vargas, colocava o governo como a única entidade capaz de realizar "os supremos 'interesses' do indivíduo e da Pátria. Na verdade, os 'interesses' dos indivíduos estavam identificados e eram sintetizados pelos 'interesses' da Pátria".

Levando-se em conta os dois regimes populistas, pode-se apontar duas vertentes como utilizadas por Maria Lígia Prado:

"Pretendeu-se, assim, apontar duas vertentes do populismo latino-americano: o mexicano, com uma prática política mais democrática e uma ideologia mais progressista; e o argentino, autoritário, conservador e repressivo. No entanto, para a classe operária, os resultados dos dois regimes populistas não foram tão diversos. No México, uma reformulação no único partido existente, o Partido Nacional Revolucionário, transmutado por Cárdenas, em Partido da Revolução Mexicana (mais tarde Partido Revolucionário Institucional), promoveu uma divisão do partido em setores (setores operário, camponês, militar e popular) que terminou por cristalizar um vínculo oficial e institucional entre os sindicatos e o Estado, via partido oficial. Na Argentina, o Estado quebrou a autonomia política dos sindicatos, estabelecendo fortes vínculos entre eles e o Estado".

Ou seja, os dois países, na tentativa de fugir dos sistemas capitalista e socialista, acabaram ajudando no crescimento e fortalecimento da burguesia e, também, no atrelamento dos sindicatos e das organizações político-partidárias das classes populares ao Estado burguês (ambas os fatos também aconteceram no Brasil de Getúlio Vargas, durante seus primeiros anos no poder, de 1930-45).



Populismo no Brasil

O populismo surgiu no Brasil com a chegada de Getúlio Vargas ao poder. Vargas assumiu o poder através de uma revolução, tramada por seus aliados: os tenentes, uma parte do Exército (tropas gaúchas, mineiras e paraibanas), além dos políticos do Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Paraíba. Toda essa movimentação deveu-se ao fato de o Presidente da República, a época, Washington Soares, paulista, não ter indicado um político mineiro à presidência da República. Era o rompimento da política Café-com-Leite (que consistia no revezamento de um político mineiro e outro paulista na presidência da Nação) e o início do fim do poderio da oligarquia cafeeira.

Após a revolução, o comando do País foi passado interinamente a Getúlio Vargas. Sabendo das dificuldades financeiras do País, decorrentes do "crack" da Bolsa de Valores de Nova Iorque em 1929, que levou a exportação do café, o principal produto de exportação brasileira, a bancarrota, ele precisava encontrar aliados para reestruturar economicamente o País.

Foi buscá-los na burguesia industrial emergente (mesmo assim, Getúlio não deixou de adular os cafeicultores. A destruição de toneladas e toneladas de café, todos os anos, era a saída para reduzir os prejuízos dos cafeicultores). Esta burguesia ainda não possuía a força política que os latifundiários tinham. Porém, já possuíam capital suficiente para ajudar o governo Vargas a soerguer a economia nacional e impedir um quebra-quebra generalizado no Brasil.

O populismo pode ser definido como a política do "vão-se os anéis, ficam-se os dedos", ou seja, faz-se algumas concessões ao povo e aos aliados, mas mantém-se o poder. Dava-se um pouco de direitos aos trabalhadores, mas atrelava-se seus sindicatos ao Estado. Queimava-se o café excedente, mas o lucro, que porventura aparecesse, iria para o desenvolvimento das fábricas. Para Francisco Weffort:

"A peculiaridade do populismo vem de que ele surge como forma de dominação nas condições de vazio político, em que nenhuma classe tem a hegemonia e exatamente porque nenhuma classe se afigura capaz de assumi-la. (...) A adesão das massas ao populismo tende necessariamente a obscurecer-se a divisão real da sociedade em classes com interesses sociais conflitivos e a estabelecer-se a idéia do povo (ou da Nação) entendido como uma comunidade de interesses solidários".

