DeclaraçÃo de princípio



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Na Bahia, ao contrário doutros estados, a capoeira não aparece como atividade belicosa, violenta, nem manifestada através agrupamentos (maltas) ou agrupamentos com atividades agressivas ou anti-sociais e sim como atividade lúdica, prazerosa, em momentos de folga ou festivos.


É notória e bem expressiva a sua associação com a música, como sempre encontrei em minha infância e seu parentesco rítmico com o samba, como bem acentua Mestre Pastinha, quando pergunta:


In Manuscritos e Desenhos de Mestre Pastinha (pág1b, linhas 19-22)

  • ... “falando em capoeira, porque nunca mais vi jogar com viola? portanto, a origem lúdica da capoeira baiana e seu parentesco com o samba santamarense>. Há tocadores de viola, porém estes se desinteressaram pela capoeira

In Decanio Filho, A. A. - A herança de Pastinha (pág.10)

CAPOEIRAGEM E MALTAS, CAPOEIRA, CAPOEIRISTAS E DESORDENS

Da leitura atenta da tese de Paulo Coêlho acima destacamos:


“evidencia-se na documentação existente uma certa generalização da associação entre os indivíduos capoeiras e os efetivos praticantes da luta da Capoeira, generalização esta, em indivíduos capoeiras e os efetivos praticantes da luta da Capoeira, generalização esta, em essência, não pertinente para todos os casos;

3) o nome da luta identificada pela denominação Capoeira decorre, basicamente, da associação feita pelos estudiosos desta temática no curso da história, entre ela e os indivíduos que recebiam a alcunha de capoeiras, logo, malfeitores contumazes, gerando, portanto, uma metonímia res-pró-persona que deriva do todo para a parte e não da parte para o todo, como fôra afirmado em outro trabalho existente;

4) as expressões da Capoeira no século XIX atestam, efetivamente, o caráter periculoso da atividade aludida que concorre para considerá-la uma forma de luta, em contraposição à consideração de ter sido ela, historicamente, uma expressão de cariz lúdico;

5) as ações, as características e armas atribuídas aos indivíduos praticantes dos exercícios de agilidade e destreza corporal, no curso da história brasileira, nunca se mostraram exclusivas destes, todavia, contribuiu decisivamente para enquadrá-los como efetivos marginais dos períodos colonial e imperial;

6) as maltas de capoeiras não representavam, necessariamente, associações exclusivas de indivíduos praticantes da luta da Capoeira, contrariamente ao que se tem difundido nas bibliografias que discorrem sobre esta temática;

7) o acervo documental e bibliográfico hoje conhecido não fornece evidências concretas da presença da luta da Capoeira durante o século XVIII, quer como expressão guerreira quer como expressão de defesa-pessoal;

8) apesar do exposto anteriormente, as referências acerca da luta da Capoeira respeitante ao princípio do século XIX, enquadrando-a como jogo de capoeiras e identificando golpes específicos, podem atestar, favoravelmente, quanto a sua presença no século XVIII, sem contudo indicarem a sua natureza;

9) apesar da sua identificação com o vocábulo jogo, não há quaisquer evidências durante os séculos XIX e as duas primeiras décadas do século XX, de ter sido a Capoeira uma expressão de cariz lúdico;

10) a luta da Capoeira transforma-se em matriz lúdica com as características atualmente conhecidas, somente no decurso do século XX e em decorrencia de fatôres político-sociais e linguísticos;

11) durante o século XIX e as duas primeiras décadas do século XX, não existiram quaisquer presenças de instrumentalidade musical obrigatória e indissociável, de padrões rítmico-melódicos ( toques ) e poesia específica e de ritualidade no âmbito da Capoeira;

12) somente no decurso da década de 30 deste século, foram introduzidos os elementos musical, oral, instrumental e ritual, inerentes e específicos à prática da luta corporal brasileira;

Desordeiros

A estigmatizarão perversa do capoeirista como malandro, desordeiro, baderneiro e quejando, pela classe dominante, em contraste com o espirito gozador, alegre, festivo do nosso povo humilde é fruto dos preconceitos contra as manifestações culturais africanas tidas como “coisas do diabo” e detestadas porque os negros e afins apenas serviam como fonte de riqueza.

As manifestações culturais eram reprimidas porque o suor do trabalho escravo no trabalho se transformava em ouro para os escravistas tidos como superiores culturais e espirituais, enquanto durante o tempo do samba e da capoeira se transformava em felicidade, e não em moeda sonante.

