Departamento de teologia marcelo rodrigues de oliveira



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4.2Desdobramentos Pastorais


Como se discutiu neste trabalho, pode-se considerar que há suficientes elementos para indicar a TP na continuidade da TR. Assim, os efeitos da articulação da TP representam um grande desafio às teologias sistemática e bíblica, e, claro, ainda mais, à práxis pastoral. Este último tópico ocupa-se com a tentativa de explicitar os desdobramentos pastorais no enfrentamento de um fazer teológico e vivência eclesial diante de uma lógica mecanicista e mercantilista, como é o caso da TP. Privilegia-se a vivência eclesial cristã de corte evangelical no Brasil para esta análise, principalmente os prejuízos causados à missão integral da Igreja, no que tange à transformação social.

4.2.1Introdução


Como já se verificou, a TP espiritualiza as condições sócio-econômicas e existenciais como a miséria, a injustiça e o sofrimento, atribuindo ao demônio todas as desgraças que atingem o ser humano individual e socialmente. As igrejas envolvidas com tal teologia oferecem-se como prestadores de serviço que detém o monopólio na solução de diversos problemas ligados à vida através da manipulação espiritual. Seus pregadores advogam serem os escolhidos de Deus para a missão de libertar as pessoas dos “encostos” e “mau olhado”, espíritos que materializam doenças, falências de empresas, destruição de famílias etc. Porém, num discurso que mescla, entre outras coisas, doutrinas da Nova Era, descaracteriza a pregação cristã. A partir de uma visão de mundo maniqueísta, despreza séculos de história da interpretação bíblica cristã para dar lugar a arranjos hiperliterais ou alegóricos fantasiosos que alienam a consciência da necessidade de qualquer responsabilidade ou ação social, relegando-a ao último plano.

Intui-se que, certamente o discurso da TP não é o único ou a principal causa, mas expressa claramente o espírito nocivo de competitividade que se percebe entre as igrejas cristãs em geral. Intui-se também que o discurso da prosperidade não é exclusivo das igrejas neopentecostais (apesar de ser o espaço em que é articulado marcadamente), mas se faz presente em maior ou menor grau no evangelicalismo brasileiro contemporâneo e, também, em alguns movimentos do catolicismo. Em especial, o olhar pastoral deste capítulo se fixa na influência desse discurso nas igrejas de corte protestante evangelical, porque, a ênfase no crescimento numérico das igrejas locais como comprovação da bênção divina, que se dá muito mais à base de proselitismo, desrespeita o que há de mais precioso entre os irmãos em Cristo: a unidade nas diferenças. Além disso, percebe-se uma geração de crentes adepta da TP e, por conseguinte, desprovida dos valores cristãos, éticos e morais e que se caracteriza pela superficialidade da fé.

Diante dessas inquietações, busca-se demonstrar o impacto da TP desdobrados: 1) na pregação; 2) na interpretação da Bíblia; 3) na responsabilidade e ação social do cristão e da Igreja; 4) no entrechoque entre igrejas; e, 5) no conteúdo de vida cristã.

4.2.2A pregação cristã


A partir da idéia da grande comissão de Jesus aos discípulos: “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura” (Mc 16.15) é que se entende a pregação. Atender a essa demanda é a missão mais sublime que alguém possa almejar: “Quão formosos são os pés dos que anunciam coisas boas” (Is 52.7).

4.2.2.1Pregação cristã: kérygma e critério


O conteúdo dessa pregação não é outro senão o evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo. Trata-se do kérygma (a mensagem pregada), proclamação da salvação cristológica. Salvação que os profetas indagaram e inquiriram quanto à ocasião de seu cumprimento, e os anjos almejaram perscrutar (cf. 1 Pd 1.10-12). O termo grego kérygma aparece oito vezes no Segundo Testamento, duas delas acerca da pregação de Jonas (cf. Mt 12.41 e Lc 11.23). As outras seis ocorrências envolvem a proclamação do evangelho (cf. Rm 16.25; 1 Co 1.21; 2.4; 15.14; 2 Tm 4.17 e Tt 1.3) e são enfatizadas a morte e a ressurreição de Cristo, com todas as implicações teológicas.

As Escrituras Sagradas dão testemunho de si mesmas, tanto como veículo quanto como conteúdo, de que Deus falou muitas vezes aos seres humanos e de muitas maneiras. No Primeiro Testamento, falou aos pais, pelos profetas; no Segundo Testamento, pelo Filho, Jesus (cf. Hb 1.1). Todavia, muitas vozes ressoam pelo mundo, tentando imitar a voz de Deus e apresentar um outro evangelho (cf. Gl 8,9). Repete-se o que as primeiras comunidades, às quais os evangelhos se destinavam, já experimentavam: muitos falsos cristos e falsos profetas surgiriam (cf. Mt 24.24).

Falar em nome de Deus parece fascinar a muitos, que, para se passarem por seus mensageiros, chegam a mentir. O Primeiro Testamento era categórico quanto ao cuidado que se deveria ter com os oráculos divinos. Punidos seriam todos quantos falassem em nome de Deus, sem que Deus os houvesse mandado falar. Deveriam morrer (cf. Dt 18.20).