Já a definição de Octavio Ianni é mais explícita:

"O populismo brasileiro surge sob o comando de Vargas e os políticos a ele associados. Desde 1930, pouco a pouco, vai se estruturando esse novo movimento político. Ao lado das medidas concretas, desenvolveu-se a ideologia e a linguagem do populismo. Ao mesmo tempo que os governantes atendem a uma parte das reivindicações do proletariado urbano, vão se elaborando instituições e símbolos populistas. Pouco a pouco, formaliza-se o mercado de força de trabalho, no mundo urbano-industrial em expansão. Ao mesmo tempo, as massas passam a desempenhar papéis políticos reais, ainda que secundários. Assim pode-se afirmar que a entrada das massas no quadro das estruturas de poder é legitimada por intermédio dos movimentos populistas. (...) No conjunto, trata-se de uma política de massas específicas de uma etapa das transformações econômico-sociais e políticas no Brasil. Trata-se de um movimento político, antes do que um partido político. Corresponde a uma parte fundamental das manifestações políticas que ocorrem numa fase determinada das transformações verificadas nos setores industrial e, em menor escala, agrário. Além disto, está em relação dinâmica com a urbanização e os desenvolvimentos do setor terciário da economia brasileira. Mais ainda, o populismo está relacionado tanto com o consumo em massa como com o aparecimento da cultura de massa. Em poucas palavras, o populismo brasileiro é a forma política assumida pela sociedade de massas do país".

O populismo surgiu de uma lacuna, de um momento em que ninguém se mostrava como a classe hegemônica. Sabendo disso, Getúlio toma as rédeas do poder e, ora jogando com a vontade do povo, ora jogando com a vontade da oligarquia cafeeira e, principalmente, com a burguesia industrial proeminente, mantém o poder em suas mãos por 15 anos. Para isso, ele procurou "obscurecer" as lutas de classe, através do atrelamento dos seus órgãos representativos, os sindicatos, ao Estado, e dissolvendo os seus partidos políticos (Aliança Nacional Libertadora -ANL- e Partido Comunista Brasileiro - PCB).

Vargas procurou dar aos trabalhadores alguns direitos que há muito tempo batalhavam, como o direito ao voto secreto e universal, ao salário mínimo, à formalização de um período de trabalho, entre outras coisas. Ao mesmo tempo que dava ao trabalhador estes direitos, o presidente tirava-lhes a capacidade de se organizar. Getúlio fez leis expulsando os líderes sindicais estrangeiros, o que enfraqueceu os sindicatos e atrelou estes sindicatos ao Estado (foi aí que surgiram os sindicatos pelegos que, até hoje, são o maior problema da classe sindical).

Este surgimento do Populismo, segundo a definição de Ianni, também aconteceu devido à urbanização que começou a surgir com a revolução de 30 e à conseqüente transferência do poder das mãos da oligarquia cafeeira, ou seja, dos homens do campo, para a burguesia industrial, isto é, para os homens da cidade. Com esta mudança, o consumo de manufaturados aumentou e a busca por uma cultura que se identificasse com as massas também.

Antecedentes do Estado Novo

O período que antecede o Estado Novo está ligado a fatos que aconteceram a partir de 1922 com as revoltas tenentistas. Os tenentes eram oficiais que tinham como objetivo moralizar o País e torná-lo mais desenvolvido. Imbuídos destes objetivos, eles se revoltaram várias vezes contra os governos dos presidentes do pacto Café-com-Leite. Umas destas revoltas foi a dos 18 do Forte de Copacabana. Este episódio marca uma revolta debelada logo no início da marcha dos 17 tenentes revoltos e mais de um civil que partiram de encontro com as tropas governistas pelas areias da praia de Copacabana, na tarde de seis de julho de 1922.

Outro episódio que marcou pela ousadia e pela duração, além do fato de não ter sido derrotado uma única vez pelas tropas governistas, foi a Coluna Prestes. Comandada pelo capitão Luís Carlos Prestes, a marcha saiu de Assis Brasil, no Paraná, em abril de 1925, e foi até a Bolívia, encerrando a jornada em 3 de fevereiro de 1927. A marcha tinha como objetivo moralizar o País e acabar com a miséria que assolava a população carente do Brasil. Ela percorreu mais de 25 mil quilômetros do interior do Brasil até Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia.

