Departamento de teologia marcelo rodrigues de oliveira



Baixar 0.62 Mb.
Página11/24
Encontro19.07.2016
Tamanho0.62 Mb.
1   ...   7   8   9   10   11   12   13   14   ...   24

2.4Um breve diagnóstico crítico da Teologia da Prosperidade

Após essa rápida descrição fenomenológica, passa-se a um também breve e talvez ainda mais arriscado diagnóstico. Deseja-se demonstrar que a omissão da Igreja no pastoreio das ovelhas exaustas e aflitas (cf. Mt 9.36) abriu brechas pelas quais a TP penetrou e grassou no meio do rebanho. Além dessa constatação, levanta-se suspeitas quanto à legitimidade da TP como proposta bíblica e cristã, a partir de: a) sua exegese tendenciosa das promessas bíblicas; e, b) sua semelhança doutrinária com as seitas de Nova Era. Por último, discute-se o papel que o sincretismo religioso e cultural brasileiro, somado aos problemas sociais e econômicos crônicos do Brasil, exerceu e favoreceu a proliferação de novas religiões.


2.4.1Uma lacuna na Igreja


Travestida em roupagens capitalistas neoliberais141, a nova teologia, veiculada pelo neopentecostalismo, tanto católico como protestante, desaguou sua mensagem no terreno árido deixado pela Igreja. O espaço encontrado pela TP é exatamente aquele deixado pela omissão eclesiástica e eclesial em não atuar como comunidade de servos (cf. Mt 20.25-28; At 2,42-47), mas se colocar na defensiva para proteger a fé (apologética) e contra-atacar os hereges que ameaçavam a sã doutrina.

Embora não seja esse o foco deste estudo, intui-se que o recuo da Igreja no pastoreio integral das ovelhas (práxis pastoral) para tratar de questões de interesse doutrinal, pode ser levado em conta como um dos motivos que se constituem na condição de possibilidade para a penetração e o desenvolvimento da TP no meio cristão. Ocupada demais com a dogmatização da fé, a Igreja acabou se distanciando das ovelhas perdidas (cf. Mt 15.24), deixando-as em suspenso, em uma espécie de vácuo diante da Pós-modernidade, à mercê de outros semeadores (cf. Mt 13.25). Um vácuo que deveria ser preenchido pela diaconia142 dos servos cristãos, mas que acabou sendo explorado pela TP.

Essa é uma das razões pelas quais as necessidades mais elementares dos vitimados pelas doenças, pelas injustiças, dívidas e vários outros tipos de aflições podem ser, agora, manipuladas por líderes religiosos que penetram143 no meio do rebanho, mantendo as ovelhas aprisionadas a correntes e campanhas intermináveis de libertação espiritual e busca de prosperidade. Estabelece-se, a partir daí, as barganhas com promessas de curas e prosperidade, em troca de dízimos e ofertas.

No entanto, não se pode generalizar ou reduzir essa manifestação religiosa como culpa exclusiva de certo comodismo ou intolerância religiosa cristã. Em resposta às demandas de sofrimento do mundo na modernidade, tanto na vertente cristã católica como na protestante houve iniciativas e movimentos que buscaram oferecer alternativas querigmáticas, evangélicas e próprias do Reino de Deus.

Na vertente cristã católica, o Concílio Vaticano II pode ser visto como uma tentativa de se alinhar à sua verdadeira vocação eclesial e evangélica. O Concílio representou um despertar para que a Igreja Católica se percebesse como Povo de Deus e, como missão no meio do mundo, voltasse para as ovelhas perdidas. Na América Latina, Medellín, Puebla, e Santo Domingo foram marcos de transformação eclesial, buscando viver a radicalidade do testemunho evangélico144.

À guisa de exemplo, as Comunidades Eclesiais de Base (CEB), movimento de transformação intra e extra-eclesial, propunham-se como um novo modo de ser igreja, e procuravam resgatar alguns princípios da Igreja neotestamentária. Questionavam a Igreja tradicional (institucionalizada) com seu ministério hierárquico e propunham o sacerdócio comum dos cristãos. Partiam do princípio de que todos os batizados “podem assumir ministérios ordenados na Igreja de Jesus”145.