Combater os falsos profetas que se infiltram no meio do povo de Deus não é tarefa fácil. Paulo empenha-se nesse combate e se sente como que no meio de feras (cf. 1 Co 15.32). Defende seu apostolado, apresentando-se como alguém que pregava da parte do próprio Deus, com sinceridade. Procurava provar que não era como tantos outros que mercadejavam a palavra de Deus (cf. 2 Co 2.17) e afirmava: “Alguns pregam a Cristo por inveja e rivalidade; outros, porém, o fazem com boa intenção” ( Fp 1.15).

O privilégio do kérygma se faz acompanhar da responsabilidade para com a ortodoxia. Ser considerado ministro de Cristo e “despenseiro dos mistérios de Deus” eram duas das principais atribuições de um pregador (cf. 1 Co 4.1). E o critério para se avaliar a performance dos ministros era a fidelidade com o kérygma (cf. v.2). Entende-se, assim, que a pregação da Palavra deve-se pautar pela sintonia com a vontade de Deus em favor da humanidade, “a quem ele quer bem” (cf. Lc 1.14).

4.2.2.2Descaracterização da pregação cristã


Entre os que se ocupam da pastoral cristã, há convergência na percepção de que se observa certa descaracterização quanto ao perfil do pregador e à mensagem pregada no que tange aos moldes cristãos tradicionais, principalmente em algumas igrejas neopentecostais. Tal desvirtuamento, no entanto, não se dá na modernização ou atualização da comunicação das mensagens, principalmente da comunicação midiática, tão necessária na contemporaneidade. Trata-se, sim, de uma forma de dilapidação no conteúdo teológico e doutrinário do kérygma.

Essa descaracterização dá-se através de práticas ministeriais e litúrgicas neopentecostais, no mínimo controvertidas, bem como ensinos polêmicos. As formas como expressam a fé são questionado, tanto teológica quanto pastoralmente, pelas igrejas evangélicas históricas e outras instituições religiosas cristãs preocupadas com a ortodoxia, e também pela imprensa.

A título de exemplo, em seu livro, A Libertação da Teologia, Edir Macedo procura desmoralizar todas as tentativas feitas pela Igreja Cristã, ao longo da sua existência, de compreender logicamente e sistematizar o ensino cristão como encontrado nas Escrituras249.

Algumas vezes, percebe-se que é pela falta de uma racionalidade teológica que organize de forma coerente o que se crê, que muitos fiéis, confusos, apegam-se, sem reflexão, a promessas mirabolantes anunciadas através das pregações neopentecostais.

A descaracterização da pregação cristã que se entende presente no discurso da TP das igrejas neopentecostais será analisado a seguir em três pontos: 1) a negação do kérygma em função do marketing de crescimento; 2) a negação do ensino em função da satisfação das necessidades humanas; e 3) a negação da TG.

4.2.2.3A pregação como marketing de crescimento


O crescimento quantitativo tornou-se obsessão entre muitas igrejas locais que, para alcançá-lo, deixaram de proclamar o evangelho na sua simplicidade para divulgar técnicas terapêuticas, estratégias de marketing e atividades de entretenimentos. O espetáculo religioso ganhou destaque em muitos púlpitos, em proporções quase circenses de cor, luz, brilho e muita mágica. Considerando que o que atrai grandes públicos é ouvir mensagens que não entrem em conflito com os valores da cultura vigente, muitos líderes religiosos relativizam, sem culpa, os princípios cristãos, pois compreenderam que insistir nos valores cristãos é oneroso e não dá ibope. Assim, muitos pregadores adaptaram suas mensagens para se transformarem em produtos vendáveis, reduzindo-as a um evangelho de auto-ajuda: auto-estima, saúde e prosperidade. Não há fiéis, há consumidores. A fé cristã verdadeira é aquela que funciona e pode ser utilizada para alcançar certos fins.

O lamento do apóstolo Paulo com respeito àqueles que buscam produzir um evangelho palatável que não provoque suscetibilidades e agrade a gregos e troianos, o qual, certamente, pela perda de sua radicalidade não é o de Cristo, é adequado diante do quadro que se verifica:

Admiro-me de que vocês estejam abandonando tão rapidamente aquele que os chamou pela graça de Cristo, para seguirem outro evangelho que, na realidade, não é o evangelho. O que ocorre é que algumas pessoas os estão perturbando, querendo perverter o evangelho de Cristo. Mas ainda que nós ou um anjo dos céus pregue um evangelho diferente daquele que lhes pregamos, que seja amaldiçoado! Como já dissemos, agora repito: Se alguém lhes anuncia um evangelho diferente daquele que já receberam, que seja amaldiçoado! Acaso busco eu agora a aprovação dos homens ou a de Deus? Ou estou tentando agradar a homens? Se eu ainda estivesse procurando agradar a homens, não seria servo de Cristo (Gl 1:6-10).