Mas o governo federal não gostou da idéia e enviou centenas de homens para impedir o progresso da coluna.

"O Exército federal, decidido a estancar a marcha, era auxiliado pelas milícias estaduais e, com maior eficácia ainda, por grupos de 'cangaceiros', bandoleiros equipados com dinheiro e armas fornecidos pelo governo. Além das dificuldades do terreno e da falta de água e de alimentos, a malária fez sérios ataques à expedição. Os habitantes locais, geralmente apavorados, tornavam-se hostis obstinados. O problema de preservar a disciplina e a harmonia entre os próprios revolucionários estava sempre presente".

Após o fim das revoltas tenentistas, o clima ficou mais tranqüilo, pelo menos até o "crack" da Bolsa de Valores em de Nova Iorque, em 1929. Com o "crack", a aliança de São Paulo e Minas Gerais, conhecida como Café-com-Leite, se desfez. Era necessário se proteger a exportação do café, principal produto brasileiro a gerar divisas para o País. Logo, pela lógica dos cafeicultores, era necessário manter no poder alguém ligado à política paulista para que os incentivos fiscais, necessários para a manutenção do poderio econômico dos cafeicultores paulistas, continuassem idênticos ao período anterior ao "crack" da Bolsa de Valores de Nova Iorque.

O presidente Washington Luís, paulista, deveria indicar um mineiro. Porém, para surpresa de seus aliados e, também de seus inimigos, ele indicou outro paulista, Júlio Prestes. Com isso, os representantes de Minas Gerais, sentindo-se traídos, procuraram aliar-se aos estados do Rio Grande do Sul e Paraíba em busca de vitória nas eleições presidenciais de 1930. Criou-se então, a Aliança Liberal.

Apesar de mobilizarem vários setores da sociedade contrários ao domínio da oligarquia cafeeira, a Aliança Liberal não conseguiu a vitória. As fraudes eleitorais, comuns à época, evitaram a vitória dos aliancistas. E como se não bastasse a derrota na disputa à Presidência, os candidatos aliancistas que concorreram a cargos estaduais, principalmente em Minas Gerais e Paraíba, não obtiveram o reconhecimento da vitória pelo Congresso, fato que aumentou ainda mais o sentimento de revolta por parte deles.

No dia 25 de julho, aconteceria o fato que impulsionaria de vez a ação armada: o assassinato de João Pessoa, presidente do Estado da Paraíba (cargo que hoje conhecemos como governador).

"Comentou-se depois que João Pessoa tinha ido a Recife pedir a cooperação do presidente de Pernambuco, Estácio Coimbra, na luta contra a rebelião de José Pereira (que contava com a complacência do governo federal que impedia que as tropas paraibanas recebessem armamento suficiente para combater os rebeldes que queriam tomar o poder na Paraíba); e que Coimbra tinha permanecido incomunicável no seu rancho. De qualquer forma, o principal interesse de João Pessoa em Recife era uma amante, cantora muito conhecida que devia chegar do Rio de Janeiro. O navio que a trazia ainda não havia atracado, e o presidente tomava um refresco numa confeitaria lotada, quando foi assassinado a tiros por João Duarte Dantas".

Com a morte de Pessoa, a Aliança agora tinha um mártir e a revolução não tardaria a acontecer. E, Sob o comando de Getúlio Vargas, o levante foi deflagrado às 17h30 do dia 3 de outubro de 1930 e logo se estendeu a outros pontos do País. Dois dias depois de iniciada a revolta, o governo federal instalou Estado de Sítio e começou a convocar reservistas do Exército. Mas a população estava insatisfeita com o regime e os homens chamados para defender a capital federal estavam mais dispostos a entregá-la facilmente para as tropas rebeldes comandadas por Vargas.

No dia 10 de outubro, Getúlio partiu à frente de suas tropas para o Rio de Janeiro pronto para a batalha. Porém, a batalha não aconteceu. No dia 24, Getúlio recebeu a notícia que os generais Tasso Fragoso e Mena Barreto, juntamente com o almirante Isaías Noronha, haviam deposto o governo Washington Luís e tinham constituído uma junta governativa no dia 23, o que nada mais era do que uma tentativa de um golpe pacificador que, na opinião dos oficiais golpistas, serviria para evitar maior derramamento de sangue.

A junta tentou consolidar-se no poder, porém, com apoio das tropas dos tenentes e dos aliados políticos, Getúlio Vargas obrigou-lhes a passar o governo da nação a ele. Vargas chegou ao Rio de Janeiro em 31 de outubro de 1930, mas preferiu receber o governo apenas em 3 de novembro do mesmo ano, um mês após o início do movimento golpista. Mas Vargas não iria se contentar apenas em ficar a frente do governo.

"Vargas sentia que o país estava maduro para as reformas - reformas que em 1930 pareciam muito mais radicais do que nos parecem hoje. Sem perder de vista o objetivo de produzir mudanças, Getúlio procurava evitar que fosse transformado em um mero peão de qualquer das forças em jogo, e assegurava que os grupos que inevitavelmente se tornariam contrários não chegassem a constituir uma força preponderante".

Logo após tomar o poder da junta militar que depôs Washington Luís da presidência, Getúlio Vargas assumiu a direção do País. Instalava-se o governo provisório que começou em 1930 e terminou em 1934. Esse período foi cercado de problemas. Crises no Nordeste, em Minas Gerais e em São Paulo eram geradas pela inexperiência política-administrativa dos "tenentes" que ganharam de Vargas as interventorias estaduais. Em todos esses momentos difíceis, Vargas, com agilidade, soube resolvê-los.

Os problemas no Nordeste se davam por dois pontos, excluindo-se aí a falta de experiência dos "tenentes". Um dos problemas era falta de recursos que deveriam vir do governo federal, pois o ministro da Fazenda, José Maria Whitaker, estava empenhado em equilibrar o orçamento afetado pela redução da receita. O outro problema de Whitaker foi a seca, uma das mais longas da história brasileira, o que dificultou os governos dos interventores.

Em Minas, a questão estava ligada à tentativa, por parte dos "tenentes" e de homens do Partido Republicano Mineiro (PRM), de tirar do poder o velho governador Olegário Maciel. Olegário resistiu bravamente e acabou premiado com sua continuidade à frente do governo de Minas, graças ao apoio de peças importantes do governo federal (Francisco Campos, que chegou a criar uma guarda semi-fascista para proteger Olegário, e Leite de Castro, Ministro da Guerra). Aos inimigos do governador mineiro restaram o choro nas prisões.

Em São Paulo, os problemas eram muitos. Governados por um militar nordestino, João Alberto, cheio de idéias interessantes como o aumento dos salários (5%) e a doação de terras, os paulistas estavam insatisfeitos e as boas idéias de Alberto só geraram uma coisa: começaram a chamá-lo de comunista e a montar vários planos para depô-lo do cargo. Antes que viesse a perder, João Alberto, pressionado por todos em São Paulo (industriais, militares, fazendeiros etc.), entregou o cargo e pediu a Vargas que escolhesse um civil e paulista para governar São Paulo.

Mas já era muito tarde. Mesmo após a nomeação de um paulista e civil para a interventoria (Pedro de Toledo foi o homem escolhido para assumir a interventoria paulista), a população paulista, motivada pelos grandes prejudicados com a política pós-30, os cafeicultores, continuava irada. Uma revolução parecia iminente.

E ela veio. A 9 de julho de 1932, estourava a Revolução Paulista, por uma São Paulo livre, por uma nação livre e por uma Constituição. Recrutaram-se diversos homens (até mulheres se apresentaram) que, liderados pelo general Bertoldo Klinger, esperavam o apoio do Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Paraná para conseguirem assim a grande vitória.