Reconhecendo o distanciamento, a Igreja (instituição) ainda procura resgatar o prejuízo causado por esse enrijecimento. Hoje se assiste a um esforço genuíno de ação e de abertura ao debate para não somente reaver as ovelhas que debandaram para outros apriscos como para viver de forma integral e integrada, eclesiástica e eclesiologicamente, a vocação cristã, apostólica e católica.

No meio protestante, tanto sob a égide do protestantismo histórico como do evangelical, percebe-se um marco significativo no despertamento da Igreja, com respeito à sua missão integral: o Pacto de Lausanne (1974, Suíça)146. Numa pequena cidade da Europa, reuniram-se 2.700 líderes evangélicos, de 150 países com suas diferentes histórias, experiências e práticas147. Daquele encontro originou-se um documento que marcou positivamente parcela significativa de comunidades religiosas de todo o mundo. À Igreja proclamou-se sua vocação de viver plenamente o Evangelho, de anunciá-lo como dever cristão na evangelização juntamente com o envolvimento sócio-político148.

Lausanne foi um marco no desenvolvimento do evangelicalismo no século passado de tal forma que pode mesmo ser estabelecido em paralelo ao Concílio Vaticano II, no sentido de que o Congresso de Lausanne está para o evangelicalismo assim como o Vaticano II está para a Igreja Católica Romana.

No documento resultante do Congresso, o Pacto de Lausanne, são tratados temas que dizem respeito à antropologia, eclesiologia e soteriologia, e que, dentre outros, receberam novo enfoque: a) no que tange à antropologia149, o pacto destaca que a ação missionária e pastoral da Igreja afeta a pessoa humana em todas as sua dimensões: biológica, psicológica, espiritual e social. “a pessoa inteira em seu contexto, o homem e suas circunstâncias”; b) no que tange à eclesiologia, declara que “a Igreja é antes a comunidade do povo de Deus do que uma instituição e não pode ser identificada com qualquer cultura em particular, nem com qualquer sistema social ou político, nem com ideologias humanas” 150 e que quanto à Missio Dei, sob o imperativo de levar “o evangelho todo para o homem todo, para todos os homens”, de acordo com o consenso de Lausanne, a Igreja é a comunidade da Graça, comunidade terapêutica; agência de transformação social; sinal histórico do reino de Deus; e, c) no que tange à soteriologia, aponta que a redenção pessoal é apenas uma parcela do que o Segundo Testamento chama de salvação: o novo céu e a nova terra e que “A mensagem da salvação implica também uma mensagem de juízo sobre toda forma de alienação, de opressão e de discriminação, e não devemos ter medo de denunciar o mal e a injustiça onde quer que existam”151.

Está claro que tanto a Igreja católica quanto a protestante despertaram e se entenderam como Povo de Deus, e tentaram e tentam convergir e converter para a compreensão de sua vocação na Modernidade. No entanto, intui-se que esse processo necessariamente histórico e gradual abriu espaço para que as propostas da TP se alojassem, tanto no meio cristão como no não cristão. Os prejuízos decorrentes do seu distanciamento das ovelhas ou da sua omissão na missão integral da Igreja ainda serão sentidos por longo tempo.

2.4.2Uma exegese tendenciosa das Escrituras Sagradas


O grande trunfo da TP são as bênçãos e promessas contidas nas Escrituras. Passagens como Dt 28.1-14, que relacionam as bênçãos destinadas aos que são fiéis e obedientes a Deus, ou aquelas destinadas a Abraão (cf. Gn 12.1-9) são tomadas isoladamente do seu contexto e endereçadas a qualquer pessoa disposta a barganhá-las em troca de dízimos, ofertas ou votos. A fé e a obediência ao Deus Trino foram substituídas pela barganha como meio de alcançar graça.

Na maioria das mensagens pregadas pelos líderes da TP sobra criatividade para inventarem promessas em passagens bíblicas que não as trazem de forma explícita. Acham-se até no direito de fazer cobranças a Deus. Em seu livro Nos Passos de Jesus, o líder da IURD faz uma interpretação típica de uma dessas exegeses pouco críticas:

Quem tem o direito de provar a Deus, de cobrar dele aquilo que prometeu? O dizimista! Uma das grandes razões por que devemos dar o nosso dízimo é essa. Podemos e estamos no direito de provar a Deus. Ele mesmo nos convida a prová-lo na sua Palavra e tal convite se dá exatamente quando se refere ao dízimo152.

Quando criou a Terra e tudo o que nela há, Deus tirou um dia para o descanso: esse dia foi o dízimo. Quando entregou a Adão e Eva o Jardim do Éden, deu-lhe posse de tudo, menos da árvore do conhecimento. Aquela árvore representava o dízimo153!

A Bíblia é uma coletânea, uma biblioteca, que contém muitas histórias de consolo, muitas promessas que alimentam a esperança de vida e para a vida. Os textos sagrados são muito mais do que uma narrativa que relata como Deus e os seres humanos estão envolvidos num drama espetacular de salvação; muito mais que um código de leis e obrigações que devem ser observados pelos servos de Yahweh; e, certamente, muito mais do que a biografia de Jesus e o manual de como ser igreja. A Bíblia é, antes de tudo, testemunho e consolo para um mundo sofrido. Por isso está repleta de promessas, âncoras da esperança do fiel: “E, agora, estou sendo julgado por causa da esperança da promessa que por Deus foi feita a nossos pais” (At 26.6). No seu ambiente histórico e cultural oriental de origem, bênçãos e promessas estão intimamente ligadas à prosperidade física, emocional e espiritual. Na mentalidade hebraica efetivamente não há como separar uma coisa da outra.

Portanto, não há nada de errado com a prosperidade quando o chamado cristão para o serviço é levado a sério e a ética cristã é ensinada com responsabilidade teológica e social. O problema surge quando o conceito é distorcido e se perde de seu sentido de misericórdia, justiça e juízo, abstraída do seu Sitz im Leben para ser aplicada em forma de pregação e submetida a barganhas, como geralmente acontece nas igrejas neopentescostais.

Vale, por um momento, entender os sentidos que as Escrituras Sagradas atribuem à prosperidade. O que é prosperidade em termos bíblicos?

Com base no que se discutiu no Capítulo 1, quando se tratou da TR, pode-se inferir que a compreensão do que seja prosperidade se encontra na casuística decorrente da adequação do ser humano à ordem da criação enquanto obra do Criador. Aqui, a prosperidade será compreendida através de duas categorias: a positiva, a condição do justo como resultado da bênção divina, e a negativa, o acúmulo de bens próprio dos ímpios.

Positivamente, a prosperidade, em termos bíblicos, pode ser definida como resultado das bênçãos divinas que alcançam o ser humano no seu todo, tanto no âmbito espiritual como material, no individual como no social, e tem como garantia as promessas de Deus: “Guardai, pois, as palavras desta aliança e cumpri-as, para que prospereis em tudo quanto fizerdes” (Dt 29.9).

São muitos os exemplos de passagens bíblicas que relatam promessas de prosperidade se cumprindo na vida dos justos:



  1. No período patriarcal, em Gênesis, há a novela de José. Vítima do ciúme de seus irmãos, o jovem José foi vendido como escravo aos ismaelitas por vinte ciclos de prata (cf. Gn 37.28). Ainda na condição de escravo, na casa de Potifar, foi injustamente acusado e preso por dois anos (cf. Gn 40). Finalmente liberto, chegou ao posto de governador do Egito (cf. Gn 41). Mesmo na condição de escravo foi reconhecido como homem próspero: “Vendo Potifar que o Senhor era com ele, e que tudo o que ele fazia o Senhor prosperava em suas mãos” (Gn 39.3).

  2. Após o êxodo, na memória da libertação, o quarto discurso de Moisés em Deuteronômio, Deus faz nova aliança com o povo de Israel e diz: “Guardai, pois, as palavras desta aliança e cumpri-as, para que prospereis em tudo quanto fizerdes” (Dt 29.9).

  3. No período monárquico, Davi, impedido de construir o Templo do Senhor (cf. 1 Cr 22. 8), faz os preparativos para que Salomão o edifique, e lhe dá o segredo para alcançar a prosperidade: “Então prosperarás, se cuidares em cumprir os estatutos e os juízos, que o Senhor ordenou a Moisés acerca de Israel; sê forte e corajoso, não temas, não te desalentes” (1 Cr 22.13).

