De jornais paulistas dos séculos XIX e XX: contribuição para o Projeto de História do Português Paulista



Baixar 58.03 Kb.
Encontro19.07.2016
Tamanho58.03 Kb.
Corpus de jornais paulistas dos séculos XIX e XX: contribuição para o Projeto de História do Português Paulista

[CARTAS DE REDATORES]

Alessandra Castilho da Costa

Sumário


Apresentação

I - Coletas de edições completas




    1. Correio Paulistano




      1. Edição de 22 de agosto de 1854

      2. Edição de 08 de janeiro de 1856

      3. Edição de 05 de setembro de 1854

      4. Edição de 02 de abril de 1875

      5. Edição de 08 de junho de 1901




    1. A Província de S. Paulo/O Estado de S. Paulo




      1. Edição de 28 de janeiro de 1875

      2. Edição de 20 de janeiro de 1901

II – Coletas complementares por gêneros textuais


2.1 Notícias – Correio Paulistano, 02, 04 e 05 de janeiro de 1856

2.2 Cartas de leitores – Correio Paulistano, A Província de S. Paulo/O Estado de S. Paulo (1854, 1875 e 1901)

2.3 Anúncios – O Estado de S. Paulo, 22 de janeiro de 1930

2.4 Anúncios – Correio Paulistano, 12 de janeiro de 1960




Apresentação

O romanista alemão Peter Koch1 ensina que, ao compilarmos material lingüístico na elaboração de um corpus, devemos sempre considerar que esse material é atravessado por diferentes tradições discursivas e, por isso, não devemos imaginar que existam “fatos brutos”. Quer dizer: os textos apresentam-se sempre, inexoravelmente, em “distorção” discursivo-tradicional. E conclui, ainda: quando nos mantemos atentos a esse fato, determinadas tradições discursivas podem se mostrar mais ou menos adequadas para a análise de determinados fatos lingüísticos.

A partir dessa reflexão, torna-se evidente que um projeto de estudo do uso da língua na diacronia deve considerar a correlação entre gênero textual e probabilidade de ocorrência de determinados fenômenos lingüísticos. Em vista de sua variedade de gêneros textuais, o jornal é um objeto de estudo que pode contribuir grandemente para o estudo da diacronia do português.

Como veículo de comunicação de massa, o jornal procura atingir, logicamente, um publico variado. Para o lingüista, esse fato permite estabelecer uma relação entre as formas utilizadas no jornal e o conhecimento lingüístico (pressuposto) de seus leitores em uma determinada época.

O presente Corpus de jornais paulistas dos séculos XIX e XX: contribuição para o Projeto de História do Português Paulista foi desenvolvido no âmbito do Projeto de História do Português Paulista (PHPP), lançado pelo Prof. Dr. Ataliba Teixeira de Castilho em 1997 na Universidade de São Paulo. Da agenda do Projeto Caipira constam, grosso modo, a organização de corpora diacrônico, o estudo da mudança gramatical, a história social e a formação e transformação de gêneros textuais. O material aqui compilado serviu de base para as análises apresentadas em meu projeto de pós-doutoramento “Tradições discursivas da mídia impressa do português brasileiro: gênese, formação e transformação de gêneros discursivos em uma perspectiva diacrônica”2.

A PROVINCIA DE SÃO PAULO 28 de Janeiro.


Um dever de cortezia nos obriga a eppôr ao Diario de S.Paulo mais argumentos e pro-vas em abono das opiniões que temos susten-tado com referencia aos assumptos debatidoentre nós.

Entendiamos ser possivel um accordo so-bre alguns pontos da nossa controversia, mas perdemos a esperança de chegar a elle porque nosso illustrado contendor pensa mui diversamente.

Neste caso prolongar a discussão é inutil. Entretanto o cavalheiro exige de nossa parte, por seu procedimento, que não deixemos de corresponder á sua delicadeza.

Tomaremos pois em consideração os pon-tos capitaes dos tres ultimos artigos do illus-trado collega que pede-nos factos, como se vivessemos-elle e nós-em paizes differen-tes e não pezassemos aqui os effeitos dos acon-tecimentos que tocam de perto a nossa razão e nosso coração.

Pois bem, discutamos ainda por um acto de cortezia.

