Deleuze tirou a poeira das idéias de bergson peter pál pelbart



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DELEUZE TIROU A POEIRA DAS IDÉIAS DE BERGSON



PETER PÁL PELBART

 

No início dos anos 70, em resposta a um amigo que o acusava de estar filosoficamente acuado, o pensador Gilles Deleuze escreveu: "Sou de uma geração, uma das últimas gerações que foram mais ou menos assassinadas com a história da filosofia. A história da filosofia exerce em filosofia uma função repressora evidente... Você não vai se atrever a falar em seu nome enquanto não tiver lido isto e aquilo, e aquilo sobre isto, e isto sobre aquilo. Na minha geração muitos não escaparam disso, outros sim, inventando seus próprios métodos e novas regras, um novo tom. Quanto a mim, "fiz" por muito tempo história da filosofia... Mas eu me compensava de várias maneiras. Primeiro, gostando dos autores que se opunham à tradição racionalista dessa história (e entre Lucrécio, Hume, Espinosa, Nietzsche, há para mim um vínculo secreto constituído pela crítica do negativo, pela cultura da alegria, o ódio à interioridade, a exterioridade das forças e das relações, a denúncia do poder... etc.). O que eu mais detestava era o hegelianismo e a dialética..."



 

Em seguida, Deleuze explica como conseguiu safar-se desse impasse: a partir dos autores comentados, produzia leituras insólitas, filhos ligeiramente "monstruosos": "O autor precisava efetivamente ter dito tudo aquilo que eu lhe fazia dizer. Mas que o filho fosse monstruoso também representava uma necessidade, porque era preciso passar por toda espécie de descentramentos, deslizes, quebras, emissões secretas que me deram muito prazer. Meu livro sobre Bergson me parece exemplar nesse gênero." (`Carta a um crítico severo', em "Conversações").

 

O livro sobre Bergson a que o autor se refere em sua carta sai agora em português pela Editora 34 com o título de "Bergsonismo", na fina e esmerada tradução de Luiz Orlandi. Ao debruçar-se sobre um filósofo já "clássico" e hoje um pouco esquecido como Bergson, Deleuze faz neste livro de 1966 uma monografia aparentemente despretensiosa. Aborda os grandes temas de Bergson: a intuição, a memória, a duração, o impulso vital. Mas o leitor se dá conta, desde logo, que está diante de um bergsonismo pouco comum, em todo caso nada espiritualista. A duração (nome dado por Bergson ao tempo) deixa de ser apenas uma experiência psicológica, para tornar-se um caso da duração ontológica, essência variável das coisas, condição da experiência. A memória, por sua vez, não é pensada como sendo interior a nós, nós é que somos interiores a uma gigantesca Memória, imemorial e ontológica, virtual e inconsciente. O impulso vital passa a designar o movimento pelo qual o ser se atualiza, não a partir de um "possível" ideal que o presente viria desovar, mas a partir de uma virtualidade (real) a ser desdobrada, diferenciada. A vida mesma é concebida como uma tal produção de diferenças - a vida é invenção.



 

Como se vê, esse conjunto ainda é Bergson, mas já tudo gira em torno de um eixo que nosso século não cansará de ecoar: a idéia de diferença. No artigo seminal de Deleuze publicado dez anos antes deste seu livro e com razão incluído no presente volume, intitulado A Concepção da Diferença em Bergson, este conceito conduz sistematicamente a leitura do filósofo. O método da intuição é definido como o "gozo da diferença", a duração ou a vida são concebidas como aquilo que difere de si mesmo, o próprio homem é aquele em quem a diferença eleva-se à consciência de si. Na contracorrente de um hegelianismo ainda dominante na época, para Deleuze é a diferença que importa, não o negativo. Ao lançar as bases de sua própria ontologia materialista, Deleuze insiste que em Bergson o movimento do ser se dá por diferenciação interna, criação positiva, e não por contradição, num jogo dialético da determinação negativa. O filósofo chega a afirmar que se a noção de diferença pode trazer uma certa luz ao bergsonismo, "o bergsonismo deve trazer a maior contribuição para uma filosofia da diferença". É o que se percebe neste livro ligeiramente "monstruoso": a fineza penetrante de Deleuze retoma com fidelidade o conjunto da filosofia bergsoniana, mas ao mesmo tempo nela produz tantas inflexões sutis (algumas nietzscheanas) que Bergson aparece como um precursor das filosofias da diferença, das quais o próprio Deleuze foi um dos expoentes.

