Departamento de estudos especializados



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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL

FACULDADE DE EDUCAÇÃO

DEPARTAMENTO DE ESTUDOS ESPECIALIZADOS

PESQUISA EM EDUCAÇÃO (EDU03080)



Aluna: Caroline Gonçalves Chaves
Título do Projeto:

A relação intergeracional e transcultural na contação de histórias: promovendo um novo olhar para a questão do envelhecimento.
Introdução:

A partir de uma perspectiva transcultural, a presente pesquisa intenciona (re)conhecer o idoso (e principalmente o idoso contador de histórias), repensando seu valor para a sociedade. As narrativas intergeracionais sempre existiram em diferentes culturas e se mostram como uma possibilidade de abordagem positiva do tema envelhecimento. Admitidos os distintos papéis assumidos pelo idoso nas diversas culturas, o problema de pesquisa que norteia este trabalho versa, portanto, acerca da ocorrência (ou não) de eventos de narrativas intergeracionais em escolas, hospitais e instituições de cuidado no município de Porto Alegre. Pretende-se reafirmar a relação idoso-criança mediada pela narrativa como uma experiência enriquecedora para ambas as gerações.



Idoso quem?

É perceptível que a população mundial está envelhecendo. Espera-se que até 2050 o número de idosos quadruplique e haverá, pela primeira vez na história, mais pessoas acima dos sessenta anos do que menores de quinze. Tal projeção incita-nos a refletir sobre as mais diversas questões que permeiam o envelhecimento: Quem é o idoso? Que posição ele ocupa em nossa sociedade e nas demais? Que ideias transmitimos a respeito da velhice e como repensar estratégias educacionais para sua abordagem positiva nos espaços escolares?

Contextualizando historicamente, o envelhecimento populacional mundial é um fenômeno relativamente novo, iniciando a partir do século XVIII. Na primeira fase de transição demográfica, anterior a esse período, os altos índices de natalidade e de mortalidade mantinham os níveis populacionais estáveis e a baixa expectativa de vida. A regressão das taxas de mortalidade devido a melhores condições de saúde ocasionou um aumento na esperança média de vida, que aliada às decrescentes taxas de natalidade, intensificou o envelhecimento. No Brasil, os níveis de mortalidade da população idosa são os com maior queda (Camarano, 2006). O informe “Perfil dos Idosos Responsáveis pelos Domicílios no Brasil”, publicado em 2000 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revela que a taxa nacional de população “envelhecida” ativa é de 8,85%, a mais elevada até então (em 1975, o percentual era de aproximadamente 6%) e a estimativa é de que este valor atinja a média dos 14% em 2020.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) define as pessoas idosas como aquelas com idade superior a sessenta ou sessenta e cinco anos, em países em desenvolvimento e desenvolvidos, respectivamente. Contudo, a dificuldade em categorizar a velhice é grande devido à subjetividade desse conceito. Envelhecer pode significar, de um modo mais objetivo, aumentar cronologicamente o número de anos vividos; ou, ainda, um processo biológico natural e inerente a todos os seres vivos (cujas células nascem, crescem, se multiplicam, diminuem suas atividades e, por fim, morrem), definindo o conceito de senescência. Para alguns, o estereótipo do idoso está diretamente ligado à senilidade, ou seja, às limitações e às patologias que muitos experienciam nessa fase da vida; para outros, envelhecer é, ao contrário, adquirir sabedoria, maturidade e experiência. Todas as proposições não abrangem a amplitude do envelhecimento, o qual está arraigado por fatores ambientais, psicológicos, sociais e culturais. Para Peixoto (2000, p.293)


Não existe uma velhice mas maneiras singulares de envelhecer. Cada velhice é conseqüência de uma história de vida que, à medida que o tempo passa, vai acrescentando processos de desenvolvimento individual e da socialização junto ao grupo em que se insere: internalizando normas, regras, valores, cultura.
Na realidade, como afirma o psicanalista Jack Messy em seu livro homônimo, a pessoa idosa não existe; o que existe é um “ser envelhecendo” - e todos nós estamos invariavelmente submetidos a essa trajetória.
O papel do idoso nas diferentes culturas

De que maneira enxergamos o idoso e qual papel delegamos a ele socialmente? A que características a palavra “velho” nos remete? É comum associarmos o termo “velho” a algo antigo, desgastado pelo tempo, ineficiente ou que necessita ser substituído. Alguns podem manter uma visão romântica da velhice, ilustrada por “vovós” e “vovôs” frágeis e ociosos. Outros podem insistir em visualizar a velhice através de uma ótica exclusivamente desagradável, prevendo aos idosos papéis reduzidos ou pouco significantes. Embora a velhice possa conservar algumas dessas representações, um progressivo despertar de consciência tem impulsionado a organização de práticas e espaços educacionais que considerem o envelhecimento de maneira positiva. Os próprios sujeitos dessa realidade tendem a não mais se contentarem inertes, dentro de suas possibilidades. Muitos idosos estão assumindo a responsabilidade de criar e educar seus netos e bisnetos, principalmente quando ocorre a falta de uma geração (morte precoce dos pais) ou quando existe a necessidade de ambos trabalharem fora de casa. Cresce também o número de idosos chefiando a família, como principais provedores de recursos.

A antropologia e os estudos transculturais oferecem contribuições relevantes à compreensão da velhice e reforçam aquilo que já sabíamos: o idoso recebe tratamentos diferentes nas diferentes culturas. Nas sociedades não ocidentais, por exemplo, o idoso é muito honrado por ser o detentor dos conhecimentos, princípios e crenças que os mais jovens ainda não possuem. No Japão, país em que 10% da população tem mais de setenta e cinco anos, comemora-se festivamente o dia quinze de setembro como “Dia do Respeito ao Idoso” e o devotamento filial é um valor perpetuado entre as gerações. Do mesmo modo, na sociedade africana, cabe aos mais velhos a tarefa de transmitir a seu povo os valores da cultura tradicional aprendidos com seus antepassados. Na Costa do Marfim, o chefe da aldeia é sempre um ancião, ao qual é delegado o comando das reuniões, festas, funerais e demais celebrações de sua aldeia. Os Bambara, do Mali, consideram a velhice uma conquista, enriquecida pelo acúmulo de conhecimentos adquiridos ao longo da vida. Os idosos conservam uma posição de destaque e a submissão dos mais jovens nesse grupo, pois são considerados como os mais próximos dos ancestrais. Os povos Kimbundu, da Angola, reconhecem o velho como um mestre responsável, conhecedor das leis da natureza e de métodos de cura espirituais e medicinais. Os avós Kimbundu são chamados de “pai grande” ou “mãe grande” e têm muito apego por seus netos, aos quais ensinam boas maneiras e regras de convivência. Também a circuncisão dos rapazes, bem como sua educação moral e social, é liderada pelo ancião da aldeia. Já para os Inuit (esquimós), a oportunidade de aprendizado com os mais velhos se dá pela escuta silenciosa das conversas e histórias contadas por eles (Rogoff, 2003).

No Brasil, a maior parte das sociedades indígenas também conserva seus costumes e tradições através da oralidade transmitida pelos mais velhos. Há exemplos da importância do idoso para a preservação das culturas em aldeias da Amazônia e do Mato Grosso do Sul, onde o cacique Kaiová Paulito Aquino, que afirma ter mais de cem anos, é a única pessoa a realizar os rituais de perfuração dos lábios dos jovens. Entre os Baniwa, do Alto Rio Negro, os idosos são os responsáveis por contar as histórias da criação do mundo durante os rituais de passagem de idade. Há relatos de velhos sábios com conhecimentos e poderes sobrenaturais que reuniam uma legião de seguidores. A importância da figura desses sábios está também na organização e reorganização social essencial para a sobrevivência do grupo. No caso dos Kadiwéu, habitantes de uma grande área em Porto Murtinho, na fronteira com o Paraguai, a principal habilidade é a arte da pintura corporal e da cerâmica. Há mais de um século, as práticas de pintura são mantidas pelas mulheres desse grupo, e as artistas mais velhas são as que conservam o maior conhecimento dos símbolos e desenhos tradicionais.

Em nossa sociedade ocidental contemporânea, regida pelo individualismo, o velho que não produz força de trabalho e riqueza perde seu espaço; despe-se da veste de contribuinte ativo para assumir, mesmo que involuntariamente (como no caso das aposentadorias compulsórias), a postura de um “senhor” passivo, inapto e rejeitado.

Sem esconder as faces desagradáveis da senilidade (como a propensão às doenças crônico-degenerativas e a redução das capacidades cognitivas e fisiológicas), é preciso reafirmar que muitas debilitações podem ser contornadas e até mesmo evitadas, dependendo dos recursos preventivos e do modo de vida cultivado pelo indivíduo. A Gerontologia, ciência multidisciplinar que estuda o processo do envelhecimento em suas vastas dimensões, se empenha em desvendar novas possibilidades de desenvolvimento nessa fase da vida, de modo a promover o envelhecer da forma mais saudável e produtiva possível.


