Departamento de teologia marcelo rodrigues de oliveira



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4TEOLOGIAS EM CONFRONTO E DESDOBRAMENTOS PASTORAIS


Após os passos dados nos capítulos anteriores, faz-se necessário confrontar as três teologias aqui discutidas antes que se passe à reflexão das conseqüências e abordagens pastorais possíveis. Para a análise contrastiva, identificam-se as convergências e as divergências entre a TR e a TP no que tange à teologia, à antropologia e à ética, para, em seguida, questionar ambas à luz da TG. Após esse exercício, passa-se a elencar e analisar os desdobramentos pastorais previsíveis. Este capítulo, portanto, divide-se em duas grandes partes: teologias em confronto e os desdobramentos pastorais propriamente ditos.

4.1Teologias em Confronto

4.1.1Introdução


Existe relação estreita entre a TR, nos termos bíblicos do Primeiro Testamento, e a TP, na forma como é vista na pregação das igrejas cristãs neopentecostais na atualidade. Ambas justificam suas doutrinas a partir de uma mentalidade retributiva, resultado da má compreensão da justiça divina, limitada à recompensa ou punição pelos feitos humanos. O caráter gracioso de Deus reduz-se a uma caricatura de severidade. O que se percebe é que a polarização entre a justiça e a graça divina produz teologias ontologicamente fracas e teleologicamente fortes.

4.1.2Teologia da Retribuição e Teologia da Prosperidade: convergências


Para a análise proposta neste trabalho, laborou-se em identificar os pressupostos das linhas teológicas aqui apresentadas (TR, TP e TG) em três categorias que pudessem ser caracterizadas, distinguidas e comparadas. As três categorias compõem o tripé fundamental da teologia bíblica: o discurso acerca de Deus, acerca do homem e acerca das relações entre os seres humanos e destes com Deus. Assim, buscou-se identificar nos capítulos anteriores a configuração teológica (discurso acerca de Deus), antropológica (discurso acercado homem) e ética (discurso acerca das relações entre o ser humano e Deus e entre o ser humano e os demais humanos) de cada linha teológica estudada. Neste tópico, resgatam-se os resultados das discussões anteriores e busca-se compará-los de forma positiva (convergências) e negativa (divergências). Inicialmente, trabalham-se as convergências e divergências teológicas, antropológica e ética, nessa ordem, entre a TR e a TP. Finalmente, ambas são questionadas, a partir dessas três categorias, à luz da TG.

4.1.2.1Convergências teológicas


Tanto para a TR quanto para a TP, Deus age, quase sempre, em resposta às ações ou comportamentos humanos, razão porque se preza tanto fazê-lo conhecido mais pela vertente do poder do que pela do ser. Apesar do empenho de Deus em se fazer conhecido como Senhor, e em estabelecer condições para um encontro relacional com o seu povo - “Apareci a Abraão, Isaac e a Jacó como Deus Todo-Poderoso; mas pelo meu nome, ‘o Senhor’, não lhes fui conhecido” (Ex 6.3), seu poder sempre foi preferido ao seu amor como meio de subjugar as pessoas a um fideísmo sem largueza. Seu agir resume-se à ostentação de sua força, para punir o infiel (cf. Jó 31.23), segundo a TR, ou para derrotar o diabo e o mal, segundo a TP. A soberania divina, freqüentemente, é confundida com a onipotência divina, relativizada todas as vezes que o ser humano cobra resultados, ou em forma de recompensas, ou de punições, prescritas em sua Palavra (cf. Dt 27 e 28), como se lhe cerceasse a liberdade, tirando-lhe a prerrogativa de mudar o curso de suas ações, movido pela sua justiça, amor e graça (cf. Jó 9.13 e Jn 3.10).

Aprisionado a uma teologia formulada na base de retribuições e ou recompensas, Deus perde a sua condição de Ser Livre para ficar nas mãos de credores de direitos adquiridos através do comportamento humano. A reivindicação desses direitos é feita a partir da relação de reciprocidade estabelecida entre o ser humano e Deus. Este fica na obrigação de cumprir todas as promessas contidas na Bíblia feitas ao ser humano e, torna-se, portanto, refém de sua própria Palavra, pois o fiel é quem define qual deve ser a vontade de Deus, e não o contrário.

