Departamento de teologia marcelo rodrigues de oliveira



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CONCLUSÃO

O objetivo desta pesquisa foi o de compreender a TP e de analisar seus desdobramentos pastorais, contrastando-a com a TG. A hipótese que orientou as pesquisas foi a de que a TP re-elabora a TR e não se coaduna com a proposta bíblica de religião explicitada na TG.

A partir dos métodos e termos da Teologia Bíblica, identificou-se e se compreendeu a TR e a TG. Também, verificou-se o desenvolvimento da lógica de causa e efeito inerente à TR e a crítica feita a ela nas Escrituras Sagradas, especialmente, mas não exclusivamente, na literatura sapiencial. O mesmo método permitiu entender que a TG pode ser vista como uma teologia baseada na relação gratuita com a Trindade sendo a mais adequada para a condição humana no seu relacionamento com o Transcendente.

O esforço desta pesquisa justifica-se pela percepção da demanda que nasce do olhar pastoral sobre a prática cristã na atualidade que identificou a necessidade de: 1) compreender do que se trata a TP, tendo em vista sua relevância, confirmada pelos grandes números que envolvem as igrejas cristãs neopentecostais (número de membros, número de freqüentadores, bens e valores que fazem circular); 2) compreender se a TP encontra origens ou ecos em uma Teologia Bíblica; 3) refletir se há consistência teológica ou não na elaboração da TP; e 4) contrastar e avaliar as diretrizes da TP diante da proposta bíblica de religião explicitada na forma da TG. Tais necessidades se colocam devido à constatação de que: 1) há adesão de número significativo de líderes religiosos e igrejas locais (tanto na vertente protestante como na vertente católica) à TP, abrindo brechas no labor teológico e pastoral cristão por onde se infiltram doutrinas antigas e perniciosas travestidas em roupagens capitalistas neoliberais; 2) há perspectivas de sérios prejuízos advindos de tal labor e prática cristãos, distorcidos pela TP, ao impactarem a fé de muitos cristãos, sobretudo no que diz respeito à construção da sua consciência quanto à missão integral da igreja; e, 3) e, percebe-se que os mais prejudicados são os pobres.

A opção do viés da Teologia Bíblica, da análise fenomenológica e da análise contrastiva com a TG demonstrou ser pertinente, uma vez que: 1) tanto o Primeiro como o Segundo Testamentos oferecem uma estruturação teológica que pode ser identificada e que se baseia na relação gratuita com Deus; 2) a análise de e da passagem de Lucas 10:25-37 apontaram elementos que apóiam e testemunham essa hipótese e nos quais se pode identificar a presença constante da graça divina em forma de padrão de exigência nas relações interpessoais; 3) o material de diversos pesquisadores que atuam nesse mesmo viés ao tratar a literatura bíblica do Primeiro Testamento e da literatura extrabíblica permitiu recuperar as origens históricas e literárias da Teologia da Retribuição; 4) através da literatura que desenvolve a TP e da reação às suas manifestações nas igrejas evangélicas neopentecostais no Brasil nas décadas de 1970 a 1990 foi possível delinear-se o percurso dessa doutrina.

Assim, tentou-se reconstruiu as origens históricas e literárias (literatura bíblica do Primeiro Testamento e literatura extrabíblica) da TR, as origens e o percurso histórico da TP no Brasil e a presença da TG em e na Parábola do Bom Samaritano (Lc 10. 25-37). Estudou-se cada uma dessas linhas teológicas sob três categorias que se denominam teológica, antropológica e ética, respectivamente, a fim de demonstrar a importância da compreensão das implicações da TP frente à TG para o fazer teológico e pastoral nas comunidades cristãs evangélicas na pós-modernidade.

A doutrina bíblica da retribuição (não ainda uma TR) foi gerada a partir da sabedoria antiga, legado de civilizações do Antigo Oriente deixado para toda a humanidade. Seu desenvolvimento pôde ser traçado, tomando como base alguns textos da literatura egípcia e mesopotâmica antigas até a forma da sabedoria bíblica. Sua penetração na cultura de Israel e respectiva teologização consolidou, na religião israelita, um conceito mecanicista de causa e efeito na distribuição da justiça divina entre os seres humanos, com base no qual se acreditava que, invariavelmente, os justos seriam recompensados e os ímpios punidos. Sob a bandeira da teologia, esse conceito perdurou até a insustentabilidade da TR, em face às crises decorrentes das suspeitas quanto à sua validade e quanto à automatização da relação causa e efeito como orientação para a vida.

Na literatura sapiencial israelita, mais especificamente em , essa doutrina foi claramente questionada e colocada sob suspeita enquanto meio único para explicar a ocorrência do bem e do mal na experiência humana. Nela, o agir de Yahweh estava quase exclusivamente condicionado ao comportamento humano. Suas ações eram interpretadas como reação às ações humanas, comprometendo, assim, tanto a liberdade divina quanto a humana. Mas foi na experiência de sofrimento do personagem Jó que essa doutrina foi rechaçada e a liberdade de Yahweh respeitada.

Nos diálogos de Jó com os amigos, desenvolveu-se o questionamento da doutrina da retribuição e se estabeleceu que, quando se entra no âmbito das relações humanas, não se pode aplicar cegamente a regra de causa e feito, como peso e medida pré-estabelecidos, a fim de fazer a distribuição da justiça, nem através dela tirar certas conclusões, partindo do que se observa nas experiências dos outros. É preciso considerar cada situação particularmente e perceber o ser humano em seu contexto histórico, social, psicológico e religioso específico.

O questionamento da doutrina da retribuição em abriu grandes rachaduras nas colunas do esquema causa e efeito que sustentavam a teoria mecanicista para explicar as experiências da vida. Porém, não as derrubaram! Tal doutrina persistiu, ainda que sob suspeita, no seio da teologia de Israel, dando sinais de vida na comunidade do judaísmo tardio no Segundo Testamento. Incubada naqueles que ainda insistiam em viver fora do alcance da graça divina, manifestou-se na modernidade em nova fórmula, conhecida como TP.

Nascida em ambiente pentecostal nos Estados Unidos da América nos anos 40 do século XX, com estreita afinidade doutrinária com outros grupos de corrente esotérica e sem vínculos históricos com a teologia cristã tradicional, a TP cresceu vertiginosamente no Brasil, na década de 70 do século passado, com sua mensagem de sucesso financeiro, saúde e felicidade. Sua pragmática imediatista e pouco reflexiva atraiu muitos adeptos com uma proposta tentadora de soluções mágicas para problemas financeiros, de saúde e até afetivos. A negligência aos apelos e demandas sociais e humanitários é harmonizada no conceito de espiritualização ou demonização dos problemas de ordem social como a pobreza, doenças e injustiças. A idéia de um mundo dualista, maniqueísta, promulgada através dos pregadores da TP reforça a dependência dos fiéis a certas igrejas e líderes que se apresentam como controladores ou dominadores do universo espiritual. Quanto às ações divinas em favor do ser humano, quase sempre são apresentadas em forma de resposta a interesses pessoais, através de barganhas e oferendas para se alcançar bênçãos. Assim como na TR, na TP a graça e a liberdade divinas estão condicionadas a um antropocentrismo religioso.

Diferentemente das duas teologias tratadas até então, na TG, o ser humano é respeitado como um ser livre que responde moralmente pelos seus atos. Sua liberdade lhe dá o direito não apenas de aceitar o dom divino, mas também de rejeitá-lo (cf. Jo 1.11,12). Nela, o labor teológico tem como espaço teologal o ser humano na sua integralidade. Sejam fraquezas ou virtudes, as realidades humanas não são negadas ou espiritualizadas a fim de salvaguardar a imagem de Deus em detrimento da falibilidade humana, mas, contempladas como tais, sob o espectro da graça divina. Ao descobrir que viver pela graça nada tem a ver com triunfalismo ou sucesso pessoal, como o apóstolo Paulo, entende-se que está ligado, sim, àquele que é a graça de Deus em pessoa – Jesus:

Então, ele me disse: A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo. Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo. Porque, quando sou fraco, então, é que sou forte (2 Co 12.9,10).

A graça divina implica em liberdade: “Para a liberdade foi que Cristo vos libertou”. (Gl 5.1a). Porém, a liberdade de cada ser humano em relação ao outro está limitada, não por regras ou estatutos, mas pelo amor. Essa liberdade circula em amor e respeito na tríade eu, o outro e Deus e se legitima na lei áurea do Segundo Testamento: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo (cf. Mt 22. 37-39).

