De escolas isoladas a escolas estaduais: uma lacuna histórica preenchida pelo resgate da história oral



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DE ESCOLAS ISOLADAS A ESCOLAS ESTADUAIS: uma lacuna histórica preenchida pelo resgate da história oral

Rosana Nadal de Arruda Moura – UEPG

Silvana Maura Batista de Carvalho – UEPG
O presente estudo constitui parte de uma pesquisa em andamento, com o objetivo de resgatar as fontes primárias e secundárias da educação brasileira, na região dos Campos Gerais, no estado do Paraná.

A realização da 1ª etapa desse projeto consistiu em fazer o levantamento das fontes históricas educacionais dos estabelecimentos de ensino mais antigos , da referida região, desde a sua fundação até a década de 60, através dos acervos arquivísticos e bibliográficos existentes. A partir desse trabalho percebeu-se a lacuna presente na história da formação das instituições escolares, pela ausência de documentação específica.

Na 2ª etapa da pesquisa que, pode revelar mais uma das diversas faces da história da educação brasileira , na região dos Campos Gerais, priorizou-se o estudo do processo de transformação de escolas isoladas, em grupos escolares e posteriormente em escolas estaduais, estabelecendo-se para tanto os seguintes objetivos:


  • Analisar o processo de transformação das escolas isoladas em escolas estaduais, na região dos Campos Gerais, no estado do Paraná.

  • Contribuir para o preenchimento de uma lacuna histórica da educação brasileira .

  • Levantar dados documentais referentes às antigas escolas isoladas.

  • Verificar a existência de registros arquivísticos sobre a transição de escolas isoladas em grupos escolares e, escolas estaduais.

  • Resgatar na memória de ex-professores, aspectos sobre as mudanças ocorridas na transição das antigas escolas isoladas às escolas estaduais.

Tais objetivos foram estabelecidos a partir da necessidade sentida pelas pesquisadoras, quanto à existência de documentação referente ao período transitório das antigas escolas isoladas às atuais escolas estaduais, cujos prédios , em sua maioria, são construções recentes, sendo os acervos arquivísticos e bibliográficos deslocados para outros departamentos. Os poucos documentos encontrados, em outros locais, como a prefeitura do município, departamento de Documentação Escolar, apresentam-se em condições inadequadas de preservação e, não oferecem dados relevantes para o tema em questão.

Diante dessa constatação, lançou-se mão da história oral, como uma fonte facilitadora da reconstrução do processo de transformação dessas escolas, pois


Atualmente, a história oral tem influído no comportamento das disciplinas universitárias e atuado diretamente na conduta de museus e arquivos do mundo inteiro (...) a partir do uso de entrevistas, a história oral tem aproximado pessoas e instituições preocupadas com dois aspectos importantes da vida contemporânea:

  1. o registro, arquivamento e análise da documentação colhida por meio do recolhimento e trabalho de edição de depoimentos e testemunhos feitos com recursos da moderna tecnologia;

  2. a inclusão de histórias e versões mantidas por seguimentos populacionais antes silenciados, por diversos motivos, ou que tenham interpretações próprias, variadas e não-oficiais, de acontecimentos que se manifestam na sociedade contemporânea.

Por meio da história oral, por exemplo, movimentos de minorias culturais (...) têm encontrado espaço para abrigar suas palavras, dando sentido social às experiências vividas sob diferentes circunstâncias


Muitos trabalhos de história oral registram a trajetória de pessoas idosas e, por meio delas recompõem aspectos da vida individual, do grupo em que estão inseridas ou da conjuntura que os acolhe. Jovens, crianças também mostram-se motivadores de registro e análise, particularmente quando representam experiências coletivas.

( MEIHY, 1997, p. 9).

