Debates do Rio Grande Etapa Erechim e Alto Uruguai



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Debates do Rio Grande

Etapa Erechim e Alto Uruguai

 

 



A cidade de Erechim, no Alto Uruguai, recebeu na noite do dia 10 de agosto de 2010 a 19ª edição do programa Debates do Rio Grande, promovido pela Rádio Gaúcha e mediado pelo jornalista Lasier Martins. Mais de 500 pessoas assistiram e participaram das discussões, que ocorreram no salão de atos da Universidade Regional Integrada.

Para debater sobre o desenvolvimento e crescimento do município e da região, foram convidados empresários e representantes da comunidade. São eles,



CLAUDIONOR MORES, empresário do ramo de serviços, professor universitário e contador, formado na Universidade de Passo Fundo. É mestre em Contabilidade Gerencial pela Fundação Getúlio Vargas, do Rio de Janeiro. É também presidente da Agência de Desenvolvimento do Alto Uruguai Gaúcho e diretor de Serviços da Associação Comercial, Cultural e Industrial de Erechim; LUIS MÁRIO SPINELLI, advogado e mestre em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina. É Diretor Geral da Universidade Regional Integrada, campus de Erechim, cargo que ocupa desde 2002. No final do mês assume a reitoria da URI. É também presidente do Conselho Regional do Desenvolvimento do Norte do Rio Grande do Sul; DEOCLÉCIO CORRADI, empresário, engenheiro civil, e atua no setor industrial desde 1978. Presidente da Comil é também presidente de Associação Comercial, Cultural e Industrial de Erechim. Até 2008 esteve à frente da presidência da Agência de Desenvolvimento do Alto Uruguai e JULIO BRONDANI, empresário, professor universitário e presidente da Frinape 2010, evento multi setorial que reúne indústria, comércio, serviços, agropecuária, tecnologia e artesanato. É também professor do curso de Administração da URI Campus de Erechim.

Abaixo, é possível conferir o que disseram os painelistas:


Claudionor Mores: iniciamos nossa proposta de desenvolvimento em 2004, com a criação da Agência de Desenvolvimento de Erechim. De lá pra cá foram se somando iniciativas e lideranças e projetos. Erechim tem a obrigação de trazer para si e para a região o desenvolvimento. Precisávamos de um único projeto. Só podemos dar as mãos se tivermos um objetivo em comum. Fizemos um projeto, elaboramos por dois anos. E agora estamos colocando em prática. E visa, sobretudo, trazer cinco linhas de desenvolvimento. A de grãos e carnes, a de reflorestamento, a de frutas, a do leite e a do turismo. E a mais forte é a dos grãos, por causa do soja. Temos um projeto em cima do biodiesel. E as prefeituras estão estimulando isso. Sem dúvidas, Erechim é pólo atrativo de mão-de-obra. Temos vagas abertas e não preenchidas em Erechim. O maior problema, no entanto, é a infraestrutura. Precisamos resgatar a linha férrea e temos 12 municípios sem ligação asfáltica. Temos baixa densidade, o que resulta em pouca energia. Os empreendimentos industriais têm energia para acender lâmpadas, mas não para gerar máquinas, mesmo tendo muitas barragens na região.

Nosso grande defeito é sermos exportadores. Mandamos para fora matéria prima e também muita gente boa, com mão-de-obra. O ideal é que nada saia daqui sem valor agregado. Que nenhum grão saia daqui e que saia, sim, o óleo. E temos mercado para vender o produto acabado. Temos, sobretudo, qualidade no que fazemos. Temos um milhão de litros que vão embora. Queremos que o jovem fique aqui e agregue valor aqui.



Deoclécio Corradi: além de comentar sobre o desenvolvimento é bom refletir sobre isso. Como indústria, vamos muito bem. Temos crescido em média cinco vezes mais o que cresceu o RS e duas vezes e meia o que cresceram as indústrias brasileiras. Isso desde 85, e tínhamos dados até 2002. É um crescimento espetacular, e a causa é o valor de empreendedores, que fazem toda a diferença. Tanto os empresários quanto as pessoas que trabalham nestas empresas. Enquanto muitos empreendedores ficaram aqui, muitas migraram até para outros estados. Temos algumas coisas que precisamos trabalhar para desempatar essa entrada e essa saída. Nos preocupa muito o Estado estar ficando pequeno, tanto politicamente quanto em PIB. A carência de infraestrutura nos prejudica. A matéria prima fica 5 a 10% mais cara em comparação com São Paulo. E porque não temos um Estado com capacidade de investimento. Isto está, obviamente, atrelado ao desenvolvimento do Brasil e do Mundo. Outra coisa importante é que temos uma economia e uma indústria diversificada. Temos indústria metal-mecânica, têxtil, de carrocerias...

