Departamento de teologia marcelo rodrigues de oliveira



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3.2A Graça e sua transmissão


Em termos gerais, o conceito teológico de Graça remete não a algo da realidade, um objeto ou o produto de uma ação. Significa, em última instância, o próprio Deus em sua boa disposição em relação aos homens. Em virtude disso, Graça, para os fins deste estudo, será compreendida como favor de Deus.

O vocábulo Graça, substantivo feminino singular abstrato na língua portuguesa, envolve certo número de significações em virtude da interpretação de seu uso na literatura bíblica canônica.

No Primeiro Testamento, essa expressão é utilizada para explicar a relação pessoal que Deus estabelece entre si mesmo e os seres humanos, na eleição de um povo para si, bem como sua salvação, única e simplesmente por obra de sua benevolência (cf. Dt 7.7-10; Ez 16.4ss). Deus mesmo tem a iniciativa desta relação, pois ama o povo de Israel gratuitamente, sem mérito algum da parte deste: “Tão somente o Senhor se afeiçoou a teus pais para os amar; a vós outros, descendentes deles, escolheu de todos os povos como hoje se vê” (Dt 10.15).

É também apropriada para expressar o fato essencial do qual testemunha o Segundo Testamento: a vinda de Deus em Jesus Cristo, o qual, é a doação amorosa do Pai que amou aos homens antes que esses o amassem (cf. 1 Jo 4.19) e, por isso, o Pai entrega seu próprio Filho em favor da humanidade, ainda na condição de pecadora (cf. Rm 5.8). Um favor cujo fundamento último é o amor gratuito de Deus, e não, méritos humanos, decorrentes de obras, “para que ninguém se glorie” (Ef 2.9). E, como o amor opera no mundo da liberdade e da gratuidade, fica excluído qualquer esquema mecanicista de causa e efeito193.

Mais do que uma mera distribuição generalizada da Graça Comum194, Deus age de forma eficaz e concreta para a salvação da humanidade, consumando sua obra salvífica na Pessoa de Jesus Cristo, o Emanuel que veio ao mundo, morreu e ressuscitou. Ele é a própria Graça. “Porque a lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo” (Jo 1.17).

Visto que a graça provém da decisão livre de Deus em favor da humanidade, segue-se que o ser humano não tem habilidade para produzi-la. “É por esta razão que a graça se opõe às obras da lei, tacitamente por todo o Novo Testamento, e, de modo expresso, em passagens como Rm 3.19 e ss; Jo 1.16; Gl 2.11-21 e Ef 2.8”195.

A transmissão dessa Graça consiste na autocomunicação de Deus com o ser humano, numa relação marcada pela liberdade e pelo amor incondicional, a despeito da rejeição pecaminosa da criatura ao Criador196. Por isso, não é possível falar da transmissão da Graça sem envolver a relação de liberdade e amor entre Deus e os seres humanos e, por conseguinte, dos seres humanos entre si. O amor devotado a Deus tem que passar, necessariamente, pela prática do amor ao próximo197, numa práxis que o evangelista João elevou à categoria de indispensável, ao dizer: “(...) aquele que ama a Deus ame também a seu irmão” (1 Jo 4.21).

As metáforas e alegorias socorrem aqui a impossibilidade da linguagem para reduzir ao discurso o que é ação própria de Deus: numa comparação rude, pode-se dizer que a Graça e o Amor de Deus são como membros de um mesmo corpo, se a primeira puder ser comparada aos braços que recolhem o angustiado e perdido ser humano; o segundo seria o peito que o acolhe. Ou, de outra maneira, “o amor a Deus é a mística interna que rege a prática externa do amor ao próximo, exige total devoção (coração, alma, força, mente), e o amor ao próximo total identificação (como a si mesmo)”198 e “só se faz existencialmente real quando é também amor ao próximo199.


3.2.1O agir livre e gracioso de um Deus soberano


Por mais que se tente perscrutar as profundezas da Graça, não há como explicar satisfatoriamente a forma como opera na experiência humana, uma vez que se trata de iniciativa livre do Deus amoroso, criativo e soberano, aquele que não pode ser manipulado por ninguém, nem ser totalmente conhecido; diuturnamente surpreendente.

É aquele que fala do meio de uma tempestade, e convence Jó de sua ignorância quanto aos desígnios divinos, e pergunta: “Onde estavas tu, quando eu lançava os fundamentos da terra? Dize-me, se tens entendimento” (Jó 38.4). O ser humano não tem condições de perscrutar as profundezas de Deus, aquilo que escapa ao controle e compreensão humanos, descobre assombrado que Deus o realiza, e todo poder está em suas mãos e nenhum dos seus planos pode ser frustrado (cf. Jó 42.1). Ele abre caminhos no deserto e rios no ermo (cf. Is 43.19b), e suas ações não podem ser nem medidas nem pesadas pelo juízo humano, pois jamais pode ser aconselhado ou instruído (cf. Is 40. 13,14). Diante do Deus soberano, que insiste na ação graciosa de fazer misericórdia a quem quer (cf. Ex 33.19), resta reconhecer sua gratuidade como ato espontâneo e próprio de amor.