Alguns programas televisivos e radiofônicos neopentecostais mostram os pregadores convidando para campanhas de libertação em suas igrejas, com um desafio. Parafraseando um desses pregadores: “Venham receber a bênção, porque eu afirmo: Se Deus não responder conforme estou prometendo, ele não é Deus”. Nessas teologias claramente utilitaristas, Deus não pode ser pensado como ser soberano e senhor, mas como um poder à disposição do ser humano, cujas expectativas não pode decepcionar.

4.1.2.2Convergências antropológicas


Em ambas as teologias, o ser humano é medido pelo resultado de suas ações. Seus olhos estão sempre postos na finalidade de seu agir e, quase nunca, no seu percurso. Trata-se de uma espécie de teleologia, seja para bênção, seja para maldição. As realidades são, freqüentemente, avaliadas sob o prisma da previsibilidade.

Conforme foi visto, um homem ou uma mulher prósperos são aqueles que foram contemplados com as bênçãos divinas. Pelo contrário, o sofredor é alguém punido por Deus (no conceito da TR) ou pelo diabo (no conceito da TP). Quaisquer contingências sofridas ao longo da vida, portanto, representam, em primeira instância, algum tipo de conseqüência do mal, para só depois se pensar numa possibilidade de libertação.

Outro ponto convergente é a questão da punição ao pecador, seja pela sua desobediência a Deus, na concepção da TR, seja como vítima do mal ou da ação do diabo, na concepção da TP. Em ambos os casos, o pecado é visto, necessariamente, como condição de castigo e condenação ao pecador, quase nunca como oportunidade de salvação. Principalmente em alguns ramos neopentecostais, falta o cultivo de experiências transformadoras nos moldes evangélicos, de dentro para fora: caráter, motivação, virtudes etc. Não se fala em perdão de pecados, de renúncia e vida de santificação. Vê-se, sim, a busca frenética por uma intervenção mágica de Deus através de exorcismos ou obediência a ritos e campanhas de libertação.

A predominância da idéia do pecado, apenas como condição de punição ao pecador, muito comum no Primeiro Testamento, está presente também no Segundo Testamento e pode ser encontrada na pergunta que os discípulos fizeram a Jesus acerca do cego de nascença: “Mestre, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?” (Jo 9.2). Uma pergunta que demonstra a relevância da punição em detrimento do perdão e a intolerância para com os pecadores. Jesus imediatamente afasta as teorias correntes de punição, sem dar qualquer explicação ao caso. Simplesmente fala do homem cego como alguém que será contemplado com bênçãos divinas.

Quanto à possibilidade de conversão, as duas teologias preconizam-na não como uma volta amorosa para Deus, mas simples desobstrução espiritual para que se receba a bênção. E, caso alguém proclame sua conversão a Deus, sem que demonstre as vantagens e prosperidade material alcançadas, esse não será levado a sério.

Outro ponto comum entre as duas teologias é o desejo de controlar a Deus. Por entenderem que o ser humano é um ser de posse, e que a aquisição de bens reflete favores divinos: seja por meio de recompensas adquiridas em troca da retidão e justiça humanas (TR), seja através de barganhas, ao custo de dízimos, ofertas e ritos (TP), pode-se, assim, controlar a Deus. Também, o medo e a insegurança diante da vida, do futuro e da morte potencializam este desejo latente na natureza humana, o qual se manifesta com diferentes nuanças ao longo da história e em cada mudança no comportamento religioso do ser humano.


4.1.2.3Convergências éticas


Para a visão de mundo hebraica, recompensas e punições eram recebidas em vida. Não havia expectativas para o além túmulo. O sheol, palavra hebraica que originalmente significava o lugar para o qual iam todos após a morte, tanto os justos como os injustos, não passava de um lugar sombrio. Lá não havia nenhuma felicidade para os bons e nenhum tormento para os maus. A ânsia que Jó tinha de morrer e fugir para o sheol, depois de todo sofrimento na terra, por exemplo, demonstra que não havia nenhuma expectativa de retribuição para o bem ou para o mal, depois da morte (cf. Jó 10.18-22).