Nas afirmações de MEIHY, estão os pontos fundamentais que justificam o resgate de aspectos sobre a mudança das instituições escolares, na memória de ex-professores, pois através de seus depoimentos, esses profissionais possibilitam o registro e arquivamento de testemunhos. Revelando, pelas lembranças de suas trajetórias de vida, pontos importantes que permitem recompor parte da conjuntura em que ocorreram as transformações institucionais das escolas isoladas, em grupos escolares e, posteriormente em escolas estaduais e, no resgate dessa memória, dar um sentido social às experiências pessoais e coletivas vividas no âmbito escolar.

Dessa forma, a história oral torna-se uma alternativa à história oficial, é reconhecida como a revolução promovida pela palavra oral, pois além de revelar dados, até então, não reconhecidos como verazes, na riqueza dos relatos está a revelação de diversas faces da história da educação. Portanto uma história instituída a partir da construção da prática pedagógica dos docentes que viveram parte de suas vidas, na luta cotidiana das escolas, a partir de um compromisso político com a educação, embora , muitas vezes não tivessem clareza da política educacional que norteava essa prática.

Além disso, como afirma FONSECA, é preciso considerar como os ciclos particulares da vida influenciam no trabalho profissional ; lembrar que os estágios da carreira (...) só podem analisados em seu próprio contexto, e levar em conta os incidentes críticos na vida e no trabalho dos professores que podem afetar sua percepção e suas práticas ( 1997, p. 31).

Dessa forma, levando em consideração que a prática docente é uma construção, como afirma ANDRÉ (1996), que são... “três determinantes fundamentais que afetam o processo de construção da competência docente (...) o ambiente familiar/cultural (...) o processo de escolarização (...) o ambiente de trabalho ...” (p. 90) , este estudo também propicia uma reflexão mais ampla sobre a formação do professor a partir do reconhecimento do contexto histórico em que viveu , através dos relatos de suas experiências pessoais e profissionais.

Nesta mesma perspectiva, a de formação do professor, diante a necessidade se superação da dicotomia teoria/prática na docência, as pesquisadoras, preocupam-se com a inserção do acadêmico no desenvolvimento da pesquisa, pois além do reconhecimento das diversas concepções historiográficas, o acadêmico vive a experiência da construção do conhecimento histórico, partindo de sua realidade, portanto da história local, inserida num contexto maior, regional e nacional.

Tal oportunidade na formação inicial do professor lhe proporcionará uma atuação docente mais eficaz, pois é igualmente necessário incutir nas novas gerações a valorização do processo investigativo como forma de conceber o conhecimento, é a epistemologia se fazendo presente.

Nessa visão, a história linear dá lugar às novas maneiras de se conceber a história e, a história oral representa uma possibilidades dialógicas entre as diversas versões dos acontecimentos históricos, ou mesmo, pode constituir-se como uma única alternativa para o resgate de momentos do processo histórico, em especial da história mais recente. Como afirma FERRAZ


O trabalho de entrevistar-se, portanto, criar uma fonte documental – é um dos mais acessíveis e desejáveis para propiciar ao aluno a vivência do ‘ fazer história’, de produzir seu conhecimento. Embora ainda em menor proporção do que o desejável, já existe no Brasil um razoável conjunto de iniciativas e mesmo projetos de pesquisa em história oral nas escolas, o que é admirável, já que apenas recentemente o trabalho com evidências orais tornou-se parte das discussões no meio universitário no país (1999, p.689).

Por isso trabalhar com ensino-pesquisa, através da história oral ou outras fontes documentais, em nível de formação inicial do professor significa possibilitar a concretização do ensino-pesquisa no ensino fundamental e médio.

Diante do exposto, o trabalho, ainda em desenvolvimento, inserido no eixo “ As múltiplas abordagens na Pesquisa Educacional” , é uma contribuição, tanto para a formação docente como na produção histórica.