O conceito de Graça é o que melhor expressa a liberdade e a soberania do Deus amoroso, que não faz acepção de pessoas, mas age com direito e justiça; que valoriza o ser humano como pessoa e o transforma em objeto do seu amor. E como ação conseqüente, interpela, movimenta e investe o ser humano a também se sentir responsável por oferecer esse mesmo amor aos demais e servi-los despretensiosamente. A Graça não estabelece nenhuma pré-condição para servir ao próximo, por isso implica uma ética elevada, de valorização do ser humano como filho de Deus, e do outro, como irmão.

Tanto em relação ao Primeiro como ao Segundo Testamento, a construção teológica da Gratuidade é mais consistente e respeitosa para com Deus, do que a TR e a TP, além de pensar o ser humano e seu projeto ético de forma mais correta. Seria um trabalho hercúleo dar conta de todas as passagens bíblicas que, direta ou indiretamente, tratam do assunto. Daí, como já explicitado, a razão de se limitar neste estudo aos discursos de e à pregação de Jesus Cristo presente em Lc 10.25-37 para se delinear a teologia, antropologia e ética da Gratuidade.


3.2.2A Teologia da Gratuidade em e em Lucas: o Deus da religião oficial versus o Deus da graça


A teologia preocupa-se em discursar sobre Deus, distinguindo seus atributos, suas ações e suas características como sujeito, pessoa. Falar sobre Deus sem levar em conta a sua Graça, ainda que os demais atributos sejam considerados, é correr o risco de elaborar uma teologia deturpada. Dizer quem é Deus sem que se ceda à tentação de manipulá-lo ou confundir sua pessoa com os interesses da religião, ou em outras palavras, representar uma imagem adequada de Deus tem sido o grande desafio teológico:

A essa tentação não resistiram os amigos de Jó e apresentaram ao homem que sofria injustamente um deus forjado pelo velho esquema da previsibilidade, decorrente da correlação entre causa e efeito; um deus diferente daquele revelado na história de Israel e conhecido na experiência de fé do povo. Esse era o Deus do Segundo Templo, do sacerdócio sadoquita, da Lei, produto da Teologia da Retribuição. Jó conhecia esse retrato, mas pode ser acolhido ao encontrar o Deus leigo, da vida, acessível aos clamores do pobre e do sofredor200.

No afã de serem os guardiões da verdade, os amigos de Jó saíram em defesa de Deus, disputando palmo a palmo o privilégio de serem os legítimos porta-vozes da sua justiça. Lá estavam! De um lado, negando o Deus do Êxodo (cf. Ex 3.7,8), ao apresentarem um Deus surdo que não ouve os clamores dos oprimidos (cf. Jó 24.12); do outro, estava Jó, fazendo a experiência de Deus, fora do Templo e da religião oficial. Uma experiência arriscada, porém, no espaço certo, porque livre das garras de uma teologia casuística, acostumada a manipular a divindade. Nessa experiência, Jó encontra força, coragem e esperança para si e para todos os que sofrem201.

Jó é retratado como um modelo de todos os pobres e sofredores. É vítima de uma tragédia sem precedentes, perde bens, família e saúde (cf. Jó 1.13-2.19), sua condição era a de um homem saqueado, jogado à beira do caminho, semelhante à do viajante da parábola do bom samaritano, que fora assaltado quando descia a estrada de Jerusalém para Jericó: “Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e veio a cair em mãos de salteadores, os quais, depois de tudo lhe roubarem e lhe causarem muitos ferimentos, retiraram-se, deixando-o semimorto” (Lc 10.30). Assaltado pela tragédia, estava Jó, sentado nas cinzas (Jó 2.8), à espera de socorro.

Na condição de representantes de Deus, o mínimo que se esperaria dos amigos que vieram visitá-lo seria o acolhimento, o estender da mão de misericórdia em favor do ferido; a expressão de uma teologia que não tivesse pressa em diagnosticar o pecado antes de acolher o pecador. No entanto, solicitados pelo imperativo legal das normas e costumes da religião oficial, distanciaram-se do alquebrado Jó para ficarem ao lado da teologia formal. Uma atitude que encontra seu paralelo no levita e no sacerdote da parábola do bom samaritano. Ambos buscam caminhos alternativos para evitar aproximarem-se daquele que seria o espaço do encontro com Deus – o templo humano (cf. Lc 10.31,32).

A teologia dos amigos de Jó, assim como a do sacerdote e do levita retratados na parábola, ocupava-se em correlacionar o sofrimento a uma causa que o justificasse e, com isso, desprezavam o ser humano como o próximo, a quem Deus ama e deseja alcançar (cf. Lc 10.29).

Apesar de representarem, em grandes traços, a estrutura da TR, tanto quanto a perícope lucana fazem-no com o objetivo, não de defendê-la, mas, sim, de demonstrar o quanto é desprovida da Graça e extraviada do caminho da liberdade e do próprio Deus. Apresentam, ao contrário, Deus como aquele que tem a liberdade de agir conforme a sua vontade: livre para não responder às perguntas de Jó, para lhe testar a fé e para perdoar os seus amigos (cf. Jó 38 e 39). Livre para agir fora do templo oficial, usando um estrangeiro samaritano como instrumento de sua vontade (cf. Lc 10. 33-35). Enfim, como aquele, não é regido por interesses e nem é limitado por conceitos humanos. Afinal, limitá-lo ao pensamento humano e aprisioná-lo a tais ideais seria, no mínimo, frustrante.

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