Como as tropas federais eram em maior número e muito mais bem preparadas e organizadas, chegaram à vitória contra as tropas de São Paulo (divididas em três frentes: no leste, no norte e no sul) à 29 de setembro de 1932. Apesar da vitória, Getúlio fez várias concessões aos derrotados. A maior delas foi a convocação de uma Assembléia Constituinte para 5 de maio de 1933. A primeira mudança notada pós-Revolução de 1930 se deu nas eleições, com a criação dos Tribunais Regionais Eleitorais e do Supremo Tribunal Eleitoral. Os dois órgãos, fundados por decreto presidencial de 18 de abril de 1932, tornavam bem mais difícil se burlar os votos, adulterando o nome de candidatos, ou intimidar os eleitores, até porque o voto era secreto. A intenção era evitar as fraudes a todo custo. E para isso até alguns exageros foram cometidos. "Na verdade, com a preocupação de eliminar a fraude e de proporcionar ao Brasil sua primeira experiência democrática, os novos tribunais eleitorais estabeleceram procedimentos tão estritos que o registro de eleitores tornou-se lento e difícil".

No dia 17 de julho de 1934, a força de Vargas foi confirmada. Ele venceu, através de uma eleição indireta (já que todos os votos - secretos - foram dados pelos membros da Assembléia Constituinte). Vargas venceu com 175 votos a favor, contra 59 dados a Borges de Medeiros e 4 ao general Góis Monteiro.

O período democrático foi bastante conturbado. As eleições de outubro de 1934, que elegeram os deputados estaduais e federais, além dos presidentes estaduais, foram desastrosas para os aliados do poder central. Os "tenentes" e seus aliados perderam terreno para as forças contrárias nos estados.

"A eleição foi um desastre para os 'tenentes', que perderam suas posições no Nordeste. Em Pernambuco, João Alberto foi derrotado por Lima Cavalcanti, que era getulista. No Ceará, Juarez Távora, natural do Estado, viu seus candidatos perderem para os que tinham sido indicados pela Liga Eleitoral Católica (LEC). Em três outros Estados do Nordeste os interventores foram derrotados. As vitórias dos grupos de Pedro Ernesto, no Distrito Federal, e de Juraci Magalhães, na Bahia, eram os únicos resultados confortadores para os 'tenentes".

Para tentar evitar perder o controle dos principais aliados, como em Minas Gerais e Distrito Federal, Vargas procurou intervir sutilmente, ajudando assim na manutenção de Benedito Valadares no governo de Minas Gerais e na eleição do Ministro da Marinha, para o governo do Distrito Federal, o Rio de Janeiro.

Neste mesmo período, surgiram dois novos grupos contrários em sua gênese que, de certa forma, mostravam as tendências dos novos tempos: a Aliança Integralista Brasileira (AIB) e a Aliança Nacional Libertadora (ANL). A primeira era liderada por Plínio Salgado e tinha características fascistas e por lema trazia os dizeres "Deus, Pátria e Família", além de contar com a simpatia do presidente Vargas. A ANL, apesar de não ser, reconhecidamente, um partido comunista, possuía essas tendências e recebia apoio de comunistas como Luís Carlos Prestes (seu presidente honorário).

O governo federal, vendo crescer a influência da ANL, baixou uma lei assinada por Vargas a 11 de julho de 1935, que colocava na ilegalidade qualquer partido com ideologia internacional. Uma curiosidade: a AIB continuou a existir, apesar de utilizar ideologia nazi-fascista, ou seja, ideologia germânico-italiana.

Os comunistas e contrários à política de Vargas já vinham dispostos a mudar na base da bala se necessário fosse a situação do País. Prestes, sua esposa, Olga Benário, e aliados iniciaram os preparativos para o golpe, porém, entre eles havia um traidor - Paul Gruber - que era, na verdade, um espião a serviço do Inteligence Service (serviço de inteligência) britânico. O delator entregou os outros líderes, como Rodolfo Guioldoi, Secretário-Geral do Partido Comunista argentino, Harry Berger, judeu russo naturalizado americano, e sua esposa Elise Berger, os quais, um a um, foram caindo nas garras da polícia política de Vargas.