Destacando-se a formação do professor, é importante lembrar os fundamentos legais que a norteiam . Até a publicação da atual LDB 9394/96 , as leis anteriores deixaram marcas como assevera FENELLON, “... a formação do professor deve ser ‘reduzida’, em suas pretensões e em seu conteúdo em relação à do pesquisador ou do bacharel (...). Não há que pensar em fornecer-lhe elementos que permitam analisar e compreender a realidade que o cerca. Ele (...) não precisa refletir e pensar, deve apenas aprender a transmitir “( 1986, p. 20-21).

Essa “redução” da formação do professor, cujos vestígios permanecem até os dias de hoje, aconteceu em vários momentos históricos, nos quais foi necessária a adequação da educação brasileira aos interesses político-econômicos capitalistas.

A nova LDB traz pontos favoráveis à formação docente, mas é sabido que o “ novo nasce do velho e a ele se mescla”, portanto


“ Uma nova lei também se insere em uma tradição já constituída, tradição essa na qual valores e hábitos se estruturam. A consideração do contexto legal no qual o atual sistema se gestou nos coloca dentro da história da constituição do próprio sistema (...). No texto da nova LDB, recentemente aprovada no Congresso Nacional, o tratamento da questão dos profissionais da educação se faz em seu título VI. Este texto toca em algumas questões substantivas e, até mesmo de princípios. Lê-se aí que a formação dos profissionais da educação terá como fundamento a íntima associação entre teorias e práticas, inclusive mediante a capacitação em serviço ... ( GATTI, 1997, p 9-12)

Esta nova visão sobre a formação dos profissionais da educação e as legislações anteriores, nos colocam frente a diferentes perspectivas, ou seja, convive-se com duas possibilidades: aquilo que já está instaurado e o novo que requer uma reorientação do processo. Nesse contexto , é imperativo então tomar atitudes que venham de encontro dessa nova ordem de pensamentos.

Portanto, para se entender o presente, busca-se no passado, mas é igualmente importante entender o passado, com o objetivo de proceder uma análise mais segura do presente, pois como afirma LE GOFF “ Marx indicou claramente o processo do pensamento histórico- o historiador parte do presente (...) a sua atuação é de início recorrente. Vai do presente ao passado. Daí volta ao presente que é então melhor analisado e conhecido e já não oferece à análise uma totalidade confusa (1970)...(1994, p. 223).

Na continuidade LE GOFF, ainda estabelece que, Marc Bloch também propõe ao historiador como método um duplo movimento: ou seja compreender o presente pelo passado e compreender o passado pelo presente.

Nesse duplo movimento, na relação presente-passado-presente, o estudo do processo de transformação das antigas escolas isoladas às atuais escolas estaduais garante o valor da prática da pesquisa na produção histórica e na formação do professor, validando assim novas teorias e novas práticas.

Referências Bibliográficas
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Etnografia da prática escolar. Campinas: Papirus, 1993. p. 35 - 48.
CARVALHO, Silvana Maura batista de. Os egressos da UEPG e os ensino de História:

formação de professores. Guarapuava: UNICENTRO-UNICAMP, 1998.

DEMO, Pedro. O desafio de educar pela pesquisa na educação básica. In: DEMO,

Pedro. Educar pela pesquisa. Campinas: Autores Associados, 1996, p. 5 - 53.


FENELLON, Déa .( coord.) Diagnóstico e avaliação dos cursos de História no

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FONSECA, Selva Guimarães . Ser professor no Brasil: história oral de vida. Cam-

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GATTI, Bernadete Angelina. Formação de professores e carreira: problemas e movimentos de renovação. Campinas/SP: Autores Associados, 1997.
LE GOFF, Jacques. História e memória. Campinas/São Paulo: Editora Unicamp,

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MEIHY, José Carlos S. Bom. Manual de história oral. São Paulo: Loyola, 1997.
SCHIMIDT, Maria Auxiliadora e CAINELLI, Marlene Rosa (orgs). III Encontro: Perspectivas do ensino de história. Curitiba: Aos Quatros Ventos, 1999. 804 p.


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