Departamento de teologia marcelo rodrigues de oliveira



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3.4O ser humano: liberdade entre liberdades


A liberdade do ser humano só poderá ser reconhecida como tal se ocorrer entre outras liberdades. Nenhuma ação humana pode cercear o direito do outro de agir livremente, seja por imposição seja por constrangimento. Os amigos de Jó tentaram a todo custo reter-lhe o direito à liberdade de falar do seu desespero, mas ele não se deixou vencer. Retrucou e argumentou que não devia nada aos seus acusadores, nunca havia recebido qualquer presente de suas mãos, ou pedido algum favor para livrar-se das mãos dos seus inimigos (cf. Jó 6.22,23). E pergunta: “Vocês querem me censurar de quê? Querem censurar as minhas palavras?” (cf. Jó 6.25,26).

Jó queria ter a liberdade de falar. Seus amigos queriam silenciá-lo como réu, pela acusação de ter cometido pecados. Jó intui que, na realidade, o que seus amigos desejavam era controlar as ações de Deus sobre as pessoas, e, assim, possuir o veredicto sobre quem merecia ou não os favores divinos, assegurando-se o posto privilegiado de juízes sobre as ações divinas210 (cf. Jó 19.5). Por isso, suspira por Deus como seu Juiz: “Ah! Se eu soubesse onde o poderia achar! Então, me chegaria ao seu tribunal. Exporia ante ele a minha causa, encheria a minha boca de argumentos” (Jó 23.3,4).

Reconhece que estava sendo afligido por Deus: “Bem sabes tu que eu não sou culpado; todavia, ninguém há que me livre da tua mão” (Jó 10.7). No entanto, prefere ser julgado por ele a viver sob a opressão dos amigos que lhe tiravam a liberdade de se defender. Percebe-se cercado de zombadores, sob constante provocação, e pede para que Deus seja o seu próprio fiador: “Dá-me, pois, um penhor; sê o meu fiador para contigo mesmo; quem mais haverá que se possa comprometer comigo?” (Jó 17.3). Para Jó, Deus o estava castigando e não poderia escapar de suas mãos; ao mesmo tempo, reconhece que era o único que poderia salvá-lo – “Porque eu sei que o meu Redentor vive e que por fim se levantará sobre a terra” (Jó 19.25).

A verdadeira liberdade não permite imposições, como queriam os amigos de Jó. A justiça e o direito são valores que devem ser conquistados no exercício da liberdade, quando Deus e os homens cooperam na sua implantação. Só assim, a liberdade se afirmará como serviço a Deus e ao próximo.

A liberdade humana não se realiza na singularidade solipsista, mas em comunhão com os irmãos. O ato de liberdade humana situa-se necessariamente em face de outras liberdades, de Deus e dos irmãos. É nesse jogo complexo de liberdades que a fé se realiza, cresce, amadurece e dá frutos de salvação211.

Deus criou o ser humano à sua imagem e semelhança e, portanto, livre. A insinuação de Satã, de que Jó servia a Deus aprisionado a interesses materiais, levanta a questão vital de ser possível que o ser humano creia e ame a Deus desinteressada e livremente, sem expectativas de recompensas e castigos. Haveria condição de possibilidade para tal, especialmente no pensamento hebraico, que não articulava a questão da vida além da morte, e a realização da bênção na vida? Ou tal possibilidade tornaria ainda mais desesperançoso o sofrimento212.

A TG desenvolve resposta positiva a tal questão, e permite pensar o ser humano como aquele que, capacitado pela Graça, pode responder livremente a este Deus que o respeita, ama e age em seu favor procurando conquistá-lo para a salvação. Na declaração de Jesus: “Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também” (Mt 5.17), por exemplo, não apenas está demonstrada a filiação divina de Jesus, mas também e, sobretudo, a idéia de um Deus incansável no empenho pela salvação do ser humano, que viabiliza a salvação a todos, sem acepção de pessoas213. Diante do fato de que o amor de Deus não se move numa regra mecanicista de causa e efeito, mas no universo de liberdade e gratuidade214, o ser humano, por sua vez, pode crer desinteressadamente e corresponder a esse amor, ou não, com liberdade.

A liberdade só é liberdade quando as ações e reações entre as partes acontecem como expressões legítimas de suas vontades. Daí o insucesso dos amigos de Jó, ao tentarem domesticar a Deus, submetê-lo à vontade humana e aprisionarem seu amor livre e gratuito, reduzindo-o a conceitos teológicos enrijecidos e a instrumento de manipulação e controle.


3.4.1A liberdade humana e a liberdade de Deus


Ciente de todos os riscos inerentes ao discurso sobre Deus e sua ação graciosa, seja a redução, seja a distorção ou a polarização, intui-se que há compreensão profunda na percepção de Gustavo Gutierrez quando diz que o único limite diante do qual Deus não se permite ultrapassar é a liberdade humana215. Utilizando os conceitos de justiça e direito da teologia bíblica do Primeiro Testamento, registra que mesmo para fazer com que a justiça (sedaqáh) e o direito (mishpat) prevaleçam no mundo, em respeito a esta liberdade, Deus não os impõe através da destruição dos maus216. Qualquer proposta de mudança em favor de um mundo melhor, só será viável e legítima quando decorrer da escuta aos apelos de outra tríade bíblica que nomeia os pobres: os órfãos, as viúvas e os estrangeiros. Urge ouvi-los e o que têm a dizer. Não basta resolver casos isolados e particulares de vítimas de injustiça, como exemplarmente se representa na narrativa de Moisés assassinando o egípcio, querendo fazer justiça com as próprias mãos (cf. Ex 2.11-15).

Fazer prevalecer a justiça e o direito é tarefa na qual Deus e o homem, juntos, têm muito com o que se ocuparem. Ao homem não compete o dever de explicar a origem das coisas, mas se dedicar à tarefa de endireitar o distorcido217. Além do mais, se Deus destruísse os maus e fosse cerceado o direito de exercício da liberdade humana, a justiça não se tornaria presente na história, e o ser humano, como ser livre, não poderia mudar de caminho e se converter.



Jó reconhece que Deus tudo pode, e que nenhum dos seus planos pode ser frustrado (cf. 42.1). O que pode facilitar ou dificultar o andamento dos planos divinos é a opção que o ser humano faz como ser livre. Mesmo que opte por escolhas equivocadas, ainda que em certos momentos tudo pareça perdido, não será o mal o que antecederá o ponto final, mas sim a prodigalidade e o amor como inesgotáveis fontes da gratuidade218. A natureza divina, por si mesma, se impõe sobre o mal, porque a bondade de Deus é anterior a tudo, mesmo ao mal; e as trevas não prevalecerão contra a luz, porque a luz resplandece nas trevas (cf. Jo 1.5).

3.4.2Porque finito, livre


A liberdade do ser humano só é plena quando não há restrições às potencialidades e limites próprios da condição humana, mas, como crente, essa pessoa humana se põe à escuta de Deus. Reduzir ou expandir infinitamente a condição para se articular respostas que garantam o controle absoluto sobre o futuro e a morte seria tão pretensioso e insensato como o caçador que tentasse capturar um hipopótamo quando este está olhando para ele, ou apanhar um crocodilo com anzol ou tentar travar-lhe a língua com uma corda (cf. Jó 40.15; 41.1).

Assim também, Deus não se deixa capturar por perguntas que esperam respostas teológicas formais e apenas retóricas. Por mais arbitrária que a conduta divina possa parecer, não precisa oferecer explicações que satisfaçam a uma teologia que parte de pressupostos casuísticos (cf. Jó 19-29). Às perguntas de captura, Deus não dá respostas, mas, sim, devolve-lhe as perguntas que as neutralizam (Jó 38.2,3). “Ele é o mistério que interroga e, quem deve procurar respostas, é o próprio homem, no caso Jó – o empobrecido e o enfraquecido”219.

Ironicamente, a voz de Deus não ressoa do Templo, da palavra oficial do Sumo Sacerdote ou das sinagogas. Em forma dialógica, Deus fala com Jó do meio de uma tempestade. Ali, naquele momento, Jó contempla o agir do Todo-Poderoso. Todas as suas inquietações são aplacadas (cf. Jó 42.5), se aquele tem domínio sobre os monstros marinhos, seres e lugares inimagináveis, por que não o teria também sobre os homens220? A liberdade do ser humano, assim como o próprio Deus, não está disponível para ser tematizada. É reconhecida em seu aspecto fenomenológico, existencial, quando e onde é, em ação, evento: Deus, em sua Graça. O homem reconhece a sua finitude porque se percebe atirado, inserido, abraçado ao e no infinito de Deus.

Ao responder do meio da tempestade, Yahweh simplesmente não tematiza o sofrimento e a injustiça. Seu discurso dirige o olhar de Jó para a criação, a fim de levá-lo a compreender que o princípio que rege o universo não é o da retribuição, e sim, o da gratuidade do amor de Deus221. Que o fato de o Deus grande e poderoso importar-se com sua criatura, que nada pode lhe retribuir, partia de sua pura iniciativa de liberdade e de gratuidade. A metodologia sapiencial era corroborada pelo próprio Senhor, não as re-elaborações posteriores que tentaram aprisioná-lo no Templo para a segurança dos poderosos e desespero dos necessitados.

3.4.3Jó, o livre libertado


Acusar Jó de uma fé interesseira, como o fez o adversário na corte celeste, atinge não apenas o caráter daquele homem, mas, também, o caráter de Deus. Ao negar a condição de possibilidade humana de servir pela liberdade de servir, nega-se também que Deus tenha sido capaz de criar um ser efetivamente livre, correndo o risco de não ser amado sem coação. Se, de um lado, o adversário pode ter razão quando aponta que existem pessoas que servem a Deus à espera de recompensas e prestam culto na base de barganhas, a narrativa de Jó demonstra que também é possível servir a Deus simplesmente por amor e de forma gratuita.

O personagem Jó é testemunha dessa possibilidade. Ele não se sentia escravo das riquezas que possuía e, mesmo depois de perder bens, filhos e saúde, foi capaz de dizer: “Nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei; o Senhor o deu e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor” (Jó 1.21,22). Além da liberdade como estado inerente à condição humana, Jó gozava de liberdade: a liberdade que resultava da sua fé em Deus; da certeza de que seu Redentor (Goel) está vivo e ao seu lado (cf. Jó 19.25). Foi sua fé que o fez livre do aprisionamento das riquezas, posses e dominações, e que o ajudou a se desvencilhar dos enunciados da doutrina da retribuição temporal, do discurso tradicional que lhe cerceava a liberdade de questionar a vida – a TR.

Caso Jó se submetesse à regra de seus amigos, fazendo-lhes a vontade, ao parar de questionar, aceitando passivamente o sofrimento como conseqüência de seus pecados, estaria “a serviço da escravidão que é o contrário da liberdade”222. Foi fortemente tentado a voltar atrás e a se resignar ao seu estado de miséria como merecedor da ação punitiva de um Deus zangado. Mas, como alguém que trilha o caminho da libertação, insistiu na sua luta como se tivesse ouvido, nos seus dias, as palavras do apóstolo Paulo: “Para a liberdade foi que Cristo nos libertou. Permanecei, pois, firmes e não vos submetais, de novo, ao jugo da escravidão” (Gl 5.1).

3.4.4Liberdade e reciprocidade


Considerando que liberdade, no sentido cristão, é muito mais do que simplesmente ser livre, “o homem realmente livre é aquele que afirma e põe em prática o direito e a capacidade de servir à libertação dos outros. A liberdade existe para servir e não encontra significado nem fundamento fora do serviço”223. “Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade; porém não useis da liberdade para dar ocasião à carne; sede, antes, servos uns dos outros, pelo amor. Porque toda a lei se cumpre em um só preceito, a saber: Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Gl 5.13,14).

Após ter confessado que seus olhos viram a Deus (cf. Jó 42.5), Jó, como homem dotado da liberdade libertada, ainda que vitimado pela dor e pelo sofrimento, sai do seu estado de contemplação, toma o caminho da libertação do próximo e ora em favor dos seus amigos (cf. Jó 42.7-9). O gesto de sair em direção ao próximo reproduz e dá continuidade à missão de Deus (Missio Dei), que é a de ir até o cativo para, dali, libertá-lo. É o êxodo se repetindo todas as vezes que o ser humano se dispõe a ver o sofrimento do próximo, ouvir seu gemido e descer para libertá-lo: “Vi, com efeito, o sofrimento do meu povo no Egito, ouvi o seu gemido e desci para libertá-lo. Vem agora, e eu te enviarei ao Egito” (At 7.34). Deus faz homens e mulheres solidários de sua missão. Aos que experimentaram a libertação, cabe-lhes ir aos ainda cativos e proceder da mesma forma. Primeiro, chama a si mesmo para depois enviá-los: “Vem agora, e eu te enviarei ao Egito” (v. 34b).


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