 

O belo livro de Bento Prado Jr. a ser lançado em Paris, intitulado Presença e Campo Transcendental, escrito mais ou menos na mesma época que o de Deleuze e com o qual ele tem inúmeras afinidades, ajuda a lançar luz sobre esta relação entre Bergson e sua posteridade. Lembremos da observação arguta de François Laruelle: nosso século vive sob o signo da Diferença assim como o 19 se constelou em torno da Dialética. Se antes a Diferença era apenas um procedimento periférico, uma escrava da Contradição, como na Dialética, e depois da Estrutura, como no estruturalismo e derivados, tornou-se a partir de um certo momento ela mesma uma problemática, um princípio real e mesmo uma emoção "a priori, uma verdadeira sensibilidade filosófica ou transcendental sem a qual a filosofia estaria morta de hegelianismo ou de estruturalismo: de tédio..." Talvez os textos de Deleuze sobre Bergson, nesta porosidade instigante entre filosofia e história da filosofia, sejam a marca inaugural desta reviravolta "atmosférica" na filosofia francesa.



 

No entanto, este livro não interessa apenas aos filósofos, longe disso. Para quem hoje necessita aprofundar noções como a de virtual, ou fica intrigado com a reintrodução da seta do tempo nas ciências (por exemplo, nas pesquisas de Prigogine e Stengers), ou quer mergulhar nas aventuras da memória e seus paradoxos, o livro de Deleuze é um prato cheio. Escrito em linguagem clara e acessível, sem perder em nada a complexidade de seu objeto, vemos emergir um Bergson desempoeirado, com o frescor das filosofias feitas para pensar o presente.

 

Peter Pal Pelbart é professor de filosofia na PUC-SP



autor de "A Nau do Tempo-Rei" (Imago) e traduziu "Conversações", de Gilles Deleuze (34 Letras)

Resenha do livro de Gilles Deleuze, Bergsonismo, Editora 34, 2000 

publicado no Estado de S. Paulo — Domingo, 15 de outubro de 2000


QUAL É A MAIOR CONTRIBUIÇÃO DE DELEUZE AO PENSAMENTO?



matéria publicada na Folha de S. Paulo em 2 de junho de 1996

Michael Hardt — Professor da Duke University (EUA)

"A contribuição de Deleuze pode ser resumida como sendo a de uma filosofia da imanência. A imanência se opõe a formulações transcendentais, ambas no sentido de formulações religiosas e filosóficas que apresentam valores e ideais em um âmbito separado deste mundo, ou no sentido de uma ordem política que coloca sua força acima do plano interativo das forças sociais. Em uma bela passagem de um de seus livros de cinema, ele escreveu que o cinema tem o poder de nos fazer crer neste mundo (uma tarefa muito importante, ele declara). A filosofia de Deleuze certamente nos fornece maneiras de acreditar neste mundo -e nos põe em condições de mudá-lo".

David Lapoujade — Professor da Universidade de Paris X

"Você sabe, creio que o pensamento de Deleuze não tem missão profética. Ele não está ligado a nenhum destino próprio à 'dobra do milênio'. Tem-se o costume de invocar a famosa frase de Foucault: 'Um dia, talvez, o século será deleuziano' e sublinhar seu aspecto profético, enigmático ou cômico. Mas justamente, quando Deleuze comenta esta fórmula é para dizer que não se sentia tocado pelas grandes questões relativas à superação da metafísica ou à morte da filosofia, por estas atividades milenares das quais nosso século deveria pensar o desaparecimento. Ao contrário, quando Deleuze afirma que ele pratica uma espécie de 'art brut' dos conceitos, ele libera a filosofia do trabalho interior do luto do qual ela se sobrecarrega. De um certo modo, uma de suas maiores contribuições é que ele permite praticar de novo a filosofia, sem que pese sobre ela o peso de sua própria história. Ainda que, para esta questão, eu creio que a frase importante de Foucault é muito mais esta: com Deleuze, de novo, o pensamento, a filosofia são possíveis. Isto significa que se trata de uma das filosofias mais liberadoras, tanto para a vida como para o pensamento".