A TR baseava-se nessa visão de mundo como fundamento para uma ética de resultados, o que contribuiu para fortalecer tratamentos diferenciados nos relacionamentos na comunidade humana e em relação à criação. Caso as pessoas pudessem retribuir com algum favor (cf. 14.12-14) teriam tratamento privilegiado ou não. A motivação para esse tipo tratamento não se encontrava apenas no gesto de fazer o bem a uma pessoa próspera, como se fosse abençoada por Deus, mas, no ganho secundário que se poderia obter dele. Jesus se opõe a este tipo de tratamento diferenciado e propõe um novo padrão de recompensa: “Amai, porém, aos vossos inimigos, fazei o bem e emprestai, sem esperar nenhuma paga; será grande o vosso galardão, e sereis filhos do Altíssimo. Façam isso porque ele também é bom para os ingratos e maus” (Lc 6.35). A recompensa será na ressurreição dos justos (cf. Lc 14.14).

A TP segue a mesma linha ética postulada pela TR, apesar de sua visão de mundo diferente. A TP postula a existência de céu e inferno, porém, na prática, prioriza o comportamento ambicioso para adquirir posses e bens terrenos. Ter em lugar de ser, portanto, exprime com clareza o princípio ético que permeia a TR e a TP. Esta ética de resultados valoriza o que o ser humano pode apresentar como resultado da sua aprovação diante de Deus.

Pode-se inferir também que em ambas opera-se uma ética individualista. Quem não desfruta do sucesso em seus empreendimentos ou sofre de alguma doença ou qualquer outro mal deve procurar explicação de caráter individual, e não, social ou político. Busca-se o sucesso de caráter individualista, que assegure vantagem sobre os outros. Atitudes altruístas não são estimuladas, como solidarizar-se com o mais fraco, chorar com os que choram, carregar as cargas uns dos outros. Aos vitimados pelo mal, só resta bater diretamente às portas do sobrenatural como caminho de solução para seus problemas.


4.1.3Teologia da Retribuição e Teologia da Prosperidade: suas divergências


A partir das três categorias - teológica, antropológica e ética, pode-se também detectar divergências entre a TR e a TP.

4.1.3.1Divergências teológicas


Enquanto a TR apresenta um Deus Todo Poderoso e inacessível, que não confia nos seus santos, nem considera os céus puros aos seus olhos (cf. Jó 15.15) e que, muito menos, permite ser desafiado pelo homem (cf. Jó 15.25), a TP apresenta um Deus que pode ser desafiado e cobrado por qualquer pessoa, sem qualquer exigência normativa quanto à obediência aos seus mandamentos, como numa hiper-exposição da ética de amor das comunidades joaninas: “Amados, se o nosso coração não nos acusa, temos confiança diante de Deus; e aquilo que pedimos dele recebemos, porque guardamos os seus mandamentos e fazemos diante dele o que lhe é agradável” (1 Jo 3.21,22).

Diferentemente da TR, que mantêm distância abissal entre o Criador e a criatura, distância marcada pelo temor, na TP, o ser humano estabelece uma relação quase patronal em relação a Deus. Ao fiel cabe demonstrar sua revolta241 diante de Deus e exigir que as promessas contidas na Bíblia se cumpram. Nas palavras de Edir Macedo: “A Bíblia tem mais de 640 vezes escrita a palavra oferta. Oferta é uma expressão de fé. Se Deus não honrar o que falou há três ou quatro mil anos, eu é que vou ficar mal”242.

Deus é concebido não segundo aqueles traços singulares que transpareciam na experiência de Israel e, mais tarde, na vida de Jesus, mas, como aquele que tem poderes para curar toda a dor e afastar todo o mal, satisfazendo magicamente todas as necessidades e exigências pessoais do fiel. Um Deus sem rosto e sem identidade, que não tem vontade própria, do qual se conhece apenas o poder a serviço do humano e os seus inimigos.

4.1.3.2Divergências antropológicas


Partindo da compreensão veterotestamentária de que os seres humanos íntegros, retos, tementes a Deus e que se desviam do mal são, conseqüentemente, prósperos (cf. Jó 1.1), a TR elegeu a prosperidade como evidência incontestável da bênção de Deus. Não somente a elegeu como também a absolutizou, invertendo a lógica da constatação inicial, apregoando que a pessoa próspera é aquela abençoada por Deus.

Jó rejeita tal absolutização e contra-argumenta expondo a realidade que se observava: efetivamente havia prosperidade dos perversos e havia sofrimento dos justos (cf. Jó 21). Pessoas que não eram justas nem retas e que, muito menos, temiam a Deus, prosperavam e morriam despreocupadas e tranqüilas (cf. v. 23). Numa disputa nada fácil entre Jó e seus amigos, quanto à validade do esquema causa-efeito na distribuição da justiça divina, a doutrina da TR insistia em afirmar que a retidão e a justiça humanas são condições sine qua non para o recebimento das bênçãos divinas.

Diferentemente, a TP não prevê posturas tão elevadas de valores ético-morais como condição para o fiel merecer as bênçãos divinas. Não importa quais valores o ser humano alimenta dentro de si, nem o credo religioso que professa. Que seja irmão católico, irmão evangélico, irmão espírita, não importa. Deus quer abençoar a todos! Não é necessário qualquer compromisso catequético, de iniciação à fé243 para que o crente seja merecedor das graças divinas. Ao ser humano basta querer e acionar sua fé, subjetiva, exigindo de Deus que cumpra o que, de sua parte, prometeu.

Para a TR, o pecado individual ou coletivo é o grande inimigo que leva o ser humano à desobediência a Deus e deve ser combatido. Atitudes pecaminosas obstruem as comunicações e ações do ser humano, impedindo-o de receber o cumprimento das promessas divinas, além de atrair sobre si toda sorte de males: “Porventura, não é grande a tua malícia, e sem termo, as tuas iniqüidades? [...] Por isso, estás cercado de laços, e repentino pavor te conturba ou trevas, em que nada vês; e águas transbordantes te cobrem” (Jó 22. 5,10-11). O mal opera no interior do ser humano e deve ser interrompido através do arrependimento (cf. Jó 8.5,6).

Na TP não é assim. O inimigo a ser combatido não é o pecado, mas o diabo. O ser humano não é a sede do pecado, o que exigiria dele o arrependimento, mas uma vítima da ação maligna. A prática do mal não deriva de sua escolha moral ou espiritual, mas de uma ação maligna que o acomete, atrapalhando sua vida, principalmente na área financeira – locus privilegiado da bênção e da prosperidade.

4.1.3.3Divergências éticas


A ética da TR orientava-se por uma estrita observância dos mandamentos e normas da Lei, resultando num zelo extremo para com Deus, o que incluía o desprezo aos estrangeiros e aos marginalizados pela religião oficial. Ora, pode ser entendida tal atitude como uma ética classista! A Parábola do Bom Samaritano ilustra muito bem esse tipo zelo sem entendimento e demonstra que a omissão do Sacerdote e do Levita em socorrer o viajante assaltado no caminho de Jerusalém para Jericó se devia às peias que o formalismo religioso lhes impunha (cf. Lc 10.25-37). Manietados por uma religião que ignora as pessoas com suas necessidades, o Sacerdote e o Levita se enquadram perfeitamente como os objetos de uma das lamentações proferidas por Jesus em Mt 23: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e tendes negligenciado os preceitos mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia e a fé; devíeis, porém, fazer estas coisas, sem omitir aquelas” (Mt 23.23). Por conta de uma ética excludente, o necessitado não pode ser assistido por eles. Os que gozassem de melhores condições socioeconômicas não teriam recebido o mesmo desprezo, amparados pela religião oficial e considerados como abençoados por Deus. O curioso é que, apesar de ser uma ética classista e, por conseguinte, excludente, orientava-se por uma causalidade rigorosa: a justiça leva à felicidade, a injustiça leva à infelicidade.

Já, na TP não há exigência ética clara para o indivíduo. Priorizam-se as necessidades e as carências individuais, temas que ocupam um lugar proeminente nas pregações e nos cultos das igrejas neopentecostais. A religiosidade da TP não exige conversão como atitude clara de obediência a Deus. O fiel é envolvido num sem número de campanhas e programações, sempre em busca de sucesso e enriquecimento, desafiado a participar de todas essas atividades e a cumprir os seus votos. Só assim se manterá em dia com suas obrigações religiosas e se sentirá fortalecido. O fiel posiciona-se como espectador do embate entre Deus e o diabo, como se assistisse a uma espécie de intervenção mágica de Deus na realidade humana. Sua participação restringe-se aos atos de fé ou atos simbólicos em resposta aos apelos de doações, campanhas etc.


4.1.4Teologia da Retribuição e Teologia da Prosperidade questionadas à luz da Teologia da Gratuidade


Qualquer pretensão de conhecimento teológico só é possível mediante a Graça, o favor de Deus em se deixar conhecer. Somente pela gratuidade divina, o ser humano será capaz de contemplar Deus, livre de qualquer sentimento meritório que possa ser apresentado como direito à salvação. Sem merecimento algum, a Graça alcança homens e mulheres, passa pela sua experiência humana e faz o movimento de retorno a Deus em forma gratidão (cf. Lc 7.41-43).

O encontro com a Graça é existencial e permite às pessoas sentirem-se iguais perante Deus e, conseqüentemente, irmãos uns dos outros. É o único meio pelo qual o ser humano se percebe amado por Deus e chamado para a salvação: “Porque pela graça sois salvos [...] e isto não vem de vós [...] nem de obras, para que ninguém se glorie” (Ef 2. 8,9). Na TG não há privilegiado, nem renegado, porque Deus, não faz acepção de pessoas (cf. Rm 2.11). Há aqueles que recebem gratuitamente o único doador, o Deus Trino.

A TR e a TP, consideradas até aqui, não pensam desta forma, e apresentam: a) um Deus emoldurado num esquema de previsibilidade, subserviente aos interesses humanos; b) uma antropologia centrípeta e megalomaníaca; e, c) uma ética de compensação, cuja finalidade é a satisfação pessoal.

Estas duas teologias resultam da “compreensão que o povo tinha de sua experiência com Deus nas diferentes épocas, e como ele foi percebendo a revelação de Deus ao longo da história”244. Uma compreensão que, no seu início, foi afetada pela doutrina da retribuição, comprometendo seriamente as imagens de Deus e do ser humano porque modeladas pela lógica do casuísmo, em que Deus torna-se refém das ações humanas, sem a menor chance de praticar o seu amor e a sua graça com liberdade. O resultado dessa compreensão pode ser visto na teologia que os amigos de Jó defendiam. Ao mesmo tempo em que exaltavam a Deus, erravam, quando, a fim de salvaguardar a liberdade divina, declaravam que não há nenhum prazer para o Todo-Poderoso em saber que o homem pode ser justo: “Tem o Todo-Poderoso interesse em que sejas justo ou algum lucro em que faças perfeitos os teus caminhos” (Jó 22.3)? Assim era a teologia que os amigos de Jó apresentavam: massacrante, ao tratar da infinitude de Deus em relação à finitude humana, como se dessa maneira se pudesse preservar a magnitude divina às custas da diminuição do ser humano.

A despeito de inúmeras passagens bíblicas nas quais se pode identificar a mentalidade retributiva subjacente (p. ex., 1 Sm 26.23; Sl 62.12; Jr 51.24,56; Os 12.3, entre outras) é possível enxergar, através das Escrituras Sagradas, o rosto do Deus gracioso, sempre interessado em se relacionar com o seu povo e acolhê-lo com misericórdia. Ao contrário do que preconiza a TR, o caráter gracioso de Deus não entra em contradição com seu senso de justiça, sempre presente em suas ações, porque a “sua justiça estende um braço ao trapo jogado no chão enquanto com o outro afasta aquele que causa o infortúnio”245. Desse modo, a justiça divina tem sempre um elemento de graça e misericórdia em favor do pobre e do necessitado. No entanto, não se postula que uma escolha errada que alguém faça contra Deus e contra o próximo não resulte em danos, em sofrimento e em fracasso. O problema surge quando o sofrimento e o fracasso experimentado pelo ser humano seja visto inevitavelmente como uma paga pelo que o indivíduo fez de ruim.