  4. Alguns reis de Judá tiveram seus governos marcados pela prosperidade, que o Deuteronomista atribui à prática da ortodoxia religiosa. São eles, Uzias e Ezequias: “Propôs-se buscar a Deus nos dias de Zacarias, que era entendido nas visões de Deus; nos dias em que buscou ao Senhor, Deus o fez prosperar” (2 Cr 26.5). “Em toda a obra que começou no serviço da casa de Deus, na lei e nos mandamentos, para buscar a seu Deus, de todo o coração o fez, e prosperou” (2 Cr 31.21).

  5. O Salmo 1 propõe um contraste entre os justos e os ímpios. Declara que o justo prospera, e “é como árvore plantada junto a corrente de águas, que, no devido tempo, dá o seu fruto, e cuja folhagem não murcha; e tudo quanto ele faz será bem sucedido” (Sl 1.3); enquanto que o ímpio é “como a palha que o vento dispersa” (cf. v. 4).

Negativamente, a prosperidade, em termos bíblicos, pode ser definida como enriquecimento ou bem-estar dos ímpios que, mesmo prósperos, negam a Deus: “As tendas dos tiranos gozam paz, e os que provocam a Deus estão seguros; têm o punho por seu Deus” (Jó 12.6). A prosperidade dos que não buscam a Deus é um tema desenvolvido também nas Escrituras, algumas vezes em lamentos, outras em discursos que questionam a Deus:

  1. Os Salmos 37 e 73 antecipam a grande questão levantada nos discursos de Jó e seus amigos: o sofrimento do justo e a prosperidade dos ímpios (cf. Jó 21) - “Vi o ímpio prepotente a expandir-se qual cedro no Líbano” (Sl 37.35). “Pois eu invejava os arrogantes, ao ver a prosperidade dos perversos. Eis que são estes os ímpios; e sempre tranqüilos, aumentam suas riquezas” (Sl 73. 3,12).

  2. O profeta Jeremias denuncia os pecados de Jerusalém e de Judá, povo de coração rebelde e contumaz (cf. 5. 23), mas que apesar disso, “engordam, tornam-se nédios e ultrapassam até os feitos dos malignos; não defendem a causa dos órfãos, para que prospere; nem julgam o direito dos necessitados” (Jr 5.28). Jeremias não suporta contemplar a prosperidade do perverso e faz a sua queixa: “Justo és, ó Senhor, quando entro contigo num pleito; contudo falarei contigo dos teus juízos. Por que prospera o caminho dos perversos e vivem em paz todos os que procedem perfidamente” (Jr 12.1)?

Assim, pode-se intuir que a prosperidade nem sempre é sinal da aprovação divina e do caminho de Deus, e pode afastar o homem de Deus.

O risco de se esquecer de Deus quando na abundância e na prosperidade foi o motivo de uma das advertências deuteronomistas:

Havendo-te, pois, o Senhor teu Deus introduzido na terra, que sob juramento, prometeu a teus pais, Abraão, Isaque e Jacó, te daria, grandes e boas cidades, que tu não edificastes; e casas cheias de tudo o que é bom, casas que não enchestes; e poços abertos, que não abriste; vinhais e olivais, que não plantaste; e quando comeres e te fartares, guarda-te, para que não esqueças o Senhor, que te tirou da terra do Egito, da casa da servidão (Dt 6.10-12).

O redator deuteronomista perceberá que tal procedimento é corrupto e não respeita aquele que abençoa e faz prosperar: “Mas, engordando-se o meu amado deu coices; engordou-se, engrossou-se, ficou nédio, desprezou a Rocha da sua salvação” (Dt 32.15).

A literatura sapiencial compreenderá que aqueles que se iludem com o bem-estar e não dão ouvidos a Deus, são loucos: “Os néscios são mortos em seu desvio, aos loucos a sua impressão de bem-estar” (Pr 1.32). Para não correrem o risco de ser embriagado pelo glamour da riqueza, ou ser tomado pelo desespero de passar necessidades, os sábios que colecionaram os Provérbios pedem a Deus: “(...) dá-me o pão que me for necessário; para não suceder que, estando eu farto, te negue e diga: quem é o Senhor? Ou que, empobrecendo, não venha a furtar, e profane o nome de Deus” (Pr 30.9).