Prestes e Olga Benário Prestes foram levados para celas diferentes (Olga na Casa de Detenção e Prestes na sede da Polícia Especial). Prestes ficou lá até Vargas conceder anistia aos presos políticos e Olga foi deportada para a Alemanha em 23 de setembro de 1936, onde foi assassinada "na câmara de gás da cidade alemã de Bernburg, na Páscoa de 1942".

Os levantes ocorridos em Natal, no Recife e no Rio de Janeiro não foram suficientes para efetuar a revolução e foram rapidamente debelados. Em 1936, enquanto prosseguia a campanha de investigação dos comunistas, os políticos preparavam-se para a eleição presidencial marcada para 3 de janeiro de 1938. Getúlio achava prematura a data, porém a Constituição assim determinava e o presidente nada (pelo menos constitucionalmente) poderia fazer.

Os integralistas sentiam-se poderosos e fortes para o pleito que se aproximava. Esta confiança vinha da influência cada vez maior dos integralistas dentro da sociedade e da entrada cada dia de mais e mais pessoas influentes no cenário político, econômico e militar. Além disso contavam, aparentemente, com a benção de Getúlio (na verdade o político gaúcho só estava interessado nos integralistas para que esses impedissem a proliferação das crescentes tendências comunistas no País).

Porém, existiam alguns políticos que já pressentiam o golpe de 1937. Flores da Cunha, ex-aspirante à Presidência, era um desses. E para evitar que Flores tentasse algo contra o governo, Vargas concedeu ao general Góis Monteiro a unificação das milícias estaduais ao Exército. Sabendo que não contaria com o apoio do ministro da Guerra, João Gomes, que fora indicado pelo governador paulista, Getúlio substituiu-o por Eurico Gaspar Dutra, que compartilhava as idéias de Vargas e Góis. O fim das ambições de Flores da Cunha estava agora à vista e Góis começou a instalar no Sul um aparelho militar do tipo que o gaúcho não podia deixar de respeitar.

Mas para os políticos mais poderosos que Plínio Salgado ou Flores da Cunha, a campanha eleitoral começara em 20 de novembro de 1936, na cerimônia de inauguração do edifício do Instituto do Cacau, em Salvador. Lá, surgiram rumores de que Vargas realmente continuaria. Ainda nesse evento o governador da Bahia, Juraci Magalhães, respondeu a essa idéia ditatorial de Vargas e seus seguidores acentuando a importância das eleições e esboçando o perfil de seu candidato ideal (que assemelhava-se a Armando Sales). Getúlio, que estava presente fazendo-se de desentendido, falou ao ouvido de seu vizinho de mesa: o candidato que Juraci está pintando é o Senhor do Bonfim. Mais tarde, Juraci, de certa forma indignado, propõe uma aliança entre São Paulo, Minas, Rio Grande do Sul, Pernambuco e Bahia, para evitar um golpe. Prontamente, Lima Cavalcante, governador de Pernambuco, aceitou e Juraci tentou convencer Armando Sales, governador de São Paulo, a entrar nessa aliança em favor da democracia. Armando, vendo que sua candidatura já estava bem adiantada, recusou.

Armando Sales não era do gosto de Getúlio, pois Sales dizia que a candidatura de um representante da elite paulista perturbaria o País e poderia ser desastroso; e Góis acrescentava que a aliança do paulista com o gaúcho Flores da Cunha não seria aceita com boa vontade pelo Exército.

Além desses candidatos, outros colocaram seus nomes à disposição do povo para as eleições presidenciais. Foram eles: José Carlos de Macedo Soares - paulista, que era Ministro das Relações Exteriores - e José Américo de Almeida, do Tribunal de Contas que contou com o apoio do governo.

Vendo que políticos influentes como o governador mineiro Benedito Valadares, Juraci Magalhães e Antônio Carlos começavam a lutar pela realização das eleições, Getúlio começou a enfraquecê-los. Em Minas, fez com que a milícia estadual ficasse às ordens de Dutra, o que preocupava Valadares. A Antônio Carlos, fê-lo perder a presidência do Congresso para o jovem político mineiro, Pedro Aleixo, e, quanto a Juraci, acusou-o de querer perturbar a ordem nacional em cadeia nacional de rádio. O que mostrava cada vez mais a estes e outros políticos que Vargas não pretendia deixar que as eleições vingassem.