Da idéia de prejuízo econômico e desgaste físico da fonte de renda aos preceitos coibitivos vai um passo pelo descaminhos do preconceito...


Preceitos, preconceitos e polícia...

os três pês que perseguem os pretos!


Acresce que os historiadores se louvam nos documentos policiais e notícias de jornais que também se baseiam nas mesmas fontes, sem os descontos dos abusos de poder e das reações naturais dos injustiçados...

Dada a alegria inerente aos capoeiristas o pejorativo dos termos policiais passou a ser usado como galardão de destemor e bravura. Era a consciência da força de cada um, que o povo não tem, porém que a capoeira empresta aos seus praticantes, daí encontrarmos em Noronha6 como auto-elogio os termos baderneiro, desordeiro, valentão, que soam de maneira contrastante com o comportamento dos nossos companheiros de roda.

Apud Decanio Filho, A. A. – Falando em capoeira:14
AS POSTURAS, OS MOVIMENTOS E AS EVOLUÇÕES ACROBÁTICAS AFRICANAS:
Viajando pelo Recôncavo de Salvador pelos navios da “Baiana” (Cia. de Navegação Costeira da Bahia) observei que os descendentes de africanos adotavam uma posição típica ao sentarem no piso, que depois identifiquei ao modo de assentar dos “filhos de santo” em transe, evidenciado nas fotografia de Pierre Verger abaixo.

As brincadeiras infantis entre nosso povo incluem cabriolas, saltos e aus, freqüentes mesmo fora da prática da capoeira.








O BATUQUE E A CAPOEIRA, JOGOS OU LUTAS?
Na minha infância sempre ouvi falar de capoeira como jogo, brincadeira ou vadiação, jamais como luta.
Sou de opinião que a habilidade dos jogadores de capoeira nos confrontos pessoais decorre da força muscular desenvolvida pelo trabalho braçal e movimentos acrobáticos da prática da capoeira e principalmente do reflexo de esquiva, sempre presente nos exercícios de habilidade do jogo de capoeira.
A postura permanente de evitar o contato e o impacto físicos leva a um produz movimentos de defesa pessoal ante qualquer movimento de qualquer outra pessoa independente do ajuizamento ou apuração de suas intenções.
O habito de manter o ambiente em observação permanente sem considerar a intenção, sempre pressuposta com maliciosa ou potencialmente perigosa para sua integridade física ou segurança, desencadeia o reflexo de esquiva à simples aproximação de alguém, amistosa ou não.
A conduta de esquiva permanente sempre esteve presente nos movimentos de todos os capoeiristas mais velhos que conheci, tornando-se como o símbolo ou identificação dos praticantes da maliciosa arte de São Salomão. Era notória em Tiburcinho, muito espalhafatoso e exuberante em exibir seus reflexos de defensiva, mesmo durante os gestos duma conversa entre os amigos... manifestação do “sempre alerta e fugidio” capoeirano. Até os simples gestos de acompanhamento do interlocutor são de esquiva e autoproteção.

A MULHER NA CAPOEIRA E NO BATUQUE
A tradição oral registra o nome de algumas mulheres que foram incluídas no Panteão dos capoeiristas do período mítico da capoeira, temidas pela sua valentia e disposição bélica, porém sem deixar documentação escrita, seus nome constam nas obras Noronha e Pastinha.

Nos primeiros tempos do período clássico, Bimba preparou algumas (3 ou 4) das quais conheci uma, Beatriz “Beata” de Nhançã, da qual fui irmão de terreiro, sem que tenha assistido suas habilidades.

Somente nos últimos 20 anos a mulher vem ocupando um maior destaque em nossa arte.

Bimba referia-se às habilidades de sua mãe no batuque, arte em que seu pai foi campeão em Cachoeira, costumando dizer que sua mãe era : era boa de perna”.

Da. Martinha, mãe de Assuero de Jesus, “Jesus”, filha dum praticante de batuque, sempre se referia ao batuque como jogo, brincadeira. Informando também que era praticado em dias de festa (aniversários, feriados, etc.) em ambiente doméstico, não existindo espaço específico para seu ensino ou prática, demonstrando caráter lúdico antes marcial.