O Primeiro Testamento, principalmente, foi e é muito utilizado para justificar a distribuição da justiça divina na base de méritos pessoais, a ponto de se tornarem quase irreconciliáveis o Deus do Primeiro e do Segundo Testamento. Aliás, a relação entre o Primeiro e Segundo Testamento é o problema teológico por excelência que se coloca a todas as gerações de cristãos, com maior ou menor agudeza e clareza246. Marcião (por volta de 145 d.C.) censura tudo o que diz respeito ao Deus do Primeiro Testamento em função desse ser um deus iracundo, severo, cruel, diferente do Supremo Ser, o Deus de amor do Segundo Testamento. No entanto, o Primeiro Testamento está repleto de textos que mostram a exigência de que o amor seja exercitado para com Deus e para com o próximo. Israel recebe ordem para amar a Deus (cf. Dt 6.5; 19.9; 30.16); amar o próximo (cf. Lv 19.18,34); amar o estrangeiro (cf. Dt 10.19). Oséias recebe ordem para amar uma adúltera (cf. Os 3.1). O povo recebe ordem para amar a sabedoria (cf. Pv 4.6), a verdade e a paz (cf. Zc 8.19) e o bem (cf. Am 5.15). De igual modo quanto ao perdão. Embora o perdão divino não fosse automático, nem sempre garantido (cf. Am 5.15; Sf 2.3), Israel acreditava que Yahweh era um Deus que perdoa, mesmo que em algumas ocasiões diga que não perdoará (cf. Ex 23.21; Dt 29.20; Js 24.19; 2 Rs 24.4; Jó 7.21; Lm 3.42; OS 1.6). Amós orou para que Deus perdoasse Israel (cf. Am 7.2,5), e o Senhor se arrependeu e desistiu do castigo pretendido. Os ninivitas se arrependeram com a pregação de Jonas e Deus se arrependeu de destruí-los (cf. Jn 3.10).

Um fator importante a ser recordado pelo leitor da Bíblia, é que, devido às limitações humanas, inevitáveis no processo de construção da fé bíblica, a TG ficou ofuscada ou mesmo relegada em alguns momentos da história do povo de Deus em sua caminhada, dando lugar a outras visões, outros modos de se compreender o agir e o ser divinos, nem sempre coerentes com o Deus da Gratuidade. Para que se tenha, então, compreensão apurada da graça divina, torna-se necessário fazer e refazer o caminho da experiência da Graça, sempre à luz do que o Segundo Testamento relata sobre a pessoa, vida e mensagem de Jesus Cristo. O Segundo Testamento se oculta no Primeiro, o Segundo, no Primeiro se desvenda; no pensar de Agostinho247. Uma afirmação que só foi possível graças à reinterpretação que Cristo deu às Escrituras judaicas.

A chave de leitura248 para se compreender o caráter gracioso de Deus no Primeiro Testamento é Cristo. Ele é o Filho de Deus, que imita o Pai que é bom e misericordioso (cf. Mt 5.45; Lc 6.45), que não quer que nenhum de seus filhos pereça (cf. Mt 18.24), que supre todas as suas necessidades (cf. Mt 6. 25-34). Nele, a TG, ofuscada pela TR e pela TP, é clarificada. Nele, a Lei, os Profetas e os Salmos (cf. Lc 24.44b) encontram seu cumprimento, e a “imagem do Deus invisível” (cf. Cl 1.15; Hb 1.3) é manifestada ao mundo. Sua missão, anunciada nos profetas, se realiza na evangelização dos pobres, proclamação da libertação aos cativos, restauração da vista aos cegos e libertação dos oprimidos em cumprimento ao que a Escritura diz a seu respeito: “Hoje, se cumpriu a Escritura que acabais de ouvir” (Lc 4.18,19,21).

Em Cristo há não só o cumprimento das profecias que lhe dizem respeito, mas, também, o sentido de toda a pedagogia do castigo de Deus na história de Israel. A antiga idéia de um Deus obrigado a punir o pecador simplesmente porque segue irrestritamente a lógica da recompensa e do castigo, sem nenhuma alternativa para aplicar o perdão, é corrigida e explicada à luz da filiação divina como disciplina para aproveitamento, a fim de tornar os seres humanos participantes da sua santidade:

Deus vos trata como filhos; pois que filho há que o pai não corrige?... Além disso, tínhamos os nossos pais segundo a carne, que nos corrigiam, e os respeitávamos; não havemos de estar em muito maior submissão ao Pai espiritual e, então, viveremos? Pois eles nos corrigiam por pouco tempo, segundo melhor lhes parecia; Deus, porém nos disciplina para aproveitamento, a fim de sermos participantes da sua santidade. Toda disciplina, com efeito, no momento não parece ser motivo de alegria, mas de tristeza; porém, mais tarde, produz fruto pacífico aos que têm sido por ela exercitados, fruto de justiça. Por isso, restabelecei as mãos descaídas e os joelhos trôpegos; e fazei caminhos retos para os pés, para que não se extravie o que é manco; antes seja curado (Hb 12. 7-13.).

O apóstolo Paulo também fala dos acontecimentos da história de Israel como “exemplos deixados para nós”, escritos para “nossa advertência” (cf. I Co 10.6,11) e mostra que os castigos recebidos têm um caráter pedagógico, para que o ser humano seja conduzido à obediência, a ordem seja restaurada e todo o povo de Deus, liberto do sofrimento e da opressão (cf. Is 45.8).

4.1.4.1Recompensas e graça


Muitas afirmações nos ensinamentos de Jesus sugerem que as bênçãos recebidas resultam de uma recompensa. A doutrina da retribuição, bastante desenvolvida nos seus dias, ao que parece, estava muito presente também nos seus ensinamentos. Será recompensado quem sofre perseguição por causa de Cristo (cf. Mt 5.12); ama os inimigos (cf. Mt 5.46); dá esmolas sem hipocrisia (cf. Mt 6.4); jejua com sinceridade (cf. Mt 6.18).

A relação entre Deus e o ser humano assemelha-se, na parábola evangélica, a de um empregador ou senhor para com os seus trabalhadores ou escravos (cf. Mt 20.1-16; 24.45-51; 25.14-30). A recompensa parece ser postulada, algumas vezes, como um equivalente estrito de algo feito (cf. Mt 5.7; 10.32,41ss; 25.29), ou uma compensação pela perda ou autosacrifício (cf. Mt 10.39; Lc 14.8-11). Recompensas são prometidas, algumas vezes, em virtude de uma atribuição (cf. Mt 5.19; 18.1-4; Mc 9.41; Lc 19.17,19); e algumas vezes a punição é graduada de acordo com a seriedade do caso (cf. Mt 10.15; 11.22,24; Lc 12.47ss.). Em tais declarações, os ensinos de Jesus parecem interpretar o conceito hebraico quanto aos méritos, através do qual a recompensa era um tipo de pagamento concebido em termos quantitativos.

Embora essa impressão proceda, há outros textos evangélicos que colocam o ensino a respeito das recompensas numa perspectiva completamente diferente. Ainda que Jesus tenha feito apelos à recompensa, como se viu acima, nunca usou a ética mercantilista. Em seus ensinos, nota-se claramente que a fidelidade nunca deve ser exercitada tendo em vista a recompensa e que qualquer recompensa porventura recebida advêm estritamente da liberalidade da graça divina. Principalmente nas parábolas a respeito de recompensas, fica claro que toda recompensa, em última análise, é uma dádiva decorrente da Graça. Quando um homem tiver exercido a mais elevada fidelidade, ainda assim não se fez merecedor de coisa alguma, pois não fez mais do que a sua obrigação (cf. Lc 17.7-10). Jamais poderá retribuir as bênçãos de Deus, pois são todas concessões de sua Graça.

4.1.4.2Recompensa equável pela graça


Uma mesma recompensa é oferecida a todos os servos fiéis, independentemente do resultado que conseguiram (cf. Mt 25.21,23). A medida da Graça, em forma de recompensa, ultrapassa qualquer expectativa proporcional ao serviço prestado (cf. Mt 19.29; 24.47; 25.21,23; Lc 7.48; 12.37). Deus é livre para absolver o ser humano, independentemente da sua fidelidade e da sua conduta religiosa (cf. Lc 18.9-14). O pecador da Parábola do fariseu e do publicano sabia que a única reivindicação que podia fazer era a bondade de Deus, por isso foi justificado, não pelo seu passado, mas pela sua atitude de depender unicamente do favor de Deus, da sua graça (cf. v. 14).

A Graça é um ato livre de Deus e pode ser ilustrada através da missão messiânica de seu Filho (cf. Mt 11.5), que sai à procura dos desvalidos; que cura o cego, o coxo, o surdo; que ressuscita os mortos e prega as boas novas aos pobres.

A parábola dos trabalhadores na vinha é um outro clássico exemplo de que o padrão divino de recompensa é completamente diferente dos padrões humanos de pagamento. Deus age pela sua pura gratuidade e liberdade na distribuição das recompensas (cf. Mt 20.1-16). Aqueles que trabalharam apenas por uma hora ganharam tanto quanto aqueles que trabalharam o dia todo e, todos, indistintamente, receberam um denário, pagamento usual para um dia inteiro de trabalho. O padrão de reconhecimento humano é: para um dia de trabalho o salário de um dia; o padrão de reconhecimento de Deus é para o trabalho, o salário. O primeiro baseia-se no mérito e na recompensa; o último fundamenta-se na graça.

4.1.5Conclusão


Quanto aos pontos convergentes entre a TR e a TP, conclui-se que ambas apresentam um Deus conhecido apenas pelo seu poder e força, como meio de manter as pessoas presas a um fideísmo religioso, à margem de seu amor gracioso. Nelas, o ser humano é medido pelo resultado de suas ações e condições sócio-econômicas; o pecado é visto como punição, sem lugar para a misericórdia e o amor por parte das pessoas e, por parte de Deus; a conversão traduz-se em uma espécie de desobstrução para que a pessoa receba dádivas espirituais e seja próspera, e não como uma transformação interior operada pelo Espírito de Deus; e, o desejo de controlar a Deus através de comportamento humano explicitado em barganhas é articulado na forma de comportamento religioso. Quanto às convergências éticas, podem ser resumidas ao seu caráter teleológico que privilegia o fim das ações, o ter em lugar de ser, uma ética de resultados!

No campo das divergências, a TR apresenta um Deus austero e inacessível; na TP, é popular, acionável e subserviente. No primeiro caso, o ser humano é retribuído com bens e riquezas, resultado de sua integridade, retidão e temor a Deus; no segundo, não será em troca de valores morais e religiosos como estes que receberá tais bênçãos, bastará acionar sua fé e exigir de Deus cumprir o prometido na Bíblia. No entendimento da primeira teologia citada, o pecado impede o ser humano de ser abençoado e prosperar; na segunda, o diabo é quem obstrui o recebimento das bênçãos espirituais e materiais. Quanto às divergências éticas, a primeira teologia impõe um comportamento religiosamente rigoroso para com Deus através de normas e mandamentos; para a TP não há exigência ética clara sobre o indivíduo.

Finalmente, a despeito de uma compreensão distorcida quanto ao caráter gracioso de Deus, decorrente da TR e da TP, é possível encontrar em toda a Escritura Deus como ser livre, amoroso e justo que não faz acepção de pessoas. E, quando corrige, o faz como um pai que quer o bem de seu filho; quando recompensa, o faz na liberdade da sua graça, excedendo qualquer medida pré-estabelecida de justiça (cf. Mt 5.20).

Ao questionar a TR e a TP à luz de uma religião bíblica, pautada na graça divina, é possível entender como a religião pode estar a serviço de interesses pessoais, manipulando uns e promovendo outros, o que não se sustenta na lógica da Gratuidade. Tais discussões possibilitam agora que se dedique a analisar as implicações e desdobramentos desses sistemas de pensamento teológico no âmbito pastoral. É o objetivo do tópico a seguir.


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