Departamento de teologia marcelo rodrigues de oliveira



Baixar 0.62 Mb.
Página14/24
Encontro19.07.2016
Tamanho0.62 Mb.
1   ...   10   11   12   13   14   15   16   17   ...   24

2.8O ethos da felicidade


Na religião cristã, e mais especificamente no universo pentecostal, a felicidade sempre esteve associada às bem-aventuranças do Sermão do Monte, construída a partir de virtudes como humildade, choro, mansidão, fome e sede de justiça, misericórdia, coração limpo, pacifismo e até perseguições e injúrias sofridas por causa de Cristo. Sua plena realização só se realizará efetivamente no céu, a despeito de qualquer bem-estar momentâneo que se possa gozar na terra. O encorajamento para viver essa esperança escatológica encontra-se nas palavras de Jesus: “Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus” (cf. Mt 5.12).

Assim, a vida do homem “não consiste na abundância de bens que ele possui” (cf. Lc 12.15) e, louco é aquele que “entesoura para si mesmo e não é rico para com Deus” (v. 21) porque, a qualquer momento pode ser colhido pela morte sem nada levar para a eternidade (cf. v.20). Nesse universo cristão pietista, o ethos da felicidade é traduzido em termos de rejeição do mundo, isso é, a não valorização de coisas mundanas.

Atualmente, apenas algumas poucas igrejas pentecostais, a exemplo da Igreja Assembléia de Deus no Brasil, ainda mantêm postura comedida no que diz respeito ao seu envolvimento ou abertura para as “coisas do mundo”179. No pentecostalismo sempre se ensinou que o crente deve viver na estrita dependência do Espírito Santo, alimentando diuturnamente a esperança escatológica que se expressa pela expectativa da vinda do Senhor. Somente na glória cada crente receberá o consolo de suas aflições, em forma de galardão, quando sua felicidade será, finalmente, completa – “E lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram” (Ap 21.4). “No protestantismo tudo se orientava para a livre graça de Deus e para o destino no além, pois a vida terrena era só uma passagem ou um vale de lágrimas”180.

Pode-se analisar esse ethos da felicidade desde uma perspectiva sociológica, a partir de Max Weber (1864-1920). Em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, o sociólogo vincula o nascimento do capitalismo à doutrina calvinista da predestinação e a conseqüente interpretação do êxito material como garantia da graça divina. Assim, o lucro obtido com o trabalho deve ser visto como virtude, enquanto o dispêndio da riqueza para fins de consumo próprio levaria a pessoa a uma submissão idólatra do mundo181. Ao fazer a associação ideológica entre o sucesso pessoal e a providência divina, assinala-se a força dos preceitos éticos que dão origem ao ethos protestante, notadamente marcado pelo ascetismo e pela rejeição do mundo182. Tal ascetismo funciona como uma espécie de padrão moral que mantém o indivíduo íntegro na dedicação ao trabalho enquanto vocação, desprezo pela riqueza e cultivo de uma vida simples.

Weber também observa que antes da Reforma, a igreja não valorizava o trabalho profissional como vocação: “O lugar designado para cada homem [...] segue ex causis naturalibus e é aleatório (ou contingente, na linguagem escolástica)"183, e que o impulso para o lucro material equivalia a um desagrado a Deus, por se tratar de atividade mundana184. Com a Reforma, esse posicionamento foi alterado. O trabalho profissional passou a ser interpretado como um dom especial de Deus e a posição que o homem ocupa na sociedade como uma manifestação da vontade divina185.

Há, pois, na perspectiva weberiana, algo indiscutivelmente novo na Reforma: a valorização do cumprimento do dever nos afazeres seculares como a mais elevada forma que a atividade ética do indivíduo pode assumir186. A vocação para o trabalho é aceita como ordem divina, na qual cada um deve se adequar. O trabalho vocacional é a melhor tarefa ordenada por Deus187.

O conceito de trabalho como vocação divina, de um lado, e o ascetismo, do outro, criou no meio protestante uma postura ética equilibrada na utilização das riquezas mundanas. Uma postura que não se deixa iludir pela transitoriedade da vida ou pela livre experimentação dos prazeres dos sentidos sem responsabilidade ética. O trabalho e o dinheiro eram encarados como meios de subsistência, evangelização e salvação das almas perdidas. Todo labor nesta vida funcionava como um investimento para a eternidade. O conceito de felicidade se fundamentava, portanto, em valores espirituais e eternos.

Embora considerasse a prosperidade um sinal da bondade de Deus, valorizava-se a pessoa do pobre, considerando-a um instrumento de Deus para estimular os mais afortunados à prática da generosidade. “A tese de que as riquezas são sinais de eleição e a pobreza é sinal de reprovação é uma caricatura da ética calvinista. Para Calvino, a propriedade, o lucro e o trabalho deviam ser utilizados para o bem comum e para o serviço ao próximo”188.

Com a irrupção da TP no meio pentecostal, reproduziu-se a experiência de Adão e Eva: “(...) abriram-se, então, os olhos de ambos” (Gn 3.7). Repete-se diuturnamente com todos aqueles que buscam uma felicidade (ou realização) fora dos propósitos de Deus, e rompem com o ascetismo expresso nas palavras de Jesus: “No mundo, passais por aflições” (Jo 16.33) e não aceitam as contingências da vida como permissão divina. Nessa busca, a ética cristã é sacrificada para dar vazão aos prazeres que militam na carne (cf.Tg 4.1).

A TP associou, pois, a felicidade à saciedade. Os desejos não saciados passaram a ser sinônimo de infelicidade e, como não se pode deixar de desejar, nunca se poderá ser plenamente saciado189. Dessa insaciabilidade, a TP nutre-se, principalmente entre aqueles que estão desesperados, buscando algum tipo de realização na vida.

E por serem tantas as carências dos seres humanos, algumas igrejas neopentecostais diversificam suas programações criando devaneios que vão ao encontro das necessidades das pessoas, ao prometerem felicidade e soluções para problemas afetivos, financeiros, espirituais etc. Em lutas travadas em nome de Jesus, num clima de muita invocação a Deus, ofertas e votos, o fiel é orientado a exigir as bênçãos divinas num tom de reivindicação de direitos adquiridos em Cristo. As bênçãos devem ser recebidas aqui e agora, para proporcionar a felicidade existencial dos que exercem sua fé para receber. Nada é aguardado ou guardado para o além. Deus quer que homens e mulheres sejam felizes com saúde, dinheiro e posses! Na verdade, trata-se de uma felicidade movida pelo consumismo, disfarçado com o nome de bênçãos divinas.

É assim que a TP postula o ethos da felicidade, a partir do que o ser humano pode ter e não do que ele pode e deve ser. Nessa teologia, o homem próspero é visto como abençoado por Deus, enquanto o pobre, vítima do diabo. O tom das pregações seja no rádio, na televisão ou ao vivo, é triunfalista. Não há lugar para as contingências da vida. O tipo de felicidade anunciada está acima da felicidade realista que é “capaz de conviver com a imperfeição, com a frustração, com castelos desmoronados, com desejos não satisfeitos”190. Ter em lugar de ser – o conceito tão combatido pela ética cristã ganha força entre os neopentecostais devido ao caminho inverso que TP fez ao trazer para o presente século as bem-aventuranças aguardadas para o céu. A troca do ethos da renúncia, da negação do próprio eu pelo ethos da felicidade sem preço, antecipa a [...]“vitória aqui nesta vida, não nos céus, ou no milênio ou no arrebatamento”191.






Compartilhe com seus amigos:
1   ...   10   11   12   13   14   15   16   17   ...   24


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal