Departamento de teologia marcelo rodrigues de oliveira



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2.9Conclusão

A teologia a serviço exclusivamente dos interesses humanos não poderia buscar outra coisa senão uma doutrina centrada na realização de desejos, numa proposta de saciedade que se justifica na religião.

Para adequar sua doutrina aos interesses humanos, a TP distorceu a imagem de Deus, rebaixando-o a uma condição de servo do ser humano. Dízimos e ofertas são os principais instrumentos utilizados para manipular o agir divino em favor dos homens e são apresentados como chaves que abrem as portas para a prosperidade. Além de elevado à categoria de investimento, que reverte bons retornos para o ofertante, o dízimo também ganhou poder sobrenatural, tornando-se condição única para repreender Satanás (o devorador).

No percurso fenomenológico da TP, desde seu nascedouro nos movimentos pentecostais nos Estados Unidos da América, na década de 40, do século XX, e sua afinidade doutrinária com outros grupos de corrente esotérica, intuiu-se seu descompromisso e desserviço à teologia cristã tradicional. Sem vínculo e sem ter que prestar contas a uma liderança cristã já estabelecida, o neopentecostalismo dispara com sua mensagem de prosperidade, ganhando adeptos de todos os segmentos sociais.

Quanto aos líderes neopentecostais, enquanto os apóstolos de Jesus combatiam o ufanismo e não aceitavam qualquer insinuação de que o homem pudesse ser divino ou ao menos passar por esta condição - “(...) Barnabé e Paulo, rasgando suas vestes, saltaram para o meio da multidão, clamando: Senhores, [...] também somos homens como vós, sujeitos aos mesmos sentimentos, e vos anunciamos o evangelho (...)” (At 14.14,15) - os pregadores da TP ensinam o contrário aos seus fiéis: “Você não tem Deus morando dentro de você. Você é Deus”192. Um ensinamento que certamente procede daquilo que o apóstolo Paulo chamou de “outro evangelho” (cf. Gl 1.6), um “evangelho” desprovido da graça divina, centrado no homem e seus interesses, e que desconhece as exigências sociais para um agir solidário.

O caminho desta pesquisa assume seus contornos: no primeiro capítulo, identificou-se a gênese da TP na TR, esta última como um desvio da fenomenologia sapiencial que observava os ciclos e os ritmos da vida humana e da criação. O estudo do texto bíblico de Jó foi realizado com o objetivo de definir com clareza os contornos terríveis que assumiram uma TR mecânica e absoluta e a necessária confrontação que tal teologia exige. Como uma versão atualizada de tal labor teológico deformado e deformante, a TP é apontada como o relançamento contemporâneo da TR.

Neste capítulo, delineou-se fenomenológica e teologicamente a TP, através da pregação dos líderes neopentecostais. Da mesma forma que, em relação à TR, buscou-se entender as condições que fermentaram e possibilitaram a difusão da TP, examinou-se criticamente o quadro fenomenológico e tentou-se destacar a forma como Deus, o homem e a esperança escatológica são tratados pela TP.

A seguir, busca-se elencar dados teológicos e bíblicos que sustentem uma TG que se oponha à TR e à TP e que possa fundamentar uma ação integral e integrada da Igreja no Mundo, no cumprimento da Missio Dei.


3A TEOLOGIA DA GRATUIDADE: PROPOSTA BÍBLICA

3.1Introdução


Este capítulo tem o propósito de identificar os fundamentos da Teologia da Gratuidade, ou Teologia da Graça. Para permitir a comparação com a TR e a TP, empregam-se as mesmas categorias de análise dos capítulos 1 e 2, e, assim, busca-se delimitar, ainda que não de forma exaustiva, os contornos da imagem de Deus, da compreensão do homem e da perspectiva ética da TG.

Nesta leitura, articula-se racionalmente um sistema teológico-religioso centrado na concepção de Deus como imprevisível e soberano, que não faz acepção de pessoas, mas age com amor e justiça; como aquele que sempre manifestou sua graça em favor da humanidade e que, na plenitude dos tempos, personificou essa mesma graça na pessoa do Filho, tornando-o dom divino para os seres humanos (cf. Gl 4.4).

Na antropologia da gratuidade, o ser humano é compreendido como criatura de Deus, destinatário da salvação. E, pela fé, mediante a graça que o alcança e o capacita a responder livremente, movido pelo amor, é capaz de amar a Deus pelo que ele é, despretensiosamente, sem esperar recompensa.

As implicações da Gratuidade explicitam-se enquanto exigência de ações humanas, fundadas no amor e na justiça, para com Deus e com o próximo. O agente ético (o humano, sujeito histórico), Deus e o próximo formam uma tríade que interage para fazer o bem e manifestar a graça divina ao mundo (aos homens, diante da criação, na história).

Recorre-se novamente à fonte privilegiada da reflexão teológica: o texto bíblico. Para esse trajeto, o texto de acena não somente com o desvelamento e a crítica da TR, mas também com a apresentação da TG que se lhe contrapõe. Dessa vez, porém, o foco não será o discurso dos amigos, mas os discurso do personagem Jó nos trechos em prosa (prólogo e epílogo) e em forma poética. Os defensores da TR apresentam Deus como juiz e algoz, intolerante com o fraco. Perseguido por esse Deus, Jó clama por um goel e está certo de que ele se levantará em seu favor (cf. Jó 19.25). Confrontado com imagens díspares de seu Deus, Jó reluta incansavelmente até contemplar, com os seus próprios olhos, o Deus da Graça prevalecer sobre o Deus algoz - o Deus da religião oficial (cf. Jó 42.5).

Mas, não se pode pensar a TG sem a plenitude da revelação, Jesus Cristo. Optou-se por analisar uma parábola evangélica que pudesse tratar da religiosidade, da lógica da retribuição e da lógica da graça. A perícope lucana denominada Parábola do Bom Samaritano (Lc 10.25-37) foi escolhida para iluminar e desvelar essa reflexão.

A metodologia aplicada aqui é a da teologia bíblica, da mesma forma como foi utilizada no Capítulo 1. Antes, porém, de enveredar pela teologia bíblica da Graça, é necessário que se municiem dos conceitos que suportem ser articulados tanto na estrutura do Primeiro como do Segundo Testamento, como também no discurso sistemático da Teologia cristã do século XXI. Um conceito valiosíssimo é o da Graça.

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