Affirma o contemp[o]raneo que o Brasil tem tido um desenvolvimento admiravel em rela-ção á sua idade, e pergunta-nos :

"Que paiz, á excepção dos Estados-Unidos, o qual pela indole e pela educação do seu povo não póde servir-nos para confronto ; que paiz ja prosperou tanto como o Brasil em 52 annos, idade de nossa autonomia po-litica?"

A resposta é facil.

A send[a] do progresso que o paiz tem per-corrido "lentamente" era conhecida e tinha-mos o exemplo de outros povos que já a ha-viam trilhado mostrando-aos seus perigos.

Na epocha em que nos emancipamos, com os recursos immensos que a natureza nos of-ferece, tendo por nós modelos feitos, nã[o] sa-bemos porque admirar o nosso adiantamento.

Para o collega, que julga as nossas inti-tuições execellentes, o progresso do Brazil póde ser surprehendente; para nós, porém, não.

Este povo, se outra, mais livre, fosse a sua educação social, apresentaria certamente um gráu mais elevado de adiantamento moral e material.

Julga o collega inadmissivel o confronto com os Estados Unidos por serem diversas a indole e a edade dos dous povos.

Sem concordar em absoluto, pelas razões que apresentaremos depois, fazemos-lhe esta concessão. Ha de permittir, porém, que lhe demos para confronto o Chile e iresmo a Repu-blica Argentina.

Aquella nação tem inconstestavelmente pro-gredido mais que a nossa, e esta, não obstan-te as continuas lutas intestinas, em muitos pontos não nos é inferior e em alguns outros nos é superior.

A República Argentina no confronto com o Brazil tem ainda em favor do seu progresso as suas lutas intestinas.

Vê o collega portanto que, tomada em de-vida conta esta circunstancia das pertuba-ções da ordem que trazem sempre desi-quilibrio nas forças de uma nação, aquelles paizes tem progredido muito.

Não somos suspeitos pronunciando-nos as-sim, porque não vemos na Republica Argen-tina um typo de fórma de governo capaz de dispertar entlusiasmo; suas instituições re-sentem-se de vicios condenados pela escola democratica.

Mas quem estuda com imparcialidade a marcha d'esse estado americano não póde deixar de confessar que elle ha progredido extraordinariamente.

Podemos lembrar ao collega mais um con-fronto: o Canadá, colonia de uma nação que tem o governo monare[ ]ico.

Ora, um povo, como este nosso que adqui-riu a sua autonomia aceitando instituições livres e excellentes, conforme se nos diz, ten-do atravessado meio seculo em paz, appli-cando suas forças ás industrias, suas aptidões ás sciencias, letras e artes, devia revelar mais desenvolvimento moral e significar o seu pro-gresso material de um modo mais expressivo.

O contemporaneo mesmo vae nos dar a explicação disso que elle chama "marchar lentamente mas com passos seguros".

" Tudo o que o engenho humano ha des-coberto a bem da felicidade dos povos, tem sido por nós acolhido com o enthusiasmo de quem quer attingir o mais brilhante futuro.

Alguns desses inventos acham-se já per-feitamente adaptados á nossa vida social; outros fazem o assumpto de acurados estu-dos; muitos finalmente estão passando pela phase dos ensaios e dos preparativos prelimi-nares.

Isto pelo que diz respeito ao lado mate-rial."

Não o contestamos, mas como têm sido executados muitos desses productos do enge-nho humano?

Tarde em relação a outros povos contem-poraneos e mal, se attendermos a experiencia por elles adquirida e que não devemos igno-rar.

E isso mesmo bom, soffrivel ou máu que possuimos só se obtem depois de muitos em-baraços creados pelo governo.

Quer o collega provas?

Ahi estão as companhias de estrada de fer-ro desta provincia, a Paulista e o seu prolon-gamento.

Quer mais?

Ahi está a palpitante questão do immigra-tes sem uma solução e rodeada de numerosos obstaculos.

O contemporaneo conhece a lei de 18 de Agosto de 1860 e deve saber quaes são os seus effeitos sobre as industrias. Mas o collega chama a tudo que nos embaraça o progresso - "passo seguro, estudo acurado" para mar-charmos com acerto.

A verdade é esta: se acolhemos com en-thusiasmo os inventos uteis, só os realisamos com muita dificuldade, as mais das vezes por má vontade ou desidia das nossas estações administrativas ou dos corpos politicos.