Sendo a prosperidade, em alguns casos, sinal de bênção na vida dos justos, e, em outros, opulência na vida dos ímpios e tentação para aqueles que não têm o coração firme, conclui-se que não é possível absolutizá-la como aprovação e marca da bênção divina em todas e quaisquer situações. Nesse caso, é melhor viver de acordo com o que é priorizado no discurso evangélico: buscar em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça, e as demais coisas, ou seja, tudo o que for necessário para a vida, serão acrescentadas (cf. Mt 6.33).

No entanto, a mensagem das igrejas neopentecostais não segue essa lógica. Passa por outro caminho – o da absolutização e posse das promessas como evidência inequívoca do favor de Deus. Primeiramente as outras coisas (aliás, todas as coisas que se deseja) são acrescentadas, depois o reino de Deus.

2.4.3Teologia da Prosperidade e Nova Era


Intui-se aqui também certa ligação entre a TP e as correntes filosófico-religiosas que denominam como Nova Era154. Entre os pontos comuns estão as generalizações de idéias e procedimentos, quase sempre baseadas em experiências pessoais e isoladas; a forma inclusiva do discurso e a tendência à continuidade inter-religiosa; a divinização do ser humano e seu empoderamento pela palavra falada e pela mentalização; a relativização dos valores morais e éticos; e a ênfase na estrutura emocional e na ação do sobrenatural.

Nova Era, stricto sensu, é o título atribuído a um movimento que também surgiu no início da década de setenta do século passado, especialmente nos Estados Unidos da América, com ramificações e associações internacionais:

Não é uma denominação religiosa, e, sim, certo tipo de consenso acerca de certas crenças e atitudes fundamentais, que não respeitam as fronteiras das crenças e denominações religiosas. Quando esse tipo de unificações de idéias começou, pôde encontrar uma numerosa e receptiva audiência, espalhada por muitas seitas religiosas que tinham começado a surgir em cena desde os fins do século XIX. Além disso, muitos asiáticos e pessoas de países orientais começaram a imigrar para os Estados Unidos da América; e, visto que algumas idéias da Nova Era podem ser reputadas como “orientais”, isso aumentou o número de elementos simpáticos. Pode-se dizer que muitas seitas participam das idéias da Nova Era, o que significa que há uma espécie de vínculo comum entre toda essa gente155.

Por isso, fala-se mais em movimento da Nova Era, pois não consiste em uma única seita, e é difícil abstrair do movimento qualquer coisa como uma declaração doutrinária. Contudo, pode-se dizer que a

Nova Era é uma forma globalizada de religião e de espiritualidade [...]. Em matéria de livros sagrados, aceita todos. Em termos de “Salvador” é totalmente inclusiva: Jesus Cristo, Maomé, Buda, Hare-Krishna e outros são todos considerados “salvadores”. Todas as religiões convergem para um só e mesmo ponto. Deus não é distinto da sua criação. Ele é parte da criação [...] está em tudo e tudo é Deus. Homem e mulher são partículas divinizadas. Não temos apenas Deus em nós, somos deuses. Os valores éticos e morais são relativos [...] Não há valores absolutos, teológicos ou éticos. Tudo é relativo156.

A forma e o conteúdo da revelação divina nas Escrituras Sagradas não são considerados como tal e quando o são, são tomados ilegitimamente, apenas para forjar autoridade às crenças ou garantir a continuidade discursiva. Apesar de serem bastante inclusivas, essas crenças não comportam um Deus pessoal e soberano que se auto-revela.


2.4.4Hibridismo brasileiro


Além da influência de pregadores americanos com suas mensagens mescladas de positivismo e prosperidade, decorrentes da adaptação de doutrinas orientais à fé cristã e ao capitalismo neoliberal, a cultura brasileira, por sua vez, com sua tendência forte para o hibridismo religioso157, favoreceu o aparecimento da TP.