As eleições que tantas discussões geraram nem chegaram a acontecer. Getúlio começou a preparar um golpe para continuar a frente do País. Enquanto isso, Francisco Campos, antigo líder dos camisas verdes (como também eram conhecidos os integralistas, já que seu uniforme era composto camisas verdes) do Estado de Minas, preparava uma nova Constituição ao seu estilo, ou seja, autoritária, como também gostava o presidente.

Ao mesmo tempo em que isso acontecia, vários boatos acusavam grandes nomes da política nacional de envolvimento com a Intentona Comunista de 1935. Finalmente, no princípio de maio de 1937, surgiram boatos de uma nova revolta comunista. De novo o governo decretava estado de sítio e determinava a apreensão de todo o arsenal de provisões gaúchas. Getúlio nomeou então Góis para chefe do Estado-Maior, para a satisfação do ministro da Guerra, Eurico Gaspar Dutra. A liderança do Exército unificada conspirava, ao lado de Getúlio, contra a democracia.

Mesmo assim a campanha eleitoral continuou. O ministro da Justiça, Macedo Soares, cancelou a censura e o estado de sítio e libertou os simpatizantes do comunismo que haviam sido detidos. Enquanto isso, as marchas integralistas voltavam a ser atacadas a tiros e iniciavam-se os comícios.

Os candidatos mais fortes nesse momento eram Armando Sales, que baseava sua campanha numa crítica ferrenha à inflação, proporcionalmente suave, que afetava o País, e o escritor José Américo que procurava os votos da esquerda. O escritor chegava a convencer os esquerdistas de que era realmente o candidato oficial, pois atacava o governo e tentava passar a imagem de único honesto no Brasil. José Américo também atacou os monopólios e as classes ricas e mostrava seu ódio pelo integralismo. Isto levou Vargas a achar a campanha de Américo chocante pela sua demagogia.

Sentindo que a campanha de Américo estava fazendo com que o povo e os políticos mineiros e pernambucanos pulassem para o lado do candidato paulista, Getúlio achou melhor que os dois renunciassem e que as eleições fossem adiadas. Valadares, que fora incumbido da missão de conversar com Sales sobre a proposta do presidente, irritou-se com a demora para ser atendido e foi ver Getúlio sem a resposta de Sales.

Francisco Negrão de Lima, o mineiro que deveria supervisionar a campanha de Américo, foi o homem que tinha como missão libertar todos os que apoiavam Américo deste compromisso, evento feito a mando de Vargas e Valadares (o qual já tinha concordado em entrar no golpe que seria dado com o apoio de dois ministros militares).

Finalmente, no dia 30 de setembro de 1937, todos os jornais e rádios do País anunciavam o Plano Cohen. Segundo esse plano, descoberto pelo Estado-Maior do Exército, os comunistas planejavam um golpe contra o Brasil e, para que isso fosse evitado, era necessário que o Congresso concedesse mais uma vez a Vargas a autorização para que ele decretasse o estado de sítio.

E isso foi feito. A partir daí, vários inimigos da pátria foram presos e outros exilados. O governo federal tinha todo o País nas mãos. Ao saber da nova Constituição que estava sendo preparada, Plínio Salgado mostrou logo o seu apoio (e dos integralistas, obviamente) ao presidente, organizando uma passeata nos moldes das que aconteciam na Alemanha nazista, o que veio a assustar a filha do presidente, Elzira Vargas, por causa do número de pessoas do alto escalão das forças armadas, industriais, trabalhadores, senhoras da alta sociedade, soldados e marinheiros presentes.

Armando Sales e José Américo, sentindo que o golpe estava próximo, começaram, cada um, a articular-se contra esta agressão à nação. Porém, os aliados de Vargas anteciparam do dia 15 para o dia 10 a data do golpe: a data do início do Estado Novo.

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