O idoso contador de histórias: relações intergeracionais

Uma relação positiva que se pode estabelecer em benefício tanto de idosos quanto de crianças é o estímulo às experiências intergeracionais. A interação de idosos e crianças tem se mostrado muito prazerosa e enriquecedora para ambos. O idoso contador de histórias resgata seu valor ao transmitir, em sua narrativa, conhecimentos a interlocutores interessados e livres de representações sociais pejorativas. Enquanto os adultos se mostram “atarefados demais” para ouvir relatos - por vezes repetitivos - de pessoas mais velhas, as crianças estão mais dispostas e se sentem envolvidas por esse mundo imaginário e criativo das narrações. O contador de histórias sempre existiu ao longo da evolução e persiste em muitas culturas, à exemplo das rodas de conversa familiares e dos “causos” e lendas relatados ao redor de uma fogueira. Embora a tradição do conto tenha sofrido modificações pelo próprio contexto sociocultural que foi modernizado, o contador de histórias contemporâneo surge como profissão vinculada às bibliotecas e espaços culturais (Dornelas, 2008). O idoso é um “narrador em potencial”, por sua facilidade e interesse em relembrar experiências passadas. Através da transmissão oral, ele preserva sua imagem social e perpetua as tradições culturais, que poderão, mais tarde, ser lembradas e retransmitidas.

Os programas intergeracionais, que incitam atividades que aproximem a relação idoso-criança, trazem também benefícios mútuos: confiança e orientação para uns, afetividade e entusiasmo para outros (ou mesmo tudo isso para ambos). Uma experiência interessante foi feita por Saavedra, Ramirez, e Contreras (1997). A relação de idosos institucionalizados que apresentavam sintomas de depressão com crianças afetuosas beneficiou o grupo, que apresentou melhoras no quadro e redução da depressão, afora os laços afetivos que invariavelmente são positivos.
Método de Pesquisa
Para essa investigação, será utilizado o estudo de caso com grupo focal de idosos que trabalhem voluntariamente, a partir de entrevistas mediadas por um gravador.
Referências
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2002). Perfil dos Idosos Responsáveis pelos Domicílios no Brasil. Rio de Janeiro, 2002. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/perfilidoso/default.shtm. Acesso em: 14 nov. 2010.
Camarano, A. A. (2006). Envelhecimento da População Brasileira: uma contribuição demográfica. In: Freitas, E. ET AL (orgs.). Tratado de Geriatria e Gerontologia. 2ª Ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2006, p.88-105.
Peixoto, C. E. (2000). Histórias de mulheres, de envelhecimento e sexualidade. In: G.G. Debert e D.M. Goldstein (orgs.), Políticas do corpo e o curso da vida. São Paulo: Sumaré, 2000.
MESSY, J.(1999). A pessoa idosa não existe - Uma abordagem psicanalítica da velhice. São Paulo: Aleph, 1999
Rogoff, B. (2003). A Natureza Cultural do Desenvolvimento Humano. Porto Alegre: Artmed, 2005, p.262-263.
Saavedra, M., Ramirez, A., & Contreras, C.M. (1997). Entrevistas participativas entre ancianos y niños: una posible alternativa para mejorar el estado afectivo de los ancianos. Acta Psiquiatrica y Psicologica de America Latina, 43(1), 63-66.
Anciãos transmitem cultura indígena. Disponível em: http://www.comciencia.br/reportagens/envelhecimento/env06.htm. Acesso em: 17 nov. 2011.
Brandão, L., Smith V.,Sperb, T.M., Parente, M.A.M.P. (2006). Narrativas Intergeracionais. Psicologia, Reflexão e Crítica. Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-79722006000100014

Acesso em: 26 out. 2011.


Uchôa, E. (2003). Contribuições da antropologia para uma abordagem das questões relativas à saúde do idoso. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 19(3):849-853, mai-jun, 2003
Goldfarb, D. C. (1997). Corpo, tempo e envelhecimento. (Dissertação de Mestrado) – Programa de Psicologia Clínica da PUC-SP.
Dornelas, C. C. (2008). Era uma vez um conto, uma história, um encontro: o resgate da tradição oral. Revista Eletrônica do Instituto de Humanidades Vol. VIII Número XXV abr-jun, 2008. Disponível em: http://www.unigranrio.br/unidades_acad/ihm/graduacao/letras/revista/galleries/downloads/textocamila25.pdf. Acesso em: 2 nov. 2011.
Gusmão, N. M. M (org.). Infância e Velhice – Pesquisa de Ideias.Campinas, SP: Alínea, 2003.


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