O brasileiro é descrito como um povo de identidade miscigenada, fruto do sangue indígena, africano e português, um caldeirão em que se misturaram culturas. Por essa razão, a sociologia da religião identifica a estrutura religiosa brasileira como uma nebulosa, ou seja, mais do que o desenvolvimento de algumas matrizes como o espiritualismo africano, o catolicismo português e os cultos indígenas, há estruturas a meio caminho que se hibridizam num misto de crenças oriundas do culto indígena à natureza, do candomblé e suas divindades, da religiosidade popular com seus rezadores e benzedeiras, resultando naquilo que se poderia chamar de nebulosa religiosa brasileira que certamente preparou terreno para o neopentecostalismo.

A TP foi incorporada por essa nebulosa, numa nova forma de manifestação religiosa, que busca, a cada dia, alcançar as pessoas através da linguagem religiosa que o brasileiro sabe falar – a linguagem da superstição e do misticismo. Muito arraigadas no imaginário brasileiro, algumas expressões de superstição como olho gordo, mau olhado, encosto etc, são freqüentemente usadas, também, pelos neopentecostais. Através dessas expressões, os pregadores da TP diagnosticam os infortúnios da vida como: pobreza, falências, subemprego, acidentes, doenças e outros, como se fossem resultados diretos da ação sobrenatural maligna, que é personificado em Satanás e seus demônios.

Objetos de uso comum adquirem um status de amuletos, de mediação (os chamados pontos de contato) efetiva e eficiente na esfera espiritual. Sabonetes, xampu, perfume, raminhos de arruda, rosas, sal grosso e tantos outros, “consagrados em nome de Jesus” são distribuídos em algumas igrejas neopentecostais com a finalidade de espantar os maus fluídos de casas, escritórios, ambientes de trabalho de seus fiéis e a quem interessar. Liturgias obscuras e pagãs, outrora praticadas apenas por uma minoria de pessoas envolvidas no espiritismo, são, agora, transmitidas com colorações cristãs pela maioria das igrejas neopentecostais, em horário nobre, por quase todos os canais de televisão e rádio. Observadas de perto, são práticas pagãs cristianizadas.



Engana-se quem pensar que os que ouvem e aceitam tais liturgias pagão-cristianizadas são apenas os simples e iletrados. É notória a avalanche de adesões de todas as camadas sociais. Assim, atendendo a gregos e troianos, os neopentecostais se dirigem mais especificamente a duas grandes camadas sociais dinâmicas: a popular, dirigindo-se aos excluídos sociais, e a burguesa, dirigida aos emergentes. Uns clamam por bênçãos materiais almejadas; outros agradecem (e buscam justificação ética e espiritual) por já tê-las recebido e por as desejarem158.

2.4.5Problemas sociais


Num país de tantas desigualdades sociais como o Brasil, em que o crescimento das populações marginalizadas nas periferias urbanas aumenta assustadoramente em decorrência da imigração do campo, o neopentecostalismo parece corresponder à possibilidade de redenção numa economia neoliberal. O êxodo rural, entre as décadas de sessenta e setenta do século passado159, trouxe um desequilibrado crescimento urbano e conseqüente esvaziamento do campo. De lá para cá, muitos são os problemas que se desencadearam: falta de moradia, proliferação de favelas, fome, miséria; o não acesso à saúde, transporte, segurança, educação etc. O agricultor de subsistência, o migrante rural, vítima do descaso do Estado e da ausência de uma política de recursos para a lavoura, ao vir para a cidade, não somente empobrece nos grandes centros urbanos, mas se transforma num tipo ainda pior de pobre, aquele socialmente marginalizado, miserável, que, na década de 90 e nos primeiros anos do século XXI já convive com a segunda ou terceira geração de miseráveis, envolvidos no dia a dia desumano das favelas, do tráfico, da contravenção e dos subempregos.