Lasier: qual mais representa para a economia?

Deoclécio Corradi: Em produto, a metal-mecânica é a maior. Deve ter quatro mil funcionários. Em segundo, a têxtil. E temos vagas sobrando por falta de mão-de-obra. E, quando temos mão-de-obra qualificada, é de pessoas que logo vão embora. Queremos sempre que venham mais empresas para cá. Logística, disponibilidade de escolas técnicas, disponibilidade de energia, infraestrutura da cidade, incentivos fiscais do município e do estado. É isso o que precisamos para ter mais empresas.

Julio Brondani: precisamos ir além da nordeste, e ligar com o alto e médio Uruguai. Como sou nascido e criado na região e há muito tempo percorremos todos esses caminhos, temos de alguma maneira visto o que a cidade é e o que já foi e ainda o que pode ser. A região tem dois por cento de PIB, de extensão territorial, de população do Estado. Se olharmos pela demanda e desafios, precisamos ir além. Temos potencial para prosperar, mas a prosperidade é lenta, gradual e dolorosa. Há trinta anos tínhamos uma indústria incipiente. Na década de 90 a Cotrel sustentou sozinha todos os problemas de falta de financiamento que tínhamos no agronegócio. Não podemos negar o nosso passado, pois é dele que vivemos. Nós criamos, ao longo desses anos todos, um PIB que se renovou. Logo depois das crises mundiais que tivemos, a matriz produtiva daqui se abriu para o mundo. Passamos períodos difíceis, mas renascemos como economia. A Universidade nessas três décadas também deu frutos importantes. Boa parte dos profissionais que hoje estão no mercado se formou aqui e aprendeu empreendedorismo aqui. Essa fotografia que temos hoje precisa ser renovada a cada momento. Não vamos sobreviver em um mundo plano e globalizado sem renovação. Os nossos próximos passos é que são lentos e não por falta de vontade nossa, mas pela complexidade e pelas variáveis de macro ambiente. Estamos lidando com cultura, com economia, com desenvolvimento. E os próximos passos da região terão de ser dados em conjunto. Temos que unir todas as forças que temos na região. Todos devem estar em sintonia. Isso é um bom começo. Mas teremos ainda por muito tempo a necessidade de vender commodities.

A nossa capacidade de investimento para que produtos que sejam fabricados aqui tenham a capacidade de preencher o caderno de encargos. As pessoas precisam acreditar que o que temos aqui é saudável. Pra qualquer lado que olhar, precisamos como país ter capacidade de investimento e de promoção.



Luiz Mário Spinelli: a instituição tem se transformado, nos últimos anos, local de debates sobre a cidade, a região e até o país. E temos prezado pela qualidade. Ficamos felizes pela Universidade estar cumprindo seu papel, de discutir com a comunidade e tentar encontrar caminhos de desenvolvimento. Fui o primeiro presidente do Corede Norte e, lá em 1991, já havia uma discussão sobre as potencialidades da região. Eu falava sobre a cadeia do leite, assunto que não era nem lembrado naquela época, que só se falava em carne. E agora buscamos desenvolvimento da cadeia leiteira. E a URI não é uma simples escola. Nosso desafio, como em todo o Brasil, é investir em pesquisa. E é um investimento fundamental. Os grandes momentos que a humanidade viveu são frutos de pesquisas. E vamos imediatamente implantar um parque tecnológico. Já até assinamos convênio. A URI nasceu com um projeto de gerar desenvolvimento tecnológico. Temos sido fortes também na questão da inserção nos vários segmentos sociais. O que me angustia em debates é que todas as nossas questões começam pela educação. Falamos em economia, qualidade de vida e muitos assuntos que devem ser discutidos, e temos que conviver com uma realidade de ter muitos analfabetos na região. Deve ter um percentual de 5% na região, índice razoável. Em contrapartida, a URI tem formado mais de 600 profissionais por ano, só em Erechim. Quando há uma preocupação demasiada com o ensino superior, eu paro para refletir. Nossos problemas são ainda maiores na base. Os alunos chegam à universidade com formação deficiente. E as universidades têm feito esforços enormes para recuperar isso e manter esses alunos estudando. Eles chegam cheios de vontade, mas sem preparo. E aqui temos há muito tempo a política de implantar cursos que tenhamos a capacidade de manter com qualidade e que atendam à demanda da população. Temos engenharia agrícola, de alimentos, de produção e civil. A região precisa começar a pensar junto com a universidade. O curso não vai formar o aluno. Precisamos também de cursos técnicos.

