Departamento de teologia marcelo rodrigues de oliveira



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3.3O Deus que se dá a conhecer


Afinal, quem é esse Deus que causa tantos problemas a Jó? Quem estaria com razão, em termos teológicos: Satã (hassatan), os três amigos (além de Eliú), ou Jó? Para Satã (hassatan), o conteúdo da adoração de Jó não estava em Deus mesmo, mas nas bênçãos materiais exclusivamente:

Mas o adversário respondeu ao Senhor: Será em troca de nada que Jó teme a Deus? Não o protegeste com uma cerca, a ele, sua casa e tudo quanto possui? Abençoaste seus empreendimentos, e seus rebanhos pululam na terra. Mas estende tua mão e toca tudo o que ele possui. Eu aposto que ele te lançará em rosto as suas maldições! (Jó 1.9-11)

Para os três amigos, a autonomia (soberania) de Deus é relativa, uma vez que é regulada por leis precisas e objetivas. Para Eliú, Deus salva o penitente e utiliza didaticamente o sofrimento: “Às vezes, repreende-o pela dor, no leito; nos seus ossos a luta não tem fim” (Jó 33.19).

Jó, por sua vez, é personagem complexo que será conduzido por um longo processo de descoberta. Inicialmente, acreditava em Deus, mas não conseguia encontrá-lo em seu estado de calamidade. “Eis que ele passa por mim, e eu não o vejo; segue perante mim, e não o percebo. Eis que arrebata a presa! Quem o pode impedir? Quem lhe dirá: Que fazes?” (Jó 9.11,12).

A experiência da abscondidade de Deus é forte também no Primeiro Testamento. Ele jamais é totalmente visível ou completamente conhecido. Se fosse completamente conhecido, seria limitado pela capacidade humana de compreensão e não seria, de modo algum, Deus. O conhecimento de Deus foi possibilitado pela sua própria iniciativa, através da proximidade com os patriarcas e profetas (cf. Hb 1.1,2), ao se dar a conhecer. Da parte do ser humano, o primeiro movimento para conhecer a Deus decorre da Graça, pois a humanidade é incapaz de se orientar por si mesmo em direção a Deus202. Evidentemente, esse conhecer não diz respeito a uma compreensão ontológica da natureza divina, mas de um conhecimento existencial, porque, não é o ser divino, mas o agir divino que está na primeira linha da revelação veterotestamentária203. “Conhecimento de Deus e comunhão com ele são possíveis, mas o segredo da Substância de Deus jamais é atingido”204.

O conhecimento que Jó e seus amigos possuíam de Deus desvirtuara-se por uma compreensão distorcida do agir divino. Trata-se daquele conceito mecanicista de causa e efeito, reconhecido no primeiro capítulo deste trabalho como TR, que procura explicar o princípio que rege o mundo na base da premiação para o justo e castigo para o pecador. Uma maneira simplista de explicar a ação de Deus na história – sempre a partir de uma ação previsível205. Jó, porém, se liberta dessa forma reducionista de compreender e ser interpelado pela ação divina na história, herança da doutrina dos sábios e, a partir do seu relacionamento pessoal com Yahweh resgata a memória das tradições antigas, em que Deus se apresenta como salvador dos pobres, dos doentes e dos oprimidos (cf. Jó 29.12-17).

Mas, não foi uma libertação tranqüila, como, aliás, nenhuma libertação o é. Acusado pelos amigos de ter cometido pecados, sofre e agoniza diante de dois rostos de um mesmo Deus, numa aproximação dialética e dolorosa em que Deus persegue o justo e, ao mesmo tempo, é justo e não quer o sofrimento206. Nesse dilema, descobre que “Yahweh não é um Deus que apaga simplesmente o sofrimento, mas se põe ao lado de quem sofre. Não é um Deus que recompensa segundo um esquema fixo de retribuição imediata, mas é um Deus que escuta o homem”207.

Finalmente é para o Jó experimentado que Deus se dá a conhecer: “Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te vêem” (Jó 42.5). O ser humano só poderá encontrar Deus ao se abrir para uma nova consciência de Deus.


3.3.1Porque soberano, livre


Jó reclama da arbitrariedade divina e comenta: “Passa perto de mim, não o vejo, vai embora, nada compreendo. Quer-se pegar algo, quem há de retê-lo? Quem lhe perguntará: Que estás fazendo?” (Jó 9.11,12). Queixa-se porque não sabe onde encontrá-lo: “Ah, se soubesse aonde encontrá-lo, eu chegaria a seu trono!” (23.3). Contudo, entende que Deus conhece e vê o seu caminho e, se quisesse, poderia prová-lo como ouro (cf. Jó 23.10).

Compreender a soberania de Deus parece ser fácil. Afinal, ele é o Todo Poderoso. Difícil é coordenar tal soberania com a total liberdade do Todo Poderoso ao exercer sua justiça, misericórdia e juízo. Deus é livre para fazer o que quer, e por isso paira certo mistério quando não age dentro do que se espera dele. No Sl 40, por exemplo, o salmista experimenta certo desapontamento quando sua expectativa é frustrada. Interpretando a voz do povo, reclama que Deus não o havia ajudado como ajudara a seus pais, embora não tivesse pecado (cf. Sl 44. 9-22). E pergunta: “Por que escondes a face e te esqueces da nossa miséria e da nossa opressão?” (v.24).

Para os profetas, os caminhos de Deus são, com freqüência, secretos:

Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos, os meus caminhos, diz o Senhor. Porque, assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos, mais altos do que os vossos pensamentos (Is 55.8-9).

Buscar o Senhor, cumprir os seus juízos, aborrecer o mal, fazer o bem são virtudes que devem ser cultivadas, mas que não determinam o favor de Deus (cf. Am 5.15; Sf 2.3).

A liberdade de Deus, ao agir autônoma e soberanamente, pode ser vista também na história de Jonas, ao mudar o curso da ação de seu profeta forçando-o a ir aos habitantes de Nínive. Jonas frustra-se ao tentar compreender a ação divina. Porém, a ação divina de aceitar a mudança de comportamento dos ninivitas revela a grandeza da Graça no arrependimento de Deus, prerrogativa de sua liberdade. Essa maneira divina de agir revela que os caminhos e propósitos de Deus só podem ser conhecidos de maneira parcial. “Eis que isto são apenas as orlas dos seus caminhos! Que leve sussurro temos ouvido dele! Mas o trovão do seu poder, quem o entenderá?” (Jó 26.14).


3.3.2Porque livre, imprevisível e amoroso


Yahweh não somente é um Deus livre, mas também imprevisível no seu agir, e não pode ser dominado por nada, nem mesmo pela bondade ou pelo pecado do homem: “Se pequei, que mal te fiz a ti?”, exclama Jó (Jó 7.20; cf. 35.6). Ele é tão completo em si mesmo que nada lhe pode ser acrescentado, nem pela justiça (cf. Jó 35.7), nem pelos sacrifícios (cf. Is 1.11ss), nem pela pureza (cf. Jó 4.17), nem pelo jejum (cf. Zc 7.5). Deus não está condicionado ao agir humano, pois está acima de tudo que é temporal e histórico208.

Ao mesmo tempo, ele é soberano e imprevisível, age em amor e liberdade, no tempo e na história, o Todo Poderoso também é Emanuel. A sua opção pelos pobres, por exemplo, em lugar de ser uma resposta provisória e pontualmente histórica aos apelos das condições sociais deploráveis de um povo específico, num tempo específico, que sensibilizam, sim, os corações e solicitam respostas de compaixão, é, na sua origem, muito mais ampla. É a manifestação de pura bondade e gratuidade que está presente em todas as relações humanas, em todos os tempos históricos, em todos os tempos de existência. É uma forma modelar. Nessa opção, Deus promove a justiça e o direito em relação à situação desumana em que vivem os órfãos, as viúvas e os estrangeiros (cf. Gn 18.19); apresenta-se como o Pai dos órfãos e Defensor das viúvas (Sl 68.5), exemplo que deve ser imitado por todos aqueles que desejam ser fiéis ao Senhor. Uma experiência que torna homens e mulheres capazes do amor-serviço, do amor desinteressado, sem dominação209.

Ao se defender contra as acusações de Elifaz (cf. Jó 22), Jó recorda sua solidariedade para com os desfavorecidos e argumenta que as obras de misericórdia eram as normas de sua vida:

Porque eu livrava o pobre que pedia socorro e o órfão indefeso. Recebia a gratidão do infeliz e alegrava o coração da viúva. A justiça era a roupa com que me vestia, o direito, meu manto e turbante. Eu era os olhos para o cego, era pés para o coxo. Era o pai dos pobres e ocupava-me da causa do desconhecido (Jó 29.12-16).