Instrue ainda a sua constestação dizendo-nos que as escolas estão sendo distribuidas por todos os recantos e que algumas provin-cias promulgaram leis sobre o ensino obriga-torio.

Bem ; mas nas condições em que isto se dá podemos afirmar que o progresso só agora começa.

As estatísticas cobriam-nos de vergonha e encheram-nos de horror: tal era o atrazo! E isso succedia em 1873.

Na Côrte levantam-se palacetes, mas o en-sino que nelles se offerece á mocidade não está na altura das nossas necessidades, é máu e dificiente.

Nas provincias as escolas publicas, em re-gra, servem para vergonha de quem as man-tem: professores mal pagos, dedicados e in-struidos alguns, mas outros muitos sem as qualidades exigidas para o desempenho de tão dificil missão, funccionam em casas in-commodas, sem as condições hygienicas.

Se em algumas provincias ha o ensino li-vre e obrigatorio, é justo que o collega saiba que na capital do imperio elle não é livre, porque o sabio superintendente dos nossos destinos ainda não julgou prudente o permit-tir.

Amanhã examinaremos as causas que o collega apresentou para explicar o nosso progresso lento, as quaes na sua opinião jus-tificam ou louvores que tributa ao governo por nos haver conduzido, apezar dellas, ao presente "estado de prosperidade."

Então os nossos leitores ficarão habilitados a dizer qual de nós tem razão.


Carta do redator
A Provincia de São Paulo, 28 de janeiro de 1875
CORREIO PAULISTANO

S. Paulo, 2 de Abril de 1875



O projecto de orçamento provincial
A leitura desse projecto que foi ha tres dias publi-cado no Diario de S. Paulo, suggeriu-nos as conside-rações que em seguida vamos assignalar, porque entendemos que o assumpto é dos mais importantes o requer toda a attenção do publico.

A julgar-se pelo que vem especificado nesse pro-jecto de orçamento provincial, a assembléa ainda desta vez não quiz abandonar o systema prejudicialissimo até hoje seguido por ella, qual é o de repartir a renda da provincia em pequenas parcellas para um numero extraordinario de estradas e pontes.

Ora cumpre considerar-se que em quasi sua tota-lidade essas parcellas não chegam para os reparos mais importantes, de sorte que o mau estado tanto das pontes como das estradas vao continuando, não obs-tante o gasto daquellas sommas votadas, as ques reu-nidas orçam por muitos centenares de contos de réis.

Este incoveniente da distribuição de verbas para estradas, por pequenas parcellas, é cousa que deve merecer o mais sério reparo dos incumbidos de darem o competente destino aos dinheiros dos cofres pro-vinciaes.

O systema devêra ser outro, incontestavelmente muito mais economico em todos os sentidos.

Parece-nos que devia a provincia principalmente fazer a conveniente applicação de gastos nas estradas geraes, como tambem naquellas que convergem para as linhas ferreas, como sendo de conveniencia impres-cindivel.

Quanto ás estradas que communicam cidade a cida-de, villas a villas, essas deveriam ficar á cargo das municipalidades, assim como os caminhos que interes-sam a um ou mais lavradores, deveriam ser construi-dos á custa destes.

Para isso apenas era mister delimitar de modo po-sitivo e incontroverso quaes os caminhos provinciaes, municipaes, e particulares, estabalecendo-se as necessa-[r]ias distincções entre elles.

Só assim as quantias despendidas com as estradas dariam resultado satisfactorio porque seriam sufficien-tes para esse fim.

A continuar um tal systema, é claro que todos os annos teremos, na quadra das chuvas, a mesma accum-mullação de queixas contra o governo, justamente como está acontecendo actualmente.

[Ilegível] não mais diriam os que se comprazem em desconhecer a verdade por simples espirito de opposi-ção: " o governo é pessimo, deixa a provincia sem estradas, não temos pontes, " e outras jeremiadas deste gosto.

Entretanto os que assim fallam, melhor andariam se reparassem para a exiguidade das quantias marcadas no orçamento, a bem de verem que um ou dous contos de réis para estradas de quatro, seis e mais leguas não chegam para reparal-as completamente e apenas ser-vem-n'as intransitaveis, em peior estado que dan-tes, maximè se essas estradas são frequentadas por tropas e carros e se o tempo é mau.

