Departamento de teologia marcelo rodrigues de oliveira


O ser humano como ser de posse



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2.7O ser humano como ser de posse


A TP identifica-se com a TR na questão da compreensão da posse de bens como sinal do favor divino. Para essa última, no ambiente bíblico, a posse de muitos rebanhos, gado, servos e servas, ouro e prata era o sinal mais evidente da benevolência divina176. Esse pensamento fundamentava tão fortemente a mentalidade hebraica que, no período pós-exílico, a despeito do que passaram nas mãos de outros povos (cf. Ne 5.8), os judaítas foram capazes de repetir contra seus próprios irmãos a mesma forma de exploração e dominação sofrida com o fim de se enriquecerem às custas deles, subjugando-os à fome e à destruição das famílias (cf. Ne 5.2-5). Os explorados eram obrigados a penhorar seus campos, tomar dinheiro emprestado para pagar imposto e entregar seus filhos e filhas como escravos. Alguns se beneficiavam, enquanto muitos, homens, mulheres e crianças do povo gritavam contra essa situação que chegou a extremos de impiedade. A injustiça da dívida era suportada pelos camponeses e camponesas empobrecidas na satrapia de Judá. “Foi grande, porém, o clamor do povo e de suas mulheres contra os judeus, seus irmãos” (Ne 1.1).

A proclamação da posse de bens como evidência de vida abençoada, no esquema da TP, também ignora a solidariedade humana e prioriza a individualização. Sua mensagem triunfalista sobre o mal e a pobreza tira a oportunidade dos crentes exercitarem a compaixão e o socorro aos aflitos e doentes. A ação sobrenatural de cura e bênção divinas orbita ao redor do indivíduo e não inclui necessariamente compromisso de pertença a um corpo comunitário 177. Numa busca aficionada por cura ou qualquer outra bênção, cada qual procura seus próprios interesses sem a mínima solidariedade com o que está com fome, sede, ou com o que é forasteiro, ou com o que está nu, enfermo, preso etc (cf. Mt 25.35-39).

É bom que se diga que posses e riquezas não são condenadas por Deus, desde que não sejam obtidas por meios ilegais e injustos nem sejam utilizadas de forma egoísta, em prejuízo dos mais fracos, nem tomem o lugar de coisas mais importantes como o relacionamento com Deus e com os demais seres humanos. A posse não deve controlar a vida do ser humano, tirá-lo de sob o senhorio de Deus e passar a ser a sua glória:

Assim diz o Senhor: Não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem o forte, na sua força, nem o rico, nas suas riquezas; mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em me conhecer e saber que eu sou o Senhor e faço misericórdia, juízo e justiça na terra; porque destas cousas me agrado, diz o Senhor (Jr 9.23-24).

O evangelista Lucas adverte que os cristãos devem se guardar de cobiçar riquezas, porque o valor da vida não depende da quantidade de bens que uma pessoa possui (cf. Lc 12.15). Somente enquanto as posses e riquezas estiverem a serviço de Deus e do próximo, poderão ser consideradas bênçãos. O mal está na priorização do ter, no erro de elevar as posses de forma que a humanidade assuma a categoria de senhor e assim entre em competição com o outro que se estabeleceu aprioristicamente nessa categoria: Deus. Quando se chega a ponto de colocar Deus e Mamon no mesmo páreo, há que se dedicar a um e desprezar o outro, porque não é possível servir a Deus e às riquezas ao mesmo tempo (cf. Mt 6.24). A priorização na busca do enriquecimento leva o ser humano à ruína e à perdição: “Ora, os que querem ficar ricos caem em tentação, e cilada, e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e perdição” (I Tm 6.9).

Ainda que não seja impossível, é difícil para aqueles que confiam nas riquezas herdar o reino de Deus (cf. Mc 10.23); isso porque o amor que deveriam aplicar incondicionalmente a Deus, para a salvação, é aplicado ao dinheiro para a perdição: “Porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores” (I Tm 6.10).

A busca frenética pela prosperidade em benefício próprio cega as pessoas para o princípio da generosidade. A máxima que é dando que se recebe tem sido muito usada pelos pregadores da TP para encorajar os fiéis a lançarem ofertas bumerangues, na base da proporcionalidade, pois “(...) aquele que semeia pouco, pouco também ceifará; e o que semeia com fartura com abundância também ceifará” (2 Co 9.6).

Ora, uma leitura um pouco mais atenta desse texto paulino testemunha que não se apóia aqui a idéia de prosperidade pessoal e individualista. Trata, antes, de ofertas levantadas pelas igrejas da Macedônia em favor dos pobres da Judéia (2Co 8,9). Toda abundância recebida era encaminhada aos necessitados: “Deus pode fazer-vos abundar em toda graça, a fim de que tendo sempre, em tudo, ampla suficiência, superabundeis em toda boa obra, como está escrito: Distribuiu, deu aos pobres, a sua justiça permanece para sempre” (2 Co 9.8,9). Além do mais, ao ensinar que quanto mais der, maior será a recompensa, Paulo está falando de dar esmolas aos pobres e não a Deus, como destinatário invisível.

Quanto aos ricos, o apóstolo Paulo exorta a não depositarem sua esperança na instabilidade da riqueza, mas em Deus, que tudo proporciona ricamente para o contentamento humano (cf. 1 Tm 6.17). “Que pratiquem o bem, sejam ricos de boas obras, generosos em dar e prontos a repartir; que acumulem para si mesmos tesouros, sólido fundamento para o futuro, a fim de se apoderarem da verdadeira vida” (vs. 18-19). Ele ensina também que “a grande fonte de lucro é a piedade com o contentamento” (1 Tm 6.6). Contentamento, nesse caso, não está na dependência da quantidade de dinheiro ou posse de bens materiais (cf. Fp. 4.12-13) de uma pessoa.

Para Calvino, a riqueza consistia em não desejar mais do que se tem. Ao comentar o Salmo 62.10, aponta que

(...) pôr o coração nas riquezas significa mais que simplesmente cobiçar a posse delas. Implica ser arrebatado por elas a nutrir uma falsa confiança. [...] É invariavelmente observado que a prosperidade e a abundância engendram um espírito altivo, levando prontamente os homens a nutrirem presunção em seu procedimento diante de Deus, e a se precipitarem em lançar injúria contra seus semelhantes. Mas, na verdade o pior efeito a ser temido de um espírito cego e desgovernado desse gênero é que, na intoxicação da grandeza externa, somos levados a ignorar quão frágeis somos, e quão soberba e insolentemente nos exaltamos contra Deus 178.




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