De passé a candeias: uma viagem através do vocabulário



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DE PASSÉ A CANDEIAS: UMA VIAGEM ATRAVÉS DO VOCABULÁRIO


Autora: Rosinês de Jesus Duarte

Orientadora: Célia Marques Telles


INTRODUÇÃO
De Passé a Candeias, passando por São Francisco, Brotas e outros pequenos lugarejos que constituem a região de pesca do Recôncavo, o Mar é a paisagem predominante, e inspirou Arthur de Salles a escrever a maior parte de sua obra. Homem de origem humilde viveu sua infância entre as pequenas cidades e vilas do Recôncavo e a Cidade da Bahia. De todos os lugares do Recôncavo, Passé é, confessadamente, o seu preferido: “Amo este pedaço de terra humilde e pobre, pátria de minha mãe e túmulo de meus avós” (Salles, Arthur. Passé). A vila escarpada de Passé, distrito de Candeias, situada numa região costeira, é eleita pelo poeta como centro de sua obra regional. No conto Passé, ele diz: “Alli diante o livro mysterioso e profundo da natureza aprendi a amar a liberdade e a poesia” (Salles, Arthur. Passé).

As influências geográficas, econômicas, folclóricas, deixaram traços distintivos na escrita do autor que se mostra um admirador do autóctone, um homem arraigado nas coisas de sua terra; fato que é revelado principalmente através do vocabulário, no sentido de que este é o reflexo da sociedade que o utiliza. Afrânio Coutinho (COUTINHO, 2001:1353)afirma que o regionalismo existe quando uma obra é localizada numa região determinada e dela retira sua substância real. Fundamentado em George Stewart, afirma ainda que, num sentido largo, toda obra de arte é regional quando tem por pano de fundo alguma região particular ou parece germinar intimamente desse fundo. Estritamente, para ser regional, uma obra de arte não somente tem que ser localizada numa região, senão também retirar sua substância real desse local. Arthur de Salles retira do Recôncavo para sua obra elementos que faz dessa região singular: o povo, a natureza, a língua, os costumes.

É difícil vencer o fascínio do céu, do mar, da vegetação de um costeiro recortado de aproximadamente 200 quilômetros, de uma região cuja extensão em linha reta é de 70 quilômetros da Barra Falsa à Vila de São Francisco da Barra de Sergipe do Conde. Arthur de Salles conhecia os costumes, as lendas e os fatores econômico-sociais que o caracterizavam. Em carta a Durval de Moraes descreve a sua visão do Recôncavo:
Venho de percorrer trechos do Reconcavo, numa abalada de quinze dias. Taboleiros desenrolados, numa recordação de deserto, solitarios, sob a fulgência abrazadora do sol; estreitos caminhos de areia fofa escondidos sob ramagens arenaes, mattas de arvores augustas, altissimas frondes verde-negras, dando à paysagem aspectos graves; regatos, corregos, tremulos fios de prata promanando [sic] entre folhagens sorridentes; rios de margens escavadas pela eversão das ultimas enchentes rollando aguas murmuras, ora claras, limpidas, ora escuras carreiando ainda os restos dos galhos e das raizes arrancadas. ( PR-EP-CO-OM-071: 0427-XE: 01-04/JM )

Sendo assim, pretende-se neste estudo caracterizar vocabulário da região pesqueira do Recôncavo a partir da alguns textos de temática regional do poeta Arthur de Salles.


METODOLOGIA
Para esta pesquisa, selecionou-se cinco textos do poeta, os quais têm como temática os mistérios, a beleza, a profundidade do mar. Eles foram analisados a fim de fazer um breve estudo sobre o léxico que os constitui e fazer uma comparação com o vocabulário de Sangue-mau clímax de sua obra de temática regional. Dos textos estudados, três não têm títulos, por isso, tomou-se a primeira frase como elemento identificador, tal como está na dissertação de Célia Tavares (TAVARES, 1986: 32) no capítulo A prosa de Arthur de Salles, sendo: Ao Mar!, Mar confidente, “Tudo no mar é poesia”, “O mar é o refletor do céo” e “O grande poeta francez”. Após a recolha das lexias pesquisou-se em quatro dicionários contemporâneos a Arthur de Salles, a saber: Antonio de Moraes Silva (SILVA:1922) Cândido Figueredo (FIGUEREDO: 1973), Domingos Vieira e Laudelino Freire. Visando maior clareza dos resultados obtidos, elaborou-se um pequeno glossário no qual as lexias estão divididas por grupos associativos que são: Cores que refletem a paisagem; A paisagem; Embarcações; Características do mar e, por ultimo Expressões ligadas às crenças, tradições e frases feitas.

RESULTADOS


Segundo Stephen Ullmann (ULLMANN, 1964: 249) nenhum lingüista argumentaria seriamente que o vocabulário é amorfo, sem qualquer norma ou organização. Tal afirmação iria de encontro à própria natureza da mente humana. Todas as palavras estão cercadas por uma rede de associações que as ligam com outros termos. Sendo assim, os vocábulos dos contos estudados estão ligados por uma rede associativa na qual o mar é o centro, por isso todas as lexias utilizadas pelo poeta terão uma relação direta ou indireta com o mar. Sendo o léxico, numa perspectiva cognitivo-representativa, a codificação da realidade extralingüística interiorizada no saber de uma dada comunidade lingüística (VILELA, 1995: 13), pode-se falar em um léxico que caracteriza uma dada comunidade. Assim, tal como a realidade do local proporciona o tema ao poeta Arthur de Salles, dessa mesma realidade emerge um vocabulário peculiar que foi empregado pelo poeta em sua obra e em suas cartas (ao amigo Durval de Moraes e aos seus familiares). Sendo ele “mais um” dentro daquela comunidade, como pode ser comprovado nas cartas e em algumas obras, utilizava o vocabulário corrente do Recôncavo, principalmente da Zona de pesca.


O VOCABULÁRIO DE PASSÉ A CANDEIAS
Cores que refletem a paisagem:

Lexia

Verbete

Contexto

Afogueado

adj. Embraseado. Vermelho, corado. Que tem cor de fogo; avermelhado

Ver o sol, no fim da tarde, no occaso afogueado, a esconder-se no mar (OMRC)


Alvadio

adj. Quase branco; esbranquiçado. Cinzento-claro.

E vainda hoje quando vemos o triangulo alvadio, o quadrangulo de velas de um brigue (TMP)


Brancura

f. qualidade do que é branco.

...vae vendo rebentarem na proa a flor das ilhas, a brancura das costas (OGPF)


Crepuscular

Adj. Relativo ao crepúsculo.

Fugi repeso de ter violado o colóquio entre aquela retransida e o grande mar marulhento, crepuscular. (MC)


Dealbar

v. t. Tornar branco, branquear. V. i. Alvejar, mostrar-se branco.

...por onde passa a orchestra abafada das procelas, o grito dos pampeiros, a surdina dos luares e o dealbar das bonanças. (AM)

Fulvido

adj. Fulvo e luzente. Que tem cor de oiro.

...lá embaixo elle se desfaz em fulvidos frócos de espuma (OGPF)

A Paisagem




Lexia

Verbete

Contexto

Costa

f. Costela. Declive, encosta. Praia, litoral; região à beira-mar. Bras. Margem do rio. Bras.Zona marginal de qualquer região, mata ou planice.

... de costa em costa, de praia em prais, de penedia em penedia, entre arrecifes e entre areiaes... (AM)

Enseada

s.f. curvatura, recôncavo da costa marítima, pequeno porte onde as embarcações se podem abrigar; pequena baía.

Todo elle, amanhã, cantará, na faixa risonha dessa enseada em festa... (AM)

Espumejante

Adj. Que espumeja

Na grandeza e na magestade do seu aspecto, no refervilhar espumejante de suas vagas. (AM)


Fragosa

Adj. Cheio de fragas, ou fraguras, altibaixos

... guiei meus passos para a riba fragosa. (MC)



Lugarejo

s.m. pequeno lugar. aldeia.

Certo dia, à trardinha, em certa praia do logarejo de pescadores (MC)


Nevoenta

adj. O mesmo que enevoado. Fig. Obscuro; pouco compreensível.

... na tarde nevoenta, ao crepúsculo, como que surgem dos horizontes do tempo (TMP)


Penedia

s.f. aglomeração de penedos, rochas, fraguedo.

... de costa em costa, de praia em praia, de penedia em penedia, entre arrecifes e entre areiaes... (AM)



Planura

s.f. Plano , planice

...exsurgem do fundo glauco e dansam sobre a plenura ondulante (AM)

Promontorio

m. Porção de terra elevada que, entrando pelo mar, forma saliência acima do nível das águas

Das vilas Phenicia ao promontório de sagres ella foi o symbolo do poderio e da riqueza (TMP)

Embarcações




Lexia

Verbete

Contexto

Baleeira

s.f. navio comprido, estreito e veloz, empregado na pesca de baleias.

Passam as guigas, as baleeiras, as canoas, na anciã da corrida (AM)


Batel

m. Barco pequeno, canoa. Pesc. Embarcação que, que na arte de xávega, transporta o peixe.

Um batel, vela sem vida porque o vento é morto... (OMRC)


Brigue

m. Embarcação, que difere da barca em não ter o mastro de mazena.

E o mar como se enche de galeras, de naos, de brigues e caravelas desdobrando o velame (TMP)


Canoa

f. Pequena embarcação. Frigideira, em forma de canoa. Banheira comprida

Passam as guigas, as baleeiras, as canoas, na anciã da corrida (AM)



Flotinha

s.f. (náut.) pequena frota, esquadrilha.

... entre os sorrisos das tuas ondas e das tuas espumas, a flotinha galharda e ligeira da mocidade bahiana. (AM)

Guiga

s.f. barco ligeiro de 7 a 8 metros de comprimento, muito estreito e leve, que serve especialmente para regatas.

Passam as guigas, as baleeiras, as canoas, na anciã da corrida (AM)


Jangada

f. Série de embarcações chatas, ligadas umas às outras. Leve construção, em forma de grade, que serve para transporte por mar ou rio.

Uma jangada, numa tarde, com a sua vela branqueando nas ondas... (TMP)


Característica do mar




LEXIA

VERBETE

CONTEXTO

Marulhar

v.t. que marulha. Rel. a marulho.

Há qualquer de caricia e de perdão no seu largo marulhar nocturno (MC)


Marulhento

P. Ded. Adj. Relativo a marulho. Agitado.

Fugi repeso de ter violado o colóquio entre aquela retransida e o grande mar marulhento, crepuscular (MC)


Pressuroso

Adj. Apressado, não vagaroso.

... nossa boca ele esconderá, pressuroso, no concavo de sua onda (MC)


Regaço

s.m. o saco, que faz a saia, ou roupa. Fig. O lugar médio; o lugar de repouso, ou estado de descanso.

Se uma lagrima cair dos nossos olhos ele guardará no seu regaço onde dormem as suas perolas e os seus mistérios. (MC)


Remansosa

Adj. O mesmo que remansado. Quieto, tranqüilo. Fig. Vagaroso, tardo. Descansado, sossegado, pachorrento; que não causa fadiga.

Essa enseada remansosa, amanhã, nos recordará um pedaço da praia jonia... (AM)

Expressões ligadas às crenças, tradições e frases feitas



LEXIA

VERBETE

CONTEXTO

Andar de boca em boca

exp. pop. Ser motivo de comentários

“Quero ouvir, se viver, feliz e prazenteiro,/teu nome andar de boca em boca no costeiro.” (SM, p. 187, v. 719)

Andar de rasto

exp. pop. Estar, achar-se na miséria.

“Caieira, Zé Ventura anda mesmo de rasto.” (SM, p. 115, v. 93; p. 241, v. 1149)

Aos trancos e aos sacões

exp. pop. Cambaleando

“...a igreja,/Voz do céu, abençoa/...aos que se vão, quando a noite negreja,/Aos trancos e aos sacões numa frágil canoa...”

(SM, p. 110, v. 60; p. 180, v. 697)



Apanhar o rasto

exp. pop. Cortar a sorte, o destino de alguém, tornando-o, assim, desgraçado.

Apanharam meu rasto e jogaram no mar.” (SM, p. 193, v. 782; p. 194, v. 784 p. 194, v. 789)


Canoa presa à praia deste amor

sent. fig. Estar, desde sempre, apaixonado por alguém

“Meu coração foi sempre uma canoa presa/à praia deste amor.” (SM, p. 229, v. 1042-3)

Canto da coruja

s. m. Mau presságio

“Meu sangue é como o canto da coruja.” (SM, p. 230, v. 1061)

Cousa-feita

Feitiço

Não, não precisa mais...Você tem cousa-feita. (SM, p. 193, v.374)


Deitar-se com o diabo

exp. pop. Fazer pacto com o diabo que, como conseqüência, estende-se por diversas gerações

“Quem foi esse avô que dormiu com a desgraça?/ou essa minha avó que se deitou com o diabo?” (SM, p. 234, v. 1105)

Sangue-mau

s. m. Diz-se do sangue de certas pessoas que, segundo a superstição, causa infelicidade, desgraça e ruína aos que convivem com elas.

Sangue-mau!... O maior inimigo da gente.” . (SM, p. 117, v. 116

PALAVRAS FINAIS
O mar e a “riba fragosa” de Passé são descritos através de um vocabulário que denota o conhecimento do poeta acerca da literatura universal; no entanto a vila escarpada, os pescadores, as superstições e as lendas permeiam os textos. Palavras saltam aos olhos do leitor, pois falam de coisas da terra, da gente, da paisagem de um lugar específico, lhe possibilitando delimitar o mapa lingüístico de Passé a Candeias. O autor fornece ao léxico geram da língua uma “graça festiva”, através da inserção de um vocabulário sui generis que caracteriza a região do Fundo da Baía.

REFERÊNCIAS


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PINTO, Costa. Recôncavo. 1981. Laboratório de uma experiência humana. Salvador: Costa Pinto.

SALLES, Arthur de. Sangue-mau. 1981Salvador: UFBA. Edição crítica pelo Grupo de Edição Crítica de Textos, sob a direção de Nilton Vasco da Gama.

SILVA, Antonio de Moraes. 1922 Diccionario de Lingua Portuguesa. Rio de Janeiro: Litho-Typographia Fluminense.

TAVARES, Célia Goulart de Freitas. 1986 Alguns aspectos da prosa dispersa e inédita de Arthur de Salles. PPGLL/ UFBA/ ILET. Dissertação de Mestrado orientada pelo Prof.º Nilton Vasco da Gama.

TELLES, Célia Marques. O interdiscurso na obra de Arthur de Salles. In:NETO, João Antônio de Santana et al. (Orgs.) 2003. Discursos em Análise. Salvador: UCSAL. p. 417.

ULLMANN, Stephen. Semântica: Uma introdução à ciência do significado. Lisboa: Calouste Gulbenkian. 5. ed., (1964?)

VILELA, Mario. 1994 Estudos de Lexicologia do Português. Coimbra: Almedina.



VILELA, Mario. Léxico e Gramática: Ensino da língua portuguesa: léxico, dicionário e gramática. Coimbra: Livraria Almedina, 1995.


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