Outro systema que não nos parece conveniente é votarem-se as verbas por districtos eleitoraes, quando a provincia se acha dividida em seis districtos de obras publicas.

Parece que esta circumstancia devia ser attendida no orçamento, por principio de direito. Isso facilitaria muito mais a fiscalisação dos engenheiros quanto ás obras dos seus respectivos districtos.

E a proposito disto, deve-se ainda notar que estando a provincia dividida em seis districtos de obras publi-cas, o projecto de orçamento, copiado dos anteriores, não está de accòrdo com o que se acha estabelecido actualmente, visto como por lei e regulamentos do go-verno foi esta materia alterada, havendo hoje seis en-genheiros sem distincção de cathegorias como se faz no projecto.

Por mais de uma vez nos temos pronunciado contra o systema adoptado para a factura e os reparos de es-tradas, e contra o modo pelo qual a assembléa provin-cial vota os meios para o desempenho desse serviço de tanta importancia.

Em nossa opinião ha ahi gravissimo erro de eco-nomia que convém supprimir.

Enquanto a provincia não despender quasi exclusi-vamente no preparo das estradas geraes, naquellas que convergem para as estradas de ferro, quantias suffi-cientes; e emquanto esse importante serviço não fôr feito de preferencia por arrematação, continuará a ser defeituosissimo, ficando sempre muito áquem das exi-gencias publicas.

O unico prestimo que porventura poderá ter é ser-vir para pontos de accusações injustas aos presiden-tes da provincia

Em outro artigo faremo mais algumas considerações sobre certos pontos desse projeto de orçamento pro-vincial.


Carta do redator
Correio Paulistano, 02 de abril de 1875
Correio Paulistano.

O Sr. Dr. José Soares de Souza, em uma acrimoniosa correspondência que fez publicar no periódico União dos Círculos, fella por duas vezes em ameaças feitas á sua pessoa pelo Correio Paulistano.

Rogamos á S. S. que se digne indicar quaes forão essas ameaças, pois temos certeza de jamais haver ameaçado quer á sua pessoa quer á sua entidade.

Sollicitando esta explicação não creia S. S. que estamos dispostos a dar-lhe satisfações, pelo contrario a exigimos, sob pena de lançar-mos suas invectivas ao despreso que merecem aquelles que nos alcunhão de abastardados.

Não passe sem reparo a proposição de S. S., que julgando elevar-se muito acima das nuvens, declara que unicamente aprecia o conceito que delle fazem os seus superiores, aquelles á quem a lei incumbio de julgal-o...

Se o Sr. Dr. Hypolito confiasse um pouco mais nos seus actos e na sua consciencia não teria trepidado um momento em appelar para a opinião publica, que é um tribunal mais nobre e imparcial.

Fique pois o Sr. Dr. Hypolito na convicção de que não estamos dispostos a sofrer a irritabilidade chronica de seu genio ferrenho: mercê de Deos não somos empregados de sua infeliz thesouraria.
Carta do redator
Correio Paulistano, 08 de janeiro de 1856
CORREIO PAULISTANO.

Releve o leitor que por um momento deixemos o circulo das publicações de in-teresse para dar logar as reflexões que nos sugere um escripto do famigerado inspector da thesouraria do Paraná João Caetano da Silva. Trata-se de vindicar os brios da presidencia transcta que á todo custo sustentámos; trata-se de re-pellir um aventureiro ousado, que veio espumar em nossas praias. Acolhido pela hospitalidade que caracterisa a gente paulistana, esse homem tomou o exte-rior insinuante, passou mesmo com um dos caracteres dignos de louvor; afinal pagou o acolhimento imerecido com o sar-casmo atirado por um documento pu-blico.

Invocamos a attenção do leitor; não se trata de cevar odio privado, nem vin-dicar injuria individual. Falla-se dos fóros da provincia, do brio e honra das administrações publicas, atassalhadas pelo cannibal.

Manoel Francisco Corrêa pedio paga-mento da quantia de 2:486$440 rs. empregada na estrada á cargo de sua uns-pectoria, no primeiro semestre do anno financeiro findo. É a estrada que co-meça no alto da serra de Coritiba e vai até Morretes.