Advogar um Deus que não se importa nem se relaciona pessoalmente e em liberdade com o ser humano, ou que só age em resposta a oferendas e barganhas, cheira a paganismo. Nada tem a ver com o Deus do Primeiro Testamento, Yahweh, nem com seu o Filho, Jesus, manifestado na plenitude do tempo (cf. Gl 4.4). Tanto a TR quanto a TP, de fato, estão presentes na fé do povo de Deus, registradas nas Escrituras. Não como normas a serem seguidas ou recebidas sem nenhuma análise crítica do porquê de sua presença na teologia de Israel e, mais tarde, na teologia cristã. Estão lá, e são combatidas na própria Escritura. Erros teológicos e doutrinários que foram surgindo ao longo da formação religiosa de Israel são rechaçados pelos profetas, os quais, denunciam a falsa religião e o falso culto que sutilmente querem substituir as exigências éticas da Aliança: justiça e a misericórdia (cf. Mq 6. 6-8; Os 6.6; Is 58. 6,7). No Segundo Testamento, Jesus resgata o verdadeiro sentido de toda a lei veterotestamentária, quando diz: “Ouvistes eu foi dito aos antigos (...)” (cf. Mt 5).

A forma teológica que mais se aproxima da proclamação de Deus é a da TG. Em confronto com a TR e a TP ficou demonstrada sua coerência bíblica com Deus e com o ser humano como aquele que, movido pela graça divina, é capaz de agir livremente entre liberdades. Pautada na graça divina, a TG é honesta ao colocar os princípios da verdadeira religião como valores que não podem estar a serviço de interesses pessoais, porque, a prática da verdadeira religião se demonstra na assistência aos necessitados (representados pelos órfãos e viúvas em Tiago 1.27) em suas tribulações e guardar-se incontaminado do mundo.

Finalmente, pode-se dizer que a ira não é a última palavra de Yahweh no Primeiro Testamento, como queriam os promulgadores da TR, nem a prosperidade refletia necessariamente o favor de Deus, como querem os pregadores da TP. No Primeiro Testamento, a ira de Yahweh estava condicionada pelo seu amor:

Como te deixaria, ó Efraim? Como te entregaria, ó Israel? (...) Meu coração está comovido dentro de mim, as minhas compaixões, a uma, se acendem. Não executarei o furor da minha ira; não tornarei para destruir a Efraim (Os 11.8,9).

Encerra-se aqui com as palavras de Leon Morris quando aponta que no Primeiro Testamento, ao contrário do que se pensa, há um Deus misericordioso por natureza e que jamais poderá ser controlado pelo agir humano:

O perdão, em última instância, deve-se sempre ao fato de Deus ser o que é, e não a qualquer coisa que o ser humano possa fazer. Por Deus ser Deus, ele tem de agir da maneira mais forte possível ao pecado do ser humano, e assim atingimos o conceito de ira divina. Mas por Deus ser Deus, a ira não pode ser a última palavra. O Senhor é bom; a sua misericórdia dura para sempre (Sl 5)259.

Há muitos caminhos em aberto para se compreender a TP. É necessário maior distanciamento no tempo para que se possam compreender suas origens com mais precisão e dimensionar seus impactos na prática sócio-eclesial dos neopentecostais brasileiros. Para maior discernimento quanto à dimensão da vida cristã dos fiéis, a pesquisa de campo com aplicação de questionários estruturados, entrevistas em profundidade, observação participante, a história de vida e outras técnicas de pesquisa das Ciências Sociais podem ser indicadas como alternativas não somente válidas, mas necessárias. Há trabalhos já desenvolvidos na área da Linguagem (análise do discurso neopentecostal) e da Sociologia da Religião (liturgia e migração intereclesial do neopentecostalismo) que são interessantes, mas carecem de um olhar teológico.

Quanto à TG é necessário não somente reconhecer a proposta bíblica de religião, como apontado aqui, mas também re-avaliar a prática pastoral e cristã atual, tanto protestante como católica, a partir dessa proposta. Tal trabalho envolve também uma análise fenomenológica e teológica não somente do labor teológico e da prática litúrgica e da pregação, como também das ações de responsabilidade social da igreja, do ensino e formação libertadora dos cristãos. A TG precisa figurar como fundamento de uma elaboração sistemática, como chave hermenêutica na interpretação da Palavra, como tertium comparationis da prática pastoral.


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