Nunca assisti Bimba jogar batuque e nunca recebi explicações de sua prática de parte do Mestre, pelo que continuo na dúvida quanto à afirmação de que a regional deriva da incorporação do batuque à capoeira, em que pese a “dourada”,




  1. EVOLUÇÃO HISTÓRICA


PERÍODO HERÓICO OU MÍTICO
Da história da capoeira antes de Bimba guardamos apenas referências orais e documentos genéricos sem referências pessoais, lendas, mitos.
Surgem da escuridão do anonimato nomes como Besouro Mangangá e Lúcio Grande, perpetuados em relatos lendários de fatos e feitos.
Documentou-se apenas Tiburcinho, que encontrei ainda lúcido e alegre, apesar de doente, em Jaguaripe e que trouxe para Salvador para tratamento médico. De quem tive posteriormente informações mais detalhadas através meu colega de “regional” “Rubinho” Sanches, em cujas propriedades pescava. Fonte de informações preciosas sobre o maculelê (ritmo, cantos e movimentos) que permitiram a Bimba iniciar as exibições públicas em Salvador.
OS “DONOS DE CAPOEIRA”

Na minha infância não se usava a palavra Mestre para o dirigente dum grupo de praticantes da capoeira, referiam-se ao que chamamos hoje “roda de capoeira” apenas como “capoeira de fulano”, o que encontramos no trecho à página 3b dos Manuscritos e Desenhos de Mestre Pastinha”:

Cuja transliteração datilográfica é:

“ ... no jinjibirra com o que eu concordei, em 20 de Fevereiro de 1941. Fui a este local como prometeira á Aberrrê, e com surpresa o Snr. Amózinho dono da quela capoeira, apertando-me a mão disse-me: Há muito que o esperava para... “


PERÍODO CLÁSSICO
Iniciado com o surgimento de Bimba, criador do estilo regional e seus contemporâneos, os quais se mantiveram fieis ao ritual do “jogo de capoeira” Pastinha, Amorzinho, Maré, Noronha, Miguel Pescador, HU, Aberrê, etc. os quais, sob a liderança de Pastinha, fundaram o Centro Esportivo de Capoeira Angola”, origem do estilo “angola”.
A PROFISSIONALIZAÇÃO DE BIMBA
O encontro de Bimba com Cisnando e a imediata aceitação deste último como seu primeiro discípulo marca a origem da Luta Regional e o início do ensino sistematizado e intensivo da capoeira. Bimba nesta época era carvoeiro e teve a oportunidade de auferir ganhos substanciais e prestígio social ao ingressar no seio da elite estudantil da classe dominante de Salvador.

A ORIGEM DO TÍTULO DE MESTRE
Os acadêmicos, afeitos às láureas universitárias, logo o equipararam aos mestres das escolas superiores passando a usar o honroso título de “Mestre”, reconhecendo-o como o catedrático da capoeira da Bahia, como de fato recebeu o título de Doutor Honores Causa da UFBA após sua morte.
A partir de Bimba os capoeiristas estenderam esta qualificação a todos os capoeiristas renomados de sua época e posteriormente o consagraram como atributo honorífico de todos os que se dedicaram ao ensino da capoeira.
SISTEMATIZAÇÃO DO ENSINO
Decorrência imediata da confluência da pedagogia universitária com a prática do jogo de capoeira, a sistematização o aprendizado e a difusão entre os acadêmicos desta manifestação cultural popular baiana.
O aparecimento da seqüência de ensino e composição pelo Mestre Bimba do toque de Iuna, esta último comprovando a habilidade de jogo dos “formados” e “marca-dágua” da capoeira iniciam o período áureo da Regional sob a hegemonia do Mestre.
ORGANIZAÇÃO DE ACADEMIAS
O “Clube de União em Apuros”, sediado no “Bananal” na baixa dos Barris, ás margens do Dique da Fonte Nova (local que posteriormente recebeu a denominação de “Roça do Lobo” foi a primeira academia de capoeira, já batizada como “Luta Regional Baiana” conforme sugestão de José Cisnando Lima imediatamente aprovada pelo nosso Mestre. Local onde aos sábados e Domingo, os alunos de Bimba, sem distinções classe social ou de escolaridade, se fundiam sob o som da Iuna, solvendo as diferenças socioculturais pelo ecumenismo da “Mulher Barbada”, a beberagem sagrada também composta pelo Bimba.
A instalação dum sala de aula à rua das Laranjeiras no 1, no início dos anos quarenta, fruto do nosso trabalho, ao lado de Ailson da Cunha Guedes e Aquiles Gadelha, a denominação mudou para “Academia do Mestre” (até então reinando sozinho) ou “Sede do Terreiro” em contraposição à “Roça do Lobo”.
A denominação “Centro de Cultura Física e Luta Regional da Bahia” de minha lavra e homologada pelo Mestre surgiu da necessidade de adequarmos nossa associação à legislação vigente para o registro da “Regional” e regulamentação ulterior da capoeira como esporte.
O RETORNO DE MESTRE PASTINHA À ATIVIDADE,
A FUNDAÇÃO DO CENTRO ESPORTIVO DE CAPOEIRA ANGOLA

..."em 23 de fevereiro de 1941. Fui a esse locar como prometera a Aberrêr", e com suspresa o Snr. Armósinho dono da quela capoeira, apertando-me a mão disse-me: Há muito que o esperava para lhe entregar esta capoeira para o senhor : mestrar. Eu ainda tentei me esquivar disculpando, porem, toumando a palavra o Snr. Antonio Maré: Disse-me; não há jeito, não Pastinha, é você mesmo quem vai mestrar isto a qui. Como os camaradas dero-me o seu apoio, aceito."

(3b,12-23;4a.1)

"Em 23 de fevereiro de 1941. No Jingibirra fim da Liberdade, la que naceu este Centro; porque? foi Vicente Ferreira Pastinha quem deu o nome de "Centro Esportivo de Capoeira Angola".

Fundadores

Amosinho, este era o dono do grupo, os que lhe , Aberrêr, Antonio Maré, Daniel Noronha, Onça Preta, Livino Diogo, Olampio, Zeir, Vitor H.D., Alemão filho de Maré, Domingo de.Mlhães,

Beraldo Izaque dos Santos; Pinião

José Chibata, Ricardo B. dos Santos."

(4a,7-18) Transcrição datilográfica dos manuscritos de Mestre Passtinha” apud Decanio Filho, A. A. - “A herança de Pastinha”.


EXIBIÇÕES PÚBLICAS
A primeira exibição pública de capoeira associada ao samba de roda e capoeira foi realizada durante o “I Congresso Internacional de Neuro-Psiquatria” promovido em 1946 pelos Prof. Catedrático de Neurologia Edístio Pondé e Luiz Cerqueira, Livre Docente de Psiquiatria e fundador do Sanatório Bahia, no terreiro de candomblé de Camilo de Oxosse na ladeira da Vila América, sendo apresentados o samba de roda, movimentos e toques de candomblé.
Ante o sucesso social e econômico do evento, Bimba continuou esporadicamente a repetir as exibições até que as sistematizou em dias escolhidos da semana consoante a presença de turistas, já agora com fins puramente comerciais.
A seguir a Sutursa entra no mercado e passa a oferecer apresentações públicas de folclore, sob o comando de “Canjiquinha” programadas para atender aos turistas.
A estadia de “Tiburcinho” em Salvador proporcionou a Bimba o conhecimento das músicas, letras e movimentos do maculelê, enriquecendo assim o leque de manifestações culturais áfrico-brasileiras.
Surge então os grupos coreográficos de folclore, que divulgaram pelo mundo capoeira e demais representações áfrico-brasileiras.

JOGO DE CAPOEIRA NAS FESTAS POPULARES

Durante minha infância e juventude a capoeira era apresentada em praça pública nas festas religiosas e populares



O LEQUE CULTURAL ÁFRICO-BRASILEIRO DO RITMO IJEXÁ
CAPOEIRA, SAMBA DE RODA, MACULELÊ, CANDOMBLÉ
E OUTRAS MANIFESTAÇÕES FOLCLÓRICAS

A capoeira é o processo complexo constituído pela fusão ou caldeamento de fatores de varias origens:

1. Dos africanos herdamos os movimentos rituais fundamentais do candomblé: dos iorubás recebemos o ritmo ijexá e a rima tonal a cada 3 estrofes enquanto os bantos nos ofereceram o berimbau, o instrumento fundamental.

2. Os portugueses nos doaram: através a dança popular da chula, o uso do improviso (chula), do pandeiro e da viola.

  1. Os brasileiros forneceram a nomenclatura dos movimentos, os temas dos cantos (fundo cultural literofilosófico popular), o ritual, os métodos de ensino, as modificações fonéticas dos termos usados nos cantos.



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