A distorção da mensagem evangélica através de discursos desviantes decorre do abandono da verdadeira fé (cf. 1Tm 4.1). Pregadores que promovem a descentralização de Cristo na vida da igreja, com a finalidade de alcançar o crescimento acelerado de suas igrejas num espírito competitivo com outros líderes dão mostras de conhecer gestão estratégica e as modernas técnicas empresariais, não o kérygma. Crescimento numérico não significa, necessariamente, edificação da Igreja.

É patente que boa parte do crescimento de algumas igrejas e movimentos se faz às custas da migração interna e movimentos de fiéis no interior do próprio cristianismo. A euforia de muitos líderes religiosos se deve, na verdade, ao crescimento numérico de suas igrejas e denominações e não à edificação da Igreja ou do amadurecimento na fé. A bem da verdade, os censos religiosos em todo o mundo apontam que não é o cristianismo que tem apresentado crescimento significativo na última década. Entre as grandes religiões, é o islamismo que tem crescido mais250.

Considerando que a pregação nos moldes evangélicos é a proclamação das boas novas de salvação aos perdidos, em que Cristo é apresentado como Senhor; e que o ingresso no seu reino implica em exigências éticas e de justiça (cf. Mt 7. 22,23), pode-se concluir que a mensagem da TP destoa fortemente da pregação cristã.


4.2.2.4Pregação: meio de instrução ou de ilusão?


Além de funcionar como meio de proclamação do evangelho, a pregação tem outras funções como a de ensinar e educar: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça” (2 Tm 3.16). Cabe aos pregadores, portanto, a tarefa de se aplicarem à leitura pública das Escrituras, à exortação e ao ensino, cuidarem sempre de si mesmos e da doutrina de Cristo (cf. 1 Tm 3. 4-16) porque, fazendo assim, salvarão tanto a si mesmos como aos seus ouvintes (cf. v. 16).

Além do caráter instrutivo da pregação, através dela se fortalece a fé dos crentes e a organiza para responder às demandas cotidianas e responsabilidade social do mundo moderno, o que, em termos bíblicos é chamado de “purificação da consciência”. Fé e boa consciência são duas ferramentas indispensáveis para uma vida cristã equilibrada, que devem se intercambiar na vida dos pregadores, bem como na de seus respectivos ouvintes, como meios de averiguação da verdade (cf. 1 Tm 1.18-20). Não basta apenas ter fé, mas é preciso que os cristãos reflitam naquilo que crêem, à luz da fé e das suas consciências. E se deve fazê-lo em todas as dimensões da vida: histórica, racional, psicológica, social, política, econômica, física. A consciência, organizada pela fé e articulada nas várias dimensões humanas através da reflexão e da práxis, funciona como um barco que, em boas condições de navegabilidade, conduzirá a fé ao êxito. É preciso lembrar que muitos naufragaram na fé por rejeitarem a boa consciência (cf.v.19).

Pregar uma fé exclusivamente subjetiva251, que dispensa o testemunho da consciência, que não leva em consideração a história e as realidades da vida, acaba por promover a espiritualização da miséria, da injustiça e do sofrimento entendidos como vontade de Deus ou castigo do demônio, o que é uma forma cômoda de eximir o ser humano de suas responsabilidades sociais, políticas e, mesmo, humanas. Ao mesmo tempo, desenvolve-se a fidelidade incondicional a certos líderes, que se apresentam como os únicos que têm competência para solucionar os problemas a partir da ordem sobrenatural. Ora, sabe-se que não há como negar a existência de realidades espirituais, de dimensões não exclusivamente materiais, afinal o ser humano e a própria criação são muito mais do que aquilo que se vê e toca. A dimensão mistérica do ser humano, do mal e da criação são indiscutíveis, sem se falar no mistério da abscondidade revelada do Deus Trino. Porém, daí espiritualizar todos os casos é um acinte à consciência sadia.

4.2.2.5A Teologia da Gratuidade e a pregação


A TG não favorece a utilização de pregações barganhistas, pois não negocia a fé em troca de favores ou méritos. Ao instruir seus discípulos, Jesus ordenou: “na medida que seguirdes, pregai que está próximo o reino dos céus. Curai enfermos, ressuscitai mortos, purificai leprosos, expeli demônios; de graça recebestes, de graça daí” (Mt 10. 7,8). Não se pode negociar o dom (presente) recebido gratuitamente de Deus, porque a graça se manifesta salvadora, indistintamente a todos os homens (cf. Tt 2.11). Opera o perdão das dívidas do ser humano e o liberta em Cristo, para que, liberto, possa libertar outros que se encontram endividados, sem nada cobrar em troca (cf. Mt 18. 32,33).

Ao comissionar seus discípulos a pregarem as boas novas ao mundo, Jesus os envia na mesma condição em que foi enviado, desprovido de recursos, dependendo somente da provisão divina: “Não levem bolsa, nem alforje, nem sandália” ( Lc 10.4). A pregação deve ser seguida de um testemunho de vida que confirme o mesmo desprendimento daquele que se doou em favor da humanidade: Jesus. Pregar o evangelho da graça ultrapassa os limites da simples anunciação, exige do pregador a adesão à imagem e à semelhança da mensagem libertadora de Jesus.