Jó não apenas fazia o bem aos pobres e injustiçados, mas saía em sua defesa também: “Quebrava as mandíbulas do ímpio, e fazia a presa cair de seus dentes” (v. 17). Agir com liberdade, amor e justiça contraria o dia-a-dia das pessoas habituadas a revidarem na base do merecimento alheio. Para os amigos de Jó, a tragédia que o havia acometido era um revide de Deus. Não havia outra explicação que não fosse um castigo por merecimento (cf. Jó 11.13-15). Utilizavam a TR sem se dar conta de que estavam enquadrando Deus num esquema de exação. Porém, Deus desaponta os amigos, e declara: “não dissestes de mim o que era reto, como meu servo Jó” (Jó 42.7).

O divino e amoroso inesperado acontecem, irrompe na ordem da causa e efeito, como uma nova criação, um novo caos, ao qual somente o Espírito de Deus pode dar forma: Deus dá razão à vítima do flagelo. Aquele que parecia ser castigado por Deus é, agora, exaltado diante dos seus acusadores e enviado como missionário para orar por eles: “O meu servo Jó orará por vós: porque dele aceitarei a intercessão, para que eu não vos trate segundo a vossa loucura (...)” (Jó 42. 8b). O Deus imprevisível age de acordo com a sua soberania e justiça, e não de acordo com o que se fala a seu respeito. Ele não estava presente na teologia dos amigos, como se esperava. Surpreendentemente, sua presença foi manifestada naquele que fora assaltado pela tragédia - Jó.


3.3.3Porque amoroso, divino


Na Parábola do Bom Samaritano do texto lucano, Deus também não estava presente no Templo, em Jerusalém; nem nas normas e regras da religião oficial. Sua presença foi manifestada no encontro do samaritano com o homem semimorto deixado à margem do caminho (Lc 10.33-35). O homem, assaltado pelos ladrões e socorrido pelo estrangeiro, representa o verdadeiro espaço em que se faz a experiência com Deus. O Emanuel, Deus conosco, anda pelas ruas e aldeias, sempre próximo dos pecadores e doentes: “Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes; não vim chamar justos, e sim pecadores” (Mc 2.17b). Pode estar no Templo, mas jamais encerrado dentro dele.

Jesus ensinou que fazer o bem a quem faz o bem, emprestar a quem possa devolver e amar a quem ama não demonstra ação de liberdade e amor (cf. Lc 6. 32-36). Outra parábola, dessa vez mateana, a da Vinha (cf. Mt 20.1-16) exemplifica o que significa agir em liberdade e amor. Nela, o dono da vinha (metaforicamente referindo-se a Deus) age independentemente de qualquer medida de merecimento estabelecida como valor entre os homens. Depois de contratar cinco grupos de pessoas para trabalhar na vinha, cada grupo começou a trabalhar em horários diferentes, ao preço combinado de um denário por dia. No final do dia, o dono da vinha pagou a todos de igual modo, de acordo com o combinado - um denário. Os que começaram a trabalhar mais cedo, suportando a fadiga e o calor do dia, reclamaram que não era justo pagar o mesmo valor para eles e para aqueles que trabalharam por somente uma hora. A resposta do dono da vinha demonstra claramente que agiu com liberdade, amor e justiça, ao dizer: “Amigo, não te faço injustiça; não combinaste comigo um denário? Toma o que é teu e vai-te; pois quero dar a este último tanto quanto a ti. Porventura, não me é lícito fazer o que quero do que é meu? Ou são maus os teus olhos porque eu sou bom?” (Mt 20.13-15).

Aqui não se ensina o anulamento do conceito de justiça, como também não se revoga a lei de Moisés nos ensinamentos do Sermão do Monte, mas deixa-se claro que Deus é a Justiça, a Lei, o Amor e a Liberdade por excelência. Soberano, sim. Mas, por isso mesmo, imprevisível.

Deus também está acima dos conceitos teológicos que os amigos elaboraram acerca dele. Apesar de seus discursos apresentarem muitas coisas importantes e válidas sobre Deus, jamais deveriam ser aplicados contra o desvalido como carentes da graça e misericórdia divinas. Se havia falta de graça e misericórdia, essas eram da parte dos que teologizavam e próprias de sua miopia teológica, nunca da parte do Deus libertador, de Yahweh. Jamais o Deus soberano, o Todo Poderoso, o Justo e o Santo deixou de ser amoroso, misericordioso e o Pai do Órfão, o Marido da Viúva, o Resgatador do desvalido. Porque soberano, livre; porque livre, imprevisível e amoroso; porque amoroso, divino.


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