DeclaraçÃo de princípio



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 DISSIMULAÇÃO DE INTENÇÃO

 Decorrência da definição e conceito da capoeira baiana como uma dissimulação de luta sob forma de dança, adquire a simulação de intenção e a dissimulação de propósito ou de objetivos, um papel preponderante nesta vadiação dos mestiços do recôncavo baiano.

Joga melhor o mais inteligente, o mais manhoso, o mais malicioso, o mais enganador; o que conseguir convencer o companheiro de algo que jamais fará e se aproveitar do gesto em falso do parceiro para desferir o seu golpe verdadeiro.

É preciso "pegar" o parceiro desprevenido, depois de atraí-lo para o laço, para a armadilha em que o mesmo se enredará sem violência e sem maior esforço de parte do atacante.

O floreio, especialmente aqueles executados com os membros superiores, por não afetarem a postura e equilíbrio, nem exigir deslocamento espacial, é o instrumento mais adequado para simulação de ataques e/ou dissimulação de intenção ou objetivo. O floreio mais eficiente é aquele que traz no seu bojo potencial de ataque a ser desencadeado instantaneamente no momento propício.
ALERTA, CALMA, RELAXAMENTO

E AUTOCONFIANÇA PERMANENTES
O capoeirista necessita manter contínua sintonia com a mente do parceiro para detectar suas reais intenções e assim poder antecipar-se aos seus gestos e movimentos, seja de floreio, seja de ataque ou de esquiva.

Desta postura mental brota naturalmente o permanente acoplamento do indivíduo ao ambiente vizinha. Uma eterna vigilância. Um nexo inconsciente entre o indivíduo e o meio, que empresta ao capoeirista um ajustamento instantâneo às variáveis exteriores, sejam físicas ou espirituais, que o conduz à premunição dos perigos e às reações, defensivas ou de esquiva, adequadas.

Muitas vezes o contra-ataque surge, surpreendente como relâmpago em dia de sol, como bote de jararaca aparentemente adormecida.

Na minha opinião, esta é a razão maior da influência comportamental nos deficientes, da melhoria do rendimento intelectual concomitante e das suas condições psicológicas.

Somente a calma absoluta permite o relaxamento indispensável ao desencadeamento dos reflexos de defesa, ataque e contra-ataque com tempo mínimo de latência.

Apenas em perfeita tranqüilidade conseguimos manter o estado de alerta em relaxamento, capaz de liberar todas as vias neuroniais, aferentes e aferentes, para o trânsito dos estímulos periféricos e reações motoras reflexas, inconscientes e instantâneas, de esquiva, defesa, ataque e contra-ataque características do capoeirista durante o jogo ou em momento de perigo.

Podemos assim valorizar a advertência do Venerável Mestre Pastinha ao declamar:

" Quanto mais calmo o capoeirista...

melhor para o capoeirista..."

Com o passar do tempo, a repetição interminável de situações de perigo, aparente ou real, o eterno suceder de imprevistos que desencadeiam reações instantâneas, algumas surpreendentes, porém sempre adequadas, gera uma atitude inconsciente de autoconfiança. A qual facilita mais ainda o desenvolvimento deste processo de preservação da integridade do SER, a jóia mais preciosa que a capoeira pode oferecer ao seu aficionado.

É a tranqüilidade dos fortes" ou, como prefere Esdras "Damião", "a calma é a virtude dos fortes!
 ESTADO DE CONSCIÊNCIA MODIFICADO

(TRANSE CAPOEIRANO)
 Sob a influência do campo energético desenvolvido pelo ritmo-melodia ijexá e pelo ritual da capoeira, o seu praticante alcança um estado modificado de consciência em que o SER se comporta como parte integrante do conjunto harmonioso em se encontra inserido naquele momento.

O capoerista deixando de perceber a si mesmo como individualidade consciente, fusionando-se ao ambiente em que se desenvolve o jogo de capoeira. Passando a agir como parte integrante do quadro ambiental em desenvolvimento. Procedendo como se conhecesse ou apercebesse simultaneamente passado, presente e futuro (tudo que ocorreu, ocorre e ocorrerá a seguir) e se ajustando natural, insensível e instantaneamente ao processo atual.


O CAPOEIRA, A CAPOEIRA E O CAPOERISTA
No transcorrer dos tempos o significado das palavras sofrem modificações fonéticas e semânticas que dificultam seu entendimento fora do contexto ou do momento histórico-cultural onde se inserem.

Assim é que em passado não muito longínquo, como encontraremos expresso na tese de Paulo Coêlho abaixo transcrita, “o” capoeira indicava indivíduo que morava ou se escondia na capoeira em sentido geográfico, distinto do que entendemos por “a” capoeira, apropriada para denominar os exercícios, habilidades ou luta dos habitantes da capoeira geograficamente.

O capoeirista é o modo como denominamos atualmente o praticante do jogo de capoeira, associada sempre ao componente musical, o que chamamos de capoeira da Bahia, seja “angola” ou “regional”, estilos derivados do antigo “jogo de capoeira”, nascido no recôncavo baiano, na região de Sto. Amaro da Purificação e Cachoeira de S. Felix.

Já que a capoeira como descrita classicamente entre os cariocas e que ainda chegamos a assistir em companhia de Bimba, era apresentada como uma luta com movimentos tipicamente africanos sem acompanhamento musical.


CAPOEIRA, SENTIDO AMPLO E SENTIDO RESTRITO:
Enquanto analisava o que observei durante toda a vida e os documentos históricos sobre a capoeira, algumas perguntas sem respostas me afloraram à mente...

  • Por que as descrições antigas de capoeiras no Rio de Janeiro, Pernambuco, Alagoas e Sergipe, não se referem às rodas de capoeira ?

  • Por que as gravuras antigas não exibem o berimbau regendo a prática da capoeira?

  • Por que a capoeira do Rio de Janeiro, Recife, etc. envolve o conceito de “malta” ?3

  • que a associação freqüente com brigas e desordens da capoeira do Rio de Janeiro?

  • que não encontramos descrições de “gingado”?

  • Por que não encontramos referência freqüente à capoeira em Minas Gerais e S. Paulo?

  • Por que não encontramos capoeira nos quilombos residuais encontrados pelo Brasil adentro, especialmente se encaramos a capoeira como forma de luta e resistência no confronte entre escravos e classe dominante como querem alguns sociólogos e historiadores ?

Por outro lado, a capoeira na Bahia apresenta algumas características especiais:

  • praticada sob a regência do berimbau;

  • encontrada nas margens do rio Paraguaçu; não é encontrada no interior;

  • intimamente ligada ao candomblé ( pelo ritmo de Logun-Edé e ao sotaque iorubano, bem como aos seus irmão de raiz musical, o batuque e os sambas de chula e corrido (respectivamente de Sto. Amaro da Purificação e Cachoeira);

  • dotada de ritual característico;

  • associada às rodas de capoeira, formadas aos domingos, dias santificados e às festas tradicionais populares;

  • caráter tradicionalmente lúdico, antes que belicoso, exceto no estilo regional.

Pelo que acreditamos que existem duas acepções para o termo capoeira4

  • sentido amplo,

abrangendo as modalidades pugilísticas de raiz africana (ngolo ?)5 e incluindo as modalidades de capoeira urbana ou favelar (pernada?), praticadas antigamente no Rio de Janeiro, Pernambuco, Alagoas e Sergipe;

  • sentido restrito,

referente ao jogo de capoeira, baiano, portuário, originário do Recôncavo Baiano, posteriormente desdobrado nos estilos regional e angola e difundido pelo Brasil e pelo Mundo.

Opinião semelhante encontramos no trecho seguinte:



Universidade do Porto, Faculdade de Ciências do Desporto e de Educação Física; A CAPOEIRA: A transformação de uma atividade guerreira numa atividade lúdica - Dissertação apresentada às provas de doutoramento no ramo de Ciências do Desporto, especialidade de Antropologia do Desporto, nos termos do Artª6 nº2 alínea c do Decreto-Lei nº 388/70 de 18 de Agosto. - PAULO COÊLHO DE ARAÚJO

“CONCLUSÕES FINAIS DO ESTUDO

No que concerne às conclusões do estudo em questão, apresento no contexto dos capítulos 2,3 e 4, referências quanto aos tópicos mais significativos dos mesmos, considerando-os portanto, conclusões parciais. Destarte a apresentação da estrutura retro-referida, reconheço residir nestas conclusões parciais, algumas evidências que merecem destaques, as quais passo a enunciar:

1) as teorias existentes acerca do nome da Capoeira, até o momento, não apresentam fundamentos consistentes para afirmarem-se como esclarecedoras quanto à esta temática;

2) evidencia-se na documentação existente uma certa generalização da associação entre os indivíduos capoeiras e os efetivos praticantes da luta da Capoeira, generalização esta, em essência, não pertinente para todos os casos;

3) o nome da luta identificada pela denominação Capoeira decorre, basicamente, da associação feita pelos estudiosos desta temática no curso da história, entre ela e os indivíduos que recebiam a alcunha de capoeiras, logo, malfeitores contumazes, gerando, portanto, uma metonímia res-pró-persona que deriva do todo para a parte e não da parte para o todo, como fôra afirmado em outro trabalho existente;

4) as expressões da Capoeira no século XIX atestam, efetivamente, o caráter periculoso da atividade aludida que concorre para considerá-la uma forma de luta, em contraposição à consideração de ter sido ela, historicamente, uma expressão de cariz lúdico;

5) as ações, as características e armas atribuídas aos indivíduos praticantes dos exercícios de agilidade e destreza corporal, no curso da história brasileira, nunca se mostraram exclusivas destes, todavia, contribuiu decisivamente para enquadrá-los como efetivos marginais dos períodos colonial e imperial;

6) as maltas de capoeiras não representavam, necessariamente, associações exclusivas de indivíduos praticantes da luta da Capoeira, contrariamente ao que se tem difundido nas bibliografias que discorrem sobre esta temática;

7) o acervo documental e bibliográfico hoje conhecido não fornece evidências concretas da presença da luta da Capoeira durante o século XVIII, quer como expressão guerreira quer como expressão de defesa-pessoal;

8) apesar do exposto anteriormente, as referências acerca da luta da Capoeira respeitante ao princípio do século XIX, enquadrando-a como jogo de capoeiras e identificando golpes específicos, podem atestar, favoravelmente, quanto a sua presença no século XVIII, sem contudo indicarem a sua natureza;

9) apesar da sua identificação com o vocábulo jogo, não há quaisquer evidências durante os séculos XIX e as duas primeiras décadas do século XX, de ter sido a Capoeira uma expressão de cariz lúdico;

10) a luta da Capoeira transforma-se em matriz lúdica com as características atualmente conhecidas, somente no decurso do século XX e em decorrencia de fatôres político-sociais e linguísticos;

11) durante o século XIX e as duas primeiras décadas do século XX, não existiram quaisquer presenças de instrumentalidade musical obrigatória e indissociável, de padrões rítmico-melódicos ( toques ) e poesia específica e de ritualidade no âmbito da Capoeira;

12) somente no decurso da década de 30 deste século, foram introduzidos os elementos musical, oral, instrumental e ritual, inerentes e específicos à prática da luta corporal brasileira;

13) são escassos os trabalhos de natureza científica e mesmo técnica, sobre as distintas expressões plurais que emanam da Capoeira, isto para quaisquer das áreas científicas, mais particularmente na área da Ciência do Desporto.

Após a apresentação dos itens constantes nas conclusões parciais e finais, reconheço ser urgente que profissionais e estudiosos das mais distintas áreas científicas promovam incursões sobre a temática CAPOEIRA, isto para quaisquer das suas emanações, visto ser a mesma uma expressão cultural de grande significado para a sociedade brasileira e, assim, retirá-la do processo de acomodação em que no momento se encontra, em virtude da propaganda de natureza folclórica fartamente difundida no país e no exterior e que, a meu ver, concorre para a instalação da aceitação incondicional de verdades e histórias acerca desta matéria que assumem, na atualidade, ares de verdades incontestáveis.”





A CAPOEIRA DA BAHIA, JOGO DE CAPOEIRA, VADIAÇÃO, BRINCADEIRA, DESORDEIROS?

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