O significado de pobre e pobreza atuais se diferencia da linguagem bíblica, pois hoje se é mais sensível à inferioridade social, enquanto a linguagem bíblica dá um sentido de um homem sem bens, vivendo no meio de dificuldades e privações. Enquanto o substantivo pobre é utilizado na maior parte das vezes no sentido econômico, a palavra hebraica ani ou anaw (vergar-se ou ser esmagado) tem sentido social e aplica-se àquele que ocupa um lugar inferior na sociedade, entregue sem defesa à exploração dos poderosos (cf. Is 3.14,15; 10.2; Am 2.7; 8.4; Sl 10.9; 12.6; 72.4). Aplicando-se esse segundo conceito, o trabalho forçado na construção civil das megacontruções é um exemplo dessa pobreza (vergar-se) sociológica.

A desqualificação para o mercado de trabalho e o alto índice de desemprego também contribuem significativamente para a marginalidade e para a associação com a contravenção, especialmente com o tráfico de drogas. A malandragem dos grandes centros corrompe os pobres migrantes, transformando-os em bandidos urbanos. Deixando os sonhos e esperanças de trabalho que traziam consigo, na maioria das vezes, tomam o caminho do ganho ilícito.

Como se a situação até aqui descrita já não bastasse para tornar insustentável a condição social das classes ditas periféricas ou inferiores, aqueles de quem se esperava o cumprimento das promessas de emprego, saúde, salário justo, moradia, transporte, feitas em palanques e comícios, são denunciados por suas ações corruptas e criminosas. Ironicamente, o pobre, desvalido, assentado do lado de fora de um bar qualquer, pela televisão, testemunha-os sendo algemados e presos. Confuso, mas ao mesmo tempo sentindo-se vingado, sai vagueando pela rua oprimido pela desesperança que parece apontar unicamente para a bandidagem como alternativa.

Acredita-se que, além da forte piedade e tendência popular ao ascetismo e moralismo da nebulosa religiosa brasileira, também em função de tais contornos sociais, o pentecostalismo, com seu discurso “negador do presente século”, por muito tempo foi acolhido por boa parte daqueles marginalizados e desprezados pela sociedade160.

Porém, com a reviravolta que a TP deu no conceito de posse de bênçãos, toda esperança projetada para o futuro deve ser desfrutada agora, no presente século. A ousadia na fé toma o lugar da resignação e da renúncia de prazeres terrenos. Deus e riquezas se intercambiam necessariamente; qualquer contingência é falta de fé e sinal evidente de que Deus não se faz presente. É o jogo do tudo ou nada. Uma grande loteria cujo lance é a fé. O público que procura seu destino como a sorte grande não poderia ser outro: são aqueles que já não têm mais a quem ou ao que recorrer.

O diagnóstico crítico que se tentou aqui realizar não tem o objetivo de apontar a Igreja como única culpada pela boa recepção das respostas pragmáticas ou imediatistas do neopentecostalismo no Brasil. Também não se buscou apontar o Estado como um bode expiatório para os problemas sociais no Brasil, ou fazer juízo de valor do uso dos meios de comunicação de massa na pregação do Evangelho, muito menos de se reduzir a avaliações para um nível pessoal.

O que se buscou foi articular o retrato fenomenológico apresentado no item 2.1 e buscar criticamente as relações em um nível estrutural que tocam, sobretudo, a TP.

A análise crítica aponta que há responsabilidade eclesiástica e eclesiológica com a Missio Dei, que há influência da matriz e do imaginário religioso brasileiro, e, que o neopentecostalismo não teria tido o espaço que têm se as condições de vida nos grandes centros urbanos não expusessem de forma tão dramática a impossibilidade da condição humana em meio a tamanha indignidade. No meio de tudo isso, a TP, responde ao ser humano urbano e moderno e às suas crises existenciais inelutáveis com um aceno de esperança.

Mas, ao focar absolutamente a realização presente da esperança humana perde sua referência a Deus. Polariza o mundo e a experiência humana entre o bem, Deus, e o mal, o Diabo. Aceita o transcendente somente através do prisma da prosperidade, riquezas materiais e saúde, enquanto sofrimentos e males procedem do diabo. Cria um Deus rebaixado, a serviço dos interesses existenciais do ser humano. O resultado desta distorção só poderia mesmo resultar numa teologia que preconiza um Deus subserviente, uma antropologia ensimesmada e uma ética de prazeres e felicidades.


1   ...   7   8   9   10   11   12   13   14   ...   24


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal