Departamento de teologia marcelo rodrigues de oliveira



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3.5Agir ético e gratuidade


A TG não antagoniza o serviço a Deus e o serviço ao próximo, e, por isso, reconhece o lugar e o valor do culto e da ortodoxia, mas não enaltece o culto em detrimento das demandas e necessidades do pobre, como o preconiza a TR. Nessa última, o pobre sofredor e o amor do Deus Santo passam por caminhos diametralmente opostos; jamais se cruzam. São assistidos por Deus somente os que se enquadram no esquema da religião oficial e se adestram num doutrinamento ensaiado. É uma teologia que “protege” Deus atrás de um corpo de doutrinas, de tal modo que o encontro do homem será sempre com as exigências da Lei e nunca com Deus.

3.5.1Deus e o homem se encontram na finitude da criatura


Através da gratuidade divina, intui-se que o lugar de encontro entre Deus e o ser humano será sempre na finitude e na fraqueza da criatura, na completa humanização do homem e no esvaziamento de Deus (cf. Fl 2. 5-8; Jo 1. 14). A necessidade desse esvaziamento (Kenosis) que se realiza plenamente na encarnação do Verbo demonstra, dentre outras coisas, a impossibilidade do homem chegar a Deus (cf. Jó 22.12) e que só Deus pode chegar até o homem (cf. Jo 1.14). É neste encontro que se opera a gratuidade de Deus que impulsiona e proporciona as condições do agir ético.

Os amigos de Jó não entendiam dessa maneira. A cada discurso que pronunciavam, mais distanciavam Jó de Deus ao apresentá-lo como um Ser Supremo que não se permitia “descer” para resgatar o desvalido. Em lugar de um Goel de que tanto necessitava, foi-lhe apresentado um Ser que estava pronto para julgar e punir os pecadores.

Em lugar de desprezar o pobre sofredor como alguém que foi amaldiçoado por Deus por causa da sua condição social, a Lei o protegia (cf. Ex 22.24-26; 23.6; Dt 15.7-11), os profetas saíam em sua defesa condenando os ricos, enquanto os pobres eram amados por Deus (Dt 10.18; Pr 22.22-23)224. Contemplar a face de Yahweh e seguir o caminho da vida são experiências transformadoras. É isso que demanda Miquéias (cf. Mq 6.8) e são os critérios para se reconhecer e julgar os atos de justiça e misericórdia. Os que foram assim transformados não se permitiriam recriminar o pobre como o fizeram Elifaz, Baldade e Sofar em relação a Jó, nem desprezar o próximo, como o fizeram o Sacerdote e o Levita da parábola do Bom Samaritano (cf. Lc 10. 25-37).

3.5.2O agir ético: fé e práxis da gratuidade


As experiências com Deus e com o próximo funcionam como dois pratos de uma mesma balança e produzem o reconhecimento da justiça e do direito, o agir ético em todo momento. Aplicando-se essa imagem à situação parabólica do texto de Lc 10:25-37, pode-se dizer que houve um desequilíbrio entre os pratos da balança, quando o Sacerdote e o Levita evitaram aproximar-se do homem assaltado e ferido à beira do caminho, deixando de lhe prestar socorro. Paradoxalmente, eram eles os representantes do Templo e da Lei, da Casa de Oração para Todos os Povos e da Lei da Vida, a luz das nações. Porém, tais representantes do Templo se posicionavam distante das pessoas e, por conseguinte, de Deus. A estrada que trilhavam era a mesma do viajante que fora assaltado, de Jerusalém para Jericó, mas quando chegou o momento de se aproximarem do forasteiro semimorto e fazer a experiência do encontro com Deus na finitude e na fraqueza da criatura, afastaram-se, evitando o imprevisível (cf. Lc 10. 31,32). Para aqueles representantes do Templo e da Lei, a pessoa humana tinha um valor menor que as ocupações com a Religião Oficial e suas exigências formais assim como seus interesses pessoais.

O divórcio da gratuidade na relação entre a fé e a práxis, entendida como o agir ético dessa fé, é que produz algo como um religiosismo, uma espécie de desvio da Religião que conduz à despersonalização e à desvalorização da vida, porque se ocupa e se justifica o serviço a Deus como tarefa sagrada e se despreza o próximo, tachando-o de incapaz, ímpio ou obstáculo e não o vendo como o objeto do amor de Deus, como o destino e o caminho da Missio Dei. Tiago já advertia que fé sem obras é morta, e que a religião pura e sem mácula para com Deus e Pai é visitar os órfãos e as viúvas nas tribulações e cada um guardar-se incontaminado do mundo (cf. Tg 2.17).

Agir eticamente pela proposta da graça divina só é possível na história, cotidiana e imanentemente, assumindo compromissos com as exigências sociais e individuais da história humana e do humano. Não há uma verdadeira fé (gratuidade) sem práxis (agir ético), como também não há uma doutrina correta (ortodoxia) que não implique uma práxis correta (ortopraxia). A prática levanta perguntas à fé e a critica 225.

Outra passagem bíblica que exemplifica esse religiosismo é o relato do ocorrido com Marta e Maria ao lidarem com a presença e o serviço a Jesus (cf. Lc 10.38-42). Estando na casa delas, Jesus nem era notado por Marta, tamanha a sua absorção nos afazeres domésticos. Somente Maria ficava aos seus pés, a lhe ouvir os ensinamentos. O ativismo de Marta, agitada de um lado para o outro em muitos serviços, não permitia que parasse para valorizar a vida. Marta aqui parece representar aquele Sacerdote e aquele Levita que se ocupavam com as coisas de Deus; Maria parece representar o Samaritano que se ocupava com as pessoas como criaturas de Deus. Marta não pára, como também o Sacerdote e o Levita não pararam para acudir a vítima do assalto. Numa religião em que o ativismo substituiu o agir ético para com o próximo, não há lugar para acolher o indigente e o forasteiro. Esses, excluídos do culto, são alijados, fora do campo de ação da religião, e até na morte deviam ser sepultados num cemitério à parte, para estrangeiros, no Acéldama (cf. Mt 27.7; At 1.18,19). Maria, na narrativa exemplar, pára e está pronta não só a ouvir, mas também para agir como o faz noutra ocasião, ungindo os pés de Jesus (cf. Jo 12. 3).


3.5.3A presença de Deus no pobre


O texto lucano denuncia esse tipo de alijamento sócio-religioso do pobre e, através da Parábola do Bom Samaritano, sacramentaliza a presença de Deus no pobre espancado e despojado, em oposição ao Templo, que tradicionalmente representava o lugar da habitação de Deus226. Tal sacramentalização está anunciada em outras passagens como, por exemplo, a que trata da vinda do Filho do homem, quando cobrará ter sido reconhecido não nos ritos cerimoniais do culto, mas naqueles que tiveram fome, sede, que eram forasteiros, que estavam nus, enfermos e presos e não foram socorridos; e esclarece: “Em verdade vos digo que sempre que o deixastes de fazer a um destes mais pequeninos, a mim o deixastes de fazer” (Mt 25.45).

Jesus é apresentado solidarizando-se com os pobres e oprimidos em oposição à religião dominante da sua época. E é nessa linha de solidariedade que o evangelista Lucas trabalha, insistindo que ser próximo é ter misericórdia, senti-la, praticá-la até às últimas conseqüências com o ferido, com o oprimido, com o nu e despojado à beira do caminho da vida. A figura do Samaritano é elaborada para fazer entender que o Templo no qual se deve servir a Yahweh é o templo humano que demanda solidariedade; e aquele que age em favor da vida, ama o próximo como a si mesmo, e, por isso, cumpre a lei e os profetas e ganha a vida eterna. Negar a solidariedade é negar a dignidade humana e a divina. “O Samaritano é o exemplo de solidariedade entre os pobres, de amor aos de outra raça ou aos inimigos, um amor que reproduz o amor divino”227.

Portanto, o agir ético na perspectiva da TG só é completo quando o agente ético interage com outras duas realidades exteriores a ele mesmo: Deus e o próximo, formando assim a tríade que se abre para realizar o bem. Nessa interação Deus será sempre Deus e o próximo será sempre o outro, o desconhecido, transitório, múltiplo; daí a importância de se estar aberto e alerta para conhecer e reconhecer quem é o próximo próximo, pois “não é aquele que encontro no meio do caminho, mas aquele em cujo caminho me coloco. Aquele de quem me acerco e a quem busco ativamente”228.

3.5.4Quem é o meu próximo


Tanto na tradição dos Pais como na Lei (cf. Ex 20.16-17), já se desenvolve o tema do outro como o espaço do agir ético, aquele que demanda ser reconhecido como humano e dignificado, independente de sua raça, sexo, idade ou status social. Mesmo que fosse um estrangeiro não poderia ser oprimido. Como o natural da terra, deveria ser amado e respeitado, pois os israelitas também haviam sido estrangeiros no Egito: “Se o estrangeiro peregrinar na vossa terra, não o oprimireis. Como o natural, será entre vós o estrangeiro que peregrina convosco; amá-lo-eis como a vós mesmos, pois estrangeiros fostes na terra do Egito. Eu sou o Senhor, vosso Deus” (Lv 19.33,34).

No entanto, a atitude de acolher o próximo, tanto na tradição judaica como na tradição de outros povos do Antigo Oriente Médio, sofreu aquilo que foi denominado de “evolução para o mal”229, ou seja, foi se modificando até se transformar numa ação includente para com os da própria raça e excludente para com os estrangeiros. Da condição de amigo, qualquer que fosse a pessoa, o próximo passou a ser parente, aquele homem ou mulher do próprio povo, da própria casa; enquanto que aqueles que não o eram, eram apenas “amigos” e até mesmo inimigos. Gradualmente essa consciência separatista foi se cristalizando na sociedade judaica até o patamar de extrema intolerância para com os estrangeiros.

Já no texto neotestamentário, a figura do próximo, que, num primeiro sentido, significaria vizinho, próximo fisicamente, aquele que está ao lado, testemunha essa mudança de conceito. Passou a ser considerado como aquele que é membro da família, da parentela ou amigo, numa proximidade de relações230. Porém, a pregação de Jesus se levanta contra tal pedagogia231 para o mal e corrige a interpretação rabínica de que a lei ordenava amar ao próximo, e que isso subentendia que se deveria odiar ao não-próximo, ou ao estrangeiro, ou ao inimigo. Reverte essa idéia e ordena que se ame o inimigo e ore por eles: “Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mt 5.43,44). Assim, aquele que age com gratuidade não pode ter inimigos e nem reconhecer limites em suas ações, porque, no amor não existem limites. E o outro, que se julga o próximo por excelência (o irmão), não se constitui em fronteira do amor, porque, senão, haverão aqueles que ficarão alijados desse amor232. Também não será a condição social, raça ou credo, mas “a necessidade do outro que vai dizer o que deve ser feito e até que ponto se deve amar”233.

3.5.5O agir ético pela gratuidade e a opção pelos pobres


O agir ético também não permite determinar, a priori, quem é o próximo, porque as ações de gratuidade não outorgam a prerrogativa de se escolher de antemão a pessoa a quem se deve servir. Da mesma forma, não são certas condições sociais que determinarão quem é o mais carente e, portanto, maior merecedor de ser ajudado. E mais, qualquer pessoa ou comunidade de cristãos que se pronuncie a favor dos pobres como opção não pode fundamentar tal escolha em argumentos puramente antropológicos, humanísticos, éticos ou políticos. Toda ação ética que resulta da gratuidade, parte da fé e experiência com Deus em Cristo e tem “caráter teológico, em particular cristológico”234.

Por outro lado, não se pode reduzir a experiência da fé gratuita ao agir ético. É também uma grande tentação. O pobre não é, pela sua condição, uma ocasião ou um instrumento para a aproximação de Deus. O ser humano deve ser amado não como um instrumento, “mas como primeiro termo em relação ao supremo termo transcendente, princípio e razão de todo amor”235. A TG postula a ação humana fundada no amor e na justiça para com Deus e o próximo, e “requer uma firme e obstinada vontade de estar presente onde a injustiça maltrata um inocente, seja quem for”236. Todas as ações nesse sentido são válidas. No entanto, é possível que haja motivações erradas, escondidas por trás de ações de generosidade com o fim de enaltecer alguns às custas da miséria de muitos237. Daí a necessidade de que toda ação ética seja fruto da Gratuidade, porque somente a experiência do amor gratuito de Deus torna homens e mulheres capazes do amor-serviço, do amor desinteressado.

O que diferencia decisivamente o agir ético de uma pessoa cristã movida pela graça de Deus, das ações de qualquer outra pessoa, grupo ou movimento social não é tanto o resultado de suas ações, mas a sua opção anterior por Jesus Cristo, o Senhor da Vida. Jesus é o centro do mundo e da história. “Tudo o mais, inclusive a questão dos pobres, se organiza e harmoniza em torno dessa realidade maior”238. Para ser alinhada cristologicamente, a opção pelos pobres deve resultar de uma ação ética movida pela gratuidade, e não deve ser sacramentada como se fosse a única missão integral da Igreja, ainda que tenha se tornando a “tarefa importante e mesmo dominante, em particular para as Igrejas do Terceiro Mundo”.239

Como tarefa prioritária da Igreja e aquela que mais desafia a sociedade com apelos humanitários, a opção pelos pobres não pode se transformar em uma escolha que resulte de um desespero de consciência, numa tentativa de apaziguamento de culpas sociais e pessoais que negue as raízes evangélicas e reduza a graça de Deus a um movimento de libertação social. A experiência da Gratuidade dá sentido mais profundo às questões do ser humano e do agir cristão. Sem ela, a autocomplacência substitui a receptividade do dom de Deus e gera o farisaísmo240.


3.5.6Conclusão


Apesar da Graça ser tanto natureza e ação divinas, é possível conhecê-la a partir da história e em sua ação no mundo através do e para o ser humano. Sua presença é notadamente percebida na afeição de Deus como Pai gracioso que age em favor da humanidade como filhos, numa relação de liberdade e amor espontâneo.

Trata-se de um dom, favor imerecido que procede do Deus Criador, o Todo Poderoso, que a ninguém se reporta para pedir ou dar satisfação do que faz, porque é livre. O Deus do qual procede tudo e que tudo o que faz é bom e perfeito: “Toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não pode existir variação ou sombra de mudança. Pois segundo o seu querer, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como que as primícias das suas criaturas” (Tg 1.17, 18).

A base teológica da Graça é a soberania de Deus. Quando o profeta Jeremias retrata a Deus como o oleiro, capaz de transformar o barro em qualquer objeto desejado, declara a prerrogativa divina de vir a se arrepender, caso a nação se convertesse (cf. Jr.18.1-6). Sendo soberano e, ao mesmo tempo, gracioso, suas ações são imprevisíveis porque resultam de uma liberdade que começa e termina em si mesmo: “Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém” (Rm 11.36).

Na TG, o ser humano é respeitado como um ser livre que responde moralmente pelos seus atos. Porém, sua liberdade transita entre a liberdade de Deus e a do próximo, e só é reconhecida como legítima quando circula respeitosamente nesta tríade. Aquele que ama despretensiosamente o Deus soberano e imprevisível e exerce respeitosamente sua liberdade entre liberdades (a de Deus e a do próximo) terá todas as condições necessárias para agir eticamente no fluir da graça de Deus. Suas ações resultarão de sua experiência com Deus e com o próximo, e serão dinamicamente controladas pela liberdade que circula entre Deus, o próximo e eu.

Como foi visto, a TR se fundamenta em uma distorção da Sabedoria de Israel. Por sua vez, fundamenta a TP, sendo-lhe a gênese e a justificativa bíblica. A TP, por seu turno, foi apresentada como filha do seu tempo, da Pós-modernidade, e responde aos anseios, desejos e necessidades do homem e da mulher pós-modernos que pelas lacunas deixadas pela Igreja e pelas angústias de seu próprio contexto, buscam respostas fáceis, rápidas e mágicas. Já, a TG foi apresentada como a expressão bíblica e teológica consistente para se compreender a vida cristã e a comunhão com a Trindade.

Diante desse percurso empreendido, é possível agora compreender como a TP e a TR convergem e divergem para, a partir daí, questioná-las à luz da TG. Além disso, é imprescindível analisar os desdobramentos pastorais resultantes. É ao que se dedica o próximo e último capítulo desta dissertação.


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