Não foi satisfeito seu pedido pelo go-verno de S. Paulo: rasões convincentes justificaram a negativa: a contadoria provincial, que nesta parte procedeo em regra, informou desfavoravelmente, pois que leis vigentes destinam a renda das barreiras aos trabalhos de estradas em que ellas são estabelecidas. Ora, a pro-vincia do Paraná arrecadou-se a renda da barreira de Itoupava, collocado na estra-da, cuja despeza se pedia; não incumbia por conseguinte á thesouraria de S. Pau-lo semelhante pagamento. Seria absur-do palmar que a provincia do Paraná, havendo recolhido a renda dessa barreira, em todo o anno financeiro de 1853 á 1854, não satisfizesse essa dispensa; se-ria mesmo contrasenso ridiculo que a de S. Paulo o fizesse em seu logar, quando a lei lhe dicta esta obrigação sómente com os meios, rendimento de barreiras, que passaram à nova provincia logo que foi instalada.

Em consequencia esse inspector da es-trada recorreo á sua provincia, sua legi-ma credora.

Que faz João Caetano? Informa sus-tentando a opinião contraria, decretando que pagassemos essa despeza, negando com descaro a obrigação de sua thesoura-ria. Mas essa caricatura de jurisconsul-to não appoiou o seu firmam em alguma razão juridica; deu sua decisão dogmati-ca, houve por bem resolver que o Sr. Corrêa á nosso credor, e declarou que o governo desta provincia, e sua thesoura-ria revelam procedimento irregular.

Irrisoria intelligencia deste homem!

Ignoramos o que mais devemos admi-rar; se a ridicula esphera desse logista de transformação, ou o desfacamento des-comunal para collocar sua reputação como empregado no descredito de nossas reputações.

Deixamos ao publico a qualificação: o Sr. João Caetano é bem conhecido nesta provincia, onde representou de sabio, sem memoria mesmo para decorar o seu papel. Pelo que foi pateado; é pessimo actor, e o manto da impostura que o co-bre rasga-se ao menor sopro.

E quem ocupava a cadeira presiden-cial anathematisada pelo Sr. João, o pro-totipo dos funccionarios publicos? Era o conselheiro Josino do Nascimento Sil-va; o mesmo homem que lhe deu impor-tancia no mundo paulistano, que o hon-rou com sua amisade, que o envolveu com seu prestigio. A não ser o contacto deste cavalheiro distincto, o ex-inspector da thesouraria de S. Paulo seria apupa-do pelo povo, e os garotos da praça lhe arrancariam as pennas de pavão com que vestia a figurinha de homem.

Recebia pois o Sr. conselheiro a re-compensa desse boneco, que por algum tempo campou na capital como typo dos inspectores, como intelligente e honrado.

Quanto á sua esphera, mentirá quem dicer que este Sr. não é um atomo das intelligencias. Aportou a esta bemaven-turada terra, onde só o paulista valle pouco, e, arreado com as vestes do boni-frate, insinuou-se nos salões como homem de fina tempera, que, cahindo da bema-venturança, vinha salvar a terra de S. Paulo da desordem e corrupção. Senta-do na cadeira da thesouraria, era o es-pirito do Sr. que pairava sobre os cahos. Com sua inauguração na thesouraria fir-mou o principio - que a ignorancia se converte em sabedoria, desde que se en-volve no manto da impostura, e se rodéa de patac[ ]ada.

De feito, que fez ahi o Sr. João. Es-tabaleceo formulas e solemnidades, mi-moseou os chefes de secção com uma campainha, obrigou os continuos á corre-rem reposteiros; no fausto e grandesa inovou muito. Mas, que systema orga-nisou, que reforma operou na arrecada-ção das rendas, que administração scien-tifica assignalou. É neste topico que os seus amigos encontram dificuldade em responder. Todos os seus serviços limi- taram-se á marcar o papel do consumo, copiando o uso do thesouro; á desacre-ditar o estado da thesouraria, cujos mem-bros eram, em seu conceito, ignorantes, e corruptos. Convinha-lhe esta trica, porque daqui pretendia adduzir sua co-rôa de gloria. E arrancou uma conde-coração, em recompensa de seus servi-ços; condecoração que a opinião attri-bue á pedido do conselheiro Josino, que para elle inventou uma reputação; o con-selheiro Josino que pelo heróe das trabu-sanas é chamado o governo irregular. O Sr. João, é verdade, póde ser um bom contador; sabe contabilidade. Mas fize-ram-no subir acima de sua aptidão; tro-peçou. Inspector não podia ser; não tinha vislumbre de jurisprudencia; a de-cisão de questões juridicas não se solvem com os elementos de Besout, nem com partidas dobradas. Foi assim que vimos despachos irrisorios, que revoltariam a intelligencia do rabula. Mas o homem tinha ganho fama; o povo acreditou-o capacidade, e elle especulou com prejui-zo do povo.

