De que maneira a noção de Kitsch de Greenberg permite esclarecer a economia do entretenimento contemporâneo?



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De que maneira a noção de Kitsch de Greenberg permite esclarecer a economia do entretenimento contemporâneo?

Falar na noção de Kitsch de Greenberg, é falar de uma postura bastante crítica deste autor em relação a este “fenómeno cultural”, que acaba por ser a razão do seu ensaio “Vanguarda e Kitsch” escrito em 1936, onde o mesmo defende uma posição bastante elitista na arte, assumindo-se a favor da existência de uma alta e baixa cultura, tese esta, que é agora mais do que nunca bastante questionada. Para Greenberg, a primeira seria constituída pelas artes de vanguarda, a segunda pelo produto comercial/industrial, o Kitsch.


O conceito de Kitsch neste ensaio, inicia a tese do aparecimento de um novo mercado que ganha grande expansão, o mercado do lazer e da diversão, que assenta no princípio básico da satisfação de certas afecções nas massas.
Clement Greenberg ganha importância como critico, pensador e ideólogo com a introdução do conceito do Modernismo também conhecido por formalismo. O Modernismo de Greenberg dominou o modelo de análise das artes visuais no período posterior à II Guerra Mundial, assumindo a si a universalidade das suas formas e a sua definição de arte, tomando como referências de análise artística: a autonomia, a materialidade e a originalidade. Posteriormente, questionando este pensamento, e por oposição a uma certa generalização da abstração dos anos´50 cria-se um debate que marcou a agenda da história e teoria das artes visuais a partir dos anos' 60, que alguns teóricos chamam também de era pós-Greenberg, ou seja, a crítica da autonomia, da materialidade e da originalidade, abrindo espaços para os movimentos e correntes que a protagonizaram respectivamente o minimalismo, o conceptualismo e movimentos que utilizaram a prática apropriacionista, a pop art ou outras vivências ou criações, que de certa maneira estariam marginais à história de arte.
As vanguardas, segundo este autor, que privilegia a pintura, deveriam marcar os limites e os meios próprios da sua expressão, deveriam privilegiar a estética, como também Ortega e Gasset já havia referido no seu texto “A desumanização da arte”, a arte como uma experiência intuitiva, imediata, não repetível, a busca do absoluto - a “arte abstracta” ou “não objectiva” e o alargamento da experiência artística. O autor integra na arte de vanguarda a arte que interroga, que nos perturba, fazendo aqui também uma aproximação ao pensamento de Walter Benjamim, de que a arte deve estar em permanente ruptura e “encontrar um caminho no qual fosse possível a cultura em movimento”, como nos refere Greenberg.
Se a vanguarda é pergunta, causa, forma, ruptura e cultura em movimento, o Kitsch será respectivamente resposta, efeito, conteúdo, reconhecimento e cultura estática. O kitsch como arte anti-estética está ligado ao entretenimento, ao academismo, à fácil identificação por parte das massas, que segundo Greenberg sempre estiveram indiferentes à cultura, ligada à arte comercial, ligado ao prazer imediato, à facilitação do prazer. O Kitsch que “finge não exigir nada”, é ardiloso, refere-nos o autor, que pela sua facilidade de comercialização, tende a ser sucesso de massificação universal, esvaziando as expressões e produções criativas originais das diversas culturas locais.

O Kitsch, segundo Greenberg, é um produto originário do processo de repetição da revolução industrial, à qual as massas urbanizadas facilmente aderiram. As pessoas gostam do que já conhecem. As massas urbanas oriundas do campo, segundo Greenberg, haviam perdido a sua relação de gosto com a arte popular, o que originou o tédio. As massas descobriram uma oportunidade de se aborrecerem, precisam do Kitsch para se entreterem, ou seja a falta de uma afecção, que é substituída e preenchida pelo Kitsch, que se assume como produto de insensibilidade, “mecânico e que funciona por fórmulas”.


Tal como também Walter Benjamin chama a atenção no seu texto "A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica", com o surgimento das massas, o factor sensibilidade na arte é cada vez mais importante. As pessoas são apanhadas pelo sentir e pela afecção.
O Kitsch, por um lado caracteriza-se pela sua facilidade de comercialização, e pela capacidade de se impor pela afecção, acabou por ser uma das expressões que mais tarde veio a abrir espaço ao que hoje se denomina como economia do lazer e do entretenimento. E um exemplo disso é a televisão.

Tal como Greenberg caracteriza a arte Kitsch como sendo um produto que se impõe pela afecção, oferecendo aquilo que as massas desejam, pelo sensacionalismo, pela massificação que se nivela por “baixo” e apenas proporciona o gozo e o prazer imediato, que provoca a fácil adesão e apenas produz o efeito de um cintilante embrutecimento de espírito, estas são também algumas das críticas apontadas como sendo uma das características de um dos maiores meios de entretenimento e de ocupação do tempo de lazer que é a televisão. Sobre a televisão que temos, um dos críticos mais mordaz, o Professor de Artes e Ciências Comunicativas da Universidade Novaiorquina, Neil Postman, refere que «Quando todo um povo é distraído por banalidades; quando a vida cultural é redefinida como um perpétuo círculo de entretenimento; quando uma conversa séria se torna numa espécie de balbucio pueril; quando, em resumo, a população se volve em audiência e os assuntos públicos num acto burlesco, então o país está em perigo; a morte cultural é uma hipótese em aberto.»

Ainda sobre a relação cultura e entretenimento, Adorno e Horkheimer falam-nos sobre a “indústria cultural” como meios da cultura contemporânea, que integram o cinema, a televisão, os rádios e as revistas. Estes autores caracterizam a indústria cultural como meios que fornecem um produto que só varia na aparência, onde tudo está previsto, onde nada mais se conhece além dos efeitos, ou seja a fórmula substitui a obra. Referem ainda estes autores, que “a fusão actual da cultura e do entretenimento” na indústria cultural, transforma a arte em algo que “vive no anonimato do mercado”, e a verdade em algo alienante e vazio, retirando às massas a necessidade de pensamento próprio.

Quanto à pretensão de alguns de que “tudo é arte” ou “tudo é cultura”, integrando produtos de entretenimentos e arte comercial/industrial, não deixa de nos questionar quanto a possíveis equívocos e de aumentar a pertinência, para o debate na actualidade, do texto “Vanguarda e Kitsch” e da noção de Kitsch que Greenberg iniciou. No entanto, a premunição de Greenberg, quanto à diferença entre Kitsch e arte de vanguarda falhou, porque mesmo a arte dita de ruptura ou de vanguarda é hoje integrada e não consegue fugir à “padronização” imposta por estes meios da cultura contemporânea, referidos por Adorno, e pelas actuais tecnologias de informação, que tudo submetem à sua uniformização avassaladora e à produção infindável de acontecimentos.



Francisco Palma, 2003


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