Departamento de teologia marcelo rodrigues de oliveira



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INTRODUÇÃO


“Tanto sei estar humilhado como também ser honrado; de tudo e em todas as circunstâncias, já tenho experiência, tanto de fartura como de fome; assim de abundância como de escassez; tudo posso naquele que me fortalece” (Fp 4.12,13). O relato da experiência do apóstolo Paulo de se sentir fortalecido na fé a despeito de qualquer circunstância, traduz os ensinamentos de Jesus de como lidar com as solicitudes da vida em face da fé (cf. Mt 6.25-34).

Jesus ensinou que a vida do ser humano não consiste na abundância de bens que possui (cf. Lc 12.15), que não se deveriam acumular riquezas como propósito da ação humana na história, no que é chamado de no mundo, mas que se deveria investir no Reino de Deus, pois não se pode servir a Deus e ao dinheiro (cf. Mt 6.19, 24). Assim, a proposta de vida para o cidadão do reino é muito clara com respeito aos valores que devem pautá-la: justiça, misericórdia, amor, renúncia e tudo mais que decorra do amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Esses elementos são priorizados no Sermão do Monte, quando os princípios da Torá divina, incorporados na legislação mosaica e na leitura profética, são elevados acima de qualquer formalismo religioso. Como um novo Moisés, Jesus sobe ao monte e, tal qual Moisés entregou ao povo a lei no Monte Sinai, ele ao povo se entregou como a Torá de Yahweh (cf. Mt 5;6;7).

No Primeiro Testamento, esses valores também foram legislados e proclamados através dos deveres morais que reafirmavam e expandiam o Decálogo (os códigos legais de Dt 5 a 11, Ex 20 a 24 e Lv 17 a 26). Leis criminais, leis de guerra, normas de propriedade, moralidade pessoal e familiar regulamentavam a justiça social e inibiam a exploração dos menos favorecidos (cf. 21-26), tematizando, sobretudo, o pobre. Isso se vê, por exemplo, nas providências para se equiparar a vida sócio-econômica dos israelitas, prevista na anistia geral no ano do jubileu, em que cada um deveria recuperar o patrimônio familiar (cf. Lv 25.10). A cada ano sabático, deixava-se aos indigentes o produto da terra (cf. Ex 23.11) e perdoavam-se as dívidas dos israelitas empobrecidos (cf. Dt 15.1), “(...) para que não haja nenhum pobre entre vocês” (Dt 15.4).

Os Códigos Legais do Pentateuco desenvolveram pensamentos sociais a fim de que os recursos econômicos fossem investidos no bem comum. Yahweh deseja garantir que o pobre tenha as mesmas oportunidades e os mesmos direitos que os mais abastados; e que estes últimos assumam sua responsabilidade social e externem-na em atitudes de solidariedade para com os menos favorecidos.

Mais do que um aperfeiçoamento na legislação de antigas tradições jurídicas em Israel, consuetudinárias1 na sua origem, essa teologização demonstra qual é a vontade de Deus para o ser humano e como deve ser a relação entre a religião e a posse de bens. No pensamento de Yahweh, a riqueza não representa nenhum tipo de retribuição divina em virtude de méritos humanos e não contém em si mesma nenhum valor moral ou religioso. Isso se explicita ao se verificar, nos primórdios da sedentarização em Canaã, que os israelitas desfrutavam de uma condição social que provinha da sua dependência em relação à terra (trabalhadores rurais, pequenos agricultores, pastores nômades) e do seu status de ex-escravo2. Quando se enriqueciam, era por sorte, por habilidade em trabalhar com suas terras, ou, posteriormente, porque se tornaram funcionários da corte e tiravam proveito dos favores do rei3 ou das boas condições do comércio nas áreas urbanas.

Com o surgimento da monarquia em Israel e sob a influência da doutrina da retribuição, o enriquecimento e a posse de bens ganharam conotação espiritual. A riqueza passou a ser vista como recompensa da virtude; e a pobreza, como castigo (cf. Sl 1.3; 112.1-3; Pv 10.15,16; 15.16). Instalada na religião de Israel, a doutrina da retribuição atribuiu valores morais e espirituais à posse de bens como sinal evidente da bênção divina. Mais do que simples influência, sua incorporação à religião javista determinou uma casuística na sua teologia, antropologia e ética que evidenciava a vinculação da posse de bens à religião como sinal da aprovação de Deus.

Solidificada na fé de Israel, a doutrina da retribuição já começa a se tornar objeto de crítica, ainda que velada, em Provérbios. Mas, um dos primeiros movimentos na contramão de uma doutrina da causa e efeito é visto no livro bíblico de . Através da boca do personagem Satã (hassatan), descrito como uma espécie de promotor público, um adversário do ser humano levanta-se a questão do que representa a posse de bens e o status como condição sine qua non para que o ser humano seja fiel a Deus: “Será que não é por interesse próprio que Jó teme a Deus? Tu não deixas que nenhum mal aconteça a ele, à sua família e a tudo o que ele tem” (Jó 1.9,10). Satã coloca dúvidas quanto à existência de uma religião de pura gratuidade, e a resposta será oferecida através da vivência de situações hostis, que devastam todas as posses, bens e, por fim, a saúde de Jó, mas que não subtraem sua fé (cf. Jó 42). Todas as condições que pudessem favorecer uma fé confortável em Deus, como suspeitava Satã, foram transformadas em motivos para que Jó abandonasse Yahweh, como lhe sugere sua mulher: “Ainda conservas a tua integridade? Amaldiçoa a Deus e morre” (Jó 1.9). A resposta de Jó compromete sua fé com algo que extrapola a retribuição temporal e o introduz em uma aventura de conseqüências inimagináveis: “(...) temos recebido o bem de Deus e não receberíamos também o mal?” (Jó 1.10).

O desenrolar da narrativa de perdas, dor e sofrimento de Jó não tem como objetivo oferecer explicações morais ou espirituais para as causas do sofrimento humano, como queriam os amigos de Jó. O mesmo questionamento levantado no início do livro, mola mestra da narrativa e que não pode ser calado, é apresentado hoje à Igreja Cristã da pós-modernidade: é possível servir a Deus por pura gratuidade? Para Gustavo Gutierrez4, a solução desse questionamento não está em decifrar o enigma do sofrimento humano, mas, sim, em se abandonar ao amor de Deus. Só assim, é possível compreender que o amor não se move num universo de causas e efeitos, mas num mundo de liberdade e de gratuidade; que o amor de Yahweh é livre, gratuito e criativo e não está aprisionado a gestos e a atos cultuais; e que o verdadeiro culto a Deus não depende de troca de favores entre o divino e o humano.

Porém, o golpe que a Teologia da Retribuição (TR) sofreu com tais reflexões não foi mortal, a ponto desse pensamento teológico ser completamente erradicado da fé nem de Israel, nem dos cristãos. Ainda que sob suspeita e desclassificada pela crítica hermenêutica empregada por Jesus ao ler as Escrituras Sagradas, a TR continua atribuindo valores morais e espirituais às riquezas e posse de bens, na tentativa de dar explicações simplistas quanto à distribuição da justiça divina. Sua presença é percebida como parte da visão míope dos discípulos e da comunidade joanina, quando se deseja atribuir aos pais de um cego de nascença a razão de sua enfermidade (cf. Jo 9.3), ou na comunidade mateana quando se faz necessária combatê-la na parábola da vinha (cf. Mt 20.1-16) e em outras passagens do Segundo Testamento. Dentre as várias possibilidades para se explicar a persistência de tal pensamento, é possível dizer que a insistência dessa teologia em querer dar respostas aos acontecimentos da vida nutre-se da necessidade que o ser humano tem de controlar as situações que o cercam e de prever o futuro.

Essa persistência da TR é atestada quando, na Pós-modernidade, numa versão contemporizada, surge, no Brasil, na década de 70 do século passado, a Teologia da Prosperidade (TP). Oriunda dos Estados Unidos da América chegou ao Brasil através de algumas igrejas pentecostais e, posteriormente, institucionalizou-se no discurso neopentecostal. Constata-se a mesma proposta da TR, só que, agora, a caráter, em roupagem capitalista neoliberal e veiculada pela mídia imagética. Sua mensagem gira em torno da disputa entre Deus e o diabo pelo domínio do ser humano, o qual, só poderá prosperar se der chances a Deus de ganhar esta disputa. O papel da pessoa nesse processo é municiar Deus adequadamente de ritos, votos e doações, pois só assim a ação de Deus poderá se tornar visível, concreta e positiva na vida do crente, desfazendo as estratégias do mal. No bojo de sua mensagem persiste o tema presente na questão levantada por Satã, em : o conflito entre uma religião da gratuidade e a posse de bens.

Os defensores da TP são, em sua maioria, os neopentecostais ou grupos cristãos simpatizantes que seguem a mesma lógica de causa e efeito da TR: aquele que é fiel a Deus, necessariamente prosperará. Tomam lugar e forma comunidades e pregações em igrejas que se dizem cristãs, mas que seguem as regras do mercado, cujo Deus não é mais o Deus Cristão, mas, sim, o deus do mercado, ou o deus-mercado. O sucesso econômico torna-se o critério de avaliação da aprovação divina. As vítimas da pobreza e exclusão social são transformadas em culpados, e as questões sócio-econômicas são demonizadas e transcendentalizadas. Retorna a Satã o direito de questionar mais uma vez: Será que existe mesmo uma religião de pura gratuidade?

Sem mostrar sinais de arrefecimento, a presença e atuação da TP no âmbito do cristianismo é uma realidade que não pode ser ignorada. Aliás, o crescimento das manifestações eclesiásticas da TP chama a atenção de teólogos, cientistas sociais e cientistas da religião pelas suas práticas e liturgias controvertidas e urge que seja confrontada com respeito, e questionada à luz de uma proposta bíblica e cristã.

Esta dissertação, portanto, tem o objetivo de tematizar bíblica e teologicamente a TR e a TP, e mostrar como a Bíblia oferece, tanto no Primeiro quanto no Segundo Testamento, uma linha teológica diferente, baseada na relação gratuita com Deus; e, também, demonstrar que essa linha diferenciada, denominada aqui Teologia da Gratuidade (TG), é mais consistente e respeitosa para com Deus, além de pensar o ser humano e seu projeto ético de forma coerente com a proclamação da Torá e do Reino.

O marco teórico desta dissertação é o da teologia bíblica na busca de elementos organizadores da fé a partir da lógica da proclamação do Primeiro e do Segundo Testamento, e o da teologia prática, enquanto a análise privilegia a abordagem pastoral. O recorte que se faz para tratar a TP é descritivo-fenomenológico, e a fundamentação bíblico-teológica e os critérios de análise dizem respeito ao universo cristão protestante.

Em função dessas definições e recortes, não se constituem como objetivos deste trabalho, embora possam ocorrer em algum momento: 1) o estudo da história da interpretação e da crítica bíblica para se fundamentar a interpretação dos textos bíblicos utilizados; 2) as análises exegéticas histórico-críticas baseadas em metodologias literárias e lingüísticas; 3) estudos que expliquem ou compreendam os fenômenos analisados a partir do percurso histórico da história da Igreja e da teologia cristã; 4) estudo de textos da Tradição cristã, provenientes da produção teológica dos Pais da Igreja ou dos Concílios e do Magistério Católico.

A pesquisa tem caráter estritamente bibliográfico e de elaboração reflexivo-teológica de cunho pastoral. Não serão realizadas pesquisas de campo, entrevistas, observações de participantes e outras metodologias de pesquisa do fenômeno religioso e social que aqui se tematiza.

Para a pesquisa bibliográfica, serão utilizados textos que contemplem a exegese do livro bíblico de e da parábola do Bom Samaritano em Lucas, para a identificação da Teologia bíblica da Retribuição e da Gratuidade, respectivamente. Para a análise, apresenta-se a situação histórica, contextualizando cada um desses textos, que, por sua vez, necessariamente devem ser referidos em outros textos bíblicos, demonstrando a legitimidade dos princípios e elementos que se deduzem na análise.

Assim, o presente estudo se apoiará de maneira especial, mas não exclusivamente, no livro de , bem como em Lucas 10.25-37; considerando que em a TR é duramente questionada, enquanto que na chamada parábola do bom samaritano ensina-se que a graça age entre liberdades.

Ao se fazer referência literal aos textos bíblicos será utilizada a tradução da Bíblia Sagrada de João Ferreira de Almeida na versão da SBB, Revista e Atualizada. Apenas nos casos em que se utilizar outras versões é que serão identificadas em nota de rodapé.

Como toda pesquisa da prática pastoral e teológica, contar-se-á com a experiência pessoal do pesquisador e as suas intuições em mais de 25 anos de atividade eclesial e eclesiástica junto a igrejas protestante da denominação batista, em várias regiões do território nacional.

Eis, em grandes linhas, o percurso a ser feito: no primeiro capítulo, será estudada a TR sob a dimensão teológica, antropológica e ética, com base no livro de (discurso dos amigos), tentando recuperar suas origens históricas e literárias.

No segundo capítulo, a TP será tematizada sob a dimensão teológica, antropológica e ética, descrevendo-a e analisando-a a partir de documentos (textos) que fundamentam a sua prática em igrejas neopentecostais atuais.

No terceiro capítulo, reflete-se acerca da TG e demonstra-se sua presença tanto no Primeiro como no Segundo Testamento, a partir da análise de trechos do livro de e de Lucas 10.25-37.

No quarto capítulo, serão confrontadas as três teologias estudadas nos capítulos anteriores, ressaltando seus pontos convergentes e divergentes, questionando-as à luz da TG. Propõe-se a demonstrar a relevância pastoral e espiritual desse composto de teologias, de modo especial, no pastoreio de comunidades cristãs evangélicas na atualidade.

Conclui-se, finalmente, que é possível servir a Deus por pura gratuidade e que a verdadeira teologia é aquela que decorre do encontro teologal entre Deus e o homem, no qual se opera a salvação pela graça, pois

Israel conheceu a Deus como salvador antes de conhecê-lo como Senhor. O êxodo (salvação) precede o Sinai (Lei). Israel conheceu Yahweh antes de conhecê-lo como criador. A história de Israel começou com a ação salvadora de Deus motivada pela compaixão5.


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