Frederic Jameson — Professor da Duke University (EUA)

"Deleuze foi uma inteligência filosófica prodigiosa, que transformou profundamente os filósofos clássicos que leu: Hume, Nietzsche, Kant, Bergson, entre outros. Ao lado de muitos outros filósofos contemporâneos -poderosa e engenhosamente- o seu trabalho baseou-se em um ataque à diferenciação sujeito/objeto e tentou nos mostrar como a gama de nossas respostas 'subjetivas' era também sintoma e testemunho da objetividade".

François Zourabichvili —autor de "Deleuze - Une Philosophie de l'Événement"

"Não há pensamento universal ao qual cada filósofo contribuiria, na medida de seu talento. Não há nem mesmo mundo filosófico, tantas são hoje diversas ou estilhaçadas as correntes. Nietzsche e James mostraram a necessidade desta divergência: ela se deve à pluralidade dos estilos de vida (aquilo pelo que o pensamento permanece em relação com a verdade, ainda que a relação tenha mudado). As divergências não são forçosamente mais marcadas que em outros épocas, mas o século 20 se caracteriza pelo enrijecimento de certas orientações filosóficas num gesto de hegemonia e de exclusão: assim o marxismo, a fenomenologia, o heideggerianismo, a desconstrução, a filosofia analítica. Cada um invoca seu próprio corte para melhor estigmatizar a ingenuidade arcaica dos outros. É notável que o pensamento de Deleuze não tenha nunca adotado esta postura, e deixa por consequência muito mais livres os seus leitores".

John Rajchman — Professor da Duke University (EUA)

"O pensamento de Deleuze é múltiplo, leva a várias direções e é útil de muitas maneiras. Que ele seja assim, faz parte da 'imagem do pensamento' de Deleuze. Ele elaborou uma idéia do pensamento como uma construção incompleta, ligada a novas circunstâncias com um tipo peculiar de consistência, um "plano de imanência". Talvez esta mesma imagem seja o mais importante para nós na virada do século. Penso que estamos hoje em uma nova situação "geofilosófica", situação à qual a imagem de Deleuze da filosofia como viagem e geografia é particularmente aplicável. Uma exigência que ressurge para o tipo de viajante que adota o mote de Proust que Deleuze admirava: o verdadeiro sonhador é o que sai para verificar algo".

Eric Alliez — Colégio Internacional de Estudos Filosóficos Transdiciplinares

"A afirmação da possibilidade e da necessidade puras da filosofia enquanto tal. Deleuze firma com efeito este momento em que a filosofia tenta excluir de uma vez por todas todos os princípios transcendentes que ela pôde encontrar na sua história para se adaptar às Formas de Deus, do Mundo e do Eu (centro, esfera e círculo: 'tripla condição para não poder pensar o acontecimento', segundo as palavras de Foucault): quando a filosofia afirma a imanência como a única condição que lhe permite criar seus conceitos como 'as coisas mesmas, mas coisas em estado livre e selvagem', para além dos predicados antropológicos e das categorias clássicas da representação que durante muito tempo dominaram a idéia mesma de modernidade...

Daí a radicalidade especulativa da ontologia deleuziana determina a possibilidade de um materialismo filosófico enfim revolucionário, em que o conceito não vale senão enquanto permite, que nos permite, liberar a imanência de todos os limites que o capital lhe impunha ainda (ou que ela se impunha a si mesma, sob a forma do capital aparecendo como algo de transcendente)... É portanto toda a filosofia de Deleuze que se inscreve sob esta rubrica 'Capitalismo e Esquizofrenia', pela qual passa a dobra do milênio. Mede-se assim até que ponto é lamentável que Deleuze não tenha podido escrever a obra que ele mesmo concebia como seu último livro e que ele queria intitular 'Grandeza de Marx'... Mas para nos consolarmos, não estamos impedidos de pensar que este Marx virtual, este Marx filosoficamente glabro ao qual Deleuze fazia alusão nas primeiras páginas de 'Diferença e Repetição', talvez investido à maneira de uma casa vazia que nos permita deslocar como um novo começo no corpus deleuziano...".




EM QUE MANIFESTAÇÕES DE PODER SE PODE IDENTIFICAR TRAÇOS DO QUE DELEUZE CARACTERIZOU COMO SENDO A "SOCIEDADE DE CONTROLE"?



matéria publicada na Folha de S. Paulo em 2 de junho de 1996

Michael Hardt

"A sociedade de controle deveria ser identificada antes de mais nada com a atual crise das instituições sociais -a crise da família, a crise da fábrica, a crise da prisão etc. A partir do trabalho de Michel Foucalt, Deleuze delimitou os espaços em que as lógicas disciplinares de cada instituição se aplicavam: na prisão, em que nós estávamos sujeitos a uma lógica disciplinar -que também nos formou; na fábrica, outra lógica disciplinar; na família, outra; e assim por diante. A isto Foucault chamou de sociedade disciplinar. A crise contemporânea das instituições, entretanto, implica que os muros que previamente delimitavam o espaço social destas instituições estão se desintegrando. Neste processo, as lógicas disciplinares não desapareceram, em vez disso, elas se generalizaram por todo o campo social, não mais no espaço limitado das instituições. Por exemplo, a lógica capitalista do regime da fábrica é exercitada não apenas dentro dos muros da fábrica, mas por toda a sociedade (aumentando nas formas de trabalhos precários ou não-integrais). O mesmo processo de generalização tende a ser verdade para a lógica da prisão, a lógica familiar e outros regimes disciplinares. A sociedade de controle é, portanto, melhor entendida não em oposição à sociedade disciplinar, mas como uma disciplina elevada a um poder mais alto, aumentada exponencialmente por meio de novas formas mais móveis e fluidas."

Frederic Jameson

"A crescente estandardização no mundo dos objetos; mas eu também acho que nós precisamos aprender a usar os lados positivos e as forças do Estado."

John Rajchman

"A questão de 'formas de poder' apropriarem-se dos novos conflitos e das novas 'pessoas' nestas sociedade é, ao mesmo tempo, uma questão da própria natureza 'do político'. Foucault pensava que o padrão básico da moderna racionalidade política era aquele do 'warfare-Welfare State'. Há agora, porém, uma crise, uma problematização deste Estado -de sua identidade 'nacional' e da ligação que ele implica entre governo e transformação. Acho que é isso que Deleuze tentava apreender em seu ensaio sobre as 'sociedades de controle'. A idéia de Deleuze era então que nós não podemos mais fazer um 'mapa disciplinar' nem, portanto, uma solução na linha do 'Welfare' para 'aqueles muito pobres para contrair dívidas, muito numerosos para serem assimilados', que são a marca vergonhosa daquilo em que nossas agradáveis sociedades de informação global estão se transformando. Nós não sabemos o que fazer com 'a nova pobreza', nem com os tipos de violência que ela provoca. A velha solução do 'Welfare State' vem em resposta para novos movimentos, novas batalhas. Talvez o que nós precisemos atualmente seja reinventar tal 'movimento' em formas apropriadas a uma era marcada pelas 'mesquinhas' info-sociedades globais, das quais Deleuze começou a analisar os tipos de controle.

Eric Alliez

"A análise que Deleuze propõe da passagem das 'sociedades disciplinares' para as 'sociedades de controle' visa trazer à luz as formas que adquirem a substituição acelerada de um capitalismo de circulação e de comunicação para o capitalismo de produção centrada na exploração apenas do trabalho industrial assalariado (a fábrica era o paradigma dos meios de confinamento). As mutações tecnológicas da idade da informatização planetária são assim relacionadas a uma mutação do capitalismo (um hipercapitalismo de serviços) que não poderia se servir de outro discurso de legitimação senão daquele, puramente horizontal, do mercado (do neoliberalismo esclarecido ao anarco-capitalismo iluminado: o da Internet...), de outra prática de dominação senão aquela, puramente imanente, do controle social por um marketing universal em variação e modulação contínuas (com os 3 M comandando a suposta Nova Ordem Internacional: Monetária, Midiática e Militar). O que se coloca então em escala planetária é um regime de empresa do qual seríamos todos, a um título ou outro, gerentes em interação constante... Regime essencialmente precário, pois se concordará em pensar que o reino conjugado do cinismo e do infantilismo -estas duas características do discurso da pós-modernidade- não saberiam em caso algum esgotar o poder constituidor das novas formas de conexão entre saber e produção social."

BENTO PRADO JR ANALISA DELEUZE



Entrevista a Cássio S. Carlos, Folha de S. Paulo, 2 de junho de 1996

O filósofo Bento Prado Jr., professor da Universidade de São Carlos (SP), compartilha de longa data com Gilles Deleuze o interesse pela obra do francês Henri Bergson. Em sua tese de livre-docência na USP, defendida em 1964 e publicada em 1989 com o título "Presença e Campo Transcendental - Consciência e Negatividade na Filosofia de Bergson", Prado Jr. examinava a tentativa de superação, pela metafísica vitalista de Bergson, do dualismo entre sujeito e objeto. Dois anos depois, Deleuze publicaria sua análise da obra bergsoniana, em vários pontos coincidente com a tese de Prado Jr. Um novo encontro entre os dois pensadores acontecerá na palestra programada para os "Encontros Internacionais Gilles Deleuze". Prado Jr. examinará aspectos do autor de "Mil Platôs" na conferência intitulada "Deleuze: da História da Filosofia à Filosofia". Em entrevista por escrito à Folha, Prado Jr. analisa em detalhe o projeto filosófico de Deleuze e avalia os significados de sua obra. (Cássio Starling Carlos)

 

Folha - Para Foucault, "um dia, talvez, o século será deleuziano". Que lugar Deleuze ocupa na filosofia do século 20 e que lugar ele deveria ocupar na filosofia futura?



 

Bento Prado Jr. - É cedo ainda para decidir sobre o lugar de Deleuze na filosofia do século 20. Para assim situar um contemporâneo nosso, seria preciso que sobrevoássemos nosso tempo e a nós mesmos. "A fortiori" é rigorosamente impossível antecipar o balanço que o século 21 fará do nosso (Bergson, numa entrevista, recusou-se a responder a alguém que lhe perguntava quais seriam os traços essenciais do teatro do futuro -e acrescentou que se pudesse antecipá-los faria esse teatro, que se tornaria presente; do mesmo modo, se eu pudesse antecipar a perspectiva da filosofia do século 21, eu a escreveria, trazendo-a para o século 20). De qualquer modo, algo pode ser dito: a obra de Deleuze percorre a contracorrente o movimento dominante da filosofia na segunda metade de nosso século, que se caracteriza pela tecnificação crescente de seus "métodos" e pela correspondente evaporação de seu assunto real: como o Deus de Aristóteles, essa filosofia "non curat sublunaria". Toda sua obra, mesmo os livros consagrados de história da filosofia, visa, em última instância, a clarificação de nossa experiência do mundo contemporâneo -política, ciência, arte. Tudo isso guiado pela intenção de detectar a lógica que comanda -no limite, o capital- o que se dá, nessa experiência, como opacidade e mutilação. A célebre frase de Foucault -foi ele mesmo que o declarou- deve ser entendida "cum grano salis": mais do que uma "boutade", uma provocação contra os inimigos dessa concepção desmistificadora da filosofia que partilhava com seu amigo Deleuze.

 

Folha - O sr. é autor de um trabalho sobre Bergson, "Presença e Campo Transcendental". Como avalia a apropriação que Deleuze faz da obra bergsoniana?



 

Prado Jr. - Antes de apropriar-se da filosofia de Bergson, Deleuze escreveu alguns ensaios e um livro sobre Bergson como historiador da filosofia (embora seja preciso nuançar, como faremos logo adiante), que seguramente estão entre os mais notáveis (elite da elite) da enorme bibliografia consagrada ao autor de "Matéria e Memória".

 

Devo dizer que meu próprio livro deve enormemente ao pequeno ensaio de Deleuze "La Conception de la Différence Chez Bergson", de 1956. E acrescento que, se Deleuze tivesse publicado seu "Le Bergsonisme" em 1964 e não em 1966, eu teria perdido o assunto de minha tese. Mas, o que importa é que, fornecendo uma interpretação inspirada e rigorosa da filosofia de Bergson, Deleuze a articula com outras filosofias (Nietzsche, William James, Whitehead, Hume...), montando um dispositivo de iluminação mútua e cruzada em rede, criando assim o campo de uma nova iniciativa de pensamento. História da filosofia e filosofia se entrecruzam, a ponto de se tornarem indiscerníveis. Respondendo literalmente a pergunta, essa apropriação é "legítima" não só porque enriquece aquele que se apropria, mas também porque libera a obra apropriada de leituras viesadas ou pobres, reabrindo os canais para sua compreensão imanente.



 

Folha - O que significa a exigência deleuziana de pensar o mundo sob a lógica da mudança, do devir?

 

Prado Jr. - Como Bergson (por exemplo, no último capítulo de "A Evolução Criadora"), Deleuze vê na história da filosofia o desenvolvimento de uma mesma idéia da filosofia, subordinada aos princípios da identidade ou da representação soberana, rompida apenas, segundo ele, em momentos excepcionais (materialismo antigo, estoicismo, Espinosa, Hume, Nietzsche...). O que há de comum a toda tradição da filosofia é a cegueira para a irredutibilidade do sensível ao lógico ou ao conceitual (que não pode reabsorvê-lo sem resto) para a singularidade do Acontecimento, que não pode ser antecipado, re-conhecido ou (p)re-representado, que constitui o Ser mesmo do Devir.



 

Nessa idéia, convergem a idéia bergsoniana de heterogeneidade entre as duas multiplicidades (quantitativa e qualitativa) e a idéia humeana da imaginação como solo do espírito, caos que precede a normalização e a fixação dos princípios que o transformam em natureza humana. Essas duas formas radicais de empirismo (bergsoniana e humeana) levam Deleuze a uma remodelação da "Estética Transcendental" que libera o sensível da sua unificação conceitual ou intuitivo-formal, desligando-a da "Analítica Transcendental", para ligá-la diretamente à "Crítica da Faculdade de Julgar". O que se exibe assim é o sensível sem conceito, dispersão caótica ou Devir enlouquecido. O Devir não é antecipável, domesticável na recognição do conceito e passa a ser o verdadeiro signo do Ser. Só a idéia de Devir pode devolver, com sua rebeldia à representação, a espessura ou a dimensão do Ser -ou do Cosmos sobre fundo de Caos.

 

Folha - Qual a importância da crítica deleuziana à subjetividade como fundamento?



 

Prado Jr. - A crítica deleuziana à subjetividade como fundamento é menos uma originalidade de sua filosofia do que um ponto pacífico de toda reflexão contemporânea de vocação anti-fenomenológica, da filosofia analítica aos famosos "desconstrucionismos", passando por todos neo-pragmatismos (o naturalista, norte-americano, e o transcendental, alemão) e por todos os estruturalismos.

 

O que a distingue, talvez, é ver no sujeito fundante (cartesiano, kantiano, husserliano e mesmo hegeliano -conforme Gérard Lebrun, em "O Avesso da Dialética", Companhia das Letras, págs. 254-257) um sujeito essencialmente representativo e submetido ao regime da identidade, "arquê" unificadora e síntese prévia da experiência, capaz de exorcizar toda forma de diferença rebelde.



 

Trata-se de inverter a linha do pensamento, para levá-la para algo como um campo prévio, pré-subjetivo e pré-objetivo, donde constituir tanto sujeito como objeto. Contra a Filosofia do Sujeito, retomar o movimento da reflexão de Hume e de Bergson (a imaginação de Hume, entendida como coleção anônima -não sistema- de dados ou idéias, como conjunto sem estrutura ou centro, "coleção sem álbum, peça sem teatro, ou fluxo de percepções"- ou o campo das imagens do primeiro capítulo de "Matéria e Memória", de Bergson, neutro epistemologicamente, onde ainda não se separaram o para-si e o em-si), de Sartre (o Sartre de "La Transcendence de l'Ego", que projeta o ego para fora da consciência, definindo-o como tão transcendente quanto uma cadeira ou um pedregulho), de William James (o do "stream of thought" dos "Principles", que lamentava não poder dizer, como seria necessário, em inglês, "it thinks", como se diz "it rains", já que a gramática do enunciado "I think" cria a ilusão da substancialidade do cogito). Não era já Nietzsche que via na identidade do cogito ou do sujeito fundador um efeito, apenas, de uma ilusão gramatical?

 

Folha - Que lugar esta crítica ocupa na formulação de uma ética e de uma política?



 

Prado Jr. - No campo da ética e da política, criticar o sujeito auto-fundante (a autonomia moral, por exemplo, no sentido kantiano) significa denunciar a heteronomia por sob a aparência da autonomia. Mais uma vez é Nietzsche a chave (ou o principal instrumento) da operação deleuziana.

 

No fundo, autonomia seria uma forma sublimada da heteronomia ou de interiorização de um poder (Lei ou Senhor) externo ou transcendente. Do ponto de vista político, significa, talvez, a mais perfeita expressão do esquerdismo na sua vertente anarquista. E poderia uma filosofia, cuja vocação essencial é a de instaurar uma metafísica "anarcôntica", exprimir-se politicamente de maneira diferente?



 

As críticas endereçadas à política de Deleuze são muitas e diferentes. Alguns nela vêem, a despeito da alergia deleuziana pela dialética, o ressurgimento, à revelia do autor, da fraseologia dos jovens hegelianos de esquerda (Max Stirner, por exemplo). Outros, mais cruéis, nela vêem uma versão dramatizada e descabelada das posições radicais, mas muito bem comportadas (mais éticas que políticas), de um Alain: o indivíduo ou o cidadão contra os poderes.

 

Crítico particularmente duro, Vincent Descombes aponta sobretudo para o que seria o pseudo-marxismo de Deleuze (que, todavia, em "Conversações", reafirma seu "marxismo"), já que, depois de descrever os efeitos destrutivos do capitalismo "...ele envia polidamente a luta de classes para o museu" (em "Le Même et l'Autre", Ed. de Minuit, pág. 208).



 

Não me cabe desempenhar o papel de juiz, entre os acusadores e os advogados de defesa. Mas posso lembrar, pelo menos, que o que há de mais vivo, hoje, no marxismo parece também ter remetido ao museu, pelo menos, a idéia da organização da luta de classes, com a reconhecida falência da idéia do proletariado como classe universal. E, se não estou completamente enganado, Deleuze não estaria assim, hoje, em tão má companhia.

 

Folha - Quais as implicações da teoria das multiplicidades e do conceito de virtual para a reformulação dos conceitos de conhecimento e de verdade?



 

Prado Jr. - Os conceitos das multiplicidades (sublinhemos o plural) e de virtualidade são essenciais para evitar dois escolhos em que o pensamento pode encalhar, segundo Deleuze. Ou duas concepções aparentemente rivais da filosofia, mas que partilham uma mesma epistemologia e uma mesma ontologia, já que fazem do conhecimento um ponto terminal em que o pensamento atinge seu repouso final, sem resto, na sua coincidência com um objeto fixo desde sempre, que sempre esperou, bem comportado e em silêncio, a luz que finalmente o revela tal qual é, idêntico a si mesmo. Fenomenologia e filosofia analítica, visão de essência ou circunscrição lógico-funcional de estados-de-coisas parecem partilhar essa espécie de otimismo epistemológico e ontológico, que identifica pensamento e conhecimento.

 

A exposição mais clara das idéias de pensamento, conhecimento e verdade está presente em "O Que É a Filosofia" (Ed. 34), onde a filosofia é definida na tensão que a liga e a separa da ciência e da arte. Não se trata de privilegiar nenhum dos ângulos do triângulo assim definido, mas de mostrar a peculiaridade da relação que cada um deles estabelece com a verdade.



 

O que o livro nos oferece é a compreensão do que há de vertiginoso na filosofia -mas também, e seguindo o mesmo movimento de pensamento, do que há de vertiginoso na ciência e na arte. Filosofia, ciência e arte são planos irredutíveis, mas podem ser explorados segundo uma mesma estratégia; às instâncias da instauração filosófica, corresponderão instâncias simétricas da instauração artística e científica; "plano de imanência da filosofia, plano de composição da arte, plano de referência ou de coordenação da ciência; forma do conceito, força da sensação e figuras estéticas, funções e observadores parciais" (op. cit., pág. 277).

 

Mas é preciso sobretudo marcar o principal alvo polêmico do livro, que é a concepção da filosofia como análise lógica da linguagem. Ao que Deleuze responde com a afirmação do caráter não-proposicional da língua da filosofia. Ao contrário da proposição ou da função proposicional, necessariamente remetida a um estado-de-coisas real ou possível, ou ainda a um referente externo, na linguagem da filosofia o conceito não se reporta a nada que lhe seja exterior, ele se põe a si mesmo e é, assim, auto-referente. O estilo da filosofia é mais da ordem da "poiesis" que da "aletheia". Mais uma vez, assim, distinguimos pensamento de conhecimento. E da verdade se poderá dizer que ela é refratada de modos diferentes nos planos diferentes da ciência, da arte e da filosofia.



 

Folha - O que significa para a filosofia a proposta deleuziana de subversão do paradigma transcendente, dominante deste Platão? Qual a relação desta proposta com a chamada "morte da metafísica"? Em resumo, para Deleuze, o que significa pensar?

 

Prado Jr. - É evidente que significa, antes de mais nada, retomar a iniciativa (e mesmo sua linguagem e seus "personagens conceituais"), mas sobretudo significa transformar Nietzsche em personagem conceitual de sua própria filosofia. Como se Nietzsche fosse também uma espécie de Zaratustra de Deleuze, mobilizado na guerra contra as formas contemporâneas da filosofia da identidade e da repetição. Nietzsche dizia que a morte de Deus não se consumaria enquanto mantivéssemos nossa crença na gramática. Deleuze diria, talvez, que a metafísica da identidade não terá morrido enquanto se acreditar que a análise lógica da linguagem é o método da filosofia.



 

Folha - Deleuze teve em Foucault seu mais destacado interlocutor. Porém, após a morte de Foucault, ele propôs a superação de um dos momentos da analítica do poder formulado no conceito de "sociedade disciplinar". Em seu lugar, sugeriu o novo conceito de "sociedade de controle". Em relação a que formas de poder visíveis, hoje, é pertinente aplicar o conceito deleuziano?

 

Prado Jr. - Esta questão é claramente respondida por Deleuze no "Post-Scriptum" de "Conversações". Não se trata, propriamente, para Deleuze de opor-se a, ou de criticar, o conceito de "sociedades disciplinares". Trata-se de apontar para uma transformação da sociedade contemporânea, apoiando-se justamente nas análises de Foucault e em continuidade com elas. Segundo Foucault o modelo do confinamento, que se esboça nos séculos 18 e 19, em substituição ao que chama de "sociedades de soberania", culmina no início do século 20.



 

A sugestão de Deleuze é de que esse modelo começa a sofrer transformações depois da Segunda Guerra Mundial, quando o confinamento é substituído pelo esquema do controle. Eu cito: "A família é um 'interior' em crise como qualquer outro interior, escolar, profissional etc. Os ministros competentes não cessam de anunciar reformas supostamente necessárias. Reformar a escola, reformar a indústria, o hospital, o Exército, a prisão; mas todos sabem que essas instituições estão condenadas, num prazo mais ou menos longo. Trata-se apenas de gerir sua agonia e ocupar as pessoas, até a instalação das novas forças que se anunciam" (op. cit., pág. 220). Essa idéia de uma sociedade de controle -mas agora sou eu quem pergunta- não seria ela parecida com a idéia frankfurtiana da sociedade administrada?

 

Folha - O pensamento de Deleuze é frequentemente criticado por seus opositores como irracionalista e, às vezes, rotulado de pós-modernista. É preciso defender Deleuze destas acusações?



 

Prado Jr. - Irracionalismo é um pseudo-conceito. Pertence mais à linguagem da injúria do que da análise. Que conteúdo poderia ter sem uma prévia definição de Razão? Como há tantos conceitos de Razão quantas filosofias há, dir-se-ia que irracionalismo é a filosofia do outro. Ou, pastichando uma frase de Émile Bréhier, que na ocasião ponderava as acusações de "libertinagem", poderíamos dizer: "On est toujours l'irrationaliste de quelq'un" (Sempre se é o irracionalista de alguém). Não, não é necessário defender Deleuze dessa acusação, à qual certamente não lhe ocorreria dar resposta. Basta sorrir. Quanto à questão do "pós-modernismo", a atribuição -até onde posso perceber- cabe mais a Lyotard (que a transformou em cavalo de batalha em sua polêmica com os alemães) do que a Deleuze.


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