A voz do pregador não pode destoar da voz de Deus, pois se torna vox Dei, seu porta-voz. Elifaz e os outros amigos de Jó (cf. Jó 42.7), embora utilizassem conceitos elevadíssimos sobre Deus, não falaram o que era correto a seu respeito. Não levaram em conta a liberdade do amor incondicional de Deus (cf. Dt 7.7,8) e desprezaram a forma como Deus manifestava a sua graça, a fraqueza e a impotência do alquebrado Jó.

A pregação da TG proclama alforria aos escravos do pecado, e promove a libertação do ser humano de pecados individuais e sociais. Não é exclusivamente discursiva, mas comunica e transmite a vontade de Deus através de ações concretas. Não parte de exigências ou normas legais, como queriam os amigos de Jó, mas do amor de Deus para com ser humano perdido. Nela, o discurso dá lugar a gestos libertadores.

Qual, pois, fala mais alto, na Parábola do Bom Samaritano? O discurso do Sacerdote e do Levita, lá no Templo em Jerusalém? Ou a ação do samaritano que socorre o homem assaltado e abandonado à beira do caminho (cf. Lc 10.25-37)? Sem uma palavra sequer, o samaritano prega a mais inquietante de todas as mensagens: Servir a Deus através do próximo por pura gratuidade! Ao socorrer o homem jogado à beira do caminho, o samaritano não somente encarnou o ensino evangélico subversivo e transformador sobre quem é o próximo, como também proclamou a vontade de Deus (cf. Mt 21.28-32).

4.2.3A Teologia da Gratuidade na interpretação da Escritura


No conceito evangelical, com base no axioma reformado do sola scriptura, a Escritura é a única regra de fé e prática dos cristãos. E, como acontece em todas as igrejas protestantes históricas ou evangelicais, os pregadores da TP também utilizam a Escritura Sagrada como única fonte para suas pregações e doutrinamentos. O problema, no entanto, não está na exclusividade das Escrituras como base de suas interpretações, mas na forma como são interpretados.

Parecem considerar as Escrituras como um conjunto, cujo conteúdo veicula experiências religiosas que podem (e devem) serem repetidas literalmente para que produzam os mesmo efeitos aos praticantes hodiernos. É muito comum, na prática litúrgica, a repetição ou re-encenação de episódios e eventos bíblicos (o que se denomina de ato simbólico). No entanto, nesses atos simbólicos há forte alegorização do relato bíblico, e, dessa forma, total desrespeito aos respectivos contextos históricos.

Um exemplo que ilustra bem essa prática é o da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). É comum, em suas campanhas, a re-encenação de passagens bíblicas com o propósito de reproduzir entre os fiéis a mesma conquista contida nelas. Por exemplo, assim como Abraão utilizou trezentos e dezoito homens para tomar de volta Ló e os seus bens, a IURD utiliza o mesmo número de homens consagrados para orar pelas pessoas, para que tenham de volta aquilo que perderam para o diabo. Assim como Josué cercou as muralhas de Jericó e, ao som das trombetas, essas caíram, dão-se voltas em torno das muralhas das dificuldades e problemas (um cenário artificial é montado e as muralhas são simbolizadas pelos problemas escritos em um papel e colocados nele), e derrubá-las em nome de Jesus. A vara que Moisés usou, o cajado de Jacó, os aventais de Paulo e outros elementos da narração bíblica tornam-se símbolos, objetos mágicos cheios de poder e capazes de trazer para a vida dos fiéis o dom desejado. Tal ênfase em símbolos, metáforas e alegorias faz que o fiel se transporte para um mundo imaginário, utilizando tais recursos para concretizar suas buscas.

Como se pode verificar, a ferramenta hermenêutica da TP é a alegoria, mas não se configura na produção dos múltiplos sentidos da exegese dos Pais da Igreja ou da quadriga252, pois perde o foco da fé, da ética e da anagogia. Ignora todos os princípios tradicionalmente reconhecidos de interpretação do texto bíblico e as reflexões dos últimos vinte séculos acerca da história, contexto e relativas à condição de texto escrito da Bíblia. A utilização das passagens bíblicas é basicamente jurídica, na forma de prova escriturística, e tem a finalidade de justificar interpretações particulares. A busca por contato com a realidade espiritual, transforma-a em instrumento puramente ritualístico, sem qualquer compromisso com o kérygma neotestamentário e a Torá de Yahweh. Não importa o que a Bíblia diz, mas o que se quer que ela diga, e que seja útil para alcançar o fim desejado.

Na TG a chave de leitura da Bíblia, por excelência, é o próprio Jesus em seu evangelho; e as regras de interpretação de textos bíblicos servem ao fazer teológico kerygmático, radical e inclusivo. Não joga com interesses exclusivamente particulares, nem se pauta pelo finalismo ou teleologismo bíblico (que já se viu serem próprios da TP). Leva sempre em consideração o contexto histórico e literário dos textos bíblicos a serem interpretados, num estudo cuidadoso e sistemático para se lhe descobrir o sentido e o significado, na tentativa de primeiro escutar a Palavra de Deus antes de adaptá-la às necessidades modernas.

Em tal leitura, os recursos narrativos e testemunhais presentes nos textos que contam, por exemplo, que os lenços e aventais de Paulo curavam os enfermos (cf. At 19.12), não são admitidos como tendo força legal e caráter normativo. Normativos são os valores éticos e morais contidos aqui: a santidade que se exemplifica em Paulo e em seu ministério e a ação que se manifesta em libertação. Em toda Escritura tais valores se esclarecem: o amor ao próximo, a prática da justiça, da misericórdia, a radicalidade da vivência evangélica, que se aplicam em qualquer tempo e em qualquer lugar.

Assim, não basta apenas a aplicação de métodos críticos, históricos ou literários para a interpretação da Bíblia. A TP necessita rever seus pressupostos hermenêuticos quanto à imagem que faz de Deus, do ser humano, da responsabilidade e ação humana. Precisa aplicar a chave hermenêutica do kérygma, da Graça e da libertação.

4.2.4A Teologia da Gratuidade na ação social


Uma teologia que valoriza o espiritual e despreza a responsabilidade e o serviço social como tarefa menos importante entre os seres humanos fere frontalmente os ensinamentos de Cristo e presta um desserviço à humanidade. Como já se viu, o discurso da espiritualização da miséria, da injustiça e do sofrimento exime a pessoa de suas obrigações humanitárias. Mas, não só isso. Um fazer teológico dessa natureza pauta-se por uma visão de mundo dualista e maniqueísta, em que as criaturas se arrogam o lugar de público privilegiado da guerra entre os deuses: na arena se digladiam Deus e o diabo.

A TP espiritualiza apenas algumas coisas que estão no âmbito da criação. Ultrapassa a observação de certo padrão binário, dicotômico, que se reflete em toda a criação, mas entende de forma dualística que a realidade se divide em opostos com valores diferentes: bom e mau, espiritual e carnal, superior e inferior. Essa tendência expande-se a todas as categorias da realidade: brancos e negros, homens e mulheres, bairros ricos e periferia, escola privada e escola pública, setor privado e setor público, governo e sociedade. Essa polarização explica as desigualdades de tratamento, das condições sociais e econômicas, e naturaliza os mecanismos de dominação. Também impede qualquer esforço de diálogo e de libertação, pois a condição superior ou inferior não é fruto de ações humanas responsáveis na história, mas uma questão de natureza, de criação, do âmbito do celestial. Cabe ao bom ser bom, ao mau ser mau. O que é do mundo não pode ser espiritual. Não há possibilidade de libertação, de unidade, de diálogo e de transformação.

Apesar de certa visão geral, a responsabilidade e o serviço social cristão não se reduzem a atividades assistenciais e humanitárias, com pouca ou nenhuma dose de espiritualidade. “Tudo o que fizerdes, seja em palavra, seja em ação, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai” (Cl 3.17). Também não é uma tarefa secundária do cristianismo. Para o apóstolo Tiago, a visita aos órfãos e às viúvas em suas tribulações (trabalho social), por exemplo, qualifica uma religião como sendo pura e sem mácula para com Deus (cf. Tg 1.27). A fé sem expressões concretas, existenciais e sociais, em direção ao outro não é fé cristã. É discurso, é “morta”. Não há como se falar da vida e da ressurreição diante daquele que sofre sem acolhê-lo nas suas necessidades (cf. Tg 2.16).

A Igreja de Jesus Cristo não é “senhora” do mundo, mas lhe é servidora (cf. Rm 1.14). Cabe-lhe demonstrar amor cristão a todos os seres humanos, o que implica que não somente deve se abster de praticar o mal, mas, também, não deve se conformar com a miséria produzida pela exploração, violência, desigualdade, fanatismo religioso ou obsessão ideológica. “O sofrimento humano sensibiliza a ‘filantropia’ de Deus (Tg 3.4) que ouve o clamor da criatura e, vai a seu socorro”253.

Há um outro aspecto importante no trabalho social cristão que é o serviço a Deus nas necessidades do outro (cf. Mt 25.40). A TP e a TR verticalizam o serviço a Deus através de ritos cúlticos e oferendas. Priorizam o encontro com Deus através de soluções mágicas dos problemas, segundo a TP, ou, através de obediência a normas e leis rígidas, segundo a TR. A manifestação de Deus na fraqueza e na pobreza humanas sequer se nomeia entre estas duas teologias, porque, só é possível conhecer esta manifestação quando se tem a grandeza de descer com Cristo na experiência da kénosis: “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus [...], antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se semelhança de homens [...], a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz” (Fp 2.6-8).

A TG trata tanto com o sofrimento humano individualmente como com as mazelas sociais sem espiritualizá-los, pois reconhece a missão do cristão e da Igreja como intra-histórica. Não exime o ser humano de suas responsabilidades humanitárias, mas vê no pobre, no doente e nas demandas sociais oportunidades apropriadas para o cristão demonstrar o amor de Deus, exercer o socorro e a misericórdia (cf. 1 Jo 3.17).

A graça de Deus atua na desgraça. Jesus disse: “Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes. Não vim chamar justos, e sim, pecadores ao arrependimento” (Lc 5.31,32). E, jamais se esgota. Pode ser derramada em profusão nas condições mais marcadas pelo pecado (cf. Rm 5.20). Transforma pecadores em filhos perdoados e reconciliados com o Pai (cf. 2 Co 5.18,19) e capacita os cristãos ao evangelho integral (todo o evangelho para todos os homens e o homem todo), a estender o braço de misericórdia ao necessitado e dar continuidade à obra de salvação iniciada por Jesus. Ainda que muitas vezes sejam tomados por sentimentos de impotência diante da violência, da pobreza, da corrupção e das injustiças sociais, a Graça faz despontar no coração do cristão a esperança de seguir adiante, porque em Cristo, o trabalho não é vão: “Portanto, meus amados irmãos, sede firmes, inabaláveis e sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que, no Senhor, o vosso trabalho não é vão” (1 Co 15.58).

4.2.5O enfrentamento entre as igrejas locais


Já foi dito que muitas igrejas e organizações cristãs crescem às custas da migração de fiéis de outras igrejas do universo cristão. Obviamente que não se pode impedir que as pessoas exerçam seu direito à liberdade de mudar de igreja e as razões podem ser as mais diversas. Algumas desses movimentos de mudança de congregação até promovem crescimentos importantes na vida de algumas pessoas, que acabam se encaixando melhor em uma outra comunidade. Pode-se afirmar com segurança que toda igreja cristã passa por esta experiência de perder alguns de seus membros para outras igrejas locais e, até mesmo, comunidades não cristãs. Qualquer tentativa de impedi-los, esbarra no direito à liberdade de escolha, que é inegociável do ser humano.

Entretanto, algumas igrejas neopentecostais, principalmente aquelas que adotam a TP, são altamente proselitistas. Em lugar de pregar o evangelho, leiloam as promessas e bênçãos contidas na Bíblia, oferecendo soluções fáceis para problemas que demandam tempo, disciplina e renúncia na sua solução. Muitos cristãos, ainda no processo de amadurecimento de sua fé, são arrebatados de suas igrejas, atraídos por essas propostas de atalho na esperança de chegarem mais rápido às suas conquistas.

O problema não pára aí. Além de serem vítimas de proselitismo, as igrejas têm despendido tempo e energia para ajudarem seus fiéis a entenderem o que está acontecendo entre os próprios cristãos e a não se escandalizarem; a guardarem sua fé em meio a tantas oscilações doutrinárias. É compreensível quando o ataque à Igreja vem de fora, isto é, daqueles que não confessam a fé em Jesus. Porém, quando o ataque vem dos da própria casa, em tom de disputa, sobram dúvidas e muitos se desviam da fé.

As disputas entre igrejas cristãs enfraquecem a sua presença profética no mundo. A unidade na diversidade, condição ideal para que a missão salvífica de Cristo se cumpra no mundo (cf. Jo 17.20,21), está se tornando um ideal longe de ser alcançado, por causa do espírito competitivo de mercado. “O ‘eu’ foi colocado acima do ‘nós’, o individual sobre o social, a corporação sobre a coletividade”254. Isto traz reflexos danosos ao relacionamento entre as igrejas locais. Reflexos que se desdobram em mau testemunho perante a sociedade. Quando a igreja sofre ou é perseguida injustamente, por causa de uma fé reta e de um “bom procedimento em Cristo” (cf 1 Pd 3.16), não há porquê se envergonhar. No entanto, tornar-se notícia de jornais ou parar nas barras dos tribunais por causa de escândalos morais, políticos, financeiros, ou por motivo de competição entre líderes religiosos é lamentável!

O rebanho de Cristo deve ser pastoreado como o próprio Senhor o deseja (cf 1 Pd 5.2). Os líderes não devem ser dominadores, antes, modelos do rebanho (cf 1 Pd 5.3). A liberdade que gozam na condução da igreja está limitada pelo amor e respeito ao aprisco do vizinho. Quando o espírito de competição se instala no coração de um líder e contagia as suas ovelhas, acontece aquilo que o apóstolo Paulo advertiu: “Se vós, porém, vos mordeis e devorais uns aos outros, vede que não sejais mutuamente destruídos” (Gl 5.15).

4.2.5.1A Teologia da Gratuidade no convívio entre igrejas locais


A visão que a TG elabora a respeito do reino de Deus é universalista e não particularista e excludente. Não há, portanto, motivos para competições entre igrejas, porque grande é a seara, poucos os trabalhadores (cf. Mt 9.37). Em certa parábola, Jesus ensina que o mundo é o campo em que semearam o joio e o trigo juntos (cf. Mt 13.38). E os desafios da igreja em cumprir a sua missão nesse mundo são tantos e crescentes, que não se justifica competir igreja com igreja. “Acaso está Cristo dividido? ” Pergunta Paulo aos irmãos que disputavam preferência entre os apóstolos (1 Co 1.13). Mais adiante diz que, nem Apolo, nem Paulo são alguma coisa, mas Deus, que dá o crescimento (cf. 1 Co 3.7). A TG é respeitosa para com as diferenças entre as igrejas, porque compreende os limites da liberdade cristã e não busca interesses particulares:

Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra cousa qualquer, fazei tudo para glória de Deus. Não vos torneis causa de tropeço nem para os judeus, nem para os gentios, nem tampouco para a igreja de Deus, assim como também eu procuro, em tudo, ser agradável a todos, não buscando o meu próprio interesse, mas o de muitos, para que sejam salvos (1 Co 10 31-33).


4.2.5.2O perfil do neo-cristão


É comum ouvir cristãos mais antigos lamentarem a superficialidade da fé de alguns cristãos modernos e que valores outrora defendidos como absolutos são, agora, relativizados. A condição humana pós-moderna em suas dimensões históricas, sociais, culturais e econômicas contribuiu significativamente para essas mudanças, provocando dificuldades e rompimentos com a fé tradicional255. No bojo dessa situação, a TP ganhou força ao concorrer com o discurso cristão tradicional com propostas díspares de alternativas aos valores religiosos e morais. Com isso, os sistemas tradicionais da religião perdem o monopólio da fé256 e tem lugar uma miríade de experiências religiosas subjetivas e particulares, em que as convicções religiosas passam a ser meros pontos de vista.

A subjetividade, como experiência pessoal de fé, posiciona o ser humano como “sujeito de significações, de valores, de compreensão de mundo, de interpretações de realidade”257. A verdade, valor absoluto da religião, dá lugar a várias verdades que se equivalem em princípio. A valorização da autonomia nas experiências humanas faz da subjetividade o grande desafio para o kérygma da Igreja Cristã, que se crê portadora da mensagem universal, inegociável, de validade absoluta.

A TP manifesta-se filha da Pós-modernidade e expressa bem a condição humana dessa época, pois é um grande caldeirão de crendices em que se jogam diferentes ingredientes que não são ressignificados, mas simplesmente justapostos. Resulta na distorção do caráter de Deus, na divinização do ser humano e esvaziamento do significado da relacionalidade e da ética na existência humana. O hibridismo religioso é, portanto, um diluente de identidades, que apregoa arbitrariedade em assuntos de fé e esvazia o conteúdo de vida cristã.

Falar de conteúdo de vida cristã no contexto da TP é tentar encontrar diamante em terreno argiloso. Na verdade, essa geração de crentes (doravante cognominada neocristãos), adeptos da TP, caracteriza-se efetivamente pela falta de conteúdo cristão. Assim, como perfil desse neocristão vê-se que:



  1. A religiosidade não atende a nenhuma exigência de conversão, não há nenhuma intervenção da graça divina que provoque nele um processo de adesão incondicional a Deus, nem busca de conformidade ou fé obediencial à vontade divina;

  2. Não há objetividade religiosa, e os preceitos objetivos das tradições religiosas são considerados por demais pesados e obsoletos, sem sentido, deseja-se, nesse novo quadro, uma religiosidade de caráter mais light, em que as necessidades e carências individuais passam a ter primazia;

  3. Devido à subjetivação da fé, que favorece a privatização do religioso, interesses econômicos da sociedade de consumo se incorporam, e o estilo de vida do neocristão está em estreita relação com o consumismo;

  4. A busca da felicidade e da saciedade como sinais inquestionáveis da vontade de Deus, faz, do neocristão, uma pessoa individualista, desinteressada por qualquer tipo de compromisso social e político;

  5. O tipo de experiência com Deus proposto pela TP não ajuda no combate à exclusão social que atinge dois terços da população mundial, e a visão de mundo que o neocristão recebe não o torna co-responsável na missão de transformar o mundo e não o ensina a colocar as mãos no arado, mas no resultado da colheita;

  6. O neocristão desconhece a interpelação de Deus através da pessoa humana, a imagem de Deus por excelência, e, especialmente, o pobre, sacramento de interpelação, bem como as situações alheias em geral, são interpretados como desventuras ou sinais da atuação do mau, quase nunca como interpelação ao serviço social cristão.

4.2.5.3A Teologia da Gratuidade e o conteúdo de vida cristã


Ora, um conteúdo de vida legitimamente cristã se manifestará, necessariamente, em atitudes concretas de transformação social. Conhecer a Deus não envolve apenas dimensões espirituais e intelectuais. Conhecer é existencial: “Crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2 Pe 3.18).

A graça divina promove crescimento espiritual e oferece conteúdo à vida cristã. Atua eficazmente na vida do ser humano, produzindo transformações profundas em seu ser, capacitando-o a viver de acordo com os desígnios do evangelho; e cria novas atitudes e novos hábitos, resultado da união mística com Cristo. Por outro lado, anula o direito humano de reivindicar qualquer mérito por sua salvação: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não vem de obras, para que ninguém se glorie” (Ef 2.8,9). A nova vida em Cristo é construída a partir do que Deus realiza no interior do ser humano, e não, a partir do que a pessoa pode fazer para alcançar a salvação. Desprovido de méritos pessoais, sem, contudo, estar alheio ao que Deus realiza em sua vida, o ser humano é cúmplice no agir de Deus em sua vida. É no e através do cristão que se processa a santificação que o modela segundo a imagem de Cristo (cf. Rm 8.29; 2 Co 3.18); 2) e o compartilhamento da natureza divina (cf. 2 Pd 1.4) que, por conseguinte, leva à plenitude de Deus (cf. Ef 3.19) são resultados que jamais poderiam ser alcançados sem a atuação da graça divina. Diferentemente da TP, que constrói uma salvação teleológica, a TG oferece uma salvação ontológica, em que o ser humano é mais importante do que os resultados que se possa obter de seus ritos.

Pode-se falar de conteúdo de vida cristã quando o resultado dessa vida é legitimado por uma fé despretensiosa em Deus; quando as dúvidas levantadas quanto à pura gratuidade da fé (cf. Jó 1.9) são desbaratadas na hora da provação (cf. v.10) e quando a fé não decorre de ganhos secundários à adesão a uma religião, nem é algo ultramundano: “Não peço que os tires do mundo, e sim que os guardes do mal” (Jo 17.15). Decorre do compromisso com Deus e com o ser humano.

Forjado na comunhão com Deus e com os homens, o conteúdo de vida cristã se aplica necessariamente à vida real e concreta. Envolve toda realidade humana numa constante transformação até à plenitude em Cristo. Não se trata exclusivamente de um estilo de vida intimista, de pura subjetividade de fé. Afinal, o cristão foi criado em Cristo para realizar boas obras e para dedicar sua vida no acolhimento e abertura aos outros (cf. Ef 2.10).


4.2.6Conclusão


Em relação aos desdobramentos pastorais que a TP desencadeou nas últimas quatro décadas de sua existência e propagação, percebe-se que ainda se farão sentir por muito tempo e que os primeiros anos do século XXI vivenciam o que parece ser o seu auge. Falar do impacto de um fenômeno no fervilhar dos acontecimentos, no ápice de sua manifestação não é tarefa fácil e se incorre sérios riscos de reducionismo, de análises tendenciosas e superficiais e, principalmente, de diagnósticos super ou subvalorizados. Afinal, a tendência conservadora é a de rejeitar as inovações e não ouvir o espírito de cada época. São os riscos aos quais se expõem a práxis teológica, mas dos quais não se pode fugir.

Como já apontado, a busca das raízes bíblico-teológicas na retribuição temporal e a análise fenomenológica da TP é tarefa que não se pode recusar, porém, há que se admitir lacunas e impossibilidades. Fora do ambiente da academia, da exegese e da pesquisa bibliográfica, a análise dos desdobramentos pastorais torna-o ainda mais necessário. Porém, o zelo da ortodoxia evangélica que move o pesquisador algumas vezes pode tornar míope o seu olhar.

Ora, se a TP trouxe algum benefício para Igreja, um deles parece ter sido o de fortalecer as convicções daqueles que já testemunhavam um encontro real com Jesus e fazer com que os aprovados em Cristo se manifestassem dentre os demais (cf. 1 Co 11.18); no geral, os prejuízos são mais evidentes. Tocam não apenas questões eclesiásticas, mas, sobretudo, a missão integral da Igreja no mundo.

Como a TP, em sua lógica mercadológica e em objetivo teleológico, não articula a responsabilidade social do cristão258, seus efeitos afetam o cotidiano das pessoas, principalmente nas questões ligadas à fé e trazem confusão quanto à clareza do propósito de Deus para a humanidade através da Igreja, relativizando os valores cristãos, produzindo uma geração de crentes superficiais.

A teologia, a antropologia e a ética da TP são frutos de uma hermenêutica descontextualizada, numa forma de alegorização desviante da alegorese ou do sensus plenior, com o fim de justificar uma ideologia capitalista neoliberal. O resultado não poderia ser outro, senão o entrechoque entre as igrejas, a relativização dos valores cristãos e a demonização da situação de desventura do pobre e do doente.

Consideram-se aqui alguns elementos como impactos sérios da TP que têm desdobramentos pastorais de conseqüências presentes e futuras ainda pouco mensuráveis, mas, certamente, devastadoras: 1) a espiritualização da miséria, da injustiça e do sofrimento como fruto da vontade de Deus ou castigo do demônio; 2) a consideração dos bens materiais e enriquecimento como sinais de felicidade e obediência da Deus; 3) a mercantilização da fé em lugar do exercício da piedade com contentamento (cf. 1 Tm 6.6); 4) a sincretização da fé cristã com doutrinas da Nova Era, resultando numa distorção do caráter de Deus bem como a utopização da existência humana.




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