A URI tem hoje curso de técnico em enfermagem, mas tem também o curso superior. Hoje Erechim se propõe a ser um pólo na área da saúde porque também está tendo mão-de-obra qualificada para isso. Nossa linha é essa dentro do desenvolvimento regional.


Participação da platéia:

Antônio Zanandrea, prefeito de São Valentim e presidente da AMAU: vivemos essa realidade que foi apresentada no debate. Estamos muito próximos das associações, da agência de desenvolvimento. A administração pública precisa muito ter a visão dos administradores empresariais, por isso os prefeitos dos 32 municípios fazem este trabalho. Mas temos problemas, como ter 12 municípios sem ligação asfáltica. As rodovias estão em condições precárias. Precisamos salientar que os acessos asfálticos, além do progresso, trazem qualidade de vida para manter os agricultores nas suas casas.

Francisco Franceschi, presidente do Sindilojas: o comércio aqui em Erechim e na região principalmente, já que atendemos mais 24 municípios, vai muito bem, mas poderia estar melhor. Falta o comerciante saber que precisa mudar de atitude. Estamos recebendo empresas dos maiores centros, que encontram espaço nas nossas cidades. E nós, daqui, reclamamos que o espaço se fecha para as empresas locais. Mas, para melhorar, precisamos mudar a nossa atitude. Estamos entre Chapecó e Passo Fundo, dois pólos que bem atendem e que, por exemplo, têm horários de atendimento diferenciado. E, claro, as pessoas vão para estas cidades.

Valdecir Disartz, prefeito de Benjamin Constant do Sul: Procuramos trazer recursos para a grande comunidade indígena que temos, mas temos hoje um dos piores índices de IDH do Brasil. Mas estamos tentando mudar essa realidade.

Vladimir Farina, prefeito de Barão do Cotegipe: temos uma dificuldade muito grande que vem sendo sentida pelos pequenos municípios. É a evasão. Ninguém mais fica na colônia, ninguém quer ficar no interior. Querem migrar para as grandes cidades. Nosso potencial é ave, suínos, leite. Mas precisamos segurar o homem no campo, senão não dá certo.

Volmar Basquiera, Secretário do Desenvolvimento Econômico: a quarta etapa do distrito industrial está em andamento. Mas nosso problema é que está no lugar errado. E a Feplam foi taxativa ao dizer que só poderiam ser instaladas empresas de baixa poluição, o que não é o caso da maioria. Tentamos implantar, então, empresas de logística, que poluem menos. Temos 84 empresas querendo se instalar em Erechim. Estamos tendo dois novos distritos industriais. A prefeitura está trabalhando para isso.

José Rodolfo Mantovani, presidente da Câmara de Vereadores: A câmara apóia o governo do município nos projetos que precisa apoiar. Os cursos de qualificação profissional são uma necessidade que nós apoiamos. A Câmara debateu e aprovou o projeto de incentivo de ICMS aos produtores de grãos que se dedicam a produzir também o biodiesel. Não há dúvida de que a questão da logística é um entrave importante para o nosso desenvolvimento, em especial a questão do transporte e da energia. Transportamos para Erechim todos os insumos necessários para a nossa produção. O setor metal-mecânico lidera nossa economia, seguido pelo setor têxtil e de alimentos. Buscamos nossos insumos para ser industrializados muito longe daqui. Nos falta infraestrutura que seria essencial para a região como um todo. A representação política desta grande região também é um assunto a ser pensado. A liberação do dinheiro só acontece com muito pedido, e o dinheiro está em Brasília. Hoje não temos nenhum deputado federal. Não temos deputado há dezenas de anos. Talvez não tenhamos candidatos dispostos a defender a região.

Deoclécio Corradi: Um problema é o escoamento da produção e os problemas das estradas. Calcula-se que teremos neste ano 13 mil quilômetros de estradas tomadas só pela produção de caminhões.

Neiva Lazarotto, vice-presidente do Cpers: não queremos vender apenas commodities. A URI presta um serviço inestimável à região. Temos que pensar e educação para o país nos próximos 10 anos. Não queremos ter uma educação de quinta. Tem que investir mais na educação básica.

Mauro Vanin, gerente executivo da RBS Erechim: não é fácil implementar tudo o que precisamos aqui. Moro em Erechim há quatro anos, e só valoriza essa região quem vem de fora. Trabalhei na região de Passo Fundo, e nas reuniões falava-se que o Alto Uruguai deveria ser exemplo. Essa é uma questão a ser lembrada. Temos também problema de auto-estima. Não podemos nos subestimar, não podemos esperar a vida toda por melhorias que o governo deveria oferecer. Temos carências de infraestrutura. Se tivermos uma solução, ninguém vai querer sair daqui. O problema das estradas resulta em escoamento mais caro, distribuição mais cara, produtos mais caros. Estamos no caminho certo, mas precisávamos deste eco até os governos. A competência e o empreendedorismo estão aqui.

Claudionor Mores: o problema de energia é grave. As empresas deveriam mapear e ver o que realmente precisamos para ter geração de energia. Também precisamos de um porto seco. O Estado tem seis, e nenhum no Norte. Outra reclamação é o aeroporto.

Dilceu Fontana, produtor de suínos de Charrua: o produtor quer renda. No dia que tiver renda, ninguém vai querer ficar no campo. Os produtos têm que ter preço mínimo. Pagamos para produzir muitos produtos. Falta política agrícola. A política é suja. Quando votarmos nas pessoas certas, o país vai melhorar. Se continuar assim, vamos ficar como burros carregando os problemas.

Ernani, vereador: estamos em uma posição geográfica muito ruim. E faltam estradas para ligar o município a cidades-polo. No mapa, estamos ilhados no norte do Rio Grande do Sul. Nosso único diferencial é a colonização que tivemos, o conhecimento.

Anderson, estudante de Direito, do Suriname: ouvi muita gente falando sobre ir embora do município. Eu digo que não vale a pena. Eu conheço meio mundo, o Brasil de ponta a ponta. E nunca me senti tão bem como me sinto aqui em Erechim.

Considerações finais:

Luiz Mário Spinelli: vou muito feliz para casa após um debate como este. Vivo intensamente esta universidade, e é bom ter um momento como este, com tantas pessoas de setores distintos discutindo sobre o futuro da cidade. Quando consegui fazer com que as reuniões do Corede tivessem mais de duzentas pessoas, eu vibrei como hoje. O que foi dito aqui vale como subsídio para uma reflexão. Nossa proposta foi fazer das dificuldades um diferencial competitivo.

Deoclécio Corradi: temos pessoal ocupado, assalariado, de 35% da população. Muita gente trabalha aqui. O salário médio é de pouco mais de mil reais, e perdemos para cidades como Passo Fundo, por exemplo. O Alto Uruguai teve um crescimento importante nos últimos anos. Mas tem uma coisa que me incomoda. Temos um planejamento no papel, que todos acham bonito, que não custou nada para o estado já que foi feito aqui, que a governadora achou bonito, mas que pouco fizemos de fato. O plano estratégico tem que ser trabalhado. Precisamos saber como estamos, o que queremos fazer dentro de cinco anos, aonde queremos chegar. Precisamos do mapa estratégico de cada setor. Deixo um questionamento: de quem maneira nós podemos avançar nesse planejamento? Não adianta temos apenas um livro bonito, um planejamento só no papel. A ACCIE daqui tem apenas 180 associados. Não se faz uma assembléia representativa quando nas reuniões há apenas 20 pessoas. Há um dever de casa grande pára fazermos aqui na comunidade. Não temos nenhuma demanda de acadêmicos na ACCIE hoje, e esperamos por isso. Peçam estágio, peçam palestras. Temos uma cidade bonita. Será? Faz trinta anos que não temos uma nova avenida. Temos um parque que ninguém sabe o que fazer com ele. Será que está tão bem assim? O que temos é uma herança. Não estamos seguindo os projetos.

Jaqueline Caron, estudante de ciências contábeis: os estudantes sequer sabiam que podiam participar da ACCIE.

Julio Brondani: quero fazer um registro do evento que acontece de 13 a 21 de novembro, que é a Frinape. Temos 32 espaços na feira, sendo um para capa município da região. Felizmente 28 vão participar, mostrando as potencialidades de cada um. Em cinco dias, já temos 70% dos espaços pré-agendados.

Claudionor Mores: é com iniciativas como esta que vamos poder melhorar as condições de várias cidades do Estado. Não posso deixar de convidar e pedir que todos acessem o livro da Agência de Desenvolvimento no site ou na biblioteca da URI. Fico feliz pelo pronunciamento do Fontana. Nossas matérias primas devem ser valorizadas aqui e com esse povo que está aqui. Conclamamos a juventude para que novas lideranças apareçam, inclusive lideranças políticas. Temos quase 10 mil empresas na região, sete mil em Erechim. Gostaríamos de fazer com que as pequenas propriedades também sejam valorizadas. O Sebrae nos deu sinal verde para mostrar através de um site as ações da agência. Mas temos uma convergência para resolver a situação, que é ter pessoas trabalhadoras, que querem melhorar.



 

 


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