Quanto a sua força moral nada arris-camos: esta folha não é o pelourinho dos inconsiderados.

Todavia não faltamos a verdade quan-do dizemos que no exercicio de suas func-ções, peccava contra a circunspecção, inseparavel do cargo que occupou.

Em nossa opinião foi pessimo empre-gado.

Como individuo attrahio antipathia geral.

Manda a imparcialidade que offereça-mos ao leitor o seguinte officio com que por sua parte o Sr. Jaime repellio a ac-cusação.

Se o estylo com que revestimos o pen-samento amargou o publico, ainda assim não retiramos o que vai dito: cumprimos um dever sagrado repellindo a protervia.


(N.57) Illm. e Ex. Sr. - Devolvo a V. Ex. o offi-cio junto do commendador Manoel Francisco Cor-reia Junior em data de 20 de junho proximo passa-dó, pedindo o pagamento da despesa, que fez no 1º semestre do anno financeiro findo com a estrada á seu cargo desde o alto da serra de Coritiba até Mor-retes; devo informar a V. Ex., que a despesa, cons-tante das ferias juntas, importa em rs. 2:486$440, e que por esta thesouraria não se expedio em dito anno financeiro ordem alguma para o pagamento de taes despesas.

Devo igualmente informar, que tendo uma apli-cação especial o produto das taxas das barreiras que na forma das leis em vigor, não pode ser appli-cado senão em beneficio de suas estradas, julge queo pagamento da despesa com a estrada da barreira de Itoupava, reclamado pelo dito commendador, não pode ser feito por esta provincia, mas sim pela do Paraná, que foi quem recebeu o rendimento desta barreira em todo o anno financeiro de 1853 à 54, á excepção de 419$007 rs., liquido que entrou nesta thesouraria por conta da arrecadação de dita Barreira no 1º trimestre do refirido anno financeiro, como consta da informação da contadoria.

Avista pois do exposto, é claro que pela provincia do Parana, e não pela de S. Paulo, é que deve ser pago o dito commendador da despesa que fez como inspector da estrada pertencente á barreira de Itou-pava, não obstante o parecer dado pelo procurador fiscal daquella provincia, que decerto ignorava as circumstancias, que tenho referido, e não obstante ainda a informação do inspector da thesouraria da mesma provincia, que laborando em igual engano, e querendo sustentar, que o dever do pagamento re-clamado está da parte desta provincia, porta-se com alguma leviandade, e talvez mesmo grosseira, quando diz, que pouca regularidade havia na the-souraria e governo desta mesma provincia, expres-sões, que eu altamente repillo, na convicção firme em que me acho, de que tanto o governo, como esta thesouraria tem muito zelo, e muito interesse pela arrecadação, fiscalização e distribuição das rendas publicas: sendo para admirar que a thesouraria da provincia do Paraná exija delegação do governo desta provincia, quando se trata do pagamento de despesas, feitas em beneficio daquella, não se lem-brasse de pedir igual delegação, quando arbitraria-mente ordenou a entrada para o seu cofre dos direi-tos provinciaes, que foram cobrados pelas reparti-ções fiscaes da antiga comarca de Coritiba antes que ella fosse elevada á cathegoria de provincia.

Finalmente devo informar a V. Ex., que esta the-souraria procedendo sempre de boa fé com a pro-vincia do Paraná, só deixou de pagar as despezas ali feitas no 1º semestre de 1853 a 54, depois que teve conhecimento da deslealdade com que procedeu a thesouraria daquella provincia, recolhendo para seus cofres o producto das rendas provinciaes que lhe não pertenciam.

É quanto posso informar a V. Ex., que mandará como fôr de justiça.

Deos Guarde etc. - 2 de agosto de 1854.


Carta do redator
Correio Paulistano, 22 de agosto de 1854



1 1997: 59.

2 Processo FAPESP 05/55152-3 (2007-2010).


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal