De Isabel Moreira Livraria Babel Fabrico Infinito



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Ansiedade, de Isabel Moreira

Livraria Babel Fabrico Infinito

21.10.2011

Finalmente estão a fazer obras no prédio em frente. Isto é, o prédio atrás. Vejo-o da janela da cozinha, nas traseiras, portanto. O desgraçado esboroava-se há meses, assim tipo metáfora do país. Agora puseram-lhe um véu, verde, por cima, e dos operários só se ouvem as marteladas toc-toc-toc. Enfim, alguma coisa acontece. Ele há coisas a acontecer. Arrasto os olhos da janela (eles andam pesados, têm chorado um bocado mais do que o normal). Passam pela tigela com as cápsulas da nespresso, depois pelo microondas, logo por um quadro na parede intitulado “Coração Tolo”, e ainda pelos cadernos invertidos de hebraico, e aterram no ecrã do computador. Estão dois documentos abertos, lado a lado, gémeos falsos. Um chama-se “Lançamento da Ansiedade de Isabel Moreira” e o outro “CV”. Isto é, Curriculum Vitae, que sempre me pareceu uma onomatopeia: curriculum - corre, corre; vitae - vite, vite. Deixa cá ver quantos lançamentos já fiz. Contas feitas, para aí uns dezasseis ou dezassete. O lastro do passado: ele é dominações masculinas; ou o sarcasmo ferido de oscar wilde; ou o zimler confundindo o mar com a cidade; ou um remoto coral numa não memos remota torres novas; ou um de onde venho e um por quem me apaixonarei escritos para crianças que não sabem de onde vêm nem por quem se apaixonarão; ou o livro de uma querida cunhada de um casamento passado; ou uma bd do rui e do antónio jorge; e trabalhadores sexuais e saúde e antropologias várias e imigrantes caboverdianas e desejos e homens e mais homens e a persistência da história (ah, a persistência da história...).

E a ansiedade. “Lançamento da ansiedade de isabel moreira” – é o título do doc. Com erro e tudo: “da ansiedade” e não “de Ansiedade”. Eu pego na ansiedade da isabel, se ela quiser eu pego-lhe na ansiedade, e lanço-a colina fora e vale abaixo e sargeta dentro e mar fora. Se ela quiser eu faço. Ou tento. Dizem algumas pessoas, e algumas são médicas, que a gente até pode e até deve meter a ansiedade numa caixinha, uma caixinha mental (e se for preciso armadilhamos a caixinha com as minibombas dos comprimidos) e que devemos arrumar a caixinha no sótão mental e deixá-la lá muito quietinha a apanhar pó e depois vamos lá um dia, um dia assim bem disposto e em que temos a noção da distância das coisas, e pegamos-lhe e abrimo-la e olhamos lá para dentro e dizemos “ah, isto não é meu. Já foi mas já não é”.

Engraçado como vemos o cérebro como uma casa – ele é caves e sótãos e quartos e caixas de arrumações e mudanças, e limpezas e porcaria acumulada. Deve haver quem pense em aspiradores quando pensa em limpar o conteúdo da caixinha. Deve haver quem pense em pegar-lhe fogo, lá no fundo do quintal, debaixo duma pilha de folhas de Outono. Deve haver quem pense em arquivos e etiquetas e prateleiras bem organizadinhas numa caixa-forte à prova de fogo e com sistemas robotizados de aspiração. E depois há quem pense em esmiuçar o que está dentro da caixa, quem não tenha medo de chorar e de rir, quem pegue naqueles cacos e reconstrua o puzzle, doa a quem doer e doa o que doer - e conte uma estória.

As estórias, como toda a gente sabe, servem para adormecer sem medo.

A Isabel tem uma coleção de dores. Ai, desculpem, a personagem da Isabel tem uma coleção de dores, como a Isabel, e eu, e toda a gente. A Isabel pega na sua personagem e dá-lhe uma coleção de dores específica. E quanto mais específica, mais da personagem, mais lá muito só dela, então mais cá muito nossa, de todos nós. E é isto, e só isto, que todas as escritoras e todos os escritores fazem: dor minha (ou prazer) » dor da personagem (ou prazer) » dor nossa (ou prazer). “O que é que tens para a troca?”, pergunta o leitor. “Eh, pá, deixa cá ver, hoje tenho uma pessoa querida que morreu, um amor que me partiu o coração e, ah, sim, também tenho para ali um deus que me abandonou ou que eu abandonei, nem sei bem, mas se queres que te diga até acho que vai dar ao mesmo”. E depois sentam-se no chão do sótão, há uma luz daquelas amareladas muito de Outono que atravessa a janela, um distante cheiro a fumo porque alguém está a queimar folhas no fundo do quintal, um toc-toc-toc de operários a martelar o cancro das paredes de um prédio, e começam a trocar pedaços de curriculum vitae, corre-corre, vite-vite, dá cá dor, toma lá dor.

Agora pego nos olhos (pego nos olhos é giro) e arrasto-os do ecrã, levo-os até ao coração tolo, ao microondas, às nespresso, ao véu verde sobre o prédio doente, e agora segue-se uma novidade, completando-se o aro da visão, que é o cacto em recuperação, a cafeteira, o exaustor, a mochila na cadeira ao lado, e pouso os olhos na papelada. “Escrevo para que as pessoas sintam que não são uma aberração”, diz a Isabel ao Diário de Notícias. Algures na caixinha – agora estou a falar da minha caixinha, OK? – está uma mensagem, ou estão mesmo duas ou três ou mais, de pessoas muito queridas que, em momentos de dor, me escreveram notas e mails e SMSs dizendo: “Não estás só”.

“Não estás só”. Mas, atenção: “Estás só, sim senhor”. Estamos sempre sós quando a dor se transforma em corpo, do nó na garganta ao murro no estômago, à falta de apetite, aos tremores, ao gaguejar, ao calor súbito, ao súbito gelo, à tontura, à vontade de fugir, à raiva. [Googlemos uma definição de ansiedade e leiamo-la em português do Brasil: “é uma característica biológica do ser humano que antecede momentos de perigo real ou imaginário, marcada por sensações corporais desagradáveis, tais como uma sensação de vazio no estômago, coração batendo rápido, medo intenso, aperto no tórax, transpiração etc. Tanto a ansiedade quanto o medo não surgem na vida da pessoa por uma escolha. Acredita-se que vivências interpessoais e problemas na primeira infância possam ser importantes causas desses sintomas”].

Escrever sobre o corpo, sobre como o corpo sente, é em si mesmo uma ansiedade. O corpo é a nossa caixa mais caixa, o nosso “estamos sós, sim senhor, não me venhas cá com tretas poéticas”. E deve ser por isso que temos a epifania maior de todas, a do amor, quando é no corpo e através do corpo que sentimos os outros. E depois queremos falar disso, e contar isso, e narrar isso, e desfiamos quatrocentas mil palavras para dizer uns minutos. Mas o desespero de quem sofre – de quem sofre a perda, a memória da perda ou o medo da perda – é que isso é somatizado em dor, e o corpo sofrido não comunica, precisa da linguagem, um toc-toc-toc de operários martelando a carne de um prédio. Até que um dia – com trabalhinho, muito trabalhinho, e com respeitinho pela dor, muito respeitinho – há alguém que consegue dar carne às palavras e zás, a gente lê-as e elas agarram-se-nos. A Isabel conseguiu fazê-lo e eu já não vou pegar-lhe na ansiedade e jogá-la colina fora e vale abaixo e sargeta adentro e mar fora. Vou mas é metê-la no meu sótão, ao lado da minha caixinha.

O Kirkegaard dizia que a ansiedade é a tontura da liberdade. Somos livres e, por isso, sós, sós no corpo, com as dores alojando-se nele, como quando a personagem da Isabel diz “não sei porquê, sei que é no fígado que me dói a criança que morre dentro de um saco de plástico”. Mas depois há as pessoas que conseguem traduzir, que pegam na linguagem e explicam como a origem da dor não é solitária, que explicam como ela resulta de encontros com outros, os muito próximos - os nossos - e os abstratamente distantes - a sociedade. E ao fazerem-no aproximam-nos, através da ponte da poesia e da ficção, e é quase como se os nossos corpos comungassem, quase-quase como quando nos abraçamos para chorar uma perda comum (as lágrimas de um a molharem o pescoço do outro, e vice-versa), quase-quase como quando nos abraçamos para congelar um prazer comum (o suor de um molhando o pescoço do outro, e vice-versa).



Pronto. Ponho o lançamento da ansiedade de isabel moreira no curriculum vitae, corre-corre, vite-vite. Os operários foram almoçar e